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9 a 22 de janeiro de 2003


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O PEQUENO MUNDO DE OTTO LARA RESENDE
Certas peculiaridades da vida do escritor merecem capítulos a parte

por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)

 BATEAU OU BISTRÔ???

  Nelson Rodrigues e Otto Lara Resende

  amizade de Otto Lara Resende e Nelson Rodrigues encaixaria-se perfeitamente dentro de um dos textos do dramaturgo pernambucano, pela personalidade contrastante de ambos. Otto era a calmaria e Nelson a tempestade. Muitos não entendiam como os dois davam–se tão bem. No perfil que traçou de Nelson dois anos após a sua morte, Lara Resende escreveria que o palco rodrigueano sempre foi a redação de jornal e suas linhas se encerrariam com uma homenagem aquele que dizia ter o jornalismo na alma: “seu sangue cheirava a tinta e sua pele era papel linha d´água”.

As homenagens de Nelson, embora bem intencionadas, eram sempre inflamadas e colocavam o mineiro recatado em situações constrangedoras. Como no dia em que publicou em sua crônica, no Correio da Manhã, que Otto Lara Resende havia decido conhecer a noite carioca e voltou apavorado por dar de cara com um padre no Bateau, considerado pelo cronista um caldeirão de falsas delícias. Nelson diz ainda em seu texto que o próprio Otto havia afirmado que o padre tinha sido levado por um velho conhecido da humanidade: o diabo. Ou podia ser o sacerdote o próprio demo em um de seus inumeráveis disfarces.

A repercussão da crônica foi imediata. Advertido por Hélio Pellegrino, Nelson Rodrigues confirmou sua “inconfidência suprema” na crônica do dia seguinte, mas ao contrário de tentar abafar o caso, deu–lhe mais algumas dezenas de linhas, desta vez relatando a popularidade do amigo no estabelecimento e a disputa pela sua presença nas mesas com direito a garçons chamando–o de “doutor, doutor”. Para colocar ainda mais lenha na fogueira, ironicamente, ele deixa–se cair em contradição e escreve que possivelmente tenha enganado–se com relação ao nome do local. Seria o Bateau ou o Bistrô?

Fernando Sabino, Helio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos

OS QUATRO CAVALEIROS DE UM ÍNTIMO APOCALIPSE
(ou os adolescentes definitivos)

Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino e Otto Lara Resende, todos mineiros, formaram um dos quartetos mais famosos do país e foram devidamente apelidados por Resende como “os adolescentes definitivos”. Paulinho, como era chamado Mendes Campos, foi o primeiro grande amigo de Otto. Conheceram–se ainda em São João Del Rey e freqüentaram a escola de inglês juntos.

Segundo escreveu o jornalista Benicio Medeiros na biografia Otto Lara Resende – A Poeira da Glória (Relume Dumará & Secretaria Municipal de Cultura – Coleção Perfis do Rio - Rio de Janeiro – 1998), o primeiro contato de Resende com Sabino foi durante a infância de ambos, em uma visita de Otto a Belo Horizonte. Nandinho, como era conhecido, encontrava–se dentro de uma loja e convidava a todos para entrar. Otto não atendeu o pedido matreiro do coleguinha e com razão, pois todos os que cruzavam o assoalho da porta eram agraciados com um presente de grego: um pequeno choque elétrico. Mas a amizade mesmo só foi consolidada na adolescência, quando a família Resende passou a residir na capital mineira. O mesmo aconteceu com Hélio Pellegrino, que apesar de amar literatura, não seguiu o mesmo passo dos amigos e tornou–se um psicanalista de renome.

O ponto de encontro dos quatro era algum café ou bar da cidade, onde, até altas horas da noite discutiam ardentemente política e literatura. Nesta rotina eles tornaram–se amigos de Mario de Andrade e Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava e de outros tantos autores e jornalistas da época, morassem ou não em Minas Gerais. Até o fim da vida mantiveram uma amizade regada a sinceridade e muitas doses de bom humor. Este levado até o limite da gozação quando, morando em terras portuguesas, Otto recebia carta dos amigos fazendo referências a críticas e filmes em que seu nome supostamente estaria inserido, mas sem fazer declarações diretas a respeito dos elementos citados. Resende ficava enlouquecido sem saber que críticas eram aquelas, enquanto os companheiros davam risadas de suas dúvidas que cresciam cada vez mais a cada carta trocada.

