| DESVENDANDO A ARGENTINIDADE: TÃO
PERTO, TÃO LONGE?
Com O Atroz Encanto de Ser Argentino,
Marcos Aguinis constrói um roteiro para visitar, e compreender,
a alma profunda do povo argentino
por Rodrigo
Nunes de Oliveira Cardoso (ronoc@uol.com.br)
com a colaboração de Milene Ribas da Costa
 xistia
uma anedota que dizia ser o argentino um italiano que falava espanhol
e pensava ser inglês. O argentino não é mais
um europeu perdido em terras sul-americanas. Há algum tempo
se vê que, final e desafortunadamente, a Argentina se “latino-americanizou”.
No entanto, por mais incômodo que seja, não podemos
esquecer que ainda falta piorar muito para que a Argentina chegue
à condição de desequilíbrio social que
assola e sempre assolou o Brasil. Ainda que não sejam portadores
da verdade absoluta, e não o são, índices como
o IDH da ONU são um bom ingrediente para azedar o humor duvidoso
daqueles brasileiros que, num cúmulo de covardia e sadismo,
comprazem-se com a derrocada aparentemente interminável dos
“rivais” argentinos.
Mesmo vivendo há pouco mais de meio século
uma decadência recentemente acelerada, a Argentina mantém
em quase todos os aspectos sociais uma vantagem absurda sobre o
Brasil. Exércitos de miseráveis espalhados pelas maiores
cidades, crianças morrendo por falta de alimento, falência
dos sistemas de ensino e saúde públicos são,
para o argentino, atordoantes novidades com as quais lamentavelmente
o brasileiro há tempos pareceu se acostumar. Estar atento
a essa realidade é um passo importante para conhecer melhor
nosso vizinho austral, mas não o bastante.
O que faz Marcos Aguinis em seu O Atroz Encanto
de Ser Argentino (São Paulo, Bei Comunicação,
2002) é justamente nos auxiliar, abrindo caminhos a esse
embrenhado complexo que é o âmago do ser argentino.
O livro é um ensaio aparentemente despretensioso mas que,
à medida em que avançamos, vai ganhando liga, se agigantando
e termina por nos arrebatar e surpreender completamente: a mistura
fina de leveza e profundidade, de auto-ironia e compromisso político
sem dúvida encantam e fazem com que a aproximação
do leitor brasileiro com o universo argentino se dê quase
que de forma natural.
Os temas oscilam do político ao cultural (às
vezes com abordagens que lembram o antropológico), resvalando
em pequenos eventos do cotidiano, voltando ao político, ao
social, valendo-se de breves retomadas históricas. Em cada
frase, em cada passagem, em cada página, Marcos Aguinis parece
atormentado, tomado por uma angústia inelutável, a
de querer buscar e apresentar, a si, aos seus compatriotas, ao mundo,
uma explicação plausível para a atual condição
argentina.
Uma seqüência de imagens traduz de forma
quase irretocável esse clima. Com um truque cinematográfico
simples mas de impacto visual muito forte, numa Buenos Aires entristecida
e submetida a aterradoras nuvens escuras (ou a uma única
e interminável nuvem escura), o povo nas ruas, multidões
de indivíduos silenciosos, cabisbaixos, marcha melancolicamente
para trás – vale a referência: o filme é
A Nuvem (La Nube, Argentina, 1998), de Fernando Solanas.
É necessário compreender para superar.
E é por isso que duas questões permeiam todo o livro:
por que tudo deu tão errado? e como reverter o que parece
acabado? A obsessão por responder a essas perguntas deve
– o que é mais do que compreensível –
ter se tornado uma epidemia nacional. O desempenho comercial do
livro é eloqüente: num intervalo de cerca de um ano,
nada menos que 17 edições foram avidamente absorvidas
pelo público argentino.
O ATROZ ENCANTO DE SE VER REFLETIDO
 |
| O autor, Marcos Aguinis |
Há mais de argentino no brasileiro e mais
de brasileiro no argentino do que nossos vis preconceitos nos permitem
enxergar. “Se quiséssemos simplificar as diferenças
entre brasileiros e argentinos, poderíamos dizer que os primeiros
se divertem ao ritmo do samba e os segundos choram ao ritmo do tango.
A alegria do Brasil contrasta com a melancolia da Argentina.”,
diz Marcos Aguinis na introdução à edição
brasileira de seu livro. Perdoável equívoco. Como
o tango, as raízes profundas do samba também se alimentam
da tristeza das populações marginalizadas, como tão
lindamente e para sempre nos lembrará Vinícius de
Moraes em “Samba da Bênção”. Esse
– o paralelo entre samba e tango – será apenas
um dos tantos pontos de contato com que nos depararemos no decorrer
da leitura.
