| TRIBACANA
Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo
Antunes se reúnem em Tribalistas, um dos discos mais
legais desse ano
por Marcio
Caparica (marcio@rabisco.com.br)
 ssas
parcerias nem são novidade. Marisa Monte já havia
gravado composições de Arnaldo Antunes em Mais;
Cor de Rosa e Carvão, seu disco seguinte, tem como
pontos altos composições de Carlinhos Brown; esse,
por sua vez, teve seu segundo álbum, Omelete Man,
produzido por Marisa Monte. E, só pra ficar tudo em família
e fechar o círculo, Brown produziu o último disco
de Arnaldo Antunes, Paradeiro.
Foi exatamente na ocasião da gravação
deste disco que os três se reuniram para que Marisa gravasse
uma participação numa faixa, e acabaram compondo treze
canções que seriam registradas um ano depois no álbum
Tribalistas,
que foi lançado há duas semanas.
Os três já haviam gravado uma composição
em conjunto, a música “Água Também É
Mar” do disco Memórias, Crônicas e Declarações
de Amor, de Marisa Monte. Uma música levinha, falando
sobre um assunto corriqueiro e, no entanto, inusitado. Um bom aperitivo
do álbum que os três fariam juntos.
Não
fosse de conhecimento geral o fato de que Marisa Monte não
leva nada na brincadeira, diria-se que esse é um disco
descompromissado e despretensioso. Todas suas músicas têm
melodias gostosas, que grudam na mente já na primeira audição,
e cujas letras se aprende na segunda ou terceira. O álbum
abre com a leveza de “Carnavália”, e continua
embalando em “Um a Um”. É notável a maneira
quase adolescente que o disco trata do amor, em canções
descomplicadas e gostosas como “Velha Infância”,
“Passe em Casa”, “É Você” e
a empolgadinha música de trabalho “Já Sei Namorar”.
Para os fãs das músicas mais “sérias”
do repertório dos três há canções
como “O Amor é Feio”, “Carnalismo”
e “Pecado É Lhe Deixar de Molho”.
A combinação dos talentos dos três
não gerou resultados inusitados apenas nas composições.
O disco soa único, com a mesma ênfase sendo dada às
vozes e aos instrumentos. A afinadíssima voz de Marisa Monte
contrasta com a gravíssima voz de Arnaldo Antunes, que muitas
vezes por pouco não afina. Entre os dois, Carlinhos Brown
soa suave, passando longe da figura estrambólica que levou
garrafadas voadoras na cabeça há nem tanto tempo assim.
Brown também é o responsável
pela variação enorme de sons neste disco. Chuva, lixa
de unha, aspirador de pó e estante de partitura (!) são
até que referências conhecidas, entre instrumentos
como zarbre, cajon, gan e d’jembe. Estes instrumentos se ressaltam,
no entanto, devido à presença quase exclusiva dos
violões como instrumentos de harmonia.
Sobram
oportunidades para se prestar atenção nas letras espertas
do disco, e trocadilhos como “pé em Deus e fé
na taba”, verso da canção-título do álbum
que entrará para a galeria de grandes sacadas de Arnaldo,
juntamente com “a gente não quer só comer, a
gente quer comer e fazer amor” e tantas outras. Tribalistas
é um disco gostoso do começo ao fim, e, se tem algum
defeito, é que é curto demais.
NEM TÃO BACANA ASSIM, NO ENTANTO...
Bem mais antipático, porém, e indigno
da figura de Vik Muniz que ilustra a capa deste álbum, é
o selinho que vem sobre ela avisando: “este álbum contém
tecnologia que inibe cópias digitais”. O selo ainda
diz que o disco deveria tocar normalmente na maioria dos CD players.
Deveria. Colocado num toca-CDs de carro, o disco já
não funcionou. Em computadores ele instala automaticamente
(sem pedir permissão para o dono do computador, note-se)
e executa um programa que reproduz as canções do disco
no micro, que, em teoria, não deveria ser capaz de reconhecer
o CD.
Não
deveria. Na prática o Windows Media Player contorna
quaisquer travas que o disco coloca em seu caminho e o toca sem
grandes problemas. E essas travas sequer conseguiram impedir que
meu irmão “ripasse” o disco todo em vinte minutos,
adicionando arquivos MP3 de todas suas faixas aos outros milhares
de arquivos que entulham seu computador. Na prática, esta
tão temida “tecnologia anti-pirataria” só
conseguiu impedir que alguém que gastou seu dinheiro comprando
uma cópia autêntica a ouvisse no carro. Talvez,
se meu irmão queimar um disco a partir dos MP3 que extraiu
do meu original, eu possa um dia ouvir Tribalistas no trânsito.

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