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5 a 18 de dezembro de 2002


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O CIRCO ESTÁ DE VOLTA À CIDADE
Chega às lojas esta mês a versão oficial de The Rolling Thunder Revue, o melhor de Dylan ao vivo dos anos 70, em CD e DVD

por Marcelo Xavier (highway61@bol.com.br)

oqueiros de todo o mundo, uni-vos. Bob Dylan está de volta com o novo CD duplo da série Bootleg Series: Bob Dylan Live 1975 - The Rolling Thunder Revue, que terá trechos da lendária turnê dos anos 1970. O álbum, que existia em catálogo no mercado pirata há anos, é lançado agora oficialmente em grande estilo, com uma caixa especial. O CD duplo traz seleções de shows realizados nas cidades de Worcester, Cambridge, Boston, e Montreal. As primeiras cópias incluem um DVD com as interpretações de “Tangled Up In Blue” e “Isis”, extraídas do filme Renaldo And Clara, que foi rodado no correr das apresentações. O álbum é a primeira compilação em estéreo destas gravações, dispostas na seqüência do set list original. São vinte e duas músicas ao todo, incluindo clássicos como “Sara”, “Knockin On Heaven's Door” e “Blowin’ in the Wind”, num total de 100 minutos de música. A apresentação da caixa inclui um libreto de 56 páginas com imagens em preto e branco, tiradas pelo fotógrafo da turnê, Ken Regan. O encarte inclui também texto assinado por Larry Sloman, autor da biografia On The Road With Bob Dylan.

A primeira fase da turnê durou seis semanas, de outubro a dezembro de 1975. Parte das apresentações do ano seguinte saíram no álbum Hard Rain. Durante os shows, o público presenciou concertos de quatro horas de duração, onde Dylan e sua banda ofereciam um vasto repertório composto por temas como ”Mr. Tambourine Man”, “Love Minus Zero/No Limit”, “It's All Over Now, Baby Blue” e “It Takes A Lot To Laugh, It Takes A Train To Cry”. Também apresentava seis canções novas de Desire, que só foi lançado no fim da turnê, como ”Romance in Durango”, “Isis”, “Oh, Sister”, “Hurricane”, “One More Cup Of Coffee” e “Sara”.

O INÍCIO — Em 1975, após o lançamento do álbum Blood On The Tracks, Bob Dylan voltava ao ponto de partida da sua carreira musical, Nova Iorque. Vivendo uma nova fase criativa, lá ele começou a procurar novos músicos para um outro projeto, uma pequena turnê para divulgar seu novo trabalho, ou quem sabe um outro disco. Para tanto, Dylan já tinha alguma coisa composta, mas faltava ainda algo. Nas ruas de Greenwich Village, ele travou contato com duas pessoas que dariam forma aos seus pensamentos: Jaques Levy e Scarlet Rivera. Ele era músico e produtor teatral e ela, uma artista mambembe, que tocava violino cigano numa banda de salsa, e que foi descoberta por acaso, numa das esquinas do Village.

Levy lhe foi apresentado por alguns amigos comuns, quando o compositor se pôs a recrutar artistas para a sua turnê, nos clubes noturnos do Greenwich. Scarlet foi literalmente achada numa esquina, e foi convidada a integrar o grupo sem rodeios. À medida em que formava um novo conjunto, Dylan os encaminhava para os estúdios nova iorquinos da Colúmbia. Com Scarlet, ele juntou gente como Jack Eliott, T-Bone Burnett, o ex-Byrds, Roger McGinn, Mick Ronson e sua antiga musa de outras épocas, Joan Baez. A última vez em que Dylan e Joan haviam se despedido rendeu uma canção dele, “Visions Of Johanna”, e uma resposta surda de Baez ao ex-namorado, “Diamonds and Lust” que, por sinal, era o seu mais recente sucesso.

Em estúdio, Bob Dylan mostrou novas músicas para Jaques Levy, entre elas, “Sara”e “Isis”, que pertenceriam ao novo show que ele estava criando e fariam parte do próximo álbum, Desire. Erguido aos poucos, o arcabouço musical de Desire era enfeixado pelo toque característico do violino de Scarlet Rivera, em todas as músicas. O curioso é que alguns números seriam “testados” em palco, mesmo que fossem ainda inéditos em disco. Além de “Isis”, Dylan mostrou “Romance In Durango” para Levy, que o ajudava a concluir as músicas. As duas integraram a turnê, que já tinha um nome: Rolling Thunder Revue, inspirado no nome de um chefe indígena.

