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23 de janeiro a 5 de fevereiro de 2003


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O URSO DE UM BILHÃO DE DÓLARES
Winnie the Pooh saiu de um livro para ganhar o amor das crianças e o ressentimento de seu criador. E agora é pivô de uma batalha jurídica que pode custar um bilhão de dólares à Disney

por Marcio Caparica (marcio@rabisco.com.br)

 Leitão, Christopher Robin e Winnie the Pooh, numa das ilustrações originais do livro de A. A. Milne

le rende à Disney um bilhão de dólares por ano com a venda de produtos, bichinhos de pelúcia e fitas de vídeo. Já estrelou várias animações para a companhia e é conhecido por crianças do mundo inteiro. Mickey? Nã-na-ni-na-nã. Trata-se do rotundo, amarelo e meio burrinho Winnie the pooh. Mais conhecido como Ursinho Puff, nome que tinha antes da Disney resolver uniformizar a nomenclatura do personagem, ele bate de frente com o Mickey, rendendo à Disney tanto quanto o próprio. Para a infelicidade da empresa do Mickey, ela corre o risco de perder os direitos sobre o ursinho lambão. Numa luta judicial que já dura mais de dez anos, ela tenta se agarrar ao personagem com todas as suas garras. O que é no mínimo irônico, quando se considera que seu criador não via a hora de se livrar dele.

Winnie the Pooh foi criado pelo escritor A. A. Milne, que, inspirado por seu filho, Christopher Robin, e seu urso de pelúcia, escreveu sem grandes pretensões o poema “Vespers”. Ele permitiu que sua esposa, Daphne, vendesse a obra para alguma revista e ficasse com o dinheiro. O poema foi publicado pela revista Vanity Fair, e obteve um sucesso inesperado; logo várias outras revistas pediam a Milne mais poemas infantis. O escritor escreveu vários, nos quais apareciam Christopher Robin e seu ursinho. O nome original do bicho era Edward Bear (forma extensa de teddy bear, urso de pelúcia, em inglês), mas logo seu nome mudou para Winnie, em homenagem a um urso do zoológico de Londres que havia vindo de Winnipeg, no Canadá.

 Christopher Robin (o verdadeiro, filho de Milne) segurando Winnie (o original)

Em 1924 esses poemas foram publicados no livro When We Were Very Young, um sucesso de vendas. Devido a esse êxito, Milne produziu mais um livro, de contos, desta vez, intitulado Winnie The Pooh, em 1926. Ele vendeu mais de 150 mil cópias só nos Estados Unidos, antes do fim do ano. Um livro tão bem sucedido que começou a incomodar Milne. Percebendo que o Ursinho de Pouco Cérebro estava tomando proporções grandes demais, Milne tentou eliminá-lo em seu último livro com Winnie, The House at Pooh Corner. Na última cena do livro, ele fez com que Christopher Robin explicasse a Pooh que estava crescendo e não voltaria mais a brincar com ele. Não funcionou.

Alan Milne escreveu posteriormente mais peças, ensaios e romances, mas jamais conseguiu se livrar de Winnie. Como escreveu em sua autobiografia, “Um crítico afirmou que o herói de minha última peça não passava de um Christopher Robin crescido”. O público só se lembrava dele como o criador de Tigrão, Leitão e companhia. Seu filho, o verdadeiro Christopher Robin, também se ressentia do sucesso de seu alter ego. Durante toda sua vida seus colegas de escola o perturbaram sem piedade por ser o parceiro do Ursinho Puff. Christopher Milne só aceitou o dinheiro dos direitos autorais do pai depois que este morreu porque sua filha, Clare, nasceu com retardamento mental, e precisaria do dinheiro dos livros para se sustentar depois que ele morresse.

ESTOJOS, LENÇÓIS E FITAS DE VÍDEO

Em 1930 A. A. Milne vendeu para o agente literário Stephen Slesinger os direitos de imagem e licenciamento de Pooh e sua turma nos Estados Unidos e Canadá por mil dólares inteirinhos. Dois anos depois o autor também cedeu para o agente, por nenhum custo adicional, os direitos sobre performances usando seus personagens em rádio, televisão e qualquer outro meio de reprodução que viesse a ser criado no futuro; Milne e sua família ganhariam dois terços desses rendimentos, e Slesinger ficaria com o resto.

Não chega a surpreender então que Roy Disney, irmão de Walt, tenha ficado furioso quando, ao abordar Milne em 1937 com a intenção de fazer filmes animados com seus personagens, descobriu que eles já tinham outro dono. Desde o começo o Reino Encantado já compreendia a quantidade de dinheiro que poderia ser feita vendendo produtos estampados com seus personagens, e conseqüentemente não tinha a menor intenção de investir numa figura cujos lucros iriam para outrem. Stephen Slesinger queria que os lucros de merchandising fossem repartidos meio a meio com a Disney, o que esta considerou inconcebível. As negociações se estenderam até 1961, quando A. A. Milne e Stephen Slesinger já tinham morrido, e a esposa de Slesinger, Shirley, fechou um acordo no qual ela receberia 4% dos lucros, a família de Milne, 2,5%, e Disney ficaria com o resto.

Em 1966 o primeiro filme de Winnie the Pooh, Winnie the Pooh and the Honey Tree, com 25 minutos, foi lançado. O segundo, Winnie the Pooh and the Blustery Day, saiu pouco depois. Se já eram populares antes, depois de entrarem no mundo da animação esses personagens tornaram-se uma coqueluche. A alegria de crianças e adultos do mundo inteiro, no entanto, haveria de ser a dor de cabeça de seus produtores.

Em 1980 a filha de Stephen e Shirley Slesinger, Pati, reclamou com a Disney querendo receber porcentagens sobre os lucros com a venda de bichos de pelúcia, brinquedos e revistinhas feitas com Puff, que não estavam previstos no contrato de 1961. O conflito durou até 1983, quando a Disney pagou 1,1 milhão de dólares à Stephen Slesinger Inc. para resolver a questão e reformular o contrato. Nele, a porcentagem que cabia aos Slesingers foi reduzida a 2%. Mas esta paz durou pouco.

Nos anos 80 a venda de fitas de vídeo cresceu espantosamente, de US$ 396 milhões por ano para US$8,3 bilhões. As fitas do Puff viviam na lista dos mais vendidos. A Disney pagou por algum tempo às Slesingers o dinheiro sobre os vídeos, depois parou. Disse que não devia nada às duas e que os pagamentos iniciais haviam sido um engano. Elas reclamaram, eles disseram que não, e assim começou uma