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9 a 22 de janeiro de 2003


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PANINI NOSSO DE CADA DIA
Exatos doze meses depois, quais as conseqüências da ascensão da Panini e da queda da Abril no mercado de brasileiro de HQs?

por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

ois mil e dois foi o ano em que os fãs brasileiros de HQ incluíram a palavra “Panini” no vocabulário. A editora entrou de sola no conturbado mercado nacional de quadrinhos depois de um desentendimento com os termos da renovação do contrato em que cedia os direitos de publicação da Marvel para a Abril. Pela primeira vez em anos, os brasileiros iriam experimentar as benesses da livre concorrência num mercado outrora monopolizado, estagnado e abusado pela editora da família Civita.

É claro que esta não era a percepção vigente 12 meses atrás. A maioria dos quadrimaníacos temia pelo futuro de seus heróis prediletos, como Homem-Aranha, os X-Men, Capitão América e outros. Nenhum superpoder os poupou, no passado, de ver suas revistas serem lançadas, reformuladas e aniquiladas ao sabor das crises econômicas do país (ou das decisões editoriais da Abril). Como uma casa publicadora desconhecida iria ganhar da Abril em seu próprio jogo, se nem mesmo a gigante Globo conseguiu realizar tal façanha ao lançar aqui, no começo dos anos 90, os sucessos da Image?

Abril, Panini e leitores, porém, subestimaram a paixão dos fãs pela Marvel e, principalmente, a boa fase que seus personagens andam atravessando. Depois de anos de maus tratos, tudo que o público queria era um pouco de respeito, e a Panini, apesar de inúmeros vacilos, soube valer-se desta falha de sua concorrente. De cara, lançou seis revistas, num formato grande e novo, com acabamento de primeira qualidade. A Abril contra-atacou, reeditando antigos sucessos da DC como A Morte de Robin, A Morte de Super-Homem e Batman Ano Um, na tentativa de fidelizar seus fregueses e preparar terreno para a bombástica chegada do esperado O Cavaleiro das Trevas 2. Que orgia consumista foram janeiro, fevereiro e março de 2002...

Enquanto isso, nos EUA, a ressurreição da chamada “Casa das Idéias” já estava surpreendendo crítica e público. Na época, um de seus editores ironizou que, com O Cavaleiro das Trevas 2, uma trama futurista, a DC estava olhando para trás; e com Origem, minissérie que revelava o nebuloso passado de Wolverine, a Marvel estava olhando para o futuro. Outras inovações já se consolidavam, como a linha MAX e o selo Knights, e as recompensas do “futuro” foram mais imediatas e palpáveis do que qualquer um poderia imaginar: em maio o fenômeno Homem-Aranha atacava os cinemas, quebrando recordes sucessivos. Foi o primeiro filme a lucrar mais de US$ 100 milhões num único fim de semana de estréia. No Brasil, foi o único a atrair mais de 1 milhão de pessoas, e ainda repetir a dose no fim de semana seguinte. Para se ter uma idéia do sucesso, em outubro, quando o DVD do filme estava prestes a sair, Homem-Aranha ainda estava em cartaz e, mais incrível, ainda no ranking dos dez filmes mais vistos da semana.

Provavelmente nesta época a Abril Jovem já estava se arrependendo amargamente de ter perdido os direitos de publicação do herói. Os negócios desmoronavam: sem as revistas Marvel para compensar, os gastos com a linha Premium da DC se acumulavam, sem retorno suficiente. O Cavaleiro das Trevas 2 não foi sucesso nem de crítica nem de vendagem, a ponto da terceira e última revista da série só sair em setembro, quando a Abril Jovem já havia decidido fechar as portas. Antes, ainda, ela tentou se equilibrar financeiramente retornando ao odiado “formatinho”, aquele gibi do tamanho do da Turma da Mônica, cujo espaço reduzido afeta a qualidade da arte e a quantidade de diálogo cabível nos balões. Mais uma vez, a Abril amargou vendo a Panini tentar algo similar, melhor e mais bem-sucedido com sua “linha econômica”, enquanto suas próprias revistas morreriam no quinto número.

A “linha econômica” marcou a segunda fase da Panini no país, a partir do segundo semestre. Fãs estavam extasiados porque pela primeira vez o adorado Quarteto Fantástico ganhava um título mensal próprio. E, melhor, acompanhado do ótimo Capitão Marvel de Peter David – provavelmente a mais divertida e empolgante história sendo publicada atualmente pela Panini. Vieram também o mediano gibi Marvel Knights (que prometia bastante mas não correspondeu às expectativas, e que deve ser cancelado este mês) e a ótima minissérie Marvel Mangaverso, que reformulava os principais heróis da Casa das Idéias sob a estética das HQs japonesas.

Claro, nem tudo tem sido uma maravilha. Em algum ponto ao longo do ano, os sucessivos atrasos na distribuição das revistas foram incorporados em sua periodicidade, de modo que, por exemplo, a edição de novembro de Marvel 2002 só saísse em dezembro. Insuportável. A Panini também manteve em eterno remelexo os mix das revistas, por vezes interrompendo arcos de história sem nenhuma explicação. Quem mais aí está esperando para ver o sempre ignorado Thor vingar a morte de Hogun nas mãos da Gangue da Demolição? E quem suportou descobrir que a conclusão da série “Poder”, do Homem-de-Ferro, publicada nestes últimos três meses, está na revista X-Men Extra (hã???) de abril do ano passado (hein???). Fora a brusca (e imbecil) interrupção da fase do Capitão América de Dan Jurgens para publicar sua versão pós-11 de setembro, que obviamente fez sucesso nos EUA porque era nacionalista e maniqueísta ao extremo, mas que aos olhos brasileiros soa como um arrastado amontoado de clichês...

Neste começo de 2003, por incrível que pareça, os quadrimaníacos passam por nova fase de insegurança. Como era de se esperar, voltamos a um mercado monopolizado, já que a Panini comprou da Abril os direitos de publicação da linha DC (as revistas deveriam ser lançadas em novembro, mas novamente a Panini não conseguiu cumprir o próprio prazo). Numa decisão obviamente relacionada, a editora também aumentou em 60 centavos o preço de suas revistas (o que significa aumento de 8,5% no preço do formato Panini e injustificáveis 20% na linha econômica!). Além disso, como parte das novidades para 2003, algumas revistas do formato Panini deixam de existir e surgem mais títulos no padrão econômico... Uma migração que, se estabelecida como tendência, pode ser extremamente perigosa...

O que o mercado de HQs nos reserva em 2003? Ninguém sabe ainda. As novas revistas prometidas pela Panini estão gerando tanta expectativa quanto os filmes do Demolidor, X-Men 2 e Hulk, a serem lançados em fevereiro, maio e julho, respectivamente. Torcemos para que a Panini esteja à altura desta avalanche Marvel prestes a chegar aos cinemas. Como toda boa HQ, a conclusão desta história a gente só vai saber nos próximos meses..