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23 de janeiro a 5 de fevereiro de 2003


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FLEMING, IAN FLEMING
Autor de mais de uma dezena de obras, na sua maioria, ficção de espionagem, o inglês se tornaria um dos escritores mais lidos nas décadas de 50 e 60

por Marcelo Xavier (highway61@bol.com.br)

uem assiste a uma aventura do legendário agente secreto James Bond — provavelmente a sua última aventura, 007 - Um Novo Dia para Morrer — costuma sempre associar a sua imagem a um típico mocinho de matiné: um herói idealizado e cheio de clichês que já atravessam vinte filmes e quarenta anos de existência nas telas de todo o mundo. Qualquer mortal que já passou perto de uma tela de cinema conhece sutilezas como a sua música tema, os seus carros potentes, suas engenhocas infalíveis, a sua bebida favorita e as suas extravagâncias sexuais. Mas destes, poucos sabem que ele foi, e de certa forma, ainda é, um personagem que nasceu dos livros, e celebram a memória do seu inventor — Ian Lancaster Fleming (1908-1964). Os seus livros foram traduzidos e vendidos em mais de quinze idiomas e, poucos meses após sua morte, as vendagens chegaram a uma cifra recorde de 21 milhões de exemplares — número que só não transcende ao de espectadores da série cinematográfica de 007.

Ian Fleming era um aristocrata de nascença: filho de um membro do parlamento inglês do Partido Conservador e neto de um banqueiro escocês, Ian Fleming era apenas um garoto que vivia à sombra do avô rico, do pai famoso e herói de guerra. Um dia, o pequeno Ian deixou sua mãe e seu irmão e decidiu que era o momento de partir para Áustria, a fim de concluir os estudos. Foi educado em academias como Eton e Sandhurst, onde também adquiriu o gosto pelo detalhe, posteriormente catalisado para a sua ficção. Depois passou pelos bancos escolares em Munique e Genebra, onde estudou a fim de seguir carreira diplomática. Mas o interesse pelos estudos perdia terreno à medida em que crescia o seu interesse em viver a vida escrevendo, mas como? O seu avô, farto da indecisão de Fleming, desistiu de lhe mandar dinheiro e o chamou para trabalhar no banco da família.

Um dia ele largou tudo e foi trabalhar na agência internacional Reuters. Sem o mecenato do avô, por seis anos — de 1933 a 1939 — ele abandonou o jornalismo para trabalhar como corretor da bolsa, para conseguir juntar algum dinheiro. Voltou ao trabalho de correspondente com o início da guerra. Por sinal, a sua veia jornalística, aliada ao seu vasto conhecimento em línguas, fez com que ele se destacasse naquela função no Times, de Londres, em lugares “incomuns”, como Berlim e Moscou. Foi justamente na cidade russa que travou conhecimento com a arte da espionagem. Naquela cidade, em 1933, o jornalista Fleming foi cobrir o julgamento de seis engenheiros britânicos acusados de serem agentes secretos. Tempos depois, já fascinado pela idéia, ele mesmo ingressaria no Serviço de Inteligência da Marinha Inglesa, onde chegou ao posto de comandante — tal qual o seu ilustre personagem.

O COMEÇO — A primeira aventura de Bond, Casino Royale, apareceu há cinqüenta anos, em meados de 1953. Fascinado pelo mundo da espionagem e por bacará, imaginou um personagem que fosse uma versão ideal de si mesmo, que trabalhassem para o MI6, o serviço secreto inglês e, principalmente, tivesse sorte no jogo e com as mulheres. Só faltava um nome. Fleming se lembrou de um livro que estava lendo em suas férias na sua fazenda na Jamaica. O nome do livro era Birds of the West Indies. O nome do autor da obra: James Bond, um ornitólogo. Segundo o seu criador, Bond nasceu na Escócia em 1924. Seus pais morreram em um acidente na montanha quando ele tinha 8 anos. Depois da guerra, entrou para o MI6 como agente externo, ao contrário do MI5, que atua apenas dentro do Reino Unido. Naquele setor, teria recebido a “famosa” licença para matar, que é indicada pelos dois zeros na frente do 7, em 1950.

 Ian Fleming

Metade ficção, metade um disfarçado guia de espionagem para novatos, Casino Royale foi inspirado numa fracassada incursão de Fleming pelos cassinos de Lisboa durante a Segunda Guerra Mundial. O trabalho tornou-se estrutura básica da maioria dos livros de Bond e do seu próprio personagem. Fumante inveterado, usa apenas mocassins, se veste com um alfaiate em Savile Row, é poliglota, adora bebidas e dirigir automóveis em alta velocidade. No entanto, o livro não obteve sucesso imediato. Casino Royale, cuja primeira edição contou com parcos 4750 exemplares, hoje é item de colecionador. Quarenta anos depois, hoje a obra é peça procurada e paga a peso de ouro. O début de Fleming ainda estava longe de ser uma novela de espionagem, e era cheio de citações literais de relatórios ou explicações de técnicas de jogo de cartas. O livro também era uma espécie de guia para correspondentes estrangeiros cujo conteúdo era dedicado à educação de sua equipe. Naquele mesmo ano, ele se casava com Anne Rothmere, na Jamaica — terra natal da maioria dos livros de James Bond.

