| BRANCA DE NEVE COM VOZ DE DIVA
NEGRA
Disney pede a astros adolescentes
para reformular suas clássicas trilhas sonoras no mal orientado
Disney Mania
por Marcel
Nadale (marcel@rabisco.com.br)

primeira faixa de Disney Mania explica sucintamente
o conceito por trás do álbum. Ela abre com a versão
original de “Someday My Prince Will Come”, tema do desenho
animado A Branca de Neve e os Sete Anões, e aos poucos
a música ganha uma batida R&B e o vozeirão de
diva negra da loira Anastacia. Todo o álbum traz clássicos
dos desenhos Disney em versões “novo milênio”,
cantadas por intérpretes que estão na moda.
À parte dos óbvios objetivos comerciais,
Disney Mania é todo boas intenções –
tenta popularizar esta outra forma de arte em que os estúdios
Disney são peritos. A despeito de acusações
de que suas canções são infantilizadas ou acessórias,
as trilhas destes desenhos animados são feitas com extremo
esmero por verdadeiros peritos musicais. Não é à
toa que elas sempre são lembradas pelo Oscar: uma trilha
deve funcionar ao mesmo tempo como suporte e réplica da essência
do filme, e nisto a Dinsey é imbatível.
Mas, de boas intenções, o inferno está
cheio. Para Disney Mania, foram convocados apenas intérpretes
cujos nomes na capa do álbum lhe garantiriam boa vendagem.
A maioria deles não entende nada de composição
musical ou estrutura melódica, de modo que as “nova
versões” geralmente se limitam a uma batidinha um pouco
mais rápida e alegre, ora puxada para o R&B, ora voltada
para a música eletrônica.
Ainda
assim, o resultado seria interessante se ao menos a Disney tivesse
escolhido cantores de gêneros e estilos variados. Quão
curioso seria Eminem fazendo rap com “Under the Sea”,
de A Pequena Sereia? Ou Garth Brooks transformando “Beauty
and the Beast” em um hit country? O hoje cultuado álbum
Saturday Night Morning ousou algo similar e foi bem-sucedido:
o tema de Homem-Aranha cantado pelos Ramones permanece como
melhor exemplo.
Só que, essência da “empresa-família”,
a Disney não poderia se arriscar incluindo em sua folha de
pagamentos celebridades com passado duvidoso ou discografia chocante.
A maior parte dos colaboradores de Disney Mania são
espólios da onda teen-pop que não saem das paradas
americanas mas que (ainda bem) não acham brecha no hipersaturado
mercado brasileiro. Todos eles vítimas daquela crença
de que, para cantar bem, basta abusar da segunda voz e tentar atingir
uma oitava acima com a trivialidade de quem vai à feira.
A sonoridade final é homogênea e cheira
a leite. O quarteto A*Teens (que havia participado recentemente
da trilha de Lilo & Stitch) faz o que pode com “Under
the Sea”, enquanto Usher prova porque não merece nossa
atenção com “You’ll Be in My Heart”,
de Tarzan. O pentelhíssimo Aaron Carter (irmão do
Backstreet Boy Nick Carter) ganha canção à
altura com “I Just Can’t Wait to Be King”, inaugurando
a seqüência de músicas de O Rei Leão
(até hoje, a terceira trilha sonora mais vendida da história,
e que por isso tem quatro faixas em Disney Mania). Jessica
Simpson (uma espécie de Britney Spears depois da febre amarela)
canta “Part of Your World”, de A Pequena Sereia,
e a banda Smash Mouth (o máximo de transgressão que
o álbum consegue atingir) refaz “I Wanna Be Like You”,
de Mogli.
Dois
erros mostram com clareza porque, apesar de ser uma disco leve e
divertido, Disney Mania merece o desprezo do verdadeiro fã
das trilhas sonoras Disney. Primeiro: para garantir a presença
de Christina Aguilera, foi utilizada a versão original de
“Reflection”, que ela canta em Mulan, contrariando
assim o intuito do disco e mostrando o quão caça-níqueis
a Disney pode ser. Segundo: a execrável versão a
capella que o N’Sync fez da mais clássica canção
Disney, “When You Wish Upon a Star” (aquela de Pinóquio,
que sempre toca nos parque de diversões da empresa). Dá
vontade de comprar uma escopeta e abreviar o sofrimento dos cinco
moleques. Quem sabe assim abre uma vaga para, digamos, o Foo Fighters
em Disney Mania 2 – como a própria canção
prega, sonhar não custa nada. 
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