| QUEBRA-CABEÇA EMOCIONAL
Crumb desvenda o universo familiar
de um dos maiores ícones do movimento underground americano
por Ana Lira
(analira@rabisco.com.br)
 e
eu não desenhasse, provavelmente teria cometido suicídio”.
Esta é umas das primeiras frases ditas por Robert Crumb em
Crumb (EUA – 1995 – 119 minutos - Direção
de Terry Zwigoff). O vídeo, que tem produção
de David Lynch, conseguiu atingir seu principal objetivo: revelar
o universo inspirador da obra de um dos maiores expoentes do movimento
underground da década de 1970 nos Estados Unidos.
A princípio o documentário enfocaria
sua vida, suas considerações sobre os cartoons que
produziu e as características que o tornaram peculiar. Porém,
quando Terry Zwigoff, amigo de Robert há vinte e cinco anos,
conheceu seu irmão mais velho Charles, o roteiro acabou sendo
desviado. O primogênito, um gênio enclausurado por um
espírito depressivo e uma rotina regada a tranqüilizantes,
foi a mola propulsora do trabalho do irmão famoso. De um
relato pessoal sobre o célebre quadrinista, o documentário
transforma–se em um divã familiar, onde o telespectador
é o analista.
Este é, certamente, o maior trunfo do filme.
A partir do momento em que o cotidiano familiar é explorado,
e juntamente com ele, o panorama da infância, adolescência
e vida adulta desta família que produziu três artistas
– Charles, Robert e Maxon – é que a excentricidade
de Robert Crumb é entendida. Os filhos foram criados em um
ambiente rigidamente neurótico. Sofriam maus tratos por parte
do pai e precisavam conciliar este aspecto com seus próprios
dilemas. A vida tornou–se uma panela de pressão. Durante
a puberdade, quando descobriram não serem exatamente o que
as meninas procuravam, a situação piorou sensivelmente.
A frustração sexual e a destruição da
auto–estima imprimiu nos três rapazes uma sensação
de desconforto maior do que poderiam suportar.
Um exemplo dá–se quando o desenhista
mostra um quadrinho enfocando um dos traumas sofridos pelo irmão
mais velho. Ele estava na high school, em seu período
de auto–afirmação, quando apanha do galã
valentão da escola publicamente. Como conseqüência
torna–se um adolescente esquivo, sozinho e depressivo. A estória
é confirmada pelos irmãos e o que parecia ficção
de sessão da tarde, é visto nos olhos tristes de um
Charles passando dos cinqüenta anos, que há mais de
uma década não saía de casa, onde morava com
a mãe, e sobrevivia há algumas tentativas de suicídio
com caixas de antidepressivo.
Pouco
tempo depois é apresentado Maxon, o terceiro artista da família.
Vivendo em um apartamento imundo do subúrbio, ele é
constantemente afetado por crises existenciais e compulsão
sexual, que tenta curar fazendo meditação em cima
de uma cama de pregos. Maxon conta um episódio em que viu
uma bela garota na rua e seguiu-a até uma loja, e não
conseguindo conter seu desejo puxou o short dela para baixo quando
esta fazia o pagamento de suas compras.
Diante de depoimentos como estes, o espectador pergunta–se
como Robert pode ser tão diferente dos irmãos. Ter
equilíbrio, sensatez e bom humor. A resposta é simples:
a canalização de suas frustrações para
a arte. Se seus comics são recheados de humor negro, críticas
sociais e análises psicológicas de deixarem os desavisados
aterrorizados, é porque ele preferiu fazer no papel o que
seus irmãos fizeram com suas próprias vidas. Em um
dos números de Mr. Natural, um de seus personagens
mais famosos, este doa de presente a um rapaz uma garota cuja mente
foi retirada, sobrando apenas o corpo. O garoto que possuía
uma verdadeira loucura por ela, abusa sexualmente até a saciedade
daquele corpo modificado para seu aproveitamento. O resultado desta
experiência o deixa em crise. Sentindo–se um monstro,
devolve a garota ao Mr. Natural para que ele a restabeleça.
Quando esta recobra o sentido, o rapaz em choro compulsivo tenta
desculpar-se diante da ira dela.
Colocações desta natureza estão
constantemente presentes na obra de Crumb. Seriamente criticado
por vertentes da ala feminista e advertido por suas irmãs,
que dizem ser a posição do cartunista perante as mulheres
extremamente negativa, ele alega que embora saiba que as menospreza
em seus desenhos, é aquilo que está dentro dele. A
visão que carrega das mulheres é reflexo do processo
de desprezo que diz ter sofrido na adolescência, a ponto de
começar a freqüentar um grupo de hippies em busca do
sexo livre. Mas segundo ele, as garotas não o achavam interessante.
“Eu pensei que se eu fosse sensível, as garotas gostariam
mais de mim e ficariam impressionadas com a minha habilidade de
desenhar. Mas elas gostavam de garotos cruéis e agressivos
e não de mim. Mais tarde eu aprendi que elas não querem
que você seja sensível e carinhoso em relação
a elas, mas um verdadeiro canalha lá fora, no mundo, (...)
então a arte tornou–se o meu método, bem tipo
‘vou mostrar a elas, me tornarei famoso’”.
O
processo criativo do artista é fincado no cotidiano. Ele
costuma sentar em bares ou bancos da cidade, observar as pessoas,
as situações e desenhar. Há alguns anos seu
trabalho passou a ser devidamente valorizado. Ele é chamado
para expor em museus, e há quem diga que sua veia criativa
pode ser comparada a de Picasso. As estórias e imagens que
fabrica traduzem uma opinião pessoal a respeito da sociedade
em que vive. Esta avaliação que faz do que sente nas
pessoas e nas relações humanas choca quase sempre
quem desconhece o plano de fundo em que foram concebidas. Porém,
ele coloca que isso acontece porque o que faz é mostrar um
lado que as pessoas não gostam de assumir que têm e
isso bloquearia uma visão mais aberta de sua produção.
Esta singularidade que assusta e fascina é o que tornou Robert
Crumb vitorioso no meio de um turbilhão de frustrações.
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