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9 a 22 de janeiro de 2003


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AS DUAS VOZES
De duas torres distantes, editores do Rabisco comentam os acertos e erros do novo O Senhor dos Anéis

por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br) e Marcio Caparica (marcio@rabisco.com.br)

arcio: Há um ano, ao sair do cinema, meu co-autor neste texto afirmou com todas as letras que a segunda parte de O Senhor dos Anéis, As Duas Torres, seria um fracasso retumbante por causa da frustração que o primeiro causaria no espectador médio, que não está acostumado a um filme de três horas que não acaba. Devo apenas registrar a minha satisfação ao constatar que aparentemente ele se enganou redondamente. Mesmo sendo às dez e meia da manhã de sexta-feira, num shopping relativamente isolado, a sessão que vimos estava cheia, e já recebi notícias de sessões esgotadas várias horas antes de começarem, como aconteceu com O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel. Parece que, mais do que frustrar o espectador médio, o filme de Peter Jackson criou no público pagante uma ansiedade por saber como que, afinal de contas, esta história vai acabar. Mesmo que tenha que enfrentar mais seis horas de filme.

Marcel: Peter Jackson é responsável por inúmeras façanhas da trilogia O Senhor dos Anéis, mas estimular o retorno dos espectadores não é uma delas. Quem melhor resumiu este “fenômeno” foi um colega de trabalho tolkienmaníaco. Quando disse que, mesmo não gostando de O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel, estava ansioso para ver sua continuação, ele me respondeu sem titubear: “Claro que está! Com toda esta propaganda em cima!”. É verdade. E ainda acrescento: propaganda enganosa. Saí do segundo filme ainda mais decepcionado, confuso e cansado do que no primeiro. Em As Duas Torres, perde-se o único aspecto positivo que salvava A Sociedade do Anel de ser apenas caríssima tortura pretensiosa: o frescor de nos introduzir ao mágico e complexo mundo de Tolkien. Em As Duas Torres, as únicas novidades que causam algum encantamento são Gollum e Barbárvore. De resto, tudo já foi visto antes.

Marcio: Discordo. Me encantei exatamente pela complexidade da história, que é seu diferencial entre outros filmes de batalha entre o Bem e o Mal. A maioria dos filmes deste gênero mostram personagens com a missão de salvar o mundo, numa história que na verdade só diz respeito a eles. As Duas Torres não se exime de realmente mostrar esse mundo, a situação terrível em que está, e que seus habitantes não estão sentados esperando que um punhado de pessoas os salve. Infelizmente não estamos mais habituados a acompanhar histórias com mais de dez personagens – principalmente se cinco deles não morrem na primeira meia hora. O filme desdobra o mundo que Frodo tem que salvar, e também aprofunda os personagens da primeira parte – vemos a amizade entre Legolas e Gimli nascer, as dificuldades de Frodo aumentarem, e Merry e Pippin desencadearem ações que ninguém esperaria de hobbits coadjuvantes. Tudo isso evita que O Senhor dos Anéis recaia na babaquice simplista de que Star Wars é o maior exemplo.

Marcel: Mas essa complexidade já foi um mérito do primeiro filme. Mais uma vez, a continuação e sua exagerada metragem acabam por desgastar esta qualidade. E não é apenas aí que As Duas Torres trabalha para difamar as conquistas de A Sociedade do Anel. O novo filme mostra Peter Jackson pela primeira vez como um editor preguiçoso e um diretor inconseqüente. Ele foi o responsável por mudanças no enredo que pouco acrescentam ao filme – muito pelo contrário, só servem para irritar fãs do livro e entediar não-iniciados. A insistência no romance de Aragorn com Arwen ainda não rendeu quaisquer frutos. A pseudo-morte (marmelada!) do guerreiro também só serve para minar a credibilidade da pseudo-morte de Frodo, que virá em O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (aliás, levando em consideração a ressurreição de Gandalf, a Terra-Média já soa como a Marvel, onde também nenhum herói querido bate as botas de verdade). O personagem do Faramir, especialmente depreciado por uma má intepretação, parece simplesmente solto, sem qualquer função ou solidez de caráter. Tudo isso foi intromissão desnecessária de Jackson, que só serve para atrasar a narrativa.

Marcio: Nem tanto. Pelo próprio caráter épico desse projeto, não se podia esperar que ele tivesse menos de três horas, principalmente depois que a primeira parte teve essa duração. Mas concordo que, se o primeiro filme teve que fazer malabarismos para caber nestas três horas, o segundo abusou de tomadas panorâmicas como técnica para indicar que dias se passaram. No entanto, se houve adaptações desastradas, houve outras muito acertadas, como a ênfase na batalha de Helm. Caso seguisse o livro, assistiríamos por meia hora aos Ents conversando (ação que dura vários dias, no original) e veríamos pouco da batalha. A maior importância dada a Eowyn, uma personagem bastante apagada no original, e a utilização de Língua de Verme como interlocutor de Saruman também foram boas adições. O saldo destes filmes ainda pende muito mais para o positivo. A adaptação para as telas está se saindo tão bela e coerente que acho que os novos leitores de Tolkien terão dificuldades para imaginar Aragorn com outra cara que a de Viggo Mortensen, ou Frodo diferente de Elijah Wood.

Marcel: Mas isto é óbvio. Quem vai ler Harry Potter e não pensar em Daniel Radcliffe? Racionalmente, eu consigo entender perfeitamente, e aceitar, que os dois filmes O Senhor dos Anéis são ótimos, e que O Retorno do Rei provavelmente será tão bom quanto os antecessores. A fotografia é divina (aliás, mais um quesito em que A Sociedade do Anel passa As Duas Torres); a escolha do elenco, repito, é inquestionável; e os efeitos especiais são, bem, os melhores até hoje. Mas, emocionalmente, eu continuo me sentindo distante da história e dos personagens. Com exceção de alguns poucos momentos de deslumbramento, O Senhor dos Anéis ainda não me desperta nenhum outro sentimento que não respeito (e sono). Ao menos, depois do teste de resistência que foi As Duas Torres, admito que não há chances de O Retorno do Rei ter repercussão menor como acreditava que ocorreria com este episódio. Até mesmo eu estou com vontade de saber como acaba O Senhor dos Anéis...