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19 de dezembro a 7 de janeiro



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A OUSADIA DE COUTINHO EM EDIFÍCIO MASTER
Resgatando histórias pessoais em um edifício de Copacabana, Coutinho ousa mais uma vez e revela a importância do Outro no processo de comunicação

por Anapaula Andrade (anapaulaziglio@yahoo.com.br)

uem mora em edifício sabe como são complicadas as reuniões de condomínio. Muitas vezes nos sentimos intrusos em meio àquela comunidade que vive lado a lado conosco. Normalmente, conhecemos algumas faces com as quais cruzamos nos elevadores ou no hall de entrada, mas é tudo. São faces sem nome, sobrenome, histórias de alegrias ou tristezas.

O mais recente documentário de Eduardo Coutinho veio com o intuito de nos revelar que existem pessoas por trás dessas faces, e mais, os condomínios são muitas vezes verdadeiros universos ricos em histórias e personagens.

Após a árdua tarefa de encontrar um edifício disposto a participar das filmagens. A equipe de Coutinho se dedicou a três semanas de intensa pesquisa para conhecer alguns dos 500 moradores do edifício Master, situado em Copacabana, a um quarteirão da praia.

Durante sete dias, a equipe de Coutinho filmou o cotidiano dos moradores do edifício. O prédio tem 12 andares e 23 apartamentos por andar. Ao todo, são 276 apartamentos conjugados. Eduardo Coutinho através de sua famosa técnica de entrevista interativa dialogou com 37 moradores, conseguindo histórias íntimas e reveladoras.

Como a da jovem mãe mineira que fala abertamente sobre sua profissão como prostistuta e lança um interessante debate com Coutinho sobre a mentira. Ou da senhora que falando “ francamente” conta da sua decepção com o marido. Ou do senhor que se diz tímido e tem medo de gaguejar, mas conta sua história de uma vez e ainda se emociona. Ou do brasileiro que cantou “ My Way” ao lado de Frank Sinatra ou da senhora que sonhava ser cantora. Ou da portuguesa que acredita no poder do trabalho.

Ou... enfim, as histórias são variadas e compõem o universo de um edifício igual a qualquer outro. Na verdade, essa era idéia de Coutinho, mostrar o aqui e agora das vidas que vivem num prédio qualquer.

Não há imagens da parte externa do prédio, nem de Copacabana e nem do porteiro vendo jogo de futebol na televisão, pois segundo o diretor são imagens prontas, que aportam valores pré-concebidos. Essas imagens foram realizadas, assim como, dos bibelôs, quadros e objetos decorativos de cada apartamento, mas foram deixadas de lado na edição, pois isoladamente não significam nada. Para Coutinho essas imagens só são importantes na medida que interagem com o entrevistado durante a entrevista, trazendo algum valor simbólico ao que está sendo dito.

É o “aqui e agora” de Coutinho, o poder da palavra, da expressão e dos gestos. Desse modo, o documentário todo se baseia nas entrevistas que são feitas com a câmera voltada para os entrevistados o tempo todo. Algumas imagens da vida no prédio aparecem entre as entrevistas, assim como um making off do trabalho da equipe, revelando-nos momentos insólitos e de troca, como o garoto que devolve o gato para sua dona ou a equipe que chega na casa de uma das entrevistadas que havia esquecido do compromisso. Quando perguntada se haveria algum problema em gravar naquele momento, diz que o problema é de quem vai ver a sua cara de sono.

O modo como Coutinho entra na vida das pessoas e compartilha de seus pensamentos, idéias, sonhos, traumas e projetos, faz parte de uma experiência sociológica conhecida como histórias pessoais e que recentemente o jornalismo brasileiro vem experimentando. Na verdade, esse documentário além de suscitar debates de linguagem cinematográfica, veio para evidenciar a riqueza do ser humano e a importância de se humanizar o Outro no processo de comunicação.

O documentário mostra que esse Outro nada mais é que um ser humano repleto de angústias, medos, vaidades, remorsos como o entrevistador. Assim, durante uma entrevista, os papéis podem se inverter e o entrevistador perder sua invulnerabilidade, sua onipotência e imparcialidade. É a comunicação que se efetiva.

As histórias pessoais são ainda um universo complexo e mal explorado pela cultura da comunicação em todo o mundo, talvez porque não faça parte do modo de pensar cartesiano que transforma tudo em objeto inanimado. Portanto, dizer que Eduardo Coutinho tirou leite de pedra em Edifício Master é confirmar essa visão cartesiana do mundo. Para os que enxergam todo o universo de relações, ao invés de uma parte dele, compreendem que o problema nunca esteve em ser uma pedra ou um edifício, mas que ninguém havia ousado retirar o leite que sempre esteve lá. O mérito de Coutinho foi sua ousadia.

Edifício Master - Documentário. Direção de Eduardo Coutinho. Br/2002. Duração: 110 minutos. 12 anos

SOBRE O DIRETOR: Eduardo Coutinho nasceu em São Paulo, em 1933. Estudou cinema no Institute des Hautes Études Cinématographiques (IDHEC), em Paris. Começou sua carreira na ficção. Nos anos 70, iniciou sua trajetória de documentarista ao dirigir uma série de programas para o Globo Repórter. Em 1984, concluiu Cabra Marcado pra Morrer, o documentário brasileiro mais premiado no exterior. Dirigiu também Santa Marta: Duas Semanas no Morro (1987), O Fio da Memória (1991), Boca do Lixo (1992), Os Romeiros do Padre Cícero (1994), Santo Forte (1999) e Babilônia 2000 (2000).