| O CAVALEIRO APOCALÍPTICO
Há uma década saía
de cena Otto Lara Resende
por Ana Lira
(analira@rabisco.com.br)

decisão foi tomada por ele mesmo. Iria operar–se. A
hérnia de disco ainda não constituía um caso
cirúrgico, mas incomodava quando, diariamente e durante horas,
ele sentava–se diante da Olivetti para redigir cartas, contos
ou as crônicas que publicava durante seis dias na página
2 da Folha de S.Paulo. A esposa Helena Lara Resende havia
passado por algo semelhante e o resultado foi bem sucedido.
Em 30 de novembro de 1992, Otto Lara Resende escreve
sua última crônica para a Folha e retira–se
para a cirurgia que culminaria em sua morte no dia 28 de dezembro
do mesmo ano, deixando familiares, parentes, amigos e leitores perplexos.
O laudo da equipe médica indicaria embolia pulmonar. A família
alega que o escritor foi vítima de infecção
hospitalar, dado que ele foi operado duas vezes, retornou para casa
e voltou ao hospital onde agonizou durante dez dias, até
deixar a vida com as mãos atadas às da mulher com
quem permaneceu casado por 44 anos. Encerrava–se assim uma
das carreiras mais admiradas e elogiadas do jornalismo e da literatura
brasileira.
Lara Resende nasceu na barroca cidade de São
João Del Rey, em Minas Gerais, no dia 1º de maio de
1922. Dia do trabalho. Ano da Semana de Arte Moderna. Cresceu entre
as igrejas e os livros. Ainda adolescente, começou a lecionar
francês, que aprendeu por conta própria e aos 16 estreou
no jornalismo em O Diário, já em Belo Horizonte,
para onde a família havia mudado. Formou–se em Direito,
mas a atividade que exerceu majoritariamente em sua vida foi a de
jornalista. Em uma entrevista a Paulo Mendes Campos, cuja única
pergunta era “Quem é Otto Lara Resende?”, afirmou:
“entrei no jornalismo exatamente como cachorro entra na igreja:
porque achei a porta aberta”.
Colaborou
em mais de doze jornais, dentre eles o Jornal do Brasil,
Última Hora e Correio da Manhã e revistas.
Foi redator e diretor da revista Manchete, do grupo Bloch.
Na TV Globo, em meados dos anos 60, foi brindado com um programa
chamando O Pequeno Mundo de Otto Lara Resende. Durante um
minuto o jornalista podia tratar de qualquer assunto que lhe viesse
a mente, podia contar estórias, comentar uma notícia.
O problema era fazer Otto parar de falar. Com o tempo ele foi ajustando–se
ao espaço do programa. O mesmo desafio apareceu em seu último
ano de vida, quando foi convidado a escrever crônicas na Folha
de S.Paulo. O espaço permitia, no máximo, trinta
linhas datilografadas e ele precisou se adaptar.
Apesar de ter tido no jornalismo uma carreira glorificada,
conseguindo muitas vezes o que para muitos repórteres parecia
impossível, a vida profissional deste mineiro nunca foi muito
bem resolvida. Até os últimos anos de sua vida ele
questionava–se a respeito do caminho a seguir. Durante o tempo
em que trabalhou como advogado substituto na Procuradoria do Estado
do Rio de Janeiro, sentiu uma certa nostalgia do Direito. Certa
vez acompanhou o poeta João Cabral de Melo Neto para um depoimento.
Cabral estava sendo acusado de ligação com o comunismo
e caiu–lhe sobre os ombros pesada investigação.
O poeta entrou para depor achando que o amigo havia voltado para
casa. Quando saiu da sala encontrou-o sentado tranqüilamente
lendo um jornal. Questionado a respeito da sua permanência
no local durante todo aquele tempo, Lara Resende respondeu: “me
lembrei que sou advogado, você poderia precisar de um”.
