| FLEMING, IAN FLEMING
Autor de mais de uma dezena de obras,
na sua maioria, ficção de espionagem, o inglês
se tornaria um dos escritores mais lidos nas décadas de 50
e 60
por Marcelo
Xavier (highway61@bol.com.br)
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assiste a uma aventura do legendário agente secreto James
Bond — provavelmente a sua última aventura, 007
- Um Novo Dia para Morrer — costuma sempre associar a
sua imagem a um típico mocinho de matiné: um herói
idealizado e cheio de clichês que já atravessam vinte
filmes e quarenta anos de existência nas telas de todo o mundo.
Qualquer mortal que já passou perto de uma tela de cinema
conhece sutilezas como a sua música tema, os seus carros
potentes, suas engenhocas infalíveis, a sua bebida favorita
e as suas extravagâncias sexuais. Mas destes, poucos sabem
que ele foi, e de certa forma, ainda é, um personagem que
nasceu dos livros, e celebram a memória do seu inventor —
Ian Lancaster Fleming (1908-1964). Os seus livros foram traduzidos
e vendidos em mais de quinze idiomas e, poucos meses após
sua morte, as vendagens chegaram a uma cifra recorde de 21 milhões
de exemplares — número que só não transcende
ao de espectadores da série cinematográfica de 007.
Ian Fleming era um aristocrata de nascença:
filho de um membro do parlamento inglês do Partido Conservador
e neto de um banqueiro escocês, Ian Fleming era apenas um
garoto que vivia à sombra do avô rico, do pai famoso
e herói de guerra. Um dia, o pequeno Ian deixou sua mãe
e seu irmão e decidiu que era o momento de partir para Áustria,
a fim de concluir os estudos. Foi educado em academias como Eton
e Sandhurst, onde também adquiriu o gosto pelo detalhe, posteriormente
catalisado para a sua ficção. Depois passou pelos
bancos escolares em Munique e Genebra, onde estudou a fim de seguir
carreira diplomática. Mas o interesse pelos estudos perdia
terreno à medida em que crescia o seu interesse em viver
a vida escrevendo, mas como? O seu avô, farto da indecisão
de Fleming, desistiu de lhe mandar dinheiro e o chamou para trabalhar
no banco da família.
Um dia ele largou tudo e foi trabalhar na agência
internacional Reuters. Sem o mecenato do avô, por seis anos
— de 1933 a 1939 — ele abandonou o jornalismo para trabalhar
como corretor da bolsa, para conseguir juntar algum dinheiro. Voltou
ao trabalho de correspondente com o início da guerra. Por
sinal, a sua veia jornalística, aliada ao seu vasto conhecimento
em línguas, fez com que ele se destacasse naquela função
no Times, de Londres, em lugares “incomuns”,
como Berlim e Moscou. Foi justamente na cidade russa que travou
conhecimento com a arte da espionagem. Naquela cidade, em 1933,
o jornalista Fleming foi cobrir o julgamento de seis engenheiros
britânicos acusados de serem agentes secretos. Tempos depois,
já fascinado pela idéia, ele mesmo ingressaria no
Serviço de Inteligência da Marinha Inglesa, onde chegou
ao posto de comandante — tal qual o seu ilustre personagem.
O COMEÇO —
A primeira aventura de Bond, Casino Royale, apareceu há
cinqüenta anos, em meados de 1953. Fascinado pelo mundo da
espionagem e por bacará, imaginou um personagem que fosse
uma versão ideal de si mesmo, que trabalhassem para o MI6,
o serviço secreto inglês e, principalmente, tivesse
sorte no jogo e com as mulheres. Só faltava um nome. Fleming
se lembrou de um livro que estava lendo em suas férias na
sua fazenda na Jamaica. O nome do livro era Birds of the West
Indies. O nome do autor da obra: James Bond, um ornitólogo.
Segundo o seu criador, Bond nasceu na Escócia em 1924. Seus
pais morreram em um acidente na montanha quando ele tinha 8 anos.
Depois da guerra, entrou para o MI6 como agente externo, ao contrário
do MI5, que atua apenas dentro do Reino Unido. Naquele setor, teria
recebido a “famosa” licença para matar, que é
indicada pelos dois zeros na frente do 7, em 1950.
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| Ian Fleming |
Metade ficção, metade um disfarçado
guia de espionagem para novatos, Casino Royale foi inspirado
numa fracassada incursão de Fleming pelos cassinos de Lisboa
durante a Segunda Guerra Mundial. O trabalho tornou-se estrutura
básica da maioria dos livros de Bond e do seu próprio
personagem. Fumante inveterado, usa apenas mocassins, se veste com
um alfaiate em Savile Row, é poliglota, adora bebidas e dirigir
automóveis em alta velocidade. No entanto, o livro não
obteve sucesso imediato. Casino Royale, cuja primeira edição
contou com parcos 4750 exemplares, hoje é item de colecionador.
Quarenta anos depois, hoje a obra é peça procurada
e paga a peso de ouro. O début de Fleming ainda estava
longe de ser uma novela de espionagem, e era cheio de citações
literais de relatórios ou explicações de técnicas
de jogo de cartas. O livro também era uma espécie
de guia para correspondentes estrangeiros cujo conteúdo era
dedicado à educação de sua equipe. Naquele
mesmo ano, ele se casava com Anne Rothmere, na Jamaica — terra
natal da maioria dos livros de James Bond.