O segundo e terceiro livros da série foram: Live and Let Die (1954) e Moonraker (1955). Num fôlego só, ele se transformava um dos autores mais empolgantes e prolíficos da história das novelas de espionagem. Com o tempo, Fleming criava um ícone dos anos políticos da Guerra Fria. Seria uma questão de tempo para que o tema da espionagem chegasse ao cinema. Cineastas americanos e europeus produziram aventuras, dramas e comédias com espiões dos mais diversos tipos. Tudo começou em 1961, quando Fleming vendeu os direitos de algumas de suas obras. Delas, o produtor Kevin McClory conseguiu os direitos para o cinema de Thunderball (007 Contra a Chantagem Atômica, que seria lançado em 1965). Por problemas legais e financeiros, resolveram filmar Dr. No. McClory queria que James Bond fosse interpretado por Richard Burton, mas não conseguiu nem Burton nem qualquer outro ator para o personagem até que fizesse um acordo com Harry Salzmann e Albert R.Broccoli, que seria o produtor do primeiro filme.

A escolha inicial do autor Ian Fleming recaiu sobre Crhistopher Lee, que inclusive era o seu sobrinho, mas logo desistiu da idéia (ele interpretaria Scaramanga, em O Homem Com a Pistola de Ouro, de 1974). O segundo nome foi Roger Moore, que apenas não aceitou o papel por já estar comprometido com o seu papel em O Santo, então conhecida série de TV. James Bond chegou a ser oferecido ao ator Max Von Sydow, que também recusou o papel. Fleming, desta vez, sugeriu James Mason, mas ele também não aceitou. Além de Von Sydow, outros atores chegaram a ser cogitados para interpretar Bond, como Cary Grant, David Niven, Trevor Howard e, pasmem, Rex Harrison. Sean Connery foi contratado para atuar após ter seu nome sugerido pela esposa de Albert Broccoli. No fim, Connery foi a solução salomônica, mesmo sob os protestos de Fleming, que concebeu seu personagem com outra cara. Além do mais, o escritor não ia muito com a cara do ator escolhido. O achava muito “arrogante”.

Lançado em 1962, Dr. No foi um sucesso que surpreendeu seu criador. E ele não podia se queixar: tudo de 007 estava ali, inclusive a mania como jogador e a licença para matar, mesmo que pelas costas. Havia também a clássica abertura de uma mira sobre James Bond, criada por Maurice Binder, e que se tornou a marca registrada para os demais filmes. Também a música-tema aí se eternizou, composta por John Barry e interpretada pela orquestra de Monthy Norman. A história se passava também na Jamaica, onde Fleming tinha uma fazenda, uma sutil homenagem ao autor inglês. O resto era o que se tornaria o fetiche das aventuras posteriores: o agente viaja para alguns interessantes lugares onde encontra uma ou duas belas mulheres que tem segredos em seus passados e às vezes é capturado por seus inimigos mas sempre consegue destruir os vilões e fica com a garota menos malvada.

Em 1963, Ian Fleming voltava às prateleiras de livrarias com At Her Majesty’s Secret Service. Enquanto escrevia, em seu bunker rural no Caribe, Fleming desenvolveu uma paixão por caça a tesouros, onde ele seguiu velhos mapas e lendas de piratas. Tabagista convicto, ele não deu muita atenção à recomendações médicas, e continuava com suas atividades de campo, escrevendo mais histórias e indo à Inglaterra assistir às filmagens dos filmes seguintes da série 007. Como Bond, ele fumava charutos cubanos e cigarros Morland Specials, com três anéis, muito fortes. Tragava, em média, 50 por dia. Morreu aos 55 anos, num campo de golfe de Kent, na Inglaterra, no dia 12 de agosto de 1964, no auge de sua produção intelectual, sendo que aos 48 anos tivera uma complicação coronariana produzida pelo tabagismo. Seu último livro, The Man With The Golden Gun foi finalizado pelos executores literários de Fleming e publicado após sua morte. Octopussy, uma coletânea contendo duas histórias do agente apareceu em 1966. Na década de 80, John Gardner começou a escrever livros de James Bond. Mais tarde, a série foi continuada por Raymond Benson.

Também Kingsley Amis escreveu seqüências para a série. Desde o filme The Living Daylights (007 Na Mira dos Assassinos, 1987) que os filmes não são adaptações dos livros. Apesar de estarem distante do pensamento de seu criador, o último filme de James Bond, 007 - Um Novo Dia Para Morrer possui algumas citações que prestam homenagem a Ian Fleming. Por exemplo, no filme, ele aparece em Cuba fumando charutos e se passando como ornitólogo, a profissão do “verdadeiro” Bond, do livro que Ian Fleming lia quando teve a idéia de transformar aquele obscuro pesquisador de pássaros no mais indiscreto dos agentes secretos. »»