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9 a 22 de janeiro de 2003


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DOIS É DEMAIS
O Homem Duplicado retoma o clássico tema dos sósias como só Saramago poderia fazer

por Marcio Caparica (marcio@rabisco.com.br)

xistem pessoas parecidas? Sim. Sósias, que são tão parecidas que vivem de imitarem outras? Também. Existem duas pessoas iguais? Não. Por mais próximas que sejam duas pessoas fisicamente, sempre existem aquelas diferenças que garantem que o imitador jamais será o imitado, que mantêm o lugar de cada um no mundo. O que acontece quando um homem perde a garantia de sua identidade ao descobrir que há outro idêntico a si? Idêntico nos sinais, nas cicatrizes, na voz e até no corte de cabelo? José Saramago levanta esta questão em O Homem Duplicado, seu mais recente livro.

“Mas existem os gêmeos, que são iguais”, podem dizer. Por mais parecidos que sejam, gêmeos não são iguais. Existe sempre uma pinta que um tem e o outro não, o cabelo que um parte ao meio e o outro à esquerda, aquele um centímetro de altura a mais que faz toda a diferença. Geralmente essas duas pessoas “iguais” agarram-se às suas particularidades com todas as forças, de forma a preservar sua individualidade, algo essencial para todo ser humano. Como se encontrar sem essas referências? É por isso que a história de Tertuliano Máximo Afonso, o personagem principal desta história, toca num ponto inquietante.

 

 José Saramago

Saramago levanta em sua narrativa sobre homens duplicados várias questões aparentemente simples de se responder, mas que se revelam de difícil solução. Quando duas pessoas se descobrem irremediavelmente iguais, quais são as conseqüências? Seu lugar no mundo, que até então estava certo, torna-se instável no momento que outra pessoa pode tomar seu lugar sem que ninguém jamais note qualquer diferença. Além disso, considerando que na humanidade todos são diferentes, quando existem dois homens duplicados a conclusão só pode ser uma: um dos dois veio a mais, é a cópia.

Tertuliano Máximo Afonso, um professor de história, descobre ao assistir a um filme um ator secundário que lhe é idêntico. Descobrir quem é esse ator torna-se então uma obsessão para o professor, que não consegue sossegar até descobrir o nome e o endereço de seu igual. É claro que os dois acabarão se encontrando, e as conseqüências desse encontro dificilmente serão felizes.

Saramago segue com seu estilo particular de longas frases e pontuação restrita a vírgulas e pontos finais. Não apressa sua narrativa em ponto nenhum: até mesmo as visitas de Tertuliano Máximo Afonso à locadora de vídeo em sua pesquisa pelo nome do ator secundário são narradas com detalhes, quando ele poderia ter escrito “Tertuliano foi à locadora, alugou mais dez filmes daquela companhia cinematográfica e voltou para casa”.

Os personagens são poucos e aparecem lentamente. Maria da Paz, o caso mal resolvido de Tertuliano Máximo Afonso, Dona Carolina, sua mãe, o professor de Matemática, que não chega a ganhar um nome, são mais adições à galeria de personagens memoráveis dos livros de Saramago. O mais notável, sem dúvida, é o Senso Comum, que faz várias visitas a Tertuliano Máximo Afonso, sem, no entanto, conseguir fazer-se ouvir – como acontece com a maioria dos homens, diga-se de passagem. Como em todos os seus livros, as referências a seus personagens são sempre feitas por seu nome completo, com uma única exceção nesse livro, mas só porque Tertuliano Máximo Afonso o permite.

O tema dos sósias já foi utilizado várias vezes na literatura mundial, desde clássicos com O Príncipe e o Mendigo até pérolas como O Clone, de Glória Pérez. Mas o que torna uma obra única não é tanto seu tema, mas a forma como é contada, e nisso Saramago é inimitável. Assim como em A jangada de pedra, Saramago não se preocupa com as causas do acontecimento fantástico que dá partida para a história, apenas com as conseqüências. E elas são as mais realistas possíveis. Ao fim de suas mais de trezentas páginas, o leitor sente falta daqueles personagens tão vívidos, mas também alívio por não haver ninguém que lhe ameace a identidade. Mas, num mundo em que já se anunciam vários nascimentos de clones, talvez essa última certeza de cada um poderá desaparecer. Segundo Saramago, as conseqüências disso não podem ser felizes. Mas bem que o senso comum tentou nos avisar.