| AS DUAS VOZES
De duas torres distantes, editores
do Rabisco comentam os acertos e erros do novo O Senhor
dos Anéis
por Marcel
Nadale (marcel@rabisco.com.br)
e Marcio Caparica (marcio@rabisco.com.br)

arcio: Há um ano, ao sair do cinema, meu co-autor
neste texto afirmou com todas as letras que a segunda parte de O
Senhor dos Anéis, As Duas Torres, seria um fracasso
retumbante por causa da frustração que o primeiro
causaria no espectador médio, que não está
acostumado a um filme de três horas que não acaba.
Devo apenas registrar a minha satisfação ao constatar
que aparentemente ele se enganou redondamente. Mesmo sendo às
dez e meia da manhã de sexta-feira, num shopping relativamente
isolado, a sessão que vimos estava cheia, e já recebi
notícias de sessões esgotadas várias horas
antes de começarem, como aconteceu com O Senhor dos Anéis:
A Sociedade do Anel. Parece que, mais do que frustrar o espectador
médio, o filme de Peter Jackson criou no público pagante
uma ansiedade por saber como que, afinal de contas, esta história
vai acabar. Mesmo que tenha que enfrentar mais seis horas de filme.
Marcel: Peter Jackson é responsável
por inúmeras façanhas da trilogia O Senhor dos
Anéis, mas estimular o retorno dos espectadores não
é uma delas. Quem melhor resumiu este “fenômeno”
foi um colega de trabalho tolkienmaníaco. Quando disse que,
mesmo não gostando de O Senhor dos Anéis: A Sociedade
do Anel, estava ansioso para ver sua continuação,
ele me respondeu sem titubear: “Claro que está! Com
toda esta propaganda em cima!”. É verdade. E ainda
acrescento: propaganda enganosa. Saí do segundo filme
ainda mais decepcionado, confuso e cansado do que no primeiro. Em
As Duas Torres, perde-se o único aspecto positivo
que salvava A Sociedade do Anel de ser apenas caríssima
tortura pretensiosa: o frescor de nos introduzir ao mágico
e complexo mundo de Tolkien. Em As Duas Torres, as únicas
novidades que causam algum encantamento são Gollum e Barbárvore.
De resto, tudo já foi visto antes.
Marcio:
Discordo. Me encantei exatamente pela complexidade da história,
que é seu diferencial entre outros filmes de batalha entre
o Bem e o Mal. A maioria dos filmes deste gênero mostram personagens
com a missão de salvar o mundo, numa história que
na verdade só diz respeito a eles. As Duas Torres
não se exime de realmente mostrar esse mundo, a situação
terrível em que está, e que seus habitantes não
estão sentados esperando que um punhado de pessoas os salve.
Infelizmente não estamos mais habituados a acompanhar histórias
com mais de dez personagens – principalmente se cinco deles
não morrem na primeira meia hora. O filme desdobra o mundo
que Frodo tem que salvar, e também aprofunda os personagens
da primeira parte – vemos a amizade entre Legolas e Gimli
nascer, as dificuldades de Frodo aumentarem, e Merry e Pippin desencadearem
ações que ninguém esperaria de hobbits coadjuvantes.
Tudo isso evita que O Senhor dos Anéis recaia na babaquice
simplista de que Star Wars é o maior exemplo.
Marcel: Mas essa complexidade já foi
um mérito do primeiro filme. Mais uma vez, a continuação
e sua exagerada metragem acabam por desgastar esta qualidade. E
não é apenas aí que As Duas Torres trabalha
para difamar as conquistas de A Sociedade do Anel. O novo
filme mostra Peter Jackson pela primeira vez como um editor preguiçoso
e um diretor inconseqüente. Ele foi o responsável por
mudanças no enredo que pouco acrescentam ao filme –
muito pelo contrário, só servem para irritar fãs
do livro e entediar não-iniciados. A insistência no
romance de Aragorn com Arwen ainda não rendeu quaisquer frutos.
A pseudo- morte
(marmelada!) do guerreiro também só serve para minar
a credibilidade da pseudo-morte de Frodo, que virá em O
Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (aliás, levando
em consideração a ressurreição de Gandalf,
a Terra-Média já soa como a Marvel, onde também
nenhum herói querido bate as botas de verdade). O personagem
do Faramir, especialmente depreciado por uma má intepretação,
parece simplesmente solto, sem qualquer função ou
solidez de caráter. Tudo isso foi intromissão desnecessária
de Jackson, que só serve para atrasar a narrativa.
Marcio: Nem tanto. Pelo próprio caráter
épico desse projeto, não se podia esperar que ele
tivesse menos de três horas, principalmente depois que a primeira
parte teve essa duração. Mas concordo que, se o primeiro
filme teve que fazer malabarismos para caber nestas três horas,
o segundo abusou de tomadas panorâmicas como técnica
para indicar que dias se passaram. No entanto, se houve adaptações
desastradas, houve outras muito acertadas, como a ênfase na
batalha de Helm. Caso seguisse o livro, assistiríamos por
meia hora aos Ents conversando (ação que dura vários
dias, no original) e veríamos pouco da batalha. A maior importância
dada a Eowyn, uma personagem bastante apagada no original, e a utilização
de Língua de Verme como interlocutor de Saruman também
foram boas adições. O saldo destes filmes ainda pende
muito mais para o positivo. A adaptação para as telas
está se saindo tão bela e coerente que acho que os
novos leitores de Tolkien terão dificuldades para imaginar
Aragorn com outra cara que a de Viggo Mortensen, ou Frodo diferente
de Elijah Wood.
Marcel:
Mas isto é óbvio. Quem vai ler Harry Potter
e não pensar em Daniel Radcliffe? Racionalmente, eu consigo
entender perfeitamente, e aceitar, que os dois filmes O Senhor
dos Anéis são ótimos, e que O Retorno
do Rei provavelmente será tão bom quanto os antecessores.
A fotografia é divina (aliás, mais um quesito em que
A Sociedade do Anel passa As Duas Torres); a escolha
do elenco, repito, é inquestionável; e os efeitos
especiais são, bem, os melhores até hoje. Mas, emocionalmente,
eu continuo me sentindo distante da história e dos personagens.
Com exceção de alguns poucos momentos de deslumbramento,
O Senhor dos Anéis ainda não me desperta nenhum
outro sentimento que não respeito (e sono). Ao menos, depois
do teste de resistência que foi As Duas Torres, admito
que não há chances de O Retorno do Rei ter
repercussão menor como acreditava que ocorreria com este
episódio. Até mesmo eu estou com vontade de saber
como acaba O Senhor dos Anéis... 
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