| FALANDO COM ELA
Em entrevista ao Rabisco, a
apresentadora Soninha não
perde o rebolado e comenta de tudo, desde seu novo
programa na TV até as últimas eleições
por Marcio
Caparica (marcio@rabisco.com.br)
 e
existe alguém com quem se pode discutir todos os assuntos
dos quais o Rabisco trata, é Soninha Francine.
Política, música, esporte, cinema, televisão,
ela encara todos os temas com naturalidade e opiniões de
sobra. E com a mesma desenvoltura que lhe garantiu a posição
de âncoras nos extintos RG, na TV Cultura, e Barraco
MTV.
A apresentadora e jornalista estreou há poucas
semanas um novo programa diário no canal de assinatura ESPN
Brasil, entitulado Bate-bola com o Assinante. Além
disso, continua com sua coluna no site da América On Line,
outra coluna na Folha de S.Paulo,e seu posto como comentarista
na CBN. A polêmica a seu redor de quando foi colocada na capa
da revista Época sob os dizeres “Eu fumo maconha”
já passou, e Soninha agora pode voltar sua atenção
para assuntos mais atuais. Entre um trabalho e outro, ela encontrou
tempo para responder por e-mail a uma entrevista do Rabisco.
Você
começou há poucas semanas um programa novo na ESPN,
o Bate-bola. Como é o processo de criação
de um programa como esse? O que ele tem de diferente dos outros
programas do canal? A idéia partiu de você?
Não, a idéia partiu do [José] Trajano
(diretor de programação), em função
de algumas necessidades do canal e também de algumas pesquisas
sobre sua audiência.
Houve um pedido da ESPN Internacional para que o
nosso Sportscenter (jornal diário, ao vivo, que traz notícias
sobre esporte em geral) seguissem o padrão que é adotado
no mundo inteiro - só no Brasil era diferente... Então
adotamos as vinhetas “mundiais “, a mesma seqüência
de cortes de câmera na abertura, um ritmo mais semelhante
ao deles... e mantivemos algumas características nossas,
sem problemas.
Além disso, constatamos que a oferta de programas
esportivos na hora do almoço é muito maior do que
no fim da tarde, por isso decidimos investir mais no horário
das 18h30 - afinal, não temos a pretensão de “ganhar”
da concorrência, mas de oferecer um bom programa para quem
puder vê-lo (TV fechada é tão pequena no Brasil...).
E tem mais uma coisa: segundo algumas pesquisas, o público
desse horário é mais jovem, portanto “tem mais
a ver” comigo.
Como acontece bastante na ESPN, depois que o Trajano
chegou com a idéia de separar o jornal- “jornal”,
o noticiário “puro”, da parte de comentários,
debates e entrevistas, todo mundo foi convocado a dar idéias
- sobre a duração, a equipe, o roteiro, as pautas
e até o nome (que é sempre o mais difícil!
Acabamos ressuscitando o Bate-bola com o Assinante, que já
tínhamos usado, porque não conseguimos nenhum nome
aceitável que ainda não estivesse registrado). Definida
a equipe, passamos do conceito geral para a parte mais prática,
pensando em cenário, possíveis convidados, quadros,
vinhetas. Fizemos alguns pilotos, discutimos com bastante gente...
e só terminamos de acertar o programa no ar. Acho que é
assim mesmo que tem de ser: “treino é treino, jogo
é jogo”. Só fazendo o jornal de verdade e ao
vivo a gente tem noção do que ele é, o que
dá certo e o que não dá e como pode ser melhor.
A grande diferença desse para os outros programas
é a ênfase na discussão, no debate, com intensa
participação dos assinantes. E falamos tanto do assunto
mais quente - tipo “o juiz errou, não errou, estava
mal intencionado” - quanto de temas mais genéricos,
mais abrangentes (como o salário dos grandes craques, por
exemplo, ou a política do futebol). Não temos o compromisso
de dar as notícias, mas de comentar, repercutir, explicar,
aprofundar, mostrar as causas e conseqüências possíveis.