O segundo e terceiro livros da série foram:
Live and Let Die (1954) e Moonraker (1955). Num fôlego
só, ele se transformava um dos autores mais empolgantes e
prolíficos da história das novelas de espionagem.
Com o tempo, Fleming criava um ícone dos anos políticos
da Guerra Fria. Seria uma questão de tempo para que o tema
da espionagem chegasse ao cinema. Cineastas americanos e europeus
produziram aventuras, dramas e comédias com espiões
dos mais diversos tipos. Tudo começou em 1961, quando Fleming
vendeu os direitos de algumas de suas obras. Delas, o produtor Kevin
McClory conseguiu os direitos para o cinema de Thunderball
(007 Contra a Chantagem Atômica, que seria lançado
em 1965). Por problemas legais e financeiros, resolveram filmar
Dr. No. McClory queria que James Bond fosse interpretado
por Richard Burton, mas não conseguiu nem Burton nem qualquer
outro ator para o personagem até que fizesse um acordo com
Harry Salzmann e Albert R.Broccoli, que seria o produtor do primeiro
filme.
A escolha inicial do autor Ian Fleming recaiu sobre
Crhistopher Lee, que inclusive era o seu sobrinho, mas logo desistiu
da idéia (ele interpretaria Scaramanga, em O Homem Com
a Pistola de Ouro, de 1974). O segundo nome foi Roger Moore,
que apenas não aceitou o papel por já estar comprometido
com o seu papel em O Santo, então conhecida série
de TV. James Bond chegou a ser oferecido ao ator Max Von Sydow,
que também recusou o papel. Fleming, desta vez, sugeriu James
Mason, mas ele também não aceitou. Além de
Von Sydow, outros atores chegaram a ser cogitados para interpretar
Bond, como Cary Grant, David Niven, Trevor Howard e, pasmem, Rex
Harrison. Sean Connery foi contratado para atuar após ter
seu nome sugerido pela esposa de Albert Broccoli. No fim, Connery
foi a solução salomônica, mesmo sob os protestos
de Fleming, que concebeu seu personagem com outra cara. Além
do mais, o escritor não ia muito com a cara do ator escolhido.
O achava muito “arrogante”.
Lançado
em 1962, Dr. No foi um sucesso que surpreendeu seu criador.
E ele não podia se queixar: tudo de 007 estava ali, inclusive
a mania como jogador e a licença para matar, mesmo que pelas
costas. Havia também a clássica abertura de uma mira
sobre James Bond, criada por Maurice Binder, e que se tornou a marca
registrada para os demais filmes. Também a música-tema
aí se eternizou, composta por John Barry e interpretada pela
orquestra de Monthy Norman. A história se passava também
na Jamaica, onde Fleming tinha uma fazenda, uma sutil homenagem
ao autor inglês. O resto era o que se tornaria o fetiche das
aventuras posteriores: o agente viaja para alguns interessantes
lugares onde encontra uma ou duas belas mulheres que tem segredos
em seus passados e às vezes é capturado por seus inimigos
mas sempre consegue destruir os vilões e fica com a garota
menos malvada.
Em 1963, Ian Fleming voltava às prateleiras
de livrarias com At Her Majesty’s Secret Service. Enquanto
escrevia, em seu bunker rural no Caribe, Fleming desenvolveu uma
paixão por caça a tesouros, onde ele seguiu velhos
mapas e lendas de piratas. Tabagista convicto, ele não deu
muita atenção à recomendações
médicas, e continuava com suas atividades de campo, escrevendo
mais histórias e indo à Inglaterra assistir às
filmagens dos filmes seguintes da série 007. Como Bond, ele
fumava charutos cubanos e cigarros Morland Specials, com três
anéis, muito fortes. Tragava, em média, 50 por dia.
Morreu aos 55 anos, num campo de golfe de Kent, na Inglaterra, no
dia 12 de agosto de 1964, no auge de sua produção
intelectual, sendo que aos 48 anos tivera uma complicação
coronariana produzida pelo tabagismo. Seu último livro, The
Man With The Golden Gun foi finalizado pelos executores literários
de Fleming e publicado após sua morte. Octopussy,
uma coletânea contendo duas histórias do agente apareceu
em 1966. Na década de 80, John Gardner começou a escrever
livros de James Bond. Mais tarde, a série foi continuada
por Raymond Benson.
Também Kingsley Amis escreveu seqüências
para a série. Desde o filme The Living Daylights (007
Na Mira dos Assassinos, 1987) que os filmes não são
adaptações dos livros. Apesar de estarem distante
do pensamento de seu criador, o último filme de James Bond,
007 - Um Novo Dia Para Morrer possui algumas citações
que prestam homenagem a Ian Fleming. Por exemplo, no filme, ele
aparece em Cuba fumando charutos e se passando como ornitólogo,
a profissão do “verdadeiro” Bond, do livro que
Ian Fleming lia quando teve a idéia de transformar aquele
obscuro pesquisador de pássaros no mais indiscreto dos agentes
secretos. »»
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