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23 de janeiro a 5 de fevereiro de 2003


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SOMENTE PARA OS SEUS OLHOS
Além de ser um autor de histórias de espionagem, Ian Fleming foi um dos precursores do livro-reportagem, misturando realidade e ficção

por Marcelo Xavier (highway61@bol.com.br)

ara quem tiver curiosidade nos livros de Ian Fleming, a surpresa estará em descobrir que os livros não são meros roteiros dos filmes, e que muitas das ações ou situações que guardamos na memória são muito mais detalhadas nas páginas da obra do escritor inglês. Alguns livros podem até surpreender por fazerem mais sentido do que os filmes, como Diamonds Are Forever, cuja adaptação para o cinema é um pastiche de mau gosto. No livro, a elaboração do mundo do contrabando de diamantes é quase um prenúncio do New Journalism que apareceria a partir da década de 60. O livro nasceu de um fato real. Em 1956, Fleming foi convidado a contribuir para uma série de artigos do London Sunday Times sobre contrabando de diamantes. Os artigos apareceram na forma de livro em 1957. Diamonds Are Forever foi relançado pela LPM Pocket, junto com Cassino Royale e Live And Let Die. Toda a obra estava esgotada no Brasil há décadas, desde que foi lançada em partes pela primeira vez, na década de 1960, pela Editora Globo e a Best Seller.

O interessante sobre Fleming é descobrir dois elementos fundamentais: a sua qualidade singular como escritor e a enorme diferença que separa o James Bond do livro do James Bond dos filmes. Ou seja, além das aventuras, há também a possibilidade de conhecer um mundo “invisível” e pouco conhecido, que é o mundo da espionagem. Por outro lado, há o estilo literário de Fleming e a curiosidade, por parte dos fãs oriundos dos filmes, em conhecer como era James Bond no papel. Podemos dizer que é tão parecido quanto diferente. Nas histórias de papel, 007 bebe demais, fuma demais, pensa demais e é datado. Teria mais ou menos a mesma idade de Fleming, ou seja, se fosse vivo, já teria morrido. Mas como Bond é imortal, os seus instintos ainda devem estar em boa forma — pelo menos, melhor do que o seu fígado.

O êxito dos livros de Ian Fleming chegou ao paroxismo com a estréia das aventuras do agente secreto nas telas de cinema, e isto se deu em detrimento da proposta original da obra do escritor inglês. Para aqueles que tiveram a oportunidade de travar conhecimento com os livros antes das adaptações nos filmes, 007 pareceria se distanciar das características de personalidade, caráter, ação ou até o encadeamento que os livros de Fleming apresentam. Por exemplo, em From Russia With Love, James Bond aparece apenas no décimo primeiro capítulo. Nesse livro, fica evidente a relação da história com a Guerra Fria e a batalha invisível entre os serviços de inteligência do bloco capitalista ( A “S” inglesa e a “CIA” norte-americana) e socialista (a Smersh). A obra se transformou em uma das favoritas dos fãs dos livros (e dos filmes) e do presidente John Kennedy. Em 1961, ele chegou a listar From Russia With Love como um dos seus preferidos.

Também, não era para menos. É que muita gente pensava que a Smersh fosse apenas invenção do autor, mas ela realmente existiu: era um órgão pertencente ao serviço secreto russo especializado em eliminar espiões (ou “smert spionem”), tanto russos quanto de outros países. Além de dedurar a entidade secreta, Fleming ainda descreveu a fachada da organização e até seu endereço. Os livros de Fleming sempre trazem detalhes a respeito da Smersh, e que não aparecem nos filmes. O que surpreendia nas histórias era a farta documentação sobre espionagem, a tal ponto que Allan Dulles, um diretor da CIA, se sentiu obrigado a declarar que os seus agentes deveriam ler Fleming para ter uma “noção melhor” do que é a Guerra Fria e dos perigos e contingências da profissão. Por conseguinte, a imprensa americana, ao dar grande espaço às declarações de Dulles, acabou divulgando os livros, que passariam a vender aos milheiros.

No âmbito das comemorações do 50º aniversário do primeiro livro de 007 , será instituído o prêmio literário Ian Fleming. O "Ian Fleming Steel Dagger" é também uma forma de homenagear o jornalista e escritor. Este ano também estão previstos vários tours onde os fãs dos seus livros podem traçar um programa de acordo com os movimentos de seu herói: em Londres, por exemplo, uma placa azul marca a casa de Fleming em Ebury Street 22, perto de Victoria. Outro local a ser conhecido é a Carlyle Mansions, onde terminou Cassino Royale, há quarenta anos. Seus escritórios também podem ser visitados: um em 4 Mitre Court, virando a esquina do El Vino Wine Bar (um dos lugares preferidos do autor), em Fleet Street, onde ele trabalhou depois de deixar seu emprego como gerente de Relações Exteriores no Kelmsley Newspapers. Depois, o ilustre bondmaníaco pode seguir para o Almirantado, em Whitehall (não está aberto ao público), no centro do governo britânico. Ali, na Sala 52 no andar térreo, com vista para Horse Guard's Parade, é realizada a cerimônia Trooping of the Colour, onde o então comandante Ian Fleming era apenas um desconhecido assistente do diretor da Inteligência Naval durante a Segunda Guerra.

OBRAS DE FLEMING SOBRE 007
A ordem de publicação dos livros não corresponde à ordem cronológica dos filmes produzidos na série, embora a maioria deles pareça se relacionar entre si

  • Casino Royale, 1953 — filmado em 1967, e dirigido por John Huston
  • Live and Let Die, 1954 — filmado em 1973, e dirigido por Guy Hamilton
  • Moonraker, 1955 — - filmado em 1979, dirigido por Lewis Gilbert
  • Diamonds Are Forever, 1956 — filmado em 1971, dirigido por Guy Hamilton
  • From Russia, With Love, 1957 — filmado em 1963, dirigido por Terence Young
  • Dr. No, 1958 — filmado em 1962, dirigido por Terence Young
  • Goldfinger, 1959 — filmado em 1964, dirigido por Guy Hamilton
  • For Your Eyes Only, 1960 — filmado em 1981, dirigido por John Glen
  • Thunderball, 1961 — filmado em 1965, dirigido por Terence Young
  • The Spy Who Loved Me, 1962 — filmado em 1977, dirigido por Lewis Gilbert
  • On Her Majesty’s Secret Service, 1963 — filmado em1969, dirigido por Peter Hunt
  • You Only Live Twice, 1964 — filmado em 1967, dirigido por Lewis Gilbert
  • The Man With The Golden Gun, 1965 — filmado em 1974, direção de John Glen
  • Octopussy e The Living Daylights, 1966, conto extra na edição de 1967 The Property of a Lady — adaptados como Octopussy, em 1983, e The Living Daylights, em 1987, ambos dirigidos por John Glen