| O URSO DE UM BILHÃO DE
DÓLARES
Winnie the Pooh saiu de um livro para
ganhar o amor das crianças e o ressentimento de seu criador.
E agora é pivô de uma batalha jurídica que pode
custar um bilhão de dólares à Disney
por Marcio
Caparica (marcio@rabisco.com.br)
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| Leitão, Christopher Robin e Winnie
the Pooh, numa das ilustrações originais do livro
de A. A. Milne |
le rende à Disney um bilhão de dólares por
ano com a venda de produtos, bichinhos de pelúcia e fitas
de vídeo. Já estrelou várias animações
para a companhia e é conhecido por crianças do mundo
inteiro. Mickey? Nã-na-ni-na-nã. Trata-se do rotundo,
amarelo e meio burrinho Winnie the pooh. Mais conhecido como Ursinho
Puff, nome que tinha antes da Disney resolver uniformizar a nomenclatura
do personagem, ele bate de frente com o Mickey, rendendo à
Disney tanto quanto o próprio. Para a infelicidade da empresa
do Mickey, ela corre o risco de perder os direitos sobre o ursinho
lambão. Numa luta judicial que já dura mais de dez
anos, ela tenta se agarrar ao personagem com todas as suas garras.
O que é no mínimo irônico, quando se considera
que seu criador não via a hora de se livrar dele.
Winnie the Pooh foi criado pelo escritor A. A. Milne,
que, inspirado por seu filho, Christopher Robin, e seu urso de pelúcia,
escreveu sem grandes pretensões o poema “Vespers”.
Ele permitiu que sua esposa, Daphne, vendesse a obra para alguma
revista e ficasse com o dinheiro. O poema foi publicado pela revista
Vanity Fair, e obteve um sucesso inesperado; logo várias
outras revistas pediam a Milne mais poemas infantis. O escritor
escreveu vários, nos quais apareciam Christopher Robin e
seu ursinho. O nome original do bicho era Edward Bear (forma extensa
de teddy bear, urso de pelúcia, em inglês),
mas logo seu nome mudou para Winnie, em homenagem a um urso do zoológico
de Londres que havia vindo de Winnipeg, no Canadá.
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| Christopher Robin (o verdadeiro, filho
de Milne) segurando Winnie (o original) |
Em 1924 esses poemas foram publicados no livro When
We Were Very Young, um sucesso de vendas. Devido a esse êxito,
Milne produziu mais um livro, de contos, desta vez, intitulado Winnie
The Pooh, em 1926. Ele vendeu mais de 150 mil cópias
só nos Estados Unidos, antes do fim do ano. Um livro tão
bem sucedido que começou a incomodar Milne. Percebendo que
o Ursinho de Pouco Cérebro estava tomando proporções
grandes demais, Milne tentou eliminá-lo em seu último
livro com Winnie, The House at Pooh Corner. Na última
cena do livro, ele fez com que Christopher Robin explicasse a Pooh
que estava crescendo e não voltaria mais a brincar com ele.
Não funcionou.
Alan Milne escreveu posteriormente mais peças,
ensaios e romances, mas jamais conseguiu se livrar de Winnie. Como
escreveu em sua autobiografia, “Um crítico afirmou
que o herói de minha última peça não
passava de um Christopher Robin crescido”. O público
só se lembrava dele como o criador de Tigrão, Leitão
e companhia. Seu filho, o verdadeiro Christopher Robin, também
se ressentia do sucesso de seu alter ego. Durante toda sua vida
seus colegas de escola o perturbaram sem piedade por ser o parceiro
do Ursinho Puff. Christopher Milne só aceitou o dinheiro
dos direitos autorais do pai depois que este morreu porque sua filha,
Clare, nasceu com retardamento mental, e precisaria do dinheiro
dos livros para se sustentar depois que ele morresse.
ESTOJOS,
LENÇÓIS E FITAS DE VÍDEO
Em 1930 A. A. Milne vendeu para o agente literário
Stephen Slesinger os direitos de imagem e licenciamento de Pooh
e sua turma nos Estados Unidos e Canadá por mil dólares
inteirinhos. Dois anos depois o autor também cedeu para o
agente, por nenhum custo adicional, os direitos sobre performances
usando seus personagens em rádio, televisão e qualquer
outro meio de reprodução que viesse a ser criado no
futuro; Milne e sua família ganhariam dois terços
desses rendimentos, e Slesinger ficaria com o resto.
