| A OUSADIA DE COUTINHO EM EDIFÍCIO
MASTER
Resgatando histórias pessoais
em um edifício de Copacabana, Coutinho ousa mais uma vez
e revela a importância do Outro no processo de comunicação
por Anapaula Andrade (anapaulaziglio@yahoo.com.br)
 uem
mora em edifício sabe como são complicadas as reuniões
de condomínio. Muitas vezes nos sentimos intrusos em meio
àquela comunidade que vive lado a lado conosco. Normalmente,
conhecemos algumas faces com as quais cruzamos nos elevadores ou
no hall de entrada, mas é tudo. São faces sem nome,
sobrenome, histórias de alegrias ou tristezas.
O mais recente documentário de Eduardo Coutinho
veio com o intuito de nos revelar que existem pessoas por trás
dessas faces, e mais, os condomínios são muitas vezes
verdadeiros universos ricos em histórias e personagens.
Após a árdua tarefa de encontrar um
edifício disposto a participar das filmagens. A equipe de
Coutinho se dedicou a três semanas de intensa pesquisa para
conhecer alguns dos 500 moradores do edifício Master, situado
em Copacabana, a um quarteirão da praia.
Durante sete dias, a equipe de Coutinho filmou o
cotidiano dos moradores do edifício. O prédio tem
12 andares e 23 apartamentos por andar. Ao todo, são 276
apartamentos conjugados. Eduardo Coutinho através de sua
famosa técnica de entrevista interativa dialogou com 37 moradores,
conseguindo histórias íntimas e reveladoras.
Como a da jovem mãe mineira que fala abertamente
sobre sua profissão como prostistuta e lança um interessante
debate com Coutinho sobre a mentira. Ou da senhora que falando “
francamente” conta da sua decepção com o marido.
Ou do senhor que se diz tímido e tem medo de gaguejar, mas
conta sua história de uma vez e ainda se emociona. Ou do
brasileiro que cantou “ My Way” ao lado de Frank Sinatra
ou da senhora que sonhava ser cantora. Ou da portuguesa que acredita
no poder do trabalho.
Ou...
enfim, as histórias são variadas e compõem
o universo de um edifício igual a qualquer outro. Na verdade,
essa era idéia de Coutinho, mostrar o aqui e agora das vidas
que vivem num prédio qualquer.
Não há imagens da parte externa do
prédio, nem de Copacabana e nem do porteiro vendo jogo de
futebol na televisão, pois segundo o diretor são imagens
prontas, que aportam valores pré-concebidos. Essas imagens
foram realizadas, assim como, dos bibelôs, quadros e objetos
decorativos de cada apartamento, mas foram deixadas de lado na edição,
pois isoladamente não significam nada. Para Coutinho essas
imagens só são importantes na medida que interagem
com o entrevistado durante a entrevista, trazendo algum valor simbólico
ao que está sendo dito.
É o “aqui e agora” de Coutinho,
o poder da palavra, da expressão e dos gestos. Desse modo,
o documentário todo se baseia nas entrevistas que são
feitas com a câmera voltada para os entrevistados o tempo
todo. Algumas imagens da vida no prédio aparecem entre as
entrevistas, assim como um making off do trabalho da equipe, revelando-nos
momentos insólitos e de troca, como o garoto que devolve
o gato para sua dona ou a equipe que chega na casa de uma das entrevistadas
que havia esquecido do compromisso. Quando perguntada se haveria
algum problema em gravar naquele momento, diz que o problema é
de quem vai ver a sua cara de sono.
O modo como Coutinho entra na vida das pessoas e
compartilha de seus pensamentos, idéias, sonhos, traumas
e projetos, faz parte de uma experiência sociológica
conhecida como histórias pessoais e que recentemente o jornalismo
brasileiro vem experimentando. Na verdade, esse documentário
além de suscitar debates de linguagem cinematográfica,
veio para evidenciar a riqueza do ser humano e a importância
de se humanizar o Outro no processo de comunicação.
O documentário mostra que esse Outro nada
mais é que um ser humano repleto de angústias, medos,
vaidades, remorsos como o entrevistador. Assim, durante uma entrevista,
os papéis podem se inverter e o entrevistador perder sua
invulnerabilidade, sua onipotência e imparcialidade. É
a comunicação que se efetiva.
As
histórias pessoais são ainda um universo complexo
e mal explorado pela cultura da comunicação em todo
o mundo, talvez porque não faça parte do modo de pensar
cartesiano que transforma tudo em objeto inanimado. Portanto, dizer
que Eduardo Coutinho tirou leite de pedra em Edifício Master
é confirmar essa visão cartesiana do mundo. Para os
que enxergam todo o universo de relações, ao invés
de uma parte dele, compreendem que o problema nunca esteve em ser
uma pedra ou um edifício, mas que ninguém havia ousado
retirar o leite que sempre esteve lá. O mérito de
Coutinho foi sua ousadia.
Edifício Master - Documentário. Direção
de Eduardo Coutinho. Br/2002. Duração: 110 minutos.
12 anos
SOBRE O DIRETOR:
Eduardo Coutinho nasceu em São Paulo, em 1933. Estudou cinema
no Institute des Hautes Études Cinématographiques
(IDHEC), em Paris. Começou sua carreira na ficção.
Nos anos 70, iniciou sua trajetória de documentarista ao
dirigir uma série de programas para o Globo Repórter.
Em 1984, concluiu Cabra Marcado pra Morrer, o documentário
brasileiro mais premiado no exterior. Dirigiu também Santa
Marta: Duas Semanas no Morro (1987), O Fio da Memória
(1991), Boca do Lixo (1992), Os Romeiros do Padre Cícero
(1994), Santo Forte (1999) e Babilônia 2000
(2000). 
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