A adesão ao personalismo e a conseqüente
aversão às instituições, ou mesmo a
alergia a qualquer tipo de lei ou regra, identificadas por Aguinis
como ervas daninhas que vicejam na alma coletiva argentina, não
por acaso nos lembram (como bem nota Pedro Malan no prefácio)
o que dizia Sérgio Buarque de Holanda a respeito do brasileiro,
sendo essas algumas das características negativas do que
ele chamou de “homem cordial”.
Da mesma forma o ventajero ou vivo
argentino – que recebeu um ácido e talvez definitivo
retrato na recente película Nove Rainhas (Nueve
Reinas, Argentina, 2000), de Fabián Bielinsky –,
o famoso trambiqueiro que sobrevive da inocência de terceiros,
aplicando golpes em série e se vangloriando disso, não
é de forma alguma personagem estranho ao dia-a-dia do brasileiro.
Maus hábitos de uma determinada parcela da população
e que, às vezes com a anuência silenciosa de todos,
acabam se transformando em rótulos negativos fáceis
e por isso mesmo largamente difundidos mundo afora, também
não nos despertam estranheza. Segundo Aguinis, muito da imagem
que circula pelo mundo do argentino como um ser arrogante e espaçoso
provém do cultivo e da aceitação, internamente,
desses hábitos que desunem e geram tensão. Alguma
semelhança com a irritante mania de certos brasileiros, sejam
eles poderosos ou humildes ao extremo, de “levar vantagem
em tudo” e ainda se gabar disso?
Recuando à época colonial para investigar
as raízes dos tropeços que deitaram por terra aquela
que já foi uma das nações mais ricas e desenvolvidas
do mundo, Aguinis nos confronta com mais um ponto facilmente reconhecível
pelo público brasileiro. A ojeriza pelo trabalho, que era
visto como tarefa de seres inferiores, escravos ou não, e
a predileção pelo ganho fácil, que evitava
a todo custo o risco do empreendimento concreto, jogava e continua
séculos depois a jogar muitos dos donos do dinheiro a uma
sanha especulativa desenfreada e escapista, pouco atrelada a atividades
que promovam, mesmo que com imperfeições, o desenvolvimento
da coletividade. Entre esforço e risco, e ócio e ganho
fácil, não havia e não há muitas dúvidas.
Junto a isso, uma mítica crença de
que tudo se resolve magicamente por si só – dá-se
um jeito, vamos tocando, e por aí vai –
contribuiu para que problemas estruturais, mesmo quando identificados,
nunca fossem encarados de frente, com a seriedade e firmeza necessárias.
Outro ponto de semelhança: a infantil necessidade
de aprovação externa, o nefasto complexo de inferioridade
que, desculpem a insistência, também não nos
é nem um pouco desconhecido. Aguinis cita alguns exemplos.
Entre eles, o esbanjamento insano de recursos públicos promovido
à altura da comemoração do centenário
(1810-1910) da revolução de maio (que marcou o início
da emancipação argentina) com o único intuito
de provar aos milhares de estrangeiros convidados o tão almejado
pertencimento ao restrito clube das nações desenvolvidas.
Enquanto o dinheiro escoava descontroladamente para festas e celebrações,
muitos desses observadores internacionais, contudo, preferiam, mal-agradecidos,
destacar os escândalos de uma justiça e de uma administração
pública ineficientes e/ou corrompidas. Todos viam, mas os
argentinos preferiam fazer de conta que não, aguilhoa o autor.
Mas
nem tudo são espinhos. Um dos trechos mais belos do livro
é aquele em que Marcos Aguinis investiga origens e desenvolvimento
do tango. Uma das mais caras jóias do hoje combalido orgulho
argentino, o tango sofreu para ser aceito pela “sociedade”.
Exemplo perfeito daquele complexo de inferioridade que já
mencionamos acima. Foi necessário ocorrer a aprovação
externa do tango para que este fosse finalmente abraçado
pelo povo argentino como um todo e elevado ao patamar de bem cultural
nacional inestimável. Oriundo do “arrabalde”,
do subúrbio, gestado em mentes e corações “impuros”
e renegados, o gênero foi primeiramente taxado de sexualmente
apelativo, de insolente e inconveniente pelas classes mais altas.
Mas o tango, como sagazmente nos mostra o autor, talvez seja uma
das mais perfeitas representações do que é
ser argentino: em tudo que carrega de dor, de esperanças,
de ideologias dos múltiplos povos que se reuniram para formar
o que hoje é a Argentina. O tango é essencialmente
a miscigenação de almas e, talvez por isso, se perpetue
através dos tempos, sofrendo transformações
maiores ou menores, no coração de tantas e tantas
gerações.
