| O PEQUENO MUNDO DE OTTO LARA RESENDE
Certas peculiaridades da vida do escritor
merecem capítulos a parte
por Ana Lira
(analira@rabisco.com.br)
BATEAU OU BISTRÔ???
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| Nelson Rodrigues e Otto Lara Resende |
amizade de Otto Lara Resende e Nelson Rodrigues encaixaria-se perfeitamente
dentro de um dos textos do dramaturgo pernambucano, pela personalidade
contrastante de ambos. Otto era a calmaria e Nelson a tempestade.
Muitos não entendiam como os dois davam–se tão
bem. No perfil que traçou de Nelson dois anos após
a sua morte, Lara Resende escreveria que o palco rodrigueano sempre
foi a redação de jornal e suas linhas se encerrariam
com uma homenagem aquele que dizia ter o jornalismo na alma: “seu
sangue cheirava a tinta e sua pele era papel linha d´água”.
As homenagens de Nelson, embora bem intencionadas,
eram sempre inflamadas e colocavam o mineiro recatado em situações
constrangedoras. Como no dia em que publicou em sua crônica,
no Correio da Manhã, que Otto Lara Resende havia decido
conhecer a noite carioca e voltou apavorado por dar de cara com
um padre no Bateau, considerado pelo cronista um caldeirão
de falsas delícias. Nelson diz ainda em seu texto que o próprio
Otto havia afirmado que o padre tinha sido levado por um velho conhecido
da humanidade: o diabo. Ou podia ser o sacerdote o próprio
demo em um de seus inumeráveis disfarces.
A repercussão da crônica foi imediata.
Advertido por Hélio Pellegrino, Nelson Rodrigues confirmou
sua “inconfidência suprema” na crônica do
dia seguinte, mas ao contrário de tentar abafar o caso, deu–lhe
mais algumas dezenas de linhas, desta vez relatando a popularidade
do amigo no estabelecimento e a disputa pela sua presença
nas mesas com direito a garçons chamando–o de “doutor,
doutor”. Para colocar ainda mais lenha na fogueira, ironicamente,
ele deixa–se cair em contradição e escreve que
possivelmente tenha enganado–se com relação
ao nome do local. Seria o Bateau ou o Bistrô?
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| Fernando Sabino, Helio Pellegrino, Otto Lara
Resende e Paulo Mendes Campos |
OS QUATRO CAVALEIROS DE UM ÍNTIMO APOCALIPSE
(ou os adolescentes definitivos)
Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Hélio
Pellegrino e Otto Lara Resende, todos mineiros, formaram um dos
quartetos mais famosos do país e foram devidamente apelidados
por Resende como “os adolescentes definitivos”. Paulinho,
como era chamado Mendes Campos, foi o primeiro grande amigo de Otto.
Conheceram–se ainda em São João Del Rey e freqüentaram
a escola de inglês juntos.
Segundo escreveu o jornalista Benicio Medeiros na
biografia Otto Lara Resende – A Poeira da Glória
(Relume Dumará & Secretaria Municipal de Cultura –
Coleção Perfis do Rio - Rio de Janeiro – 1998),
o primeiro contato de Resende com Sabino foi durante a infância
de ambos, em uma visita de Otto a Belo Horizonte. Nandinho, como
era conhecido, encontrava–se dentro de uma loja e convidava
a todos para entrar. Otto não atendeu o pedido matreiro do
coleguinha e com razão, pois todos os que cruzavam o assoalho
da porta eram agraciados com um presente de grego: um pequeno choque
elétrico. Mas a amizade mesmo só foi consolidada na
adolescência, quando a família Resende passou a residir
na capital mineira. O mesmo aconteceu com Hélio Pellegrino,
que apesar de amar literatura, não seguiu o mesmo passo dos
amigos e tornou–se um psicanalista de renome.
O ponto de encontro dos quatro era algum café
ou bar da cidade, onde, até altas horas da noite discutiam
ardentemente política e literatura. Nesta rotina eles tornaram–se
amigos de Mario de Andrade e Oswald de Andrade, Carlos Drummond
de Andrade, Pedro Nava e de outros tantos autores e jornalistas
da época, morassem ou não em Minas Gerais. Até
o fim da vida mantiveram uma amizade regada a sinceridade e muitas
doses de bom humor. Este levado até o limite da gozação
quando, morando em terras portuguesas, Otto recebia carta dos amigos
fazendo referências a críticas e filmes em que seu
nome supostamente estaria inserido, mas sem fazer declarações
diretas a respeito dos elementos citados. Resende ficava enlouquecido
sem saber que críticas eram aquelas, enquanto os companheiros
davam risadas de suas dúvidas que cresciam cada vez mais
a cada carta trocada.
