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23 de janeiro a 5 de fevereiro de 2003


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PAIS PECADORES
Com O Pecado dos Pais, Lawrence Block não decepciona os amantes do gênero policial e brilha, mais uma vez, com seu romance noir

por Jussara Godoy (jussaragodoy@yahoo.com.br)

ostei muito da incumbência de ler e falar um pouco sobre o livro Os Pecados dos Pais, de Lawrence Block (tradução de José Almino; Companhia das Letras; 165 páginas). Como apreciadora do gênero policial, totalmente diletante, tenho especial estima por obras que tragam histórias boas e bem contadas.

E o escritor americano Lawrence Block é exatamente isso: um bom contador de histórias. Seu vasto currículo oferece boas pistas a respeito de seu talento: dentre os inúmeros prêmios importantes que recebeu ao longo de sua carreira, merecem destaque o Edgar Allan Poe e o Shamus, prêmios dedicados à literatura policial, sobretudo do gênero de detetives. Isso para não mencionar o Falcão Maltês, o Nero Wolfe e títulos como de Grão Mestre dos Escritores de Mistérios da América, Grão Mestre do Romance Noir e o troféu Societè 813, os dois últimos na França. Block tem se tornado um escritor bastante popular; em janeiro deste ano devem começar as filmagens de A Walk Among The Tombstones, baseado no livro de mesmo nome e estrelado por ninguém menos que o veteraníssimo Harrison Ford.

Já conhecia o autor por outros dois títulos: O Ladrão que Estudava Espinosa e O Ladrão que Achava que Era Bogart, ambos protagonizados por Bernie Rodenbarr, um personagem urbano e requintado, amante da literatura e conhecedor de raridades, que sustenta seus luxos de uma maneira pouco convencional.

Mas ao ler Os Pecados dos Pais, conheci um outro lado da obra de Block: um noir cujo personagem principal, Matthew Scudder, é um ex-policial angustiado pela culpa. O livro é envolvente e parte de um crime aparentemente solucionado, envolvendo uma prostituta e um filho de um pastor.

 Lawrence Block

A polícia de Nova Iorque dá por encerrada a investigação sobre a morte de Wendy, uma ex-universitária encontrada morta em seu apartamento no Greenwich Village, após ter prendido, na rua, um jovem em estado de choque, com as roupas ensangüentadas, gritando palavras sem sentido sobre o assassinato. O rapaz é identificado como Richard Vanderpoel, companheiro de quarto de Wendy. Preso, acaba cometendo suicídio em sua cela poucos dias depois. O pai da garota procura, então, Matthew Scudder, um detetive que se dedica a investigar crimes mesmo sem licença para atuar e lhe dá a incumbência de reconstituir os últimos anos da vida da filha. Wendy abandonara a universidade havia três anos, mudara para Nova Iorque e, desde então, parecia sobreviver como prostituta. Richard tinha se tornado seu companheiro de quarto há algum tempo, apenas.

Matthew Scudder se revela um investigador meticuloso e diligente, movido pela intuição, café mais Bourbon, dilemas morais e melancolia. Graças à sua perseverança, irá refazer os passos dos envolvidos, remexendo num mundo de hipocrisia, luxúria e desejos inconfessos. Mais uma vez, a polícia terá sido incompetente, enredada pela burocracia ou pela corrupção. Caberá a ele ter a coragem de trilhar os caminhos obscuros da lei, conflitos familiares mal-resolvidos, relacionamentos sórdidos, falsas religiões e falso moralismo. Enfim, um romance que não deixará insatisfeito o leitor que gosta do gênero.