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23 de janeiro a 5 de fevereiro de 2003


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SEPARAÇÕES É CIRANDA DE DORES E AMORES
Domingos de Oliveira extrapola poesia e faz uma ode ao amor e à união – por menos que o título assim sugira

por Marcia di Domenico (mmdidomenico@hotmail.com)

icardo amava Maribel que amava Cabral que amava Glorinha que amava Diogo... mas também amava Cabral. Assim, de desencontros, mas também de belos e confusos encontros, são os passeios e possibilidades do amor propostos por Domingos de Oliveira em seu filme mais recente, Separações.

Aficionado pelo tema das relações humanas, sobretudo quando elas envolvem homem e mulher, e dono de uma construção narrativa que reproduz a ansiedade e intensidade de seus personagens, Domingos de Oliveira se supera pela sofisticação e profundidade que dá à discussão amorosa em um ciclo iniciado com Amores (1996).

O autor e diretor é também protagonista da trama, que reúne um grupo de amigos ligados pela arte do teatro em um cenário de puro charme que é o bairro do Leblon, no Rio de Janeiro. Oliveira é Cabral, veterano dramaturgo e professor que tem uma relação moderna e liberal com a atriz Glória. O vai-e-vem da paixão dos dois baseia os conflitos, descobertas e perturbações afetivas dos outros personagens que, descobre-se aos poucos, coincidem com os desejos de felicidade meus, seus e de nossos vizinhos.

Separações é um longo e lindo poema lírico, uma ode ao amor e à união – por menos que o título assim sugira. Ele fala dos laços de amizade, cumplicidade, paixão e amor entre pessoas tão diferentes quanto comuns. Tendo como pretexto o bordão “é melhor se arrepender de ter feito do que de não ter feito”, o autor defende a ida às últimas conseqüências quando o coração bater mais forte.

A abordagem de sexo, fidelidade, rotina e família como contingências de um casamento (ou qualquer outro tipo de união entre duas pessoas que se gostam) suscita a reflexão do que ainda é tabu em muitos relacionamentos, e a maturidade e naturalidade como são tratados, então, injetam otimismo e humanidade na questão. Assim se aprende que as “separações” do título nem sempre vêm para o mal: elas podem ser porta para um novo encontro (que seja consigo mesmo) – ou reencontro.

Já acordado que o amor é orgânico e vital, atenção para a metáfora: o sujeito que vive a separação é comparado a um doente terminal que atravessa as quatro fases do processo que leva ao fim. Negação, negociação, revolta e aceitação conduzem a um novo estágio da vida, sempre melhor que o anterior.

Terapia de casal das boas, Separações vem para mostrar que o amor é simples e profundo como a vida e guarda surpresas deliciosas àqueles que se aventuram a vivê-lo corajosamente.

Em tempo: atração à parte, mas igualmente imperdível, é o site do filme. O www.separacoes.com traz, além de ficha técnica e trailer da obra, um consultório sentimental virtual, onde o visitante pode expor seu dilema afetivo e chorar as mágoas que o filme promete despertar nos apaixonados. Para os solitários, aflitos e supersticiosos em geral, simpatias e a “Oração para os Enamorados” – porque uma mãozinha do santo nessas horas é deveras bem-vinda.

Separações. Brasil, 2001. Direção de Domingos de Oliveira. 116 min.

Sobre o diretor: Domingos de Oliveira começou sua carreira como diretor nos palcos do Rio de Janeiro nos anos 60. Experimentou o sucesso no cinema com o longa-metragem Amores, de 1996, uma adaptação da peça de mesmo nome que venceu o Prêmio Shell naquele ano como melhor texto de teatro. Já o filme lhe rendeu três kikitos no Festival de Gramado ainda em 1998. Separações, também filmagem da peça homônima, foi apresentado com sucesso no Festival Rio-BR em 2002.