E ainda podemos dar notícias, sim! As “últimas”
(afinal, estamos ao vivo) ou aquelas que, por algum motivo, não
precisam estar no noticiário tradicional (sobre o plano para
seqüestrar a família do Beckhan, por exemplo, descoberto
por acaso por jornalistas ingleses). E há bastante humor
no programa, ele tem um tom bem coloquial, sem aquele texto “duro”
de jornal (embora a gente tente fazer um texto diferenciado nos
jornais também!).

Aliás, por que fazem você ficar de pé o tempo
todo?
Porque eu não ia conseguir ficar quieta uma hora... Não,
brincadeira (mas não muito). Eu fico de pé para poder
“trocar de cenário” durante o programa - ir até
o computador, buscar e-mails na outra mesa, mostrar o presente para
o assinante, voltar para perto do comentarista ou convidado... Eu
não me incomodo, não, mas as pessoas sempre perguntam
por que eu não fico sentada...
Qual é a sua visão da televisão aberta no Brasil?
Como ela poderia ser melhorada?
Não é ruim como a gente costuma dizer. Claro, tem
muitas porcarias, muitas coisas sofríveis mesmo - programas
de auditório grosseiros, jornais policialescos que informam
mal e reforçam preconceitos, merchandisings e propagandas
que disseminam valores discutíveis... Mas também tem
muitas coisas legais. Bons noticiários, documentários
de qualidade, ficções bem feitas (sitcoms ou minisséries,
principalmente), infantis bacanas (não se esqueça
de incluir a Cultura em TV aberta... Mas as TVs comerciais também
tem programas legais, sim).
Para melhorar, não dá para contar com
a “boa vontade” das emissoras, que preferem copiar umas
às outras e pronto (lembra a febre de reality shows? Argh!).
Nem com uma supervisão do governo ou coisa parecida, porque
não acho que a gente possa atribuir essa responsabilidade
ao Estado. Mas, por outro lado, precisa haver algumas regras, tipo:
exigir que as emissoras exibam uma boa porcentagem de produção
nacional, e de produção regionalizada também
(é o cúmulo a Globo filmar todas as novelas “nordestinas”
com paulistas e cariocas no Rio de Janeiro!). E também de
produção independente, incluindo filmes brasileiros
(a TV é tão rica, e o cinema tem tantos problemas...).
E de programas “de indiscutível valor cultural e educacional”
em horários comerciais. Ou seja, sem proibir nada, mas impondo
algumas coisas... E deixando, assim, menos espaço para os
lixos, hehehe.
Desde sua demissão da TV Cultura, você tem trabalhado
principalmente com futebol. Você planeja voltar a ampliar
sua “área de atuação”, por assim
dizer? Quais seriam esses projetos?
Planejar, eu não planejo, não. Porque preciso tomar
vergonha na cara e trabalhar menos, e já não tenho
coragem de largar nenhuma das coisas que eu faço! Mas eu
adoro falar sobre outras coisas, e não perdi a mania de ficar
colecionando pautas, fontes, temas de discussão, como se
eu fosse usar em algum lugar (e até uso, no site da AOL).
Se eu fizesse um jornal diário em um canal convencional,
por exemplo, eu ia me divertir fazendo mil e uma reportagens especiais...
Acho que esse seria o meu único “sonho de consumo”
em TV - desenvolver um tema meio avesso à TV comercial, em
plena TV comercial!
E, afinal, o Palmeiras vai pra segunda divisão? Você
acha que ele escapa dessa? Será que os cartolas deixam ele
ser rebaixado?
Ainda tá fácil o Palmeiras ir pra segunda divisão...
Se empatar com o Flamengo e perder do Vitória - resultados
“normais” - tchau... [No jogo do dia 13/11 contra
o Flamengo o Palmeiras empatou em 1 a 1, retornando à zona
de rebaixamento.] Eu estava acreditando que o Palmeiras cairia,
sim, se ficasse sozinho entre os rebaixados. Mas não sei
se continuo botando fé nisso, não... Com essa história
de que ano que vem o campeonato é outro, acho muito provável
que os cartolas chutem o pau de novo. Pensei que dessa vez, diante
de tanta pressão, eles ficariam mais constrangidos. Mas eles
lá ficam constrangidos com alguma coisa?
