| OLÊ, MULHER RENDEIRA...
Arte de tecer renda, cultivada no
interior do Nordeste, ainda é repassada entre gerações
por Ana Lira
(analira@rabisco.com.br)
 ábado.
São 10h30 da manhã na cidade de Pesqueira, interior
de Pernambuco, e dona Maria José Xavier já está
caminhando pela rua com um papel manteiga nas mãos. Neste,
uma gola de camisa está riscada esperando tomar forma de
renda nos próximos dias. Dona Mazé, como é
conhecida, é rendeira. Aprendeu a arte de tecer ainda criança
com a mãe, já falecida, passou para as filhas e assiste
o ofício ser repassado para a neta de quatro anos, Débora,
que sentada ao lado da mãe fala com entusiasmo do pedacinho
de bico que confeccionou um tempo atrás e espera mais uma
oportunidade para mostrar que será uma rendeira talentosa
no futuro.
Na cidade inteira, como em diversas outras partes
do interior do Nordeste, a rotina não é diferente.
Em quase todas as casas encontram–se mulheres, de todas as
idades, reunidas cantando e tecendo por longas horas a fio. A renda
foi trazida da Europa por congregações religiosas
e suas técnicas vêm sendo repassadas de geração
em geração há mais de um século, sustentando
a tradição e vida de milhares de famílias,
que vivem deste ramo artesanal. Os dois tipos produzidos em terras
brasileiras são a Renda de Bilro e a Renda de Agulha
ou Renascença.
A Renda de Bilro é mais rara e poucas
são as rendeiras que ainda trabalham com este tipo de técnica.
No alto de uma almofada, em formato de capacete, são fixados
os fios que recebem em suas pontas os bilros – pequenas peças
de madeira que facilitam o trançar. A rendeira fixa o desenho
a ser tecido na almofada e os locais a serem contornados pelos fios
são modelados com alfinetes. Feito isso, ela vai entrelaçando
os bilros até todo o desenho aparecer em forma de renda.
Este processo está praticamente extinto em diversas cidades
nordestinas, que atualmente produzem apenas a Renda de Agulha.
A Renascença é criada usando–se
uma linha apropriada, fabricada de algodão puro, uma fita
fina chamada lacê, uma almofada cilíndrica, papel manteiga
– conhecido pelas rendeiras como papel de risco – e
papel grosso para suporte – geralmente utiliza–se papel
de saco de cimento ou de ração animal. Elas desenham
o formato desejado no papel de risco, colam ao papel suporte, alinhavam
o lacê, fixam todo o conjunto na almofada e começam
a tecelagem. Quando o trabalho é concluído, a renda
é lavada e recebe uma camada de goma para adquirir rigidez.
Uma
diferença básica entre os processos é que a
renda de bilro era confeccionada em diversas cores e a renda de
agulha é predominantemente branca. Antigamente era possível
encontrar trabalhos em cor preta e rosada e hoje algumas peças
são feitas em cor bege, mas é incomum. O principal
fator da opção pela cor branca é que a durabilidade
da renda nem sempre condizia com a das tinturas utilizadas nas linhas.
Com o tempo, a cor ia desgastado-se e as peças eram descartadas
antes de apresentar qualquer defeito de confecção
e isso implicava em prejuízo tanto para quem comprava quanto
para quem vendia, quando o estoque passava muito tempo sem comprador.
Por ser mais difundida, a renascença vem sendo
aperfeiçoada pelas rendeiras. A criatividade vai desde a
elaboração dos desenhos até o batismo dos pontos
com nomes bastante peculiares. Se no crochê encontramos o
ponto-de-cruz, aqui encontramos xerém, malha de cabecinha,
traça, vassourinha, nervura, dois-amarrados, torre, ponto
sol, ponto lua, folhagem, entre outros. Todos eles foram dados a
partir de associações com figuras e formas do cotidiano
interiorano, integrando mais elementos à cultura popular,
que Dona Mazé e suas filham colaboram para continuar difundindo.
A vida e a arte destas mulheres inspiraram canções,
como o baião de Zé do Norte “Mulher Rendeira”.
MULHER
RENDEIRA
Zé do Norte
Esta é a letra original gravada pelo grupo
Demônios da Garôa
Olé, Mulher Rendeira,
Olé mulhé rendá
Tu me ensina a fazer renda,
eu te ensino a namorá.
Olé, Mulher Rendeira,
Olé mulhé rendá,
Tu me ensina a fazer renda,
Eu te ensino a namorá.
Olé, Mulher Rendeira,
Olé mulhé rendá,
Saudade levo comigo,
Soluço vai no emborná.
Olé, Mulher Rendeira,
Olé mulhé rendá,
Se você tá me querendo,
Vamo pra Igreja, vamo casá.
Olé, Mulher Rendeira,
Olé mulhé rendá,
E depois de nóis casado,
Vou pra roça, vou prantá.
Olé, Mulher Rendeira,
Olé mulhé rendá,
Tu me ensina a fazer renda,
Eu te ensino a namorá.
Olé, Mulher Rendeira,
Olé mulhé rendá 
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