| PANINI NOSSO DE CADA DIA
Exatos doze meses depois, quais as
conseqüências da ascensão da Panini e da queda
da Abril no mercado de brasileiro de HQs?
por Marcel
Nadale (marcel@rabisco.com.br)

ois mil e dois foi o ano em que os fãs brasileiros de HQ
incluíram a palavra “Panini” no vocabulário.
A editora entrou de sola no conturbado mercado nacional de quadrinhos
depois de um desentendimento com os termos da renovação
do contrato em que cedia os direitos de publicação
da Marvel para a Abril. Pela primeira vez em anos, os brasileiros
iriam experimentar as benesses da livre concorrência num mercado
outrora monopolizado, estagnado e abusado pela editora da família
Civita.
É claro que esta não era a percepção
vigente 12 meses atrás. A maioria dos quadrimaníacos
temia pelo futuro de seus heróis prediletos, como Homem-Aranha,
os X-Men, Capitão América e outros. Nenhum superpoder
os poupou, no passado, de ver suas revistas serem lançadas,
reformuladas e aniquiladas ao sabor das crises econômicas
do país (ou das decisões editoriais da Abril). Como
uma casa publicadora desconhecida iria ganhar da Abril em seu próprio
jogo, se nem mesmo a gigante Globo conseguiu realizar tal façanha
ao lançar aqui, no começo dos anos 90, os sucessos
da Image?
Abril, Panini e leitores, porém, subestimaram
a paixão dos fãs pela Marvel e, principalmente, a
boa fase que seus personagens andam atravessando. Depois de anos
de maus tratos, tudo que o público queria era um pouco de
respeito, e a Panini, apesar de inúmeros vacilos, soube valer-se
desta falha de sua concorrente. De cara, lançou seis revistas,
num formato grande e novo, com acabamento de primeira qualidade.
A Abril contra-atacou, reeditando antigos sucessos da DC como A
Morte de Robin, A Morte de Super-Homem e Batman Ano
Um, na tentativa de fidelizar seus fregueses e preparar terreno
para a bombástica chegada do esperado O Cavaleiro das
Trevas 2. Que orgia consumista foram janeiro, fevereiro e março
de 2002...
Enquanto
isso, nos EUA, a ressurreição da chamada “Casa
das Idéias” já estava surpreendendo crítica
e público. Na época, um de seus editores ironizou
que, com O Cavaleiro das Trevas 2, uma trama futurista, a
DC estava olhando para trás; e com Origem, minissérie
que revelava o nebuloso passado de Wolverine, a Marvel estava olhando
para o futuro. Outras inovações já se consolidavam,
como a linha MAX e o selo Knights, e as recompensas do “futuro”
foram mais imediatas e palpáveis do que qualquer um poderia
imaginar: em maio o fenômeno Homem-Aranha atacava os
cinemas, quebrando recordes sucessivos. Foi o primeiro filme a lucrar
mais de US$ 100 milhões num único fim de semana de
estréia. No Brasil, foi o único a atrair mais de 1
milhão de pessoas, e ainda repetir a dose no fim de semana
seguinte. Para se ter uma idéia do sucesso, em outubro, quando
o DVD do filme estava prestes a sair, Homem-Aranha ainda
estava em cartaz e, mais incrível, ainda no ranking dos dez
filmes mais vistos da semana.
Provavelmente nesta época a Abril Jovem já
estava se arrependendo amargamente de ter perdido os direitos de
publicação do herói. Os negócios desmoronavam:
sem as revistas Marvel para compensar, os gastos com a linha Premium
da DC se acumulavam, sem retorno suficiente. O Cavaleiro das
Trevas 2 não foi sucesso nem de crítica nem de
vendagem, a ponto da terceira e última revista da série
só sair em setembro, quando a Abril Jovem já havia
decidido fechar as portas. Antes, ainda, ela tentou se equilibrar
financeiramente retornando ao odiado “formatinho”, aquele
gibi do tamanho do da Turma da Mônica, cujo espaço
reduzido afeta a qualidade da arte e a quantidade de diálogo
cabível nos balões. Mais uma vez, a Abril amargou
vendo a Panini tentar algo similar, melhor e mais bem-sucedido com
sua “linha econômica”, enquanto suas próprias
revistas morreriam no quinto número.
A “linha econômica” marcou a segunda
fase da Panini no país, a partir do segundo semestre. Fãs
estavam extasiados porque pela primeira vez o adorado Quarteto Fantástico
ganhava um título mensal próprio. E, melhor, acompanhado
do ótimo Capitão Marvel de Peter David – provavelmente
a mais divertida e empolgante história sendo publicada atualmente
pela Panini. Vieram também o mediano gibi Marvel Knights
(que prometia bastante mas não correspondeu às expectativas,
e que deve ser cancelado este mês) e a ótima minissérie
Marvel Mangaverso, que reformulava os principais heróis
da Casa das Idéias sob a estética das HQs japonesas.
Claro, nem tudo tem sido uma maravilha. Em algum
ponto ao longo do ano, os sucessivos atrasos na distribuição
das revistas foram incorporados em sua periodicidade, de modo que,
por exemplo, a edição de novembro de Marvel 2002 só
saísse em dezembro. Insuportável. A Panini também
manteve em eterno remelexo os mix das revistas, por vezes interrompendo
arcos de história sem nenhuma explicação. Quem
mais aí está esperando para ver o sempre ignorado
Thor vingar a morte de Hogun nas mãos da Gangue da Demolição?
E quem suportou descobrir que a conclusão da série
“Poder”, do Homem-de-Ferro, publicada nestes últimos
três meses, está na revista X-Men Extra (hã???)
de abril do ano passado (hein???). Fora a brusca (e imbecil) interrupção
da fase do Capitão América de Dan Jurgens para publicar
sua versão pós-11 de setembro, que obviamente fez
sucesso nos EUA porque era nacionalista e maniqueísta ao
extremo, mas que aos olhos brasileiros soa como um arrastado amontoado
de clichês...
Neste
começo de 2003, por incrível que pareça, os
quadrimaníacos passam por nova fase de insegurança.
Como era de se esperar, voltamos a um mercado monopolizado, já
que a Panini comprou da Abril os direitos de publicação
da linha DC (as revistas deveriam ser lançadas em novembro,
mas novamente a Panini não conseguiu cumprir o próprio
prazo). Numa decisão obviamente relacionada, a editora também
aumentou em 60 centavos o preço de suas revistas (o que significa
aumento de 8,5% no preço do formato Panini e injustificáveis
20% na linha econômica!). Além disso, como parte das
novidades para 2003, algumas revistas do formato Panini deixam de
existir e surgem mais títulos no padrão econômico...
Uma migração que, se estabelecida como tendência,
pode ser extremamente perigosa...
O que o mercado de HQs nos reserva em 2003? Ninguém
sabe ainda. As novas revistas prometidas pela Panini estão
gerando tanta expectativa quanto os filmes do Demolidor, X-Men 2
e Hulk, a serem lançados em fevereiro, maio e julho, respectivamente.
Torcemos para que a Panini esteja à altura desta avalanche
Marvel prestes a chegar aos cinemas. Como toda boa HQ, a conclusão
desta história a gente só vai saber nos próximos
meses.. 
|