Acho que pode rolar um papo do tipo “2003 é
o ano zero do novo futebol brasileiro; de agora em diante, tudo
vai ser diferente...” - e tome virada de mesa por enquanto.

A quantas anda o processo contra a Época?
Tá em andamento... Nós (eu, o Angeli e o advogado
Roberto Rocco, que também aparecia na capa) entramos com
a ação contra a revista (por considerar a capa incorreta
e irresponsável) e agora está tramitando na Justiça.
O que você achou da campanha eleitoral deste ano, e de alianças
como a do Genoíno com o Maluf?
A campanha foi irritante como sempre. Acho a propaganda eleitoral
inútil, não tem nada a ver com a política de
verdade. Um cara pode ser um ótimo candidato, mas não
é através da propaganda que você vai descobrir
isso. O mesmo vale para os péssimos - que, aliás,
levam vantagem, porque são os que não têm vergonha
de dizer qualquer coisa e apelar para qualquer argumento furado
para se eleger. Eu adoro política, acompanho diariamente,
quero saber de tudo o que se passa - mas me recuso a assistir ao
horário eleitoral. Não tenho como escapar da propaganda
aleatória, e nela já ouvi muitas bobagens que me tiraram
do sério.
Não dá para falar em aliança
do Genoíno com o Maluf - o que houve foi uma declaração
de apoio do Maluf, por ódio declarado ao governo tucano.
Não houve aliança, o que implicaria compromissos (e
que eu desaprovaria completamente, por total incompatibilidade de
princípios, ainda que o Maluf concorde com algumas coisas
do programa do Genoíno). Mas houve aliança com o PL...
Eu estranhei, mas achei compreensível. Havia uma crítica
em comum à política econômica do governo atual,
que não permite o crescimento da economia, a geração
de empregos, etc. Não era um acordo sobre um ponto programático
específico, mas um consenso sobre algo fundamental. Pode
ser que divergências agudas se manifestem agora, mas a tentativa
de aproximação foi válida. Além disso,
aproximou o PT daqueles que consideravam o partido um nicho de revolucionários
sectários, incapazes de dialogar com empresários,
por exemplo...
Você acha que pessoas conhecidas (como você) devem usar
seus nomes para apoiar um candidato?
Sim, se for verdade. Posso discordar profundamente, mas acho normal
um malufista apoiar o Maluf. O que eu não acho certo, mesmo,
é um ator interpretar um papel na campanha de um candidato
no qual ele mesmo não votaria. Afinal, não é
ficção... Você não tem o direito de mentir
ali, porque as pessoas estão vendo como se fosse verdade,
não uma novela! Claro que um ator ou jornalista também
não deve se prestar a dizer mentiras no ar, mesmo que esteja
fazendo campanha para aquele que é realmente o seu candidato.
Ou, ainda que não sejam mentiras, textos ligeiramente desonestos,
como aquele da Regina Duarte...
Muitos dos programas de TV que você comandou envolvia debates
ao vivo (Barraco MTV, RG, etc). Qual foi a maior saia
justa que você já enfrentou? É difícil
controlar os ânimos das pessoas?

Difícil dizer qual foi a maior... Houve várias que
eu não vou lembrar agora. Geralmente, o mais difícil
é fazer o cara parar de falar, abreviar o raciocínio,
ouvir o outro. Houve um capitão da PM, por exemplo, que participou
de um debate sobre armas no RG, que fora do ar era um amor, supertranqüilo
e solícito. Mas no ar ele ficava apoplético, vermelho,
falando alto, com as veias saltadas, e não parava de falar!
No intervalo, a coordenadora de produção conversava
com ele com a maior calma; dizia que era um debate, então
as duas partes precisavam falar; lembrava que se ele fosse muito
agressivo ou falasse demais, ficaria enfadonho e antipático,
e as pessoas nem teriam paciência para ouvi-lo. Ele concordava,
meio encabulado. Começava o segundo bloco, e ele virava uma
metralhadora outra vez...
A Dra. Havanir , na época vereadora recém-eleita,
também foi difícil. Ela falava, falava, falava...
