| O CIRCO ESTÁ DE VOLTA À
CIDADE
Chega às lojas esta mês
a versão oficial de The Rolling Thunder Revue, o melhor
de Dylan ao vivo dos anos 70, em CD e DVD
por Marcelo
Xavier (highway61@bol.com.br)
 oqueiros
de todo o mundo, uni-vos. Bob Dylan está de volta com o novo
CD duplo da série Bootleg Series: Bob Dylan Live
1975 - The Rolling Thunder Revue, que terá trechos da
lendária turnê dos anos 1970. O álbum, que existia
em catálogo no mercado pirata há anos, é lançado
agora oficialmente em grande estilo, com uma caixa especial. O CD
duplo traz seleções de shows realizados nas cidades
de Worcester, Cambridge, Boston, e Montreal. As primeiras cópias
incluem um DVD com as interpretações de “Tangled
Up In Blue” e “Isis”, extraídas do filme
Renaldo And Clara, que foi rodado no correr das apresentações.
O álbum é a primeira compilação em estéreo
destas gravações, dispostas na seqüência
do set list original. São vinte e duas músicas
ao todo, incluindo clássicos como “Sara”, “Knockin
On Heaven's Door” e “Blowin’ in the Wind”,
num total de 100 minutos de música. A apresentação
da caixa inclui um libreto de 56 páginas com imagens em preto
e branco, tiradas pelo fotógrafo da turnê, Ken Regan.
O encarte inclui também texto assinado por Larry Sloman,
autor da biografia On The Road With Bob Dylan.
A primeira fase da turnê durou seis semanas,
de outubro a dezembro de 1975. Parte das apresentações
do ano seguinte saíram no álbum Hard Rain.
Durante os shows, o público presenciou concertos de quatro
horas de duração, onde Dylan e sua banda ofereciam
um vasto repertório composto por temas como ”Mr. Tambourine
Man”, “Love Minus Zero/No Limit”, “It's
All Over Now, Baby Blue” e “It Takes A Lot To Laugh,
It Takes A Train To Cry”. Também apresentava seis canções
novas de Desire, que só foi lançado no fim
da turnê, como ”Romance in Durango”, “Isis”,
“Oh, Sister”, “Hurricane”, “One More
Cup Of Coffee” e “Sara”.
O
INÍCIO — Em 1975, após o lançamento
do álbum Blood On The Tracks, Bob Dylan voltava ao
ponto de partida da sua carreira musical, Nova Iorque. Vivendo uma
nova fase criativa, lá ele começou a procurar novos
músicos para um outro projeto, uma pequena turnê para
divulgar seu novo trabalho, ou quem sabe um outro disco. Para tanto,
Dylan já tinha alguma coisa composta, mas faltava ainda algo.
Nas ruas de Greenwich Village, ele travou contato com duas pessoas
que dariam forma aos seus pensamentos: Jaques Levy e Scarlet Rivera.
Ele era músico e produtor teatral e ela, uma artista mambembe,
que tocava violino cigano numa banda de salsa, e que foi descoberta
por acaso, numa das esquinas do Village.
Levy lhe foi apresentado por alguns amigos comuns,
quando o compositor se pôs a recrutar artistas para a sua
turnê, nos clubes noturnos do Greenwich. Scarlet foi literalmente
achada numa esquina, e foi convidada a integrar o grupo sem rodeios.
À medida em que formava um novo conjunto, Dylan os encaminhava
para os estúdios nova iorquinos da Colúmbia. Com Scarlet,
ele juntou gente como Jack Eliott, T-Bone Burnett, o ex-Byrds, Roger
McGinn, Mick Ronson e sua antiga musa de outras épocas, Joan
Baez. A última vez em que Dylan e Joan haviam se despedido
rendeu uma canção dele, “Visions Of Johanna”,
e uma resposta surda de Baez ao ex-namorado, “Diamonds and
Lust” que, por sinal, era o seu mais recente sucesso.
Em estúdio, Bob Dylan mostrou novas músicas
para Jaques Levy, entre elas, “Sara”e “Isis”,
que pertenceriam ao novo show que ele estava criando e fariam parte
do próximo álbum, Desire. Erguido aos poucos,
o arcabouço musical de Desire era enfeixado pelo toque
característico do violino de Scarlet Rivera, em todas as
músicas. O curioso é que alguns números seriam
“testados” em palco, mesmo que fossem ainda inéditos
em disco. Além de “Isis”, Dylan mostrou “Romance
In Durango” para Levy, que o ajudava a concluir as músicas.
As duas integraram a turnê, que já tinha um nome: Rolling
Thunder Revue, inspirado no nome de um chefe indígena.
EXPERIMENTAÇÃO
— Metade show beneficente, metade espetáculo
cênico, a “Rolling Thunder” parecia um anacronismo
em plena era das discotecas. E, de fato, não deixava de ser.
