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9 a 22 de janeiro de 2003


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O MESTRE DO QUADRINHO UNDERGROUND
Finalmente chega ao Brasil uma publicação com o principal personagem de Robert Crumb, o gato Fritz

por Luiz Pattoli (luiz@rabisco.com.br)

  editora Conrad lançou em dezembro o livro Fritz The Cat, do desenhista norte-americano Robert Crumb. Com 138 páginas, a edição nacional é considerada uma das mais completas do mundo, por conter desde as primeiras histórias com gatos de Crumb até desenhos perdidos de Fritz, alter-ego do seu autor. O personagem alterna entre um caráter alegre, feliz, um lado sagaz, boêmio e sórdido-sexista.

Crumb viveu os anos flower-power em São Francisco nas décadas de 60 e 70, ou seja, participou ativamente da geração hippie, tendo desenhado a capa do disco Cheap & Thrills de Janis Joplin. E Fritz não era muito diferente disso, vivia com amigos numa república de universitários, usava drogas, especialmente a maconha, era inconformado com as regras sociais e muito mulherengo. O gato tinha tanta libido que imagina-se que Crumb colocava ali todos os seus impulsos sexuais. Fritz gostava de transar, e mais do que isso, as garotas gostavam dele e pediam até para apanhar.

Em 1970 Crumb vendeu os direitos do personagem para o animador Ralph Bakshi
realizar um longa-metragem. Ao ser lançado, o filme foi classificado como pornográfico, mas, mesmo assim, o resultado final não agradou nem um pouco Robert Crumb. Anos antes ele havia sido condenado por ter publicado um quadrinho com uma relação incestuosa. Até mesmo Harvey Kurtzman, criador da revista Mad, disse certa vez: “Como publicar suas histórias e não ser preso?”. Em 1972, Crumb mata o personagem com um picador de gelo, o mesmo método que o ditador Leon Trotski utilizava para liquidar seus inimigos. A influência de Crumb é tão grande que o cartunista brasileiro Angeli também matou uma de suas principais personagens, a Rê Bordosa e disse: “Stanilavsk me ensinou a construir personagens. Agora, a cortar a goela deles, o mestre foi Robert Crumb”.

Robert nasceu em 30 de agosto de 1945 na Filadélfia num ambiente familiar conturbado. Seu pai gostava de bater em toda a família, e a mãe era viciada em calmantes. Quando criança, seu gato Fred e Walt Disney eram a inspiração para tirinhas sobre o gato e sua gangue, que servia para divertir os irmãos mais novos, talvez até para apaziguar o sentimento de medo que tinham do pai. Eram desenhos infantis, tanto que o gato andava com as quatro pernas e conviviam com os humanos, algo bem diferente do que o mesmo gato tornaria-se mais tarde.

 Robert Crumb

Os quadrinhos serviam para Robert como uma forma de evitar o contato com o resto do mundo, afinal, ele era tímido. Quando jovem, desenhava em dupla com o irmão Charles e o gato Fred era figura recorrente. Os personagens de Charles o chamavam de Fritz, que aos poucos foi adquirindo personalidade e jeito próprios, tanto que Robert começou a desenhar aventuras individuais do novo personagem.

Em 1962, a família Crumb muda-se para Cleveland e Robert vai trabalhar numa empresa que produz cartões para diversas ocasiões (aniversário, natal, páscoa, etc). Dois anos depois, casa-se com Dana Morgan e começa a publicar seus personagens na revista Cavalier. Em 65, Fritz The Cat começa a circular na revista Help de Kurtzman. É nessa época que o envolvimento de Crumb com o LSD começa e segundo o próprio, algumas “viagens más” o inspiraram para criar alguns de seus mais importantes personagens: Mr. Natural, Flakey Foont e Vulture Demonesses.

Após tentar morar em Chicago e Nova Iorque, em 1966 ele se muda para São Francisco onde, com alguns amigos, cria a cooperativa Rip Off e editam a revista (na verdade uma espécie de fanzine) Zap Comix. A quarta edição da Zap, em 1969, é totalmente apreendida pela polícia por conter obscenidades e uma relação entre pai e filha na história Joe Blow. O caso resultou na prisão de Crumb, que foi considerado inimigo n° 1 do governo pelo juiz Roscoe Parker. O resultado foi o inverso, pelo menos para o estado, pois ele virou um ícone da contra-cultura e do underground.

No final da década de 70, um juiz determina que um desenho feito por Crumb na primeira Zap e que tinha se tornado símbolo do movimento hippie (uma mulher com pés grandes dizendo: “Keep on Truckin'”) nunca havia sido registrado. Ou seja, era domínio público e o autor não poderia receber nenhum centavo de direito autoral. Isso quebra financeiramente Robert, ele se separa de Dana e muda-se para Paris. Lá, conhece sua futura esposa, Aline Kominsky, com quem criaria a revista Weirdo e mudaria novamente para a Califórnia.

A partir de meados de 1980 seu trabalho é amplamente reconhecido chegando a ser exposto no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Atualmente, vive com Aline e com sua filha num vilarejo ao sul da França.