UM HOMEM CHAMADO CARTA

Lara Resende foi um exímio usuário dos Correios e Telégrafos. Enviava cartas até mesmo para os amigos que moravam perto de sua residência. Redigiu dezenas de correspondências, espalhadas pelo mundo com os mais diversos assuntos. Escrevia compulsivamente. Para amigos distantes, para amigos com quem acabara de falar ao telefone, para colocar um pouco mais suas opiniões a respeito dos assuntos abordados nas conversas. Gostava de ir pessoalmente a agência postar os envelopes, para antes colar os selos um por um. Fazia por prazer. Este foi retribuído postumamente quando a ECT produziu um documentário a respeito de sua vida intitulado Um Homem Chamado Carta, e lançado no ano de 1994. Também foi lançado neste mesmo ano um selo comemorativo em homenagem ao autor na série Personalidades.


AS OBRAS

Grande parte da obra literária de Resende foi escrita em forma de conto. Foram seis coletâneas e um romance publicados em vida e postumamente foram lançados um livro de crônicas, um livro de perfis e uma coletânea de novelas. O caso mais polêmico foi o lançamento de Boca do Inferno, em 1957. O livro rendeu puxões de orelha do próprio pai, além de manifestações pesadas por parte do setor conservador da Igreja Católica e de representantes de famílias mineiras tradicionalistas. A questão é que o livro tratava da infância como algo trágico. Enfocava as maldades infantis e isso aterrorizou as vertentes mais recatadas da sociedade mineira, que pareciam ter representantes na sociedade carioca, pois até a casa do escritor sofreu depreciação como resposta ao livro. No fim dos seus dias, o autor ria deste episódio colocando que na década de oitenta Boca do Inferno já teria sido ultrapassado e seus contos eram agora inocentes se comparados às publicações que circulavam pelo meio literário. A obra de Otto Lara Resende é composta por:

Livros lançados em vida

  • O Lado Humano
    Contos – Editora A Noite - 1952
  • Boca do Inferno
    Contos – Editora José Olympio 1957
    Companhia das Letras - 2002
  • O Retrato na Gaveta
    Contos – Editora do Autor - 1962
    Editora Livros do Brasil - 1969
  • O Braço Direito
    Romance – Editora do Autor – 1963
    Companhia das Letras - 1993
  • Os Sete Pecados Capitais
    Compilação de Contos em que escreveu A Cilada
    Civilização Brasileira – 1965
    Bertrand Editora - 2000
  • As Pompas do Mundo
    Contos - Rocco - 1975
  • O Elo Partido e Outras Histórias
    Contos - 1991)
    Ática – 1999

Livros Póstumos

  • Bom Dia para Nascer
    Compilação das crônicas publicadas na Folha de S.Paulo no período de maio de 1991 a novembro de 1992
    Companhia das Letras - 1993
  • O Príncipe e o Sabiá e Outros Perfis
    Compilação de Perfis escritos por Otto Lara Resende
    Companhia das Letras - 1994
  • A Testemunha Silenciosa
    Compilação de duas novelas, uma de título homônimo e a reedição de A Cilada.
    Companhia das Letras – 1995
  • Três Ottos
    Otto Lara Resende
    Organização: Tatiana Longo dos Santos
    Instituto Moreira Salles - 2002

Obras sobre o autor

  • Otto Lara Resende – A Poeira da Glória
    Benicio Medeiros
    Relume Dumará & Secretaria Municipal de Cultura
    Coleção Perfis do Rio – 1998
  • O Mundo Misantrópico de Otto Lara Resende
    Malcolm Silverman
    Civilização Brasileira - 1981
    Tradução de João Guilherme Linke

A EXPOSIÇÃO

O Instituto Moreira Sales, no Rio de Janeiro, abriu o baú de Otto Lara Resende para visitação pública, mediante agendamento através do telefone da Instituição.
Contando com mais de 20 mil documentos, dentre eles cartas, fotografias, textos e manuscritos, o acervo pode estará disponível até o dia 4 de maio de 2003.

Mais informações: (11) 3825-2560 | www.ims.com.br - ver no rodapé Agenda – IMS – Rio de Janeiro