| UM FUTURO PRESENTE...
Mais de trinta anos depois de sua
estréia, Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick,
permanece atual, chocante e obra-prima do cinema
por Fabiano
Moraes (fabiano.moraes@uol.com.br)
 diretor
norte-americano Stanley Kubrick, falecido em 1998, é considerado
um dos mais polêmicos diretores da história cinematográfica.
Em sua filmografia constam grandes clássicos como: Lolita,
2001: Uma Odisséia no Espaço, Laranja Mecânica,
O Iluminado, Dr. Fantástico, Nascido para
Matar, De Olhos Bem Fechados (lançado após
a sua morte), além de seu audacioso projeto que foi feito
por Steven Spielberg em homenagem póstuma, A.I. -Inteligência
Artificial.
Se atualmente muitas pessoas consideram Laranja
Mecânica um filme violento, imagine a sociedade inglesa
em 1971, ano em que Laranja Mecânica foi lançado.
Na época, irritado com as críticas de que o filme
seria violento demais, o próprio Kubrick ordenou que o filme
fosse retirado de cartaz por lá. Ele chegou a declarar que
a obra só seria exibida por lá após sua morte.
Mas ainda hoje o filme continua proibido na terra da rainha. Mesmo
assim, muitos hooligans (fanáticos e violentos torcedores
ingleses de futebol) foram vistos nos estádios de futebol
vestindo casacos brancos, botas pretas e chapéu-coco, uma
alusão ao personagem principal do filme.
Como
Kubrick não permitiu que nenhuma cena do filme fosse cortada,
sua exibição foi proibida em vários países
do mundo. Aqui no Brasil somente em 1978 é que a censura
o liberou e mesmo assim, era exibido com “bolinhas pretas”
para disfarçar a nudez. Na Europa, alguns cinemas tentaram
disfarçar exibindo sob algum nome falso (como Fruta Mecânica).
Mas isso não impediu que algumas salas de exibição
fossem destruídas por vândalos, o que só contribuiu
para aumentar a fama de que o filme despertava violência.
Os jornais até começaram a chamar crimes violentos
de "clockwork crime".
Basicamente o filme trata da saga de Alexander DeLarge,
vulgo Alex, um jovem que, embora seja saudável e tenha boa
família, torna-se um delinqüente sem escrúpulos.
Alex é interpretado brilhantemente por Malcolm MacDowell.
Kubrick chegou a declarar que, se McDowell não estivesse
no elenco, dificilmente ele teria feito o filme.
Eu dividiria Laranja Mecânica em 3 grandes
partes.
A primeira é a que Alex e seus três
“drugues” (Pete, Georgie e Dim), como ele mesmo chamava
seu bando de delinqüentes ultraviolentos, cometem diversas
atrocidades, como espancar um mendigo idoso, provocar acidentes
na estrada, estuprar uma mulher diante de seu marido, entre outras
perversidades. Tudo pelo simples prazer de praticar a ultraviolência.
A segunda começa quando, depois de cometer
alguns crimes, finalmente Alex é condenado a 14 anos de prisão.
Lá, fica sabendo do Tratamento Ludovico, que, em fase experimental,
tem o objetivo de destruir o reflexo criminal. Uma espécie
de “solução” para a criminalidade humana.
É aí que nosso “humilde narrador” vê
sua chance de ser logo libertado.
A
última parte se dá com o retorno de Alex de volta
à sociedade, depois de quinze dias do “milagroso tratamento”
a base de drogas diárias e tendo que assistir a filmes violentos,
imóvel em uma camisa de força com seus olhos presos
sem poder piscar. Com seus instintos violentos “eliminados”,
Alex também se torna impotente para lidar com a violência
que o cerca.
O filme é baseado em um romance de mesmo nome
(A Clockwork Orange, em inglês) do autor Anthony Burgess.