Dava a volta ao mundo e nem respondia o que eu tinha perguntado.
Eu pedia para ela ser mais breve, ela fingia que concordava e destrambelhava
a falar outra vez. Dei uma bronca nela no ar, mas não teve
jeito. O pessoal da UNE, UBES e outras associações
de classe também é difícil de controlar - eles
vêm com a tática de “ocupar espaços”
de qualquer jeito, e um discurso meio pronto que não leva
muito em consideração o que você pergunta, não.
A resposta é quase sempre a mesma (há exceções,
claro).
Um dos Barracos mais delicados foi com o Min.
Paulo Renato, que convidamos para discutir a qualidade do ensino
médio no Brasil. Para começar, ele fez uma porção
de exigências: “não quero ninguém da UNE,
nem de Sindicato de Professores, nem político de outros partidos
“, não sei que mais. A gente não costumava aceitar
exigências de ninguém, mas achou que, para discutir
o ensino direto com o Ministro, valia a pena abrir mão. Mas
a roda tinha, é claro, estudantes e professores - gente “comum
“, que não era ligada a nenhuma organização.
E como era um debate, é lógico que ele foi interpelado,
contrariado, pressionado. Havia um garoto ao lado dele que não
se conformava com os cortes de orçamento nas escolas técnicas,
e ele também era bem falador. O Ministro perdeu completamente
as estribeiras, mandou o carinha calar a boca, foi meio estúpido.
E ficou puto da vida porque pensou que não ia passar por
aquilo (será que ela achava que todo mundo ia ser a favor
dele e da qualidade de ensino público? Ou que só iam
levantar a bola para ele cortar?). No dia seguinte, a assessoria
do Ministério ligou para a direção da MTV para
protestar contra a TV, dizer que o Ministro tinha sido desrespeitado
pelo programa e pedir - ou exigir - que a reprise não fosse
ao ar. Eles chegaram a insinuar que as boas relações
com a TV estavam ameaçadas, e que o governo federal poderia
tirar alguns anúncios do ar (o que afetaria o faturamento
de publicidade, claro). O diretor geral pediu para assistir o programa,
que ele não tinha visto, e achou que o programa não
o tinha desrespeitado coisa nenhuma. Que as alterações
de ânimo e as perguntas mais duras eram riscos inerentes a
qualquer debate, especialmente um com aquele formato. E não
vou dizer que mandou o ministro lamber sabão porque é
desacato a autoridade, mas foi quase isso. :o)
SONINHA RECOMENDA
Livro: Ragtime, do Doctorow; Crônica
de uma Morte Anunciada, Gabriel García Márquez;
Histórias de Cronópios e Famas, Julio Cortázar;
Sagarana, Guimarães Rosa; Cartas da Mãe,
do Henfil; algum do John Fante; algum do Carlos Drummond de Andrade,
do Fernando Sabino, do Luis Fernando Veríssimo, do Rubem
Braga... Lembranças, Opiniões e Reflexões
sobre Futebol, do Tostão; Portões da Prática
Budista, de Chagdud Tulku Rinpoche. Ah, e Cem Dias entre
Céu e Mar, do Amyr Klink. EU ADORO LIVROS!!
Disco: É melhor eu pegar leve, senão
vem outra lista enorme... With the Beatles, pronto.
Filme: Brincando nos Campos do Senhor
(Hector Babenco); Fresh (Boaz Yakin) e Filhos do Paraíso
(Majid Majidi). (Um brasileiro, um americano e um iraniano)
Programa de TV: 24 horas, seriado
da Fox. E o Jornal da Band (a edição das 7
e pouco da noite). E Os Simpsons, Gordo a Go-Go, Casseta
e Planeta, Cidade dos Homens. Ah, e o Fala Brasil.
Lugar: Caraíva (BA), Ilha Grande
(RG), Vale de Santa Clara (Bocaina de Minas), Khadro Ling (templo
budista em Três Coroas, Rio Grande do Sul).
Atividade: Ler, escrever, andar, subir
montanha, jogar basquete e vôlei, ir ao estádio de
futebol, ir ao cinema, filmar, fotografar, dormir, acordar, meditar.

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