| SEPARAÇÕES É
CIRANDA DE DORES E AMORES
Domingos de Oliveira extrapola poesia
e faz uma ode ao amor e à união – por menos
que o título assim sugira
por Marcia
di Domenico (mmdidomenico@hotmail.com)

icardo amava Maribel que amava Cabral que amava Glorinha que amava
Diogo... mas também amava Cabral. Assim, de desencontros,
mas também de belos e confusos encontros, são os passeios
e possibilidades do amor propostos por Domingos de Oliveira em seu
filme mais recente, Separações.
Aficionado pelo tema das relações
humanas, sobretudo quando elas envolvem homem e mulher, e dono de
uma construção narrativa que reproduz a ansiedade
e intensidade de seus personagens, Domingos de Oliveira se supera
pela sofisticação e profundidade que dá à
discussão amorosa em um ciclo iniciado com Amores
(1996).
O autor e diretor é também protagonista
da trama, que reúne um grupo de amigos ligados pela arte
do teatro em um cenário de puro charme que é o bairro
do Leblon, no Rio de Janeiro. Oliveira é Cabral, veterano
dramaturgo e professor que tem uma relação moderna
e liberal com a atriz Glória. O vai-e-vem da paixão
dos dois baseia os conflitos, descobertas e perturbações
afetivas dos outros personagens que, descobre-se aos poucos, coincidem
com os desejos de felicidade meus, seus e de nossos vizinhos.
Separações
é um longo e lindo poema lírico, uma ode ao amor e
à união – por menos que o título assim
sugira. Ele fala dos laços de amizade, cumplicidade, paixão
e amor entre pessoas tão diferentes quanto comuns. Tendo
como pretexto o bordão “é melhor se arrepender
de ter feito do que de não ter feito”, o autor defende
a ida às últimas conseqüências quando o
coração bater mais forte.
A abordagem de sexo, fidelidade, rotina e família
como contingências de um casamento (ou qualquer outro tipo
de união entre duas pessoas que se gostam) suscita a reflexão
do que ainda é tabu em muitos relacionamentos, e a maturidade
e naturalidade como são tratados, então, injetam otimismo
e humanidade na questão. Assim se aprende que as “separações”
do título nem sempre vêm para o mal: elas podem ser
porta para um novo encontro (que seja consigo mesmo) – ou
reencontro.
Já acordado que o amor é orgânico
e vital, atenção para a metáfora: o sujeito
que vive a separação é comparado a um doente
terminal que atravessa as quatro fases do processo que leva ao fim.
Negação, negociação, revolta e aceitação
conduzem a um novo estágio da vida, sempre melhor que o anterior.
Terapia de casal das boas, Separações
vem para mostrar que o amor é simples e profundo como a vida
e guarda surpresas deliciosas àqueles que se aventuram a
vivê-lo corajosamente.
Em
tempo: atração à parte, mas igualmente imperdível,
é o site do filme. O www.separacoes.com
traz, além de ficha técnica e trailer da obra, um
consultório sentimental virtual, onde o visitante pode expor
seu dilema afetivo e chorar as mágoas que o filme promete
despertar nos apaixonados. Para os solitários, aflitos e
supersticiosos em geral, simpatias e a “Oração
para os Enamorados” – porque uma mãozinha do
santo nessas horas é deveras bem-vinda.
Separações. Brasil, 2001. Direção
de Domingos de Oliveira. 116 min.
Sobre o diretor: Domingos de Oliveira começou sua
carreira como diretor nos palcos do Rio de Janeiro nos anos 60.
Experimentou o sucesso no cinema com o longa-metragem Amores,
de 1996, uma adaptação da peça de mesmo nome
que venceu o Prêmio Shell naquele ano como melhor texto de
teatro. Já o filme lhe rendeu três kikitos no Festival
de Gramado ainda em 1998. Separações, também
filmagem da peça homônima, foi apresentado com sucesso
no Festival Rio-BR em 2002. 
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