EXPERIMENTAÇÃO — Metade show beneficente, metade espetáculo cênico, a “Rolling Thunder” parecia um anacronismo em plena era das discotecas. E, de fato, não deixava de ser. Ao invés de metais e címbalos, violões rústicos, violinos e bandolins. A idéia era fazer um show de rock imbuído de uma atmosfera circense. Uma cortina amarela ficava por detrás do palco, onde os músicos tocavam fantasiados de ciganos, sobre um imenso tapete vermelho. Na cortina, podia-se ler as inscrições da turnê temática, em letras desenhadas, como um circo antigo. Além disso, as apresentações teriam um ingrediente a mais. Dylan tinha a idéia de misturar imagens das apresentações com cenas de filme, e costurar tudo numa história só, chamado “Renaldo and Clara”.

Aos poucos, o que seria uma pequena e despretensiosa turnê foi ganhando inúmeros adeptos, e os ingressos se esgotavam a cada show. A Rolling Thunder Revue se tornou um projeto gigantesco. Dylan reunia os melhores músicos de sua geração para viajar pelo Canadá e pelos Estados Unidos de costa a costa, e o evento se transformava num acontecimento épico sem precedentes. Tudo ia sendo filmado num filme dirigido e roteirizado pelo próprio Dylan. Na verdade, porém, boa parte do avant-garde de Renaldo and Clara era pura experimentação. Nesse sentido, tão cômico quanto sintomático foi quando Ronee Blakely, então uma das atrizes, perguntou quem estava dirigindo “aquela porcaria”. Dylan espetou o dedo para Sam Shepard, que espetou o dedo para Dylan.

Se o filme era cheio de “cacos”, a parte musical deveria ser impecável, com os músicos em lugares e aparições bem definidas. A formação básica da “Rolling Thunder” era: Mick Ronson (guitarra), Bobby Neuwirth (guitarra e voz), Scarlet Rivera (violino), Steven Stoles (guitarra e voz), David Mansfield (vários instrumentos), Rob Stoner (baixo), Howie Wyeth (piano e bateria), Luther Rix (percussão) e Ronee Blakeley (voz).

 

 Dylan visitando o túmulo de Jack Kerouac

A turnê virou um épico bem demente de 4 horas, com direito a uma cena de Allan Ginsberg (que queria colocar poesia na história o tempo todo) lendo seu Kaddish para uma sala cheia de idosos de uma clínica na Flórida, assim como uma visita ao túmulo de Jack Kerouac. O filme é uma experiência arriscada que não foi compreendida por nenhum crítico deste mundo (o filme foi concluído apenas em 1978 e foi mal recebido pela crítica, que insistia em chamá-lo de “Renaldo And Bozo” ou “O Magical Mystery Tour de Bob Dylan”). Para alguns (e não são poucos), o filme tratava de um tema muito simples: o relacionamento complicado de Bob Dylan com as mulheres, principalmente duas delas: Sara Lowands, sua esposa, e Joan Baez. As duas até que se davam bem, mas havia algo de melífluo no sentimentalismo exarcebado de Bob Dylan, que pendia para ambas — e, por tabela, para outras meninas...

No começo das apresentações da Rolling Thunder, Bob Dylan havia se reconciliado com Sara, após o inferno astral entre os dois, e que gerou boa parte do sentimento amoroso e do desencanto das letras de “Blood On The Tracks”. Na verdade, nunca antes ele havia sido tão explícito em letras sobre amor, ou melhor, ele nunca havia sido tão direto, mas as brigas e desentendimentos continuaram turnê adentro, e o casamento pifou de vez ainda em 1976.
Mesmo que antes ele falasse de forma mais velada, Dylan sempre abriu seus sentimentos como ninguém ao tratar das relações homem-mulher com uma maturidade invejável. Com Joan Baez a coisa era igual e diferente. Eles apenas haviam se separado de forma ruidosa, em 1965. Apesar das brigas, ela nunca deixou de gostar de Dylan, e a recíproca era bem verdadeira.

A turnê e a temática do filme permitiram toda a sorte de encontros e desencontros. Renaldo era ele, e ela era Clara. No papel, havia uma confusão entre realidade e ficção. Numa cena, Baez o abraça, perguntando: “o que teria acontecido se tivéssemos ficado juntos?”. Embaraçado, ele apenas respondeu: “eu sempre amei minha esposa”. O detalhe e o improviso eram essenciais ao roteiro, que na realidade, nunca existiu. Sam Shepard, que havia sido escalado para escrever uma história, descobriu que não havia muito a fazer. O centro do drama era o limite entre os personagens principais e seus respectivos atores mais parecia uma transposição da realidade camuflada numa espécie de “ficção falseada”.

