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14 a 27 de novembro de 2002


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TRIBACANA
Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes se reúnem em Tribalistas, um dos discos mais legais desse ano

por Marcio Caparica (marcio@rabisco.com.br)

ssas parcerias nem são novidade. Marisa Monte já havia gravado composições de Arnaldo Antunes em Mais; Cor de Rosa e Carvão, seu disco seguinte, tem como pontos altos composições de Carlinhos Brown; esse, por sua vez, teve seu segundo álbum, Omelete Man, produzido por Marisa Monte. E, só pra ficar tudo em família e fechar o círculo, Brown produziu o último disco de Arnaldo Antunes, Paradeiro.

Foi exatamente na ocasião da gravação deste disco que os três se reuniram para que Marisa gravasse uma participação numa faixa, e acabaram compondo treze canções que seriam registradas um ano depois no álbum Tribalistas, que foi lançado há duas semanas.

Os três já haviam gravado uma composição em conjunto, a música “Água Também É Mar” do disco Memórias, Crônicas e Declarações de Amor, de Marisa Monte. Uma música levinha, falando sobre um assunto corriqueiro e, no entanto, inusitado. Um bom aperitivo do álbum que os três fariam juntos.

Não fosse de conhecimento geral o fato de que Marisa Monte não leva nada na brincadeira, diria-se que esse é um disco descompromissado e despretensioso. Todas suas músicas têm melodias gostosas, que grudam na mente já na primeira audição, e cujas letras se aprende na segunda ou terceira. O álbum abre com a leveza de “Carnavália”, e continua embalando em “Um a Um”. É notável a maneira quase adolescente que o disco trata do amor, em canções descomplicadas e gostosas como “Velha Infância”, “Passe em Casa”, “É Você” e a empolgadinha música de trabalho “Já Sei Namorar”. Para os fãs das músicas mais “sérias” do repertório dos três há canções como “O Amor é Feio”, “Carnalismo” e “Pecado É Lhe Deixar de Molho”.

A combinação dos talentos dos três não gerou resultados inusitados apenas nas composições. O disco soa único, com a mesma ênfase sendo dada às vozes e aos instrumentos. A afinadíssima voz de Marisa Monte contrasta com a gravíssima voz de Arnaldo Antunes, que muitas vezes por pouco não afina. Entre os dois, Carlinhos Brown soa suave, passando longe da figura estrambólica que levou garrafadas voadoras na cabeça há nem tanto tempo assim.

Brown também é o responsável pela variação enorme de sons neste disco. Chuva, lixa de unha, aspirador de pó e estante de partitura (!) são até que referências conhecidas, entre instrumentos como zarbre, cajon, gan e d’jembe. Estes instrumentos se ressaltam, no entanto, devido à presença quase exclusiva dos violões como instrumentos de harmonia.

Sobram oportunidades para se prestar atenção nas letras espertas do disco, e trocadilhos como “pé em Deus e fé na taba”, verso da canção-título do álbum que entrará para a galeria de grandes sacadas de Arnaldo, juntamente com “a gente não quer só comer, a gente quer comer e fazer amor” e tantas outras. Tribalistas é um disco gostoso do começo ao fim, e, se tem algum defeito, é que é curto demais.

NEM TÃO BACANA ASSIM, NO ENTANTO...

Bem mais antipático, porém, e indigno da figura de Vik Muniz que ilustra a capa deste álbum, é o selinho que vem sobre ela avisando: “este álbum contém tecnologia que inibe cópias digitais”. O selo ainda diz que o disco deveria tocar normalmente na maioria dos CD players. Deveria. Colocado num toca-CDs de carro, o disco já não funcionou. Em computadores ele instala automaticamente (sem pedir permissão para o dono do computador, note-se) e executa um programa que reproduz as canções do disco no micro, que, em teoria, não deveria ser capaz de reconhecer o CD.

Não deveria. Na prática o Windows Media Player contorna quaisquer travas que o disco coloca em seu caminho e o toca sem grandes problemas. E essas travas sequer conseguiram impedir que meu irmão “ripasse” o disco todo em vinte minutos, adicionando arquivos MP3 de todas suas faixas aos outros milhares de arquivos que entulham seu computador. Na prática, esta tão temida “tecnologia anti-pirataria” só conseguiu impedir que alguém que gastou seu dinheiro comprando uma cópia autêntica a ouvisse no carro. Talvez, se meu irmão queimar um disco a partir dos MP3 que extraiu do meu original, eu possa um dia ouvir Tribalistas no trânsito.