COMENTÁRIOS SOBRE O OBJETO EM SI
Ainda que nos últimos anos possamos notar
uma crescente preocupação das editoras em ter um cuidado
especial no aspecto físico de seus livros, raras vezes se
viu no mercado editorial brasileiro um projeto gráfico tão
belo mas, sobretudo, tão pleno de pertinência como
o que nos oferece este O Atroz Encanto de Ser Argentino.
Não quero parecer fetichista, mas sob certo
aspecto o livro já cumpre seu papel mesmo sem ser lido. Porque
para aquele que simplesmente o manuseia, sem dele sequer ler uma
frase, o livro já se oferece rico em possibilidades simbólicas.
Na capa, contra-capa e lombada predominam tranqüilas
as cores branca e azul-clara, que remetem obviamente à albiceleste
bandeira argentina, e de alguma forma preparam as emoções
do leitor para o que ele irá encontrar à frente.
O papel utilizado na impressão, como nos adverte
uma pequena nota ao final do livro, é um novo produto de
uma companhia brasileira, um papel reciclado que, ainda segundo
a nota, tem parte de sua composição proveniente de
uma cooperativa de catadores de papel, e reverte uma porcentagem
da renda gerada com sua comercialização para o sustento
de uma organização não-governamental que apóia
projetos socioambientais. Numa época em que, tanto cá
como lá, não suportamos mais ouvir a cantilena do
sacrifício de tudo e de (quase) todos em nome exclusivamente
de responsabilidades fiscais, que na maior parte das vezes esgotam-se
em si mesmas, uma iniciativa empresarial como essa, com intenções
ecológico e socialmente responsáveis, não deixa
de ser um bom indicativo. Mas podemos tomar a adoção
desse papel reciclado como uma mensagem metafórica –
simpática não só aos argentinos mas também
a todos aqueles povos que, como nós, sabem o que é
viver numa espécie de inesgotável crise social –
de que vale a pena insistir, lutar, se reinventar. Há e sempre
deve haver esperança de renascimento, mesmo quando as coisas
parecem ter sido arremessadas ao abismo infinito.
Mas o detalhe, ainda para falar apenas da parte física
do livro, que mais chama a atenção é mesmo
a capa. Com rara felicidade se decidiu que a capa seria prateada,
de um prateado brilhante, o que evoca a viagem etimológica
que Aguinis promove a respeito do vocábulo Argentina: prata
que seduziu e atraiu milhões de pessoas de todo o mundo,
aguçando ganâncias e rivalidades, prata que deu nomes
e se fixou para sempre no imaginário argentino, também
como sinônimo de dinheiro. Mas a prata brilhante da capa é
também um quase-espelho, volta-nos uma imagem um tanto turva,
pouco definida, mais adivinhada que exata. É, penso eu, a
grande chave de todo o livro. É o convite definitivo à
reflexão: em dois dos sentidos que a palavra refletir comporta:
pensar, meditar sobre algo, mas também espelhar.
Quem lê esse Atroz Encanto de Marcos
Aguinis vê o quão imbecil é essa rivalidade
que durante anos e anos foi sendo erguida entre brasileiros e argentinos,
vê, repito, quantos são os pontos, positivos e negativos,
de contato entre nossos dois povos. Me ocorreu várias vezes
durante a leitura que este deveria ser um livro entusiasticamente
recomendado a estudantes do ensino médio e superior: talvez
assim pudéssemos ver finalmente pulverizada a muralha que
esconde brasileiros de argentinos e vice-versa. Talvez assim víssemos
nascer uma nova nação, construída sobre o verdadeiro
e belo sentido da palavra hermano/irmão, a nação
“argentil” ou “bragentina”.
Para retomar A Nuvem, lembremos da luta pela
preservação da memória que o filme apresenta.
O embate se dá com o novo, o pungente novo, que se coloca
de forma incisiva, inapelável, apagando violentamente qualquer
vestígio de lembrança de pessoas, de eventos, da História.
Não se trata de uma luta pelo conservadorismo, mas tão-somente
pela preservação da identidade, pela possibilidade
do auto-conhecimento. Na verdade, este é um desafio comum
a argentinos e brasileiros. É como se ambos devessem aceitar
o novo, mas pesando-o, julgando-o, recuperando também o que
de bom oferece o passado, as origens comuns, e, por meio deste retorno,
construir uma história única. Uma história
na qual gigantes adormecidos acordam de um profundo pesadelo e apresentam-se
ao mundo como irmãos fortes, capazes de enfrentar juntos
as turbulências do presente.
P.S.: Quem quiser conhecer melhor Marcos Aguinis
pode acessar sua página na internet, em www.aguinis.net.
Entre outras informações, pode-se ter uma idéia
de sua vasta produção literária, que é
composta por mais de vinte livros, divididos em ensaios, romances,
contos e biografias. 
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