Sara e Joan se alternavam nas suas personalidades, e Dylan (que se não era ele mesmo no filme, era em seus atos e frases de efeito) era sempre o homem entre elas, o trovador dos amores irreconciliáveis. E esse jogo de mostra-e-esconde era o seu leitmotiv nas apresentações da “Rolling Thunder Revue”. A verdade é que existia uma certa química entre ele e Baez, que não havia morrido depois de tanto tempo e surpreendia os espectadores quando os dois apareciam no começo do segundo ato das apresentações, cantando “Never Let Me Go” por trás da cortina. Os presentes “achavam” que estavam ouvindo algo de outras eras, como Dylan e Joan cantando juntos, mas não acreditava, até que o pano subia e era possível vê-los juntos e íntimos outra vez. Sara fingia que não se importava...

Durante a turnê, Bob Dylan ensaiava com cuidado suas aparições, que não eram constantes, — boa parte do show era preenchido pela trupe da Rolling Thunder, mas eram meticulosamente calculadas, para que fossem marcantes. Nelas, ele se transformava, e a sua voz rugia em apresentações enérgicas, como a citada “Isis”, que sempre fechava a primeira parte do show. A versão do CD é mais rápida e acachapante do que a que aparece em “Desire”. A textura é caótica, com cinco guitarras. No filme, a canção está ligada na primeira aparição de Sara. Nas “aparições”, Renaldo/Dylan surgia em cena e no palco com um chapelão panamá e o rosto pintado de branco, como se fosse um misto de arlequim da “Commedia Del Arte” e ator de kabuki. Para tanto, o expediente tinha um certo sentido e a sua postura alegórica, uma certa retórica exemplar. Para Dylan, a máscara revelava “muito mais do que escondia”. Também mudava o tom de voz, ora mais grave, ora mais agudo, mais ríspido, mais suave, e cada vez mais fanhosa. T-Bone Burnett disse que Dylan parecia envelhecer ou rejuvenescer a cada canção. Às vezes, parecia um jovem pálido como um Werther; em outros momentos, um Voltaire, dramático e solene. Parecia um imitador de si próprio.

Um dos pontos altos da turnê foi a campanha movida por Dylan para libertar o pugilista Rubin “Hurricane” Carter. Acusado de triplo assassinato, o boxeador estava atrás das grades. Quando foi preso, em 1966, estava bem no ranking, mas não era mais um demolidor. Em junho daquele ano o compositor visitou o pugilista na prisão, depois de ter lido seu livro, The Sixteenth Round (O Décimo Sexto Round). De posse do livro, Levy e Dylan, que transformaram a história num libelo contra a injustiça racial nos Estados Unidos. Além da canção, Dylan criou um show beneficente (“The Night of Hurricane”) para angariar fundos e ajudar Carter a obter novo julgamento. No fim, o lutador não obteve a liberdade na época: só saiu da prisão em 1985. Muita gente achou que tudo não passava de pura mistificação. A chamada “turnê sem fim” começava a dar sinal de esmorecimento em meados de 1976, e acabou ao desembocar em outro grande show: o “The Last Waltz”, gravado no dia de Ação de Graças daquele ano, e que foi o canto do cisne de Robbie Robertson e seus companheiros do The Band.

Em se tratando de um antigo lançamento oficial de gravações tão pirateadas como as versões ao vivo da “Rolling Thunder Revue” — existem pelo menos três dezenas de lançamentos desse tipo em todo o mundo e em vários formatos, vinil ou CD — a novidade para os fãs é ouvir as mesmas músicas em versões análogas às conhecidas, porém remasterizadas em estéreo limpo e cristalino. Para aqueles que são vacinados contra versões ao vivo de canções de Bob Dylan — levemente assassinadas pelo seu próprio criador, aqui vale dizer — o The Rolling Thunder é um dos mais interessantes trabalhos do compositor no palco, só perdendo para o Live at The Royal Albert Hall. Pelo menos, ainda é possível reconhecê-las logo na primeira audição. Em alguns casos, a versão ao vivo supera a original, em outros, o resultado fica tão bom quanto. É o caso de “Romance In Durango”, que é tocada em tempo rápido, e a letra é mais curta (na verdade, a gravação ao vivo precede a de estúdio, que ganhou mais estrofes). “Simple Twist of Fate” perde a aura de melancolia e vira uma ruidosa confissão; “Love Minus Zero” vira um fox-trote acústico. Joan Baez se junta a Dylan no country copioso de “The Water is Wide”. Circense ou não, Bob Dylan mostra que, mesmo depois de tanto tempo — e fazendo sempre a mesma coisa — ele ainda está longe de parecer anacrônico.