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9 a 22 de janeiro de 2003


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QUEBRA-CABEÇA EMOCIONAL
Crumb desvenda o universo familiar de um dos maiores ícones do movimento underground americano

por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)

e eu não desenhasse, provavelmente teria cometido suicídio”. Esta é umas das primeiras frases ditas por Robert Crumb em Crumb (EUA – 1995 – 119 minutos - Direção de Terry Zwigoff). O vídeo, que tem produção de David Lynch, conseguiu atingir seu principal objetivo: revelar o universo inspirador da obra de um dos maiores expoentes do movimento underground da década de 1970 nos Estados Unidos.

A princípio o documentário enfocaria sua vida, suas considerações sobre os cartoons que produziu e as características que o tornaram peculiar. Porém, quando Terry Zwigoff, amigo de Robert há vinte e cinco anos, conheceu seu irmão mais velho Charles, o roteiro acabou sendo desviado. O primogênito, um gênio enclausurado por um espírito depressivo e uma rotina regada a tranqüilizantes, foi a mola propulsora do trabalho do irmão famoso. De um relato pessoal sobre o célebre quadrinista, o documentário transforma–se em um divã familiar, onde o telespectador é o analista.

Este é, certamente, o maior trunfo do filme. A partir do momento em que o cotidiano familiar é explorado, e juntamente com ele, o panorama da infância, adolescência e vida adulta desta família que produziu três artistas – Charles, Robert e Maxon – é que a excentricidade de Robert Crumb é entendida. Os filhos foram criados em um ambiente rigidamente neurótico. Sofriam maus tratos por parte do pai e precisavam conciliar este aspecto com seus próprios dilemas. A vida tornou–se uma panela de pressão. Durante a puberdade, quando descobriram não serem exatamente o que as meninas procuravam, a situação piorou sensivelmente. A frustração sexual e a destruição da auto–estima imprimiu nos três rapazes uma sensação de desconforto maior do que poderiam suportar.

Um exemplo dá–se quando o desenhista mostra um quadrinho enfocando um dos traumas sofridos pelo irmão mais velho. Ele estava na high school, em seu período de auto–afirmação, quando apanha do galã valentão da escola publicamente. Como conseqüência torna–se um adolescente esquivo, sozinho e depressivo. A estória é confirmada pelos irmãos e o que parecia ficção de sessão da tarde, é visto nos olhos tristes de um Charles passando dos cinqüenta anos, que há mais de uma década não saía de casa, onde morava com a mãe, e sobrevivia há algumas tentativas de suicídio com caixas de antidepressivo.

Pouco tempo depois é apresentado Maxon, o terceiro artista da família. Vivendo em um apartamento imundo do subúrbio, ele é constantemente afetado por crises existenciais e compulsão sexual, que tenta curar fazendo meditação em cima de uma cama de pregos. Maxon conta um episódio em que viu uma bela garota na rua e seguiu-a até uma loja, e não conseguindo conter seu desejo puxou o short dela para baixo quando esta fazia o pagamento de suas compras.

Diante de depoimentos como estes, o espectador pergunta–se como Robert pode ser tão diferente dos irmãos. Ter equilíbrio, sensatez e bom humor. A resposta é simples: a canalização de suas frustrações para a arte. Se seus comics são recheados de humor negro, críticas sociais e análises psicológicas de deixarem os desavisados aterrorizados, é porque ele preferiu fazer no papel o que seus irmãos fizeram com suas próprias vidas. Em um dos números de Mr. Natural, um de seus personagens mais famosos, este doa de presente a um rapaz uma garota cuja mente foi retirada, sobrando apenas o corpo. O garoto que possuía uma verdadeira loucura por ela, abusa sexualmente até a saciedade daquele corpo modificado para seu aproveitamento. O resultado desta experiência o deixa em crise. Sentindo–se um monstro, devolve a garota ao Mr. Natural para que ele a restabeleça. Quando esta recobra o sentido, o rapaz em choro compulsivo tenta desculpar-se diante da ira dela.

Colocações desta natureza estão constantemente presentes na obra de Crumb. Seriamente criticado por vertentes da ala feminista e advertido por suas irmãs, que dizem ser a posição do cartunista perante as mulheres extremamente negativa, ele alega que embora saiba que as menospreza em seus desenhos, é aquilo que está dentro dele. A visão que carrega das mulheres é reflexo do processo de desprezo que diz ter sofrido na adolescência, a ponto de começar a freqüentar um grupo de hippies em busca do sexo livre. Mas segundo ele, as garotas não o achavam interessante. “Eu pensei que se eu fosse sensível, as garotas gostariam mais de mim e ficariam impressionadas com a minha habilidade de desenhar. Mas elas gostavam de garotos cruéis e agressivos e não de mim. Mais tarde eu aprendi que elas não querem que você seja sensível e carinhoso em relação a elas, mas um verdadeiro canalha lá fora, no mundo, (...) então a arte tornou–se o meu método, bem tipo ‘vou mostrar a elas, me tornarei famoso’”.

O processo criativo do artista é fincado no cotidiano. Ele costuma sentar em bares ou bancos da cidade, observar as pessoas, as situações e desenhar. Há alguns anos seu trabalho passou a ser devidamente valorizado. Ele é chamado para expor em museus, e há quem diga que sua veia criativa pode ser comparada a de Picasso. As estórias e imagens que fabrica traduzem uma opinião pessoal a respeito da sociedade em que vive. Esta avaliação que faz do que sente nas pessoas e nas relações humanas choca quase sempre quem desconhece o plano de fundo em que foram concebidas. Porém, ele coloca que isso acontece porque o que faz é mostrar um lado que as pessoas não gostam de assumir que têm e isso bloquearia uma visão mais aberta de sua produção. Esta singularidade que assusta e fascina é o que tornou Robert Crumb vitorioso no meio de um turbilhão de frustrações.