UM
HOMEM CHAMADO CARTA
Lara Resende foi um exímio usuário
dos Correios e Telégrafos. Enviava cartas até mesmo
para os amigos que moravam perto de sua residência. Redigiu
dezenas de correspondências, espalhadas pelo mundo com os
mais diversos assuntos. Escrevia compulsivamente. Para amigos distantes,
para amigos com quem acabara de falar ao telefone, para colocar
um pouco mais suas opiniões a respeito dos assuntos abordados
nas conversas. Gostava de ir pessoalmente a agência postar
os envelopes, para antes colar os selos um por um. Fazia por prazer.
Este foi retribuído postumamente quando a ECT produziu um
documentário a respeito de sua vida intitulado Um Homem
Chamado Carta, e lançado no ano de 1994. Também
foi lançado neste mesmo ano um selo comemorativo em homenagem
ao autor na série Personalidades.
AS OBRAS
Grande parte da obra literária de Resende
foi escrita em forma de conto. Foram seis coletâneas e um
romance publicados em vida e postumamente foram lançados
um livro de crônicas, um livro de perfis e uma coletânea
de novelas. O caso mais polêmico foi o lançamento de
Boca do Inferno, em 1957. O livro rendeu puxões de
orelha do próprio pai, além de manifestações
pesadas por parte do setor conservador da Igreja Católica
e de representantes de famílias mineiras tradicionalistas.
A questão é que o livro tratava da infância
como algo trágico. Enfocava as maldades infantis e isso aterrorizou
as vertentes mais recatadas da sociedade mineira, que pareciam ter
representantes na sociedade carioca, pois até a casa do escritor
sofreu depreciação como resposta ao livro. No fim
dos seus dias, o autor ria deste episódio colocando que na
década de oitenta Boca do Inferno já teria
sido ultrapassado e seus contos eram agora inocentes se comparados
às publicações que circulavam pelo meio literário.
A obra de Otto Lara Resende é composta por:
Livros lançados em vida
- O Lado Humano
Contos – Editora A Noite - 1952
- Boca do Inferno
Contos – Editora José Olympio 1957
Companhia das Letras - 2002
- O Retrato na Gaveta
Contos – Editora do Autor - 1962
Editora Livros do Brasil - 1969
- O Braço Direito
Romance – Editora do Autor – 1963
Companhia das Letras - 1993
- Os Sete Pecados Capitais
Compilação de Contos em que escreveu A Cilada
Civilização Brasileira – 1965
Bertrand Editora - 2000
- As Pompas do Mundo
Contos - Rocco - 1975
- O Elo Partido e Outras Histórias
Contos - 1991)
Ática – 1999
Livros Póstumos
- Bom Dia para Nascer
Compilação das crônicas publicadas na Folha
de S.Paulo no período de maio de 1991 a novembro de
1992
Companhia das Letras - 1993
- O Príncipe e o Sabiá e Outros Perfis
Compilação de Perfis escritos por Otto Lara Resende
Companhia das Letras - 1994
- A Testemunha Silenciosa
Compilação de duas novelas, uma de título
homônimo e a reedição de A Cilada.
Companhia das Letras – 1995
- Três Ottos
Otto Lara Resende
Organização: Tatiana Longo dos Santos
Instituto Moreira Salles - 2002
Obras sobre o autor
- Otto Lara Resende – A Poeira da Glória
Benicio Medeiros
Relume Dumará & Secretaria Municipal de Cultura
Coleção Perfis do Rio – 1998
- O Mundo Misantrópico de Otto Lara Resende
Malcolm Silverman
Civilização Brasileira - 1981
Tradução de João Guilherme Linke
A EXPOSIÇÃO
O Instituto Moreira Sales, no Rio de Janeiro, abriu
o baú de Otto Lara Resende para visitação pública,
mediante agendamento através do telefone da Instituição.
Contando com mais de 20 mil documentos, dentre eles cartas, fotografias,
textos e manuscritos, o acervo pode estará disponível
até o dia 4 de maio de 2003.
Mais informações: (11) 3825-2560
| www.ims.com.br
- ver no rodapé Agenda – IMS – Rio de Janeiro

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