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9 a 22 de janeiro de 2003


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BRANCA DE NEVE COM VOZ DE DIVA NEGRA
Disney pede a astros adolescentes para reformular suas clássicas trilhas sonoras no mal orientado Disney Mania

por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

 primeira faixa de Disney Mania explica sucintamente o conceito por trás do álbum. Ela abre com a versão original de “Someday My Prince Will Come”, tema do desenho animado A Branca de Neve e os Sete Anões, e aos poucos a música ganha uma batida R&B e o vozeirão de diva negra da loira Anastacia. Todo o álbum traz clássicos dos desenhos Disney em versões “novo milênio”, cantadas por intérpretes que estão na moda.

À parte dos óbvios objetivos comerciais, Disney Mania é todo boas intenções – tenta popularizar esta outra forma de arte em que os estúdios Disney são peritos. A despeito de acusações de que suas canções são infantilizadas ou acessórias, as trilhas destes desenhos animados são feitas com extremo esmero por verdadeiros peritos musicais. Não é à toa que elas sempre são lembradas pelo Oscar: uma trilha deve funcionar ao mesmo tempo como suporte e réplica da essência do filme, e nisto a Dinsey é imbatível.

Mas, de boas intenções, o inferno está cheio. Para Disney Mania, foram convocados apenas intérpretes cujos nomes na capa do álbum lhe garantiriam boa vendagem. A maioria deles não entende nada de composição musical ou estrutura melódica, de modo que as “nova versões” geralmente se limitam a uma batidinha um pouco mais rápida e alegre, ora puxada para o R&B, ora voltada para a música eletrônica.

Ainda assim, o resultado seria interessante se ao menos a Disney tivesse escolhido cantores de gêneros e estilos variados. Quão curioso seria Eminem fazendo rap com “Under the Sea”, de A Pequena Sereia? Ou Garth Brooks transformando “Beauty and the Beast” em um hit country? O hoje cultuado álbum Saturday Night Morning ousou algo similar e foi bem-sucedido: o tema de Homem-Aranha cantado pelos Ramones permanece como melhor exemplo.

Só que, essência da “empresa-família”, a Disney não poderia se arriscar incluindo em sua folha de pagamentos celebridades com passado duvidoso ou discografia chocante. A maior parte dos colaboradores de Disney Mania são espólios da onda teen-pop que não saem das paradas americanas mas que (ainda bem) não acham brecha no hipersaturado mercado brasileiro. Todos eles vítimas daquela crença de que, para cantar bem, basta abusar da segunda voz e tentar atingir uma oitava acima com a trivialidade de quem vai à feira.

A sonoridade final é homogênea e cheira a leite. O quarteto A*Teens (que havia participado recentemente da trilha de Lilo & Stitch) faz o que pode com “Under the Sea”, enquanto Usher prova porque não merece nossa atenção com “You’ll Be in My Heart”, de Tarzan. O pentelhíssimo Aaron Carter (irmão do Backstreet Boy Nick Carter) ganha canção à altura com “I Just Can’t Wait to Be King”, inaugurando a seqüência de músicas de O Rei Leão (até hoje, a terceira trilha sonora mais vendida da história, e que por isso tem quatro faixas em Disney Mania). Jessica Simpson (uma espécie de Britney Spears depois da febre amarela) canta “Part of Your World”, de A Pequena Sereia, e a banda Smash Mouth (o máximo de transgressão que o álbum consegue atingir) refaz “I Wanna Be Like You”, de Mogli.

Dois erros mostram com clareza porque, apesar de ser uma disco leve e divertido, Disney Mania merece o desprezo do verdadeiro fã das trilhas sonoras Disney. Primeiro: para garantir a presença de Christina Aguilera, foi utilizada a versão original de “Reflection”, que ela canta em Mulan, contrariando assim o intuito do disco e mostrando o quão caça-níqueis a Disney pode ser. Segundo: a execrável versão a capella que o N’Sync fez da mais clássica canção Disney, “When You Wish Upon a Star” (aquela de Pinóquio, que sempre toca nos parque de diversões da empresa). Dá vontade de comprar uma escopeta e abreviar o sofrimento dos cinco moleques. Quem sabe assim abre uma vaga para, digamos, o Foo Fighters em Disney Mania 2 – como a própria canção prega, sonhar não custa nada.