Não chega a surpreender então que Roy
Disney, irmão de Walt, tenha ficado furioso quando, ao abordar
Milne em 1937 com a intenção de fazer filmes animados
com seus personagens, descobriu que eles já tinham outro
dono. Desde o começo o Reino Encantado já compreendia
a quantidade de dinheiro que poderia ser feita vendendo produtos
estampados com seus personagens, e conseqüentemente não
tinha a menor intenção de investir numa figura cujos
lucros iriam para outrem. Stephen Slesinger queria que os lucros
de merchandising fossem repartidos meio a meio com a Disney, o que
esta considerou inconcebível. As negociações
se estenderam até 1961, quando A. A. Milne e Stephen Slesinger
já tinham morrido, e a esposa de Slesinger, Shirley, fechou
um acordo no qual ela receberia 4% dos lucros, a família
de Milne, 2,5%, e Disney ficaria com o resto.
Em 1966 o primeiro filme de Winnie the Pooh, Winnie
the Pooh and the Honey Tree, com 25 minutos, foi lançado.
O segundo, Winnie the Pooh and the Blustery Day, saiu pouco
depois. Se já eram populares antes, depois de entrarem no
mundo da animação esses personagens tornaram-se uma
coqueluche. A alegria de crianças e adultos do mundo inteiro,
no entanto, haveria de ser a dor de cabeça de seus produtores.
Em
1980 a filha de Stephen e Shirley Slesinger, Pati, reclamou com
a Disney querendo receber porcentagens sobre os lucros com a venda
de bichos de pelúcia, brinquedos e revistinhas feitas com
Puff, que não estavam previstos no contrato de 1961. O conflito
durou até 1983, quando a Disney pagou 1,1 milhão de
dólares à Stephen Slesinger Inc. para resolver a questão
e reformular o contrato. Nele, a porcentagem que cabia aos Slesingers
foi reduzida a 2%. Mas esta paz durou pouco.
Nos anos 80 a venda de fitas de vídeo cresceu
espantosamente, de US$ 396 milhões por ano para US$8,3 bilhões.
As fitas do Puff viviam na lista dos mais vendidos. A Disney pagou
por algum tempo às Slesingers o dinheiro sobre os vídeos,
depois parou. Disse que não devia nada às duas e que
os pagamentos iniciais haviam sido um engano. Elas reclamaram, eles
disseram que não, e assim começou uma luta judicial
que já dura onze anos.
Caso as duas ganhem o processo, a Disney terá
que pagar mais de US$ 1 bilhão sobre o valor bruto de mercadorias
vendidas desde 1983. Obviamente Mickey não quer pagar isso,
e usa todas as artimanhas possíveis para tentar evitá-lo.
Logo no começo do processo, Pati Slesinger afirmou que Vince
Jefferds, o executivo que assinou o novo contrato em 1983, tinha
afirmado numa carta que concordava que deveria pagar uma porcentagem
sobre todos os produtos com a cara do Puff. Mas ninguém sabia
onde o tal contrato estava, e Jefferds já havia morrido,
portanto não podia confirmar nem desmentir o fato. Muito
suspeito da parte de Pati, com certeza. Em 1999, no entanto, a Disney
revelou que havia queimado quarenta caixas de papéis pessoais
de Jefferds três anos depois que o processo começou,
mas não havia nada relevante lá. O tiro saiu pela
culatra: depois de saber disso, o juiz proibiu que se coloque em
dúvida as afirmações de Pati sobre as cartas
de Jefferds.
Preocupado,
agora o Reino Encantado está tentando vencer por outro lado.
Em novembro do ano a Disney entrou com um processo no qual o último
descendente de A. A. Milne quer desfazer o contrato que o autor
fez com Slesinger e recuperar os direitos sobre Pooh. O último
descendente no caso sendo Clare, a filha de Christopher Robin, que,
como está escrito alguns parágrafos acima, tem paralisia
cerebral. Depois de recuperar os direitos, ela os venderia à
companhia por uma quantia não revelada. Tudo indica que ela
não entende muito bem o que está acontecendo e não
consegue diferenciar US$ 1 mil de US$ 1 milhão. O caso continua
rolando, e não deve acabar tão cedo. Até lá,
as crianças continuarão comendo tranqüilamente
seus McLanches Felizes com a cara de Winnie the Pooh na caixinha,
a maioria sem sequer imaginar que existe um livro que originou tudo
isso. E mais e mais dinheiro vai rolar para os cofres da Disney.
Leitão, o Filme, deve sair daqui a alguns meses. 
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