Atitudes como esta, tornaram-no benquisto por gregos
e troianos. Era um conciliador nato. Esta habilidade trouxe–lhe
mais um ofício, o de “ghost writer”. Era freqüentemente
chamado para escrever discursos e cartas para políticos importantes.
Chegou a escrever em dois jornais concorrentes, O Globo –
de Roberto Marinho – e Diário de Notícias
– de Orlando Dantas. Em um redigia um editorial atacando a
posição do concorrente e no outro compunha um segundo
editorial defendendo esta mesma posição. Na sua opinião,
não possuía inimigos porque sempre entrava e entendia
o campo do adversário e sua desenvoltura no campo das negociações
permitiu que ele conseguisse driblar o cerco da censura quando ela
se fez presente na ditadura getulista e posteriormente na ditadura
militar.
Outra aptidão bastante conhecida de Resende
era sua tendência ao gracejo. Divertia os amigos na redação
de O Globo imitando o chefe Roberto Marinho. Quem viu dizia
ser impecável a apresentação. Gostava de piadas,
de ironias e por vezes utilizava este dom em meios que podiam trazer–lhe
complicações. Na véspera da promulgação
da Constituição de 1946, imitando a letra do líder
comunista Luís Carlos Prestes, Otto elaborou e distribuiu
entre amigos uma circular que finalizava com uma frase perigosa
afirmando ser aquela Constituição “uma boa merda”.
Alertado pelos amigos, tratou de não deixar que a carta chegasse
as mãos do próprio Prestes, cujo senso de humor não
era dos melhores. Admirava–o e no perfil que traçou
a seu respeito em abril de 1992 dizia que Prestes fez história
na contramão da história.
Muitos
outros perfis foram esculpidos pelas mãos de Otto Lara Resende
e publicados postumamente na obra O Príncipe e o Sabiá
(Companhia das Letras & Instituto Moreira Sales - São
Paulo – 1994 – Organização de Ana Miranda).
Sua vida literária foi tranqüila. Gostava dos escritores,
era amigo de muitos, mas não apreciava a vida de literato.
Nunca teve horário fixo para escrever e durante os setenta
anos de vida publicou apenas sete obras. Possuía uma verdadeira
obsessão pela perfeição. Escrevia as obras
e passava os anos seguintes reescrevendo. Seu único romance,
O Braço Direito, de 1964, sofreu tantas modificações
que o autor brincava dizendo que já havia virado “O
Braço Esquerdo”. Os outros livros são coletâneas
de contos escritos com tanto primor que em 1979 ele foi eleito membro
da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira deixada por
Elmano Cardim.
A indicação para a ala dos imortais
é um capítulo controverso. Atribui–se a um de
seus melhores amigos, o psicanalista Hélio Pellegrino, o
envio do telegrama que manifestava a vontade de Otto de ser membro
da academia. Este, porém, afirmava preferir ser “imorrível”
a ser imortal. Incongruência típica de alguém
que definia–se como “um poço de contradições”.
Um falante que amava o silêncio. Alguém que gostaria
de participar de tudo e ao mesmo tempo de não estar presente
em nada. Que não tentou em vida tudo o que gostaria, mas
efetuou com competência todas as atividades que exigiram sua
presença.
Temia a morte repentina. A idéia de que um
dia iria morrer tornou–se palatável com o passar dos
anos, embora na juventude constituísse um verdadeiro pesadelo.
“Para mim é absolutamente fundamental que o espetáculo
não termine aqui embaixo, na Terra”. Sempre foi precavido
com a saúde e sonhava em chegar aos oitenta anos saudável
e perfeito, como o pai, que morreu aos noventa e quatro anos. No
fundo tinha receio de agonizar em alguma enfermaria. Intimamente
rezava para que isso não acontecesse com ele. Mas aconteceu.
Otto Lara Resende não retirou–se de cena, foi retirado.
“Parece que de repente, tendo eu fechado os olhos, dormitado,
em seguida aberto ditos olhos, tiraram o cenário, mudaram
a peça”. »»
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