| O MESTRE DO QUADRINHO UNDERGROUND
Finalmente chega ao Brasil uma publicação
com o principal personagem de Robert Crumb, o gato Fritz
por Luiz
Pattoli (luiz@rabisco.com.br)

editora Conrad lançou em dezembro o livro Fritz The Cat,
do desenhista norte-americano Robert Crumb. Com 138 páginas,
a edição nacional é considerada uma das mais
completas do mundo, por conter desde as primeiras histórias
com gatos de Crumb até desenhos perdidos de Fritz, alter-ego
do seu autor. O personagem alterna entre um caráter alegre,
feliz, um lado sagaz, boêmio e sórdido-sexista.
Crumb viveu os anos flower-power em São Francisco
nas décadas de 60 e 70, ou seja, participou ativamente da
geração hippie, tendo desenhado a capa do disco Cheap
& Thrills de Janis Joplin. E Fritz não era muito diferente
disso, vivia com amigos numa república de universitários,
usava drogas, especialmente a maconha, era inconformado com as regras
sociais e muito mulherengo. O gato tinha tanta libido que imagina-se
que Crumb colocava ali todos os seus impulsos sexuais. Fritz gostava
de transar, e mais do que isso, as garotas gostavam dele e pediam
até para apanhar.
Em 1970 Crumb vendeu os direitos do personagem para
o animador Ralph Bakshi
realizar um longa-metragem. Ao ser lançado, o filme foi classificado
como pornográfico, mas, mesmo assim, o resultado final não
agradou nem um pouco Robert Crumb. Anos antes ele havia sido condenado
por ter publicado um quadrinho com uma relação incestuosa.
Até mesmo Harvey Kurtzman, criador da revista Mad, disse
certa vez: “Como publicar suas histórias e não
ser preso?”. Em 1972, Crumb mata o personagem com um picador
de gelo, o mesmo método que o ditador Leon Trotski utilizava
para liquidar seus inimigos. A influência de Crumb é
tão grande que o cartunista brasileiro Angeli também
matou uma de suas principais personagens, a Rê Bordosa e disse:
“Stanilavsk me ensinou a construir personagens. Agora, a cortar
a goela deles, o mestre foi Robert Crumb”.
Robert nasceu em 30 de agosto de 1945 na Filadélfia
num ambiente familiar conturbado. Seu pai gostava de bater em toda
a família, e a mãe era viciada em calmantes. Quando
criança, seu gato Fred e Walt Disney eram a inspiração
para tirinhas sobre o gato e sua gangue, que servia para divertir
os irmãos mais novos, talvez até para apaziguar o
sentimento de medo que tinham do pai. Eram desenhos infantis, tanto
que o gato andava com as quatro pernas e conviviam com os humanos,
algo bem diferente do que o mesmo gato tornaria-se mais tarde.
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| Robert Crumb |
Os quadrinhos serviam para Robert como uma forma
de evitar o contato com o resto do mundo, afinal, ele era tímido.
Quando jovem, desenhava em dupla com o irmão Charles e o
gato Fred era figura recorrente. Os personagens de Charles o chamavam
de Fritz, que aos poucos foi adquirindo personalidade e jeito próprios,
tanto que Robert começou a desenhar aventuras individuais
do novo personagem.
Em 1962, a família Crumb muda-se para Cleveland
e Robert vai trabalhar numa empresa que produz cartões para
diversas ocasiões (aniversário, natal, páscoa,
etc). Dois anos depois, casa-se com Dana Morgan e começa
a publicar seus personagens na revista Cavalier. Em 65, Fritz The
Cat começa a circular na revista Help de Kurtzman.
É nessa época que o envolvimento de Crumb com o LSD
começa e segundo o próprio, algumas “viagens
más” o inspiraram para criar alguns de seus mais importantes
personagens: Mr. Natural, Flakey Foont e Vulture Demonesses.
Após tentar morar em Chicago e Nova Iorque,
em 1966 ele se muda para São Francisco onde, com alguns amigos,
cria a cooperativa Rip Off e editam a revista (na verdade uma espécie
de fanzine) Zap Comix. A quarta edição da Zap,
em 1969, é totalmente apreendida pela polícia por
conter obscenidades e uma relação entre pai e filha
na história Joe Blow. O caso resultou na prisão de
Crumb, que foi considerado inimigo n° 1 do governo pelo juiz
Roscoe Parker. O resultado foi o inverso, pelo menos para o estado,
pois ele virou um ícone da contra-cultura e do underground.
No
final da década de 70, um juiz determina que um desenho feito
por Crumb na primeira Zap e que tinha se tornado símbolo
do movimento hippie (uma mulher com pés grandes dizendo:
“Keep on Truckin'”) nunca havia sido registrado. Ou
seja, era domínio público e o autor não poderia
receber nenhum centavo de direito autoral. Isso quebra financeiramente
Robert, ele se separa de Dana e muda-se para Paris. Lá, conhece
sua futura esposa, Aline Kominsky, com quem criaria a revista Weirdo
e mudaria novamente para a Califórnia.
A partir de meados de 1980 seu trabalho é
amplamente reconhecido chegando a ser exposto no Museu de Arte Moderna
de Nova Iorque. Atualmente, vive com Aline e com sua filha num vilarejo
ao sul da França. 
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