| SOMENTE PARA OS SEUS OLHOS
Além de ser um autor de histórias
de espionagem, Ian Fleming foi um dos precursores do livro-reportagem,
misturando realidade e ficção
por Marcelo
Xavier (highway61@bol.com.br)
 ara
quem tiver curiosidade nos livros de Ian Fleming, a surpresa estará
em descobrir que os livros não são meros roteiros
dos filmes, e que muitas das ações ou situações
que guardamos na memória são muito mais detalhadas
nas páginas da obra do escritor inglês. Alguns livros
podem até surpreender por fazerem mais sentido do que os
filmes, como Diamonds Are Forever, cuja adaptação
para o cinema é um pastiche de mau gosto. No livro, a elaboração
do mundo do contrabando de diamantes é quase um prenúncio
do New Journalism que apareceria a partir da década
de 60. O livro nasceu de um fato real. Em 1956, Fleming foi convidado
a contribuir para uma série de artigos do London Sunday
Times sobre contrabando de diamantes. Os artigos apareceram
na forma de livro em 1957. Diamonds Are Forever foi relançado
pela LPM Pocket, junto com Cassino Royale e Live And Let
Die. Toda a obra estava esgotada no Brasil há décadas,
desde que foi lançada em partes pela primeira vez, na década
de 1960, pela Editora Globo e a Best Seller.
O interessante sobre Fleming é descobrir dois
elementos fundamentais: a sua qualidade singular como escritor e
a enorme diferença que separa o James Bond do livro do James
Bond dos filmes. Ou seja, além das aventuras, há também
a possibilidade de conhecer um mundo “invisível”
e pouco conhecido, que é o mundo da espionagem. Por outro
lado, há o estilo literário de Fleming e a curiosidade,
por parte dos fãs oriundos dos filmes, em conhecer como era
James Bond no papel. Podemos dizer que é tão parecido
quanto diferente. Nas histórias de papel, 007 bebe demais,
fuma demais, pensa demais e é datado. Teria mais ou menos
a mesma idade de Fleming, ou seja, se fosse vivo, já teria
morrido. Mas como Bond é imortal, os seus instintos ainda
devem estar em boa forma — pelo menos, melhor do que o seu
fígado.
O êxito dos livros de Ian Fleming chegou ao
paroxismo com a estréia das aventuras do agente secreto nas
telas de cinema, e isto se deu em detrimento da proposta original
da obra do escritor inglês. Para aqueles que tiveram a oportunidade
de travar conhecimento com os livros antes das adaptações
nos filmes, 007 pareceria se distanciar das características
de personalidade, caráter, ação ou até
o encadeamento que os livros de Fleming apresentam. Por exemplo,
em From Russia With Love, James Bond aparece apenas no décimo
primeiro capítulo. Nesse livro, fica evidente a relação
da história com a Guerra Fria e a batalha invisível
entre os serviços de inteligência do bloco capitalista
( A “S” inglesa e a “CIA” norte-americana)
e socialista (a Smersh). A obra se transformou em uma das
favoritas dos fãs dos livros (e dos filmes) e do presidente
John Kennedy. Em 1961, ele chegou a listar From Russia With Love
como um dos seus preferidos.
Também,
não era para menos. É que muita gente pensava que
a Smersh fosse apenas invenção do autor, mas ela realmente
existiu: era um órgão pertencente ao serviço
secreto russo especializado em eliminar espiões (ou “smert
spionem”), tanto russos quanto de outros países. Além
de dedurar a entidade secreta, Fleming ainda descreveu a fachada
da organização e até seu endereço. Os
livros de Fleming sempre trazem detalhes a respeito da Smersh, e
que não aparecem nos filmes. O que surpreendia nas histórias
era a farta documentação sobre espionagem, a tal ponto
que Allan Dulles, um diretor da CIA, se sentiu obrigado a declarar
que os seus agentes deveriam ler Fleming para ter uma “noção
melhor” do que é a Guerra Fria e dos perigos e contingências
da profissão. Por conseguinte, a imprensa americana, ao dar
grande espaço às declarações de Dulles,
acabou divulgando os livros, que passariam a vender aos milheiros.
No âmbito das comemorações do
50º aniversário do primeiro livro de 007 , será
instituído o prêmio literário Ian Fleming. O
"Ian Fleming Steel Dagger" é também uma
forma de homenagear o jornalista e escritor. Este ano também
estão previstos vários tours onde os fãs dos
seus livros podem traçar um programa de acordo com os movimentos
de seu herói: em Londres, por exemplo, uma placa azul marca
a casa de Fleming em Ebury Street 22, perto de Victoria. Outro local
a ser conhecido é a Carlyle Mansions, onde terminou Cassino
Royale, há quarenta anos. Seus escritórios também
podem ser visitados: um em 4 Mitre Court, virando a esquina do El
Vino Wine Bar (um dos lugares preferidos do autor), em Fleet Street,
onde ele trabalhou depois de deixar seu emprego como gerente de
Relações Exteriores no Kelmsley Newspapers.
Depois, o ilustre bondmaníaco pode seguir para o Almirantado,
em Whitehall (não está aberto ao público),
no centro do governo britânico. Ali, na Sala 52 no andar térreo,
com vista para Horse Guard's Parade, é realizada a cerimônia
Trooping of the Colour, onde o então comandante Ian
Fleming era apenas um desconhecido assistente do diretor da Inteligência
Naval durante a Segunda Guerra.
OBRAS
DE FLEMING SOBRE 007
A ordem de publicação dos livros não corresponde
à ordem cronológica dos filmes produzidos na série,
embora a maioria deles pareça se relacionar entre si
- Casino Royale, 1953 — filmado
em 1967, e dirigido por John Huston
- Live and Let Die, 1954 — filmado em 1973, e dirigido
por Guy Hamilton
- Moonraker, 1955 — - filmado em 1979, dirigido
por Lewis Gilbert
- Diamonds Are Forever, 1956 — filmado em 1971, dirigido
por Guy Hamilton
- From Russia, With Love, 1957 — filmado em 1963,
dirigido por Terence Young
- Dr. No, 1958 — filmado em 1962, dirigido por Terence
Young
- Goldfinger, 1959 — filmado em 1964, dirigido por
Guy Hamilton
- For Your Eyes Only, 1960 — filmado em 1981, dirigido
por John Glen
- Thunderball, 1961 — filmado em 1965, dirigido
por Terence Young
- The Spy Who Loved Me, 1962 — filmado em 1977,
dirigido por Lewis Gilbert
- On Her Majesty’s Secret Service, 1963 —
filmado em1969, dirigido por Peter Hunt
- You Only Live Twice, 1964 — filmado em 1967, dirigido
por Lewis Gilbert
- The Man With The Golden Gun, 1965 — filmado em
1974, direção de John Glen
- Octopussy e The Living Daylights, 1966, conto
extra na edição de 1967 The Property of a Lady
— adaptados como Octopussy, em 1983, e The Living
Daylights, em 1987, ambos dirigidos por John Glen

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