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9 a 22 de janeiro de 2003


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O CAVALEIRO APOCALÍPTICO
Há uma década saía de cena Otto Lara Resende

por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)

  decisão foi tomada por ele mesmo. Iria operar–se. A hérnia de disco ainda não constituía um caso cirúrgico, mas incomodava quando, diariamente e durante horas, ele sentava–se diante da Olivetti para redigir cartas, contos ou as crônicas que publicava durante seis dias na página 2 da Folha de S.Paulo. A esposa Helena Lara Resende havia passado por algo semelhante e o resultado foi bem sucedido.

Em 30 de novembro de 1992, Otto Lara Resende escreve sua última crônica para a Folha e retira–se para a cirurgia que culminaria em sua morte no dia 28 de dezembro do mesmo ano, deixando familiares, parentes, amigos e leitores perplexos. O laudo da equipe médica indicaria embolia pulmonar. A família alega que o escritor foi vítima de infecção hospitalar, dado que ele foi operado duas vezes, retornou para casa e voltou ao hospital onde agonizou durante dez dias, até deixar a vida com as mãos atadas às da mulher com quem permaneceu casado por 44 anos. Encerrava–se assim uma das carreiras mais admiradas e elogiadas do jornalismo e da literatura brasileira.

Lara Resende nasceu na barroca cidade de São João Del Rey, em Minas Gerais, no dia 1º de maio de 1922. Dia do trabalho. Ano da Semana de Arte Moderna. Cresceu entre as igrejas e os livros. Ainda adolescente, começou a lecionar francês, que aprendeu por conta própria e aos 16 estreou no jornalismo em O Diário, já em Belo Horizonte, para onde a família havia mudado. Formou–se em Direito, mas a atividade que exerceu majoritariamente em sua vida foi a de jornalista. Em uma entrevista a Paulo Mendes Campos, cuja única pergunta era “Quem é Otto Lara Resende?”, afirmou: “entrei no jornalismo exatamente como cachorro entra na igreja: porque achei a porta aberta”.

Colaborou em mais de doze jornais, dentre eles o Jornal do Brasil, Última Hora e Correio da Manhã e revistas. Foi redator e diretor da revista Manchete, do grupo Bloch. Na TV Globo, em meados dos anos 60, foi brindado com um programa chamando O Pequeno Mundo de Otto Lara Resende. Durante um minuto o jornalista podia tratar de qualquer assunto que lhe viesse a mente, podia contar estórias, comentar uma notícia. O problema era fazer Otto parar de falar. Com o tempo ele foi ajustando–se ao espaço do programa. O mesmo desafio apareceu em seu último ano de vida, quando foi convidado a escrever crônicas na Folha de S.Paulo. O espaço permitia, no máximo, trinta linhas datilografadas e ele precisou se adaptar.

Apesar de ter tido no jornalismo uma carreira glorificada, conseguindo muitas vezes o que para muitos repórteres parecia impossível, a vida profissional deste mineiro nunca foi muito bem resolvida. Até os últimos anos de sua vida ele questionava–se a respeito do caminho a seguir. Durante o tempo em que trabalhou como advogado substituto na Procuradoria do Estado do Rio de Janeiro, sentiu uma certa nostalgia do Direito. Certa vez acompanhou o poeta João Cabral de Melo Neto para um depoimento. Cabral estava sendo acusado de ligação com o comunismo e caiu–lhe sobre os ombros pesada investigação. O poeta entrou para depor achando que o amigo havia voltado para casa. Quando saiu da sala encontrou-o sentado tranqüilamente lendo um jornal. Questionado a respeito da sua permanência no local durante todo aquele tempo, Lara Resende respondeu: “me lembrei que sou advogado, você poderia precisar de um”.

Atitudes como esta, tornaram-no benquisto por gregos e troianos. Era um conciliador nato. Esta habilidade trouxe–lhe mais um ofício, o de “ghost writer”. Era freqüentemente chamado para escrever discursos e cartas para políticos importantes. Chegou a escrever em dois jornais concorrentes, O Globo – de Roberto Marinho – e Diário de Notícias – de Orlando Dantas. Em um redigia um editorial atacando a posição do concorrente e no outro compunha um segundo editorial defendendo esta mesma posição. Na sua opinião, não possuía inimigos porque sempre entrava e entendia o campo do adversário e sua desenvoltura no campo das negociações permitiu que ele conseguisse driblar o cerco da censura quando ela se fez presente na ditadura getulista e posteriormente na ditadura militar.

Outra aptidão bastante conhecida de Resende era sua tendência ao gracejo. Divertia os amigos na redação de O Globo imitando o chefe Roberto Marinho. Quem viu dizia ser impecável a apresentação. Gostava de piadas, de ironias e por vezes utilizava este dom em meios que podiam trazer–lhe complicações. Na véspera da promulgação da Constituição de 1946, imitando a letra do líder comunista Luís Carlos Prestes, Otto elaborou e distribuiu entre amigos uma circular que finalizava com uma frase perigosa afirmando ser aquela Constituição “uma boa merda”. Alertado pelos amigos, tratou de não deixar que a carta chegasse as mãos do próprio Prestes, cujo senso de humor não era dos melhores. Admirava–o e no perfil que traçou a seu respeito em abril de 1992 dizia que Prestes fez história na contramão da história.

Muitos outros perfis foram esculpidos pelas mãos de Otto Lara Resende e publicados postumamente na obra O Príncipe e o Sabiá (Companhia das Letras & Instituto Moreira Sales - São Paulo – 1994 – Organização de Ana Miranda). Sua vida literária foi tranqüila. Gostava dos escritores, era amigo de muitos, mas não apreciava a vida de literato. Nunca teve horário fixo para escrever e durante os setenta anos de vida publicou apenas sete obras. Possuía uma verdadeira obsessão pela perfeição. Escrevia as obras e passava os anos seguintes reescrevendo. Seu único romance, O Braço Direito, de 1964, sofreu tantas modificações que o autor brincava dizendo que já havia virado “O Braço Esquerdo”. Os outros livros são coletâneas de contos escritos com tanto primor que em 1979 ele foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira deixada por Elmano Cardim.

A indicação para a ala dos imortais é um capítulo controverso. Atribui–se a um de seus melhores amigos, o psicanalista Hélio Pellegrino, o envio do telegrama que manifestava a vontade de Otto de ser membro da academia. Este, porém, afirmava preferir ser “imorrível” a ser imortal. Incongruência típica de alguém que definia–se como “um poço de contradições”. Um falante que amava o silêncio. Alguém que gostaria de participar de tudo e ao mesmo tempo de não estar presente em nada. Que não tentou em vida tudo o que gostaria, mas efetuou com competência todas as atividades que exigiram sua presença.

Temia a morte repentina. A idéia de que um dia iria morrer tornou–se palatável com o passar dos anos, embora na juventude constituísse um verdadeiro pesadelo. “Para mim é absolutamente fundamental que o espetáculo não termine aqui embaixo, na Terra”. Sempre foi precavido com a saúde e sonhava em chegar aos oitenta anos saudável e perfeito, como o pai, que morreu aos noventa e quatro anos. No fundo tinha receio de agonizar em alguma enfermaria. Intimamente rezava para que isso não acontecesse com ele. Mas aconteceu. Otto Lara Resende não retirou–se de cena, foi retirado. “Parece que de repente, tendo eu fechado os olhos, dormitado, em seguida aberto ditos olhos, tiraram o cenário, mudaram a peça”. »»