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9 a 22 de janeiro de 2003


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UM FUTURO PRESENTE...
Mais de trinta anos depois de sua estréia, Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, permanece atual, chocante e obra-prima do cinema

por Fabiano Moraes (fabiano.moraes@uol.com.br)

 diretor norte-americano Stanley Kubrick, falecido em 1998, é considerado um dos mais polêmicos diretores da história cinematográfica. Em sua filmografia constam grandes clássicos como: Lolita, 2001: Uma Odisséia no Espaço, Laranja Mecânica, O Iluminado, Dr. Fantástico, Nascido para Matar, De Olhos Bem Fechados (lançado após a sua morte), além de seu audacioso projeto que foi feito por Steven Spielberg em homenagem póstuma, A.I. -Inteligência Artificial.

Se atualmente muitas pessoas consideram Laranja Mecânica um filme violento, imagine a sociedade inglesa em 1971, ano em que Laranja Mecânica foi lançado. Na época, irritado com as críticas de que o filme seria violento demais, o próprio Kubrick ordenou que o filme fosse retirado de cartaz por lá. Ele chegou a declarar que a obra só seria exibida por lá após sua morte. Mas ainda hoje o filme continua proibido na terra da rainha. Mesmo assim, muitos hooligans (fanáticos e violentos torcedores ingleses de futebol) foram vistos nos estádios de futebol vestindo casacos brancos, botas pretas e chapéu-coco, uma alusão ao personagem principal do filme.

Como Kubrick não permitiu que nenhuma cena do filme fosse cortada, sua exibição foi proibida em vários países do mundo. Aqui no Brasil somente em 1978 é que a censura o liberou e mesmo assim, era exibido com “bolinhas pretas” para disfarçar a nudez. Na Europa, alguns cinemas tentaram disfarçar exibindo sob algum nome falso (como Fruta Mecânica). Mas isso não impediu que algumas salas de exibição fossem destruídas por vândalos, o que só contribuiu para aumentar a fama de que o filme despertava violência. Os jornais até começaram a chamar crimes violentos de "clockwork crime".

Basicamente o filme trata da saga de Alexander DeLarge, vulgo Alex, um jovem que, embora seja saudável e tenha boa família, torna-se um delinqüente sem escrúpulos. Alex é interpretado brilhantemente por Malcolm MacDowell. Kubrick chegou a declarar que, se McDowell não estivesse no elenco, dificilmente ele teria feito o filme.

Eu dividiria Laranja Mecânica em 3 grandes partes.

A primeira é a que Alex e seus três “drugues” (Pete, Georgie e Dim), como ele mesmo chamava seu bando de delinqüentes ultraviolentos, cometem diversas atrocidades, como espancar um mendigo idoso, provocar acidentes na estrada, estuprar uma mulher diante de seu marido, entre outras perversidades. Tudo pelo simples prazer de praticar a ultraviolência.

A segunda começa quando, depois de cometer alguns crimes, finalmente Alex é condenado a 14 anos de prisão. Lá, fica sabendo do Tratamento Ludovico, que, em fase experimental, tem o objetivo de destruir o reflexo criminal. Uma espécie de “solução” para a criminalidade humana. É aí que nosso “humilde narrador” vê sua chance de ser logo libertado.

A última parte se dá com o retorno de Alex de volta à sociedade, depois de quinze dias do “milagroso tratamento” a base de drogas diárias e tendo que assistir a filmes violentos, imóvel em uma camisa de força com seus olhos presos sem poder piscar. Com seus instintos violentos “eliminados”, Alex também se torna impotente para lidar com a violência que o cerca.

O filme é baseado em um romance de mesmo nome (A Clockwork Orange, em inglês) do autor Anthony Burgess. Quem leu o livro comenta que o filme é bastante fiel à história original, embora algumas poucas mudanças tenham sido feitas, como elevar a idade das garotas, substituir uma das cenas de estupro por sexo voluntário e retirar uma cena de assassinato que Alex comete na prisão. Mas a maior mudança e que fez a maior diferença no resultado final, além de causar um terrível desgosto a Anthony Burgess para o resto de sua vida, foi a exclusão do último capítulo do livro, em que, depois de voltar a sociedade e ser usado num jogo político, Alex tem sua lobotomia revertida e forma uma nova gangue de drugues. Mas chega um determinado momento em que, cansado de toda a violência que cometeu, Alex, por vontade própria, opta em ter uma vida normal. A ausência desse último capítulo se deve ao fato de Kubrick ter usado a versão americana do livro (a que falta justamente este pedaço), embora o longa tenha sido filmado na Inglaterra.

Laranja Mecânica é sem dúvida alguma um dos pouquíssimos filmes que considero uma obra-prima. Algo que se aproxima a uma “fotografia em estado bruto” da hipocrisia social, de tão bem descrito que é. Retrata também, de forma extraordinária, a perda de valores da sociedade. É ela que condenou Alex por considerá-lo um criminoso violento e perigoso que acaba por se revelar tão (ou mais) violenta e perigosa quanto ele.

Embora eu não considere premiações cinematográficas sinônimos de qualidade, vale ressaltar que Laranja Mecânica recebeu quatro indicações ao Oscar: melhor filme, melhor diretor (a terceira indicação para Kubrick, mas ele nunca chegou a vencer nesta categoria), melhor roteiro adaptado e melhor edição. Isso sem contar as três indicações ao Globo de Ouro nas categorias de melhor filme (drama), melhor diretor e melhor ator em drama (Malcolm McDowell).

Sem dúvida alguma, um dos grandes destaques do filme é a ótima aplicação da música clássica de Beethoven, Elgar e Rosini, interagindo de forma brilhante com as cenas visuais. É como se a violência, algo tão repugnante, de repente passasse a ter uma trilha sonora com belíssimas canções. Talvez, Kubrick quisesse expressar a eterna luta da dualidade do ser humano entre o bem (representado por belas canções) e o mal (representado por terríveis atrocidades).

Também não posso esquecer da grande sacada de Kubrick em usar o clássico "Singin' in the Rain" de Gene Kelly em Cantando na Chuva. Quem assiste Laranja Mecânica dificilmente escutará "Singin' in the Rain" outra vez sem lembrar da famosa cena em que Alex a canta tranqüilamente enquanto estupra a mulher do escritor. Ou do momento em que o escritor descobre ser Alex o assassino de sua esposa ao escutá-lo cantarolando no banheiro de sua casa.

Um detalhe que chama atenção no filme é o uso de "supostas gírias" (ptitsa, tolchoke, iardos, guliver, devotchka, entre várias outras). Na verdade, essa linguagem foi criada pelo autor da história, Anthony Burgess, que misturou Russo a gíria Cockney (das arquibancadas dos estádios ingleses dos anos 50). A idéia era dar a Alex um caráter vaidoso em relação à estética, tanto musical, visual, quanto lingüística, desenvolvendo até seu próprio dialeto.

Em Laranja Mecânica o espectador precisa estar atento a todos os detalhes, o que não é difícil, pois Kubrick sabia como ninguém produzir enredos tão bons, de tal forma que prendem a atenção de quem o assiste. Também vale a pena assisti-lo diversas vezes, pois, embora haja um tema central, que é ter ou não liberdade de escolha, o filme pode nos levar a milhares de reflexões e interpretações diferentes. Das duas, uma: Laranja Mecânica é um filme que se ama ou se odeia, não existe meio-termo.