| DOIS É DEMAIS
O Homem Duplicado retoma o
clássico tema dos sósias como só Saramago poderia
fazer
por Marcio
Caparica (marcio@rabisco.com.br)
 xistem
pessoas parecidas? Sim. Sósias, que são tão
parecidas que vivem de imitarem outras? Também. Existem duas
pessoas iguais? Não. Por mais próximas que sejam duas
pessoas fisicamente, sempre existem aquelas diferenças que
garantem que o imitador jamais será o imitado, que mantêm
o lugar de cada um no mundo. O que acontece quando um homem perde
a garantia de sua identidade ao descobrir que há outro idêntico
a si? Idêntico nos sinais, nas cicatrizes, na voz e até
no corte de cabelo? José Saramago levanta esta questão
em O Homem Duplicado, seu mais recente livro.
“Mas existem os gêmeos, que são
iguais”, podem dizer. Por mais parecidos que sejam, gêmeos
não são iguais. Existe sempre uma pinta que um tem
e o outro não, o cabelo que um parte ao meio e o outro à
esquerda, aquele um centímetro de altura a mais que faz toda
a diferença. Geralmente essas duas pessoas “iguais”
agarram-se às suas particularidades com todas as forças,
de forma a preservar sua individualidade, algo essencial para todo
ser humano. Como se encontrar sem essas referências? É
por isso que a história de Tertuliano Máximo Afonso,
o personagem principal desta história, toca num ponto inquietante.
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| José Saramago |
Saramago levanta em sua narrativa sobre homens duplicados
várias questões aparentemente simples de se responder,
mas que se revelam de difícil solução. Quando
duas pessoas se descobrem irremediavelmente iguais, quais são
as conseqüências? Seu lugar no mundo, que até
então estava certo, torna-se instável no momento que
outra pessoa pode tomar seu lugar sem que ninguém jamais
note qualquer diferença. Além disso, considerando
que na humanidade todos são diferentes, quando existem dois
homens duplicados a conclusão só pode ser uma: um
dos dois veio a mais, é a cópia.
Tertuliano Máximo Afonso, um professor de
história, descobre ao assistir a um filme um ator secundário
que lhe é idêntico. Descobrir quem é esse ator
torna-se então uma obsessão para o professor, que
não consegue sossegar até descobrir o nome e o endereço
de seu igual. É claro que os dois acabarão se encontrando,
e as conseqüências desse encontro dificilmente serão
felizes.
Saramago segue com seu estilo particular de longas
frases e pontuação restrita a vírgulas e pontos
finais. Não apressa sua narrativa em ponto nenhum: até
mesmo as visitas de Tertuliano Máximo Afonso à locadora
de vídeo em sua pesquisa pelo nome do ator secundário
são narradas com detalhes, quando ele poderia ter escrito
“Tertuliano foi à locadora, alugou mais dez filmes
daquela companhia cinematográfica e voltou para casa”.
Os
personagens são poucos e aparecem lentamente. Maria da Paz,
o caso mal resolvido de Tertuliano Máximo Afonso, Dona Carolina,
sua mãe, o professor de Matemática, que não
chega a ganhar um nome, são mais adições à
galeria de personagens memoráveis dos livros de Saramago.
O mais notável, sem dúvida, é o Senso Comum,
que faz várias visitas a Tertuliano Máximo Afonso,
sem, no entanto, conseguir fazer-se ouvir – como acontece
com a maioria dos homens, diga-se de passagem. Como em todos os
seus livros, as referências a seus personagens são
sempre feitas por seu nome completo, com uma única exceção
nesse livro, mas só porque Tertuliano Máximo Afonso
o permite.
O tema dos sósias já foi utilizado
várias vezes na literatura mundial, desde clássicos
com O Príncipe e o Mendigo até pérolas
como O Clone, de Glória Pérez. Mas o que torna
uma obra única não é tanto seu tema, mas a
forma como é contada, e nisso Saramago é inimitável.
Assim como em A jangada de pedra, Saramago não se preocupa
com as causas do acontecimento fantástico que dá partida
para a história, apenas com as conseqüências.
E elas são as mais realistas possíveis. Ao fim de
suas mais de trezentas páginas, o leitor sente falta daqueles
personagens tão vívidos, mas também alívio
por não haver ninguém que lhe ameace a identidade.
Mas, num mundo em que já se anunciam vários nascimentos
de clones, talvez essa última certeza de cada um poderá
desaparecer. Segundo Saramago, as conseqüências disso
não podem ser felizes. Mas bem que o senso comum tentou nos
avisar.
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