Quem leu o livro comenta que o filme é bastante fiel à
história original, embora algumas poucas mudanças
tenham sido feitas, como elevar a idade das garotas, substituir
uma das cenas de estupro por sexo voluntário e retirar uma
cena de assassinato que Alex comete na prisão. Mas a maior
mudança e que fez a maior diferença no resultado final,
além de causar um terrível desgosto a Anthony Burgess
para o resto de sua vida, foi a exclusão do último
capítulo do livro, em que, depois de voltar a sociedade e
ser usado num jogo político, Alex tem sua lobotomia revertida
e forma uma nova gangue de drugues. Mas chega um determinado momento
em que, cansado de toda a violência que cometeu, Alex, por
vontade própria, opta em ter uma vida normal. A ausência
desse último capítulo se deve ao fato de Kubrick ter
usado a versão americana do livro (a que falta justamente
este pedaço), embora o longa tenha sido filmado na Inglaterra.
Laranja Mecânica é sem dúvida
alguma um dos pouquíssimos filmes que considero uma obra-prima.
Algo que se aproxima a uma “fotografia em estado bruto”
da hipocrisia social, de tão bem descrito que é. Retrata
também, de forma extraordinária, a perda de valores
da sociedade. É ela que condenou Alex por considerá-lo
um criminoso violento e perigoso que acaba por se revelar tão
(ou mais) violenta e perigosa quanto ele.
Embora eu não considere premiações
cinematográficas sinônimos de qualidade, vale ressaltar
que Laranja Mecânica recebeu quatro indicações
ao Oscar: melhor filme, melhor diretor (a terceira indicação
para Kubrick, mas ele nunca chegou a vencer nesta categoria), melhor
roteiro adaptado e melhor edição. Isso sem contar
as três indicações ao Globo de Ouro nas categorias
de melhor filme (drama), melhor diretor e melhor ator em drama (Malcolm
McDowell).
Sem
dúvida alguma, um dos grandes destaques do filme é
a ótima aplicação da música clássica
de Beethoven, Elgar e Rosini, interagindo de forma brilhante com
as cenas visuais. É como se a violência, algo tão
repugnante, de repente passasse a ter uma trilha sonora com belíssimas
canções. Talvez, Kubrick quisesse expressar a eterna
luta da dualidade do ser humano entre o bem (representado por belas
canções) e o mal (representado por terríveis
atrocidades).
Também não posso esquecer da grande
sacada de Kubrick em usar o clássico "Singin' in the
Rain" de Gene Kelly em Cantando na Chuva. Quem assiste
Laranja Mecânica dificilmente escutará "Singin'
in the Rain" outra vez sem lembrar da famosa cena em que Alex
a canta tranqüilamente enquanto estupra a mulher do escritor.
Ou do momento em que o escritor descobre ser Alex o assassino de
sua esposa ao escutá-lo cantarolando no banheiro de sua casa.
Um detalhe que chama atenção no filme
é o uso de "supostas gírias" (ptitsa,
tolchoke, iardos, guliver, devotchka,
entre várias outras). Na verdade, essa linguagem foi criada
pelo autor da história, Anthony Burgess, que misturou Russo
a gíria Cockney (das arquibancadas dos estádios ingleses
dos anos 50). A idéia era dar a Alex um caráter vaidoso
em relação à estética, tanto musical,
visual, quanto lingüística, desenvolvendo até
seu próprio dialeto.
Em Laranja Mecânica o espectador precisa
estar atento a todos os detalhes, o que não é difícil,
pois Kubrick sabia como ninguém produzir enredos tão
bons, de tal forma que prendem a atenção de quem o
assiste. Também vale a pena assisti-lo diversas vezes, pois,
embora haja um tema central, que é ter ou não liberdade
de escolha, o filme pode nos levar a milhares de reflexões
e interpretações diferentes. Das duas, uma: Laranja
Mecânica é um filme que se ama ou se odeia, não
existe meio-termo. 
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