Ao invés de metais e címbalos, violões rústicos,
violinos e bandolins. A idéia era fazer um show de rock imbuído
de uma atmosfera circense. Uma cortina amarela ficava por detrás
do palco, onde os músicos tocavam fantasiados de ciganos,
sobre um imenso tapete vermelho. Na cortina, podia-se ler as inscrições
da turnê temática, em letras desenhadas, como um circo
antigo. Além disso, as apresentações teriam
um ingrediente a mais. Dylan tinha a idéia de misturar imagens
das apresentações com cenas de filme, e costurar tudo
numa história só, chamado “Renaldo and Clara”.
Aos poucos, o que seria uma pequena e despretensiosa
turnê foi ganhando inúmeros adeptos, e os ingressos
se esgotavam a cada show. A Rolling Thunder Revue se tornou um projeto
gigantesco. Dylan reunia os melhores músicos de sua geração
para viajar pelo Canadá e pelos Estados Unidos de costa a
costa, e o evento se transformava num acontecimento épico
sem precedentes. Tudo ia sendo filmado num filme dirigido e roteirizado
pelo próprio Dylan. Na verdade, porém, boa parte do
avant-garde de Renaldo and Clara era pura experimentação.
Nesse sentido, tão cômico quanto sintomático
foi quando Ronee Blakely, então uma das atrizes, perguntou
quem estava dirigindo “aquela porcaria”. Dylan espetou
o dedo para Sam Shepard, que espetou o dedo para Dylan.
Se o filme era cheio de “cacos”, a parte
musical deveria ser impecável, com os músicos em lugares
e aparições bem definidas. A formação
básica da “Rolling Thunder” era: Mick Ronson
(guitarra), Bobby Neuwirth (guitarra e voz), Scarlet Rivera (violino),
Steven Stoles (guitarra e voz), David Mansfield (vários instrumentos),
Rob Stoner (baixo), Howie Wyeth (piano e bateria), Luther Rix (percussão)
e Ronee Blakeley (voz).
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| Dylan visitando o túmulo de Jack
Kerouac |
A turnê virou um épico bem demente de
4 horas, com direito a uma cena de Allan Ginsberg (que queria colocar
poesia na história o tempo todo) lendo seu Kaddish
para uma sala cheia de idosos de uma clínica na Flórida,
assim como uma visita ao túmulo de Jack Kerouac. O filme
é uma experiência arriscada que não foi compreendida
por nenhum crítico deste mundo (o filme foi concluído
apenas em 1978 e foi mal recebido pela crítica, que insistia
em chamá-lo de “Renaldo And Bozo” ou “O
Magical Mystery Tour de Bob Dylan”). Para alguns (e não
são poucos), o filme tratava de um tema muito simples: o
relacionamento complicado de Bob Dylan com as mulheres, principalmente
duas delas: Sara Lowands, sua esposa, e Joan Baez. As duas até
que se davam bem, mas havia algo de melífluo no sentimentalismo
exarcebado de Bob Dylan, que pendia para ambas — e, por tabela,
para outras meninas...
No começo das apresentações
da Rolling Thunder, Bob Dylan havia se reconciliado com Sara, após
o inferno astral entre os dois, e que gerou boa parte do sentimento
amoroso e do desencanto das letras de “Blood On The Tracks”.
Na verdade, nunca antes ele havia sido tão explícito
em letras sobre amor, ou melhor, ele nunca havia sido tão
direto, mas as brigas e desentendimentos continuaram turnê
adentro, e o casamento pifou de vez ainda em 1976.
Mesmo que antes ele falasse de forma mais velada, Dylan sempre abriu
seus sentimentos como ninguém ao tratar das relações
homem-mulher com uma maturidade invejável. Com Joan Baez
a coisa era igual e diferente. Eles apenas haviam se separado de
forma ruidosa, em 1965. Apesar das brigas, ela nunca deixou de gostar
de Dylan, e a recíproca era bem verdadeira.
A turnê e a temática do filme permitiram
toda a sorte de encontros e desencontros. Renaldo era ele, e ela
era Clara. No papel, havia uma confusão entre realidade e
ficção. Numa cena, Baez o abraça, perguntando:
“o que teria acontecido se tivéssemos ficado juntos?”.
Embaraçado, ele apenas respondeu: “eu sempre amei minha
esposa”. O detalhe e o improviso eram essenciais ao roteiro,
que na realidade, nunca existiu. Sam Shepard, que havia sido escalado
para escrever uma história, descobriu que não havia
muito a fazer. O centro do drama era o limite entre os personagens
principais e seus respectivos atores mais parecia uma transposição
da realidade camuflada numa espécie de “ficção
falseada”.
Sara
e Joan se alternavam nas suas personalidades, e Dylan (que se não
era ele mesmo no filme, era em seus atos e frases de efeito) era
sempre o homem entre elas, o trovador dos amores irreconciliáveis.
E esse jogo de mostra-e-esconde era o seu leitmotiv nas apresentações
da “Rolling Thunder Revue”. A verdade é que existia
uma certa química entre ele e Baez, que não havia
morrido depois de tanto tempo e surpreendia os espectadores quando
os dois apareciam no começo do segundo ato das apresentações,
cantando “Never Let Me Go” por trás da cortina.
Os presentes “achavam” que estavam ouvindo algo de outras
eras, como Dylan e Joan cantando juntos, mas não acreditava,
até que o pano subia e era possível vê-los juntos
e íntimos outra vez. Sara fingia que não se importava...
Durante a turnê, Bob Dylan ensaiava com cuidado
suas aparições, que não eram constantes, —
boa parte do show era preenchido pela trupe da Rolling Thunder,
mas eram meticulosamente calculadas, para que fossem marcantes.
Nelas, ele se transformava, e a sua voz rugia em apresentações
enérgicas, como a citada “Isis”, que sempre fechava
a primeira parte do show. A versão do CD é mais rápida
e acachapante do que a que aparece em “Desire”. A textura
é caótica, com cinco guitarras. No filme, a canção
está ligada na primeira aparição de Sara. Nas
“aparições”, Renaldo/Dylan surgia em cena
e no palco com um chapelão panamá e o rosto pintado
de branco, como se fosse um misto de arlequim da “Commedia
Del Arte” e ator de kabuki. Para tanto, o expediente
tinha um certo sentido e a sua postura alegórica, uma certa
retórica exemplar. Para Dylan, a máscara revelava
“muito mais do que escondia”. Também mudava o
tom de voz, ora mais grave, ora mais agudo, mais ríspido,
mais suave, e cada vez mais fanhosa. T-Bone Burnett disse que Dylan
parecia envelhecer ou rejuvenescer a cada canção.
Às vezes, parecia um jovem pálido como um Werther;
em outros momentos, um Voltaire, dramático e solene. Parecia
um imitador de si próprio.
Um dos pontos altos da turnê foi a campanha
movida por Dylan para libertar o pugilista Rubin “Hurricane”
Carter. Acusado de triplo assassinato, o boxeador estava atrás
das grades. Quando foi preso, em 1966, estava bem no ranking, mas
não era mais um demolidor. Em junho daquele ano o compositor
visitou o pugilista na prisão, depois de ter lido seu livro,
The Sixteenth Round (O Décimo Sexto Round).
De posse do livro, Levy e Dylan, que transformaram a história
num libelo contra a injustiça racial nos Estados Unidos.
Além da canção, Dylan criou um show beneficente
(“The Night of Hurricane”) para angariar fundos e ajudar
Carter a obter novo julgamento. No fim, o lutador não obteve
a liberdade na época: só saiu da prisão em
1985. Muita gente achou que tudo não passava de pura mistificação.
A chamada “turnê sem fim” começava a dar
sinal de esmorecimento em meados de 1976, e acabou ao desembocar
em outro grande show: o “The Last Waltz”, gravado no
dia de Ação de Graças daquele ano, e que foi
o canto do cisne de Robbie Robertson e seus companheiros do The
Band.
Em
se tratando de um antigo lançamento oficial de gravações
tão pirateadas como as versões ao vivo da “Rolling
Thunder Revue” — existem pelo menos três dezenas
de lançamentos desse tipo em todo o mundo e em vários
formatos, vinil ou CD — a novidade para os fãs é
ouvir as mesmas músicas em versões análogas
às conhecidas, porém remasterizadas em estéreo
limpo e cristalino. Para aqueles que são vacinados contra
versões ao vivo de canções de Bob Dylan —
levemente assassinadas pelo seu próprio criador, aqui vale
dizer — o The Rolling Thunder é um dos mais
interessantes trabalhos do compositor no palco, só perdendo
para o Live at The Royal Albert Hall. Pelo menos, ainda é
possível reconhecê-las logo na primeira audição.
Em alguns casos, a versão ao vivo supera a original, em outros,
o resultado fica tão bom quanto. É o caso de “Romance
In Durango”, que é tocada em tempo rápido, e
a letra é mais curta (na verdade, a gravação
ao vivo precede a de estúdio, que ganhou mais estrofes).
“Simple Twist of Fate” perde a aura de melancolia e
vira uma ruidosa confissão; “Love Minus Zero”
vira um fox-trote acústico. Joan Baez se junta a Dylan no
country copioso de “The Water is Wide”. Circense ou
não, Bob Dylan mostra que, mesmo depois de tanto tempo —
e fazendo sempre a mesma coisa — ele ainda está longe
de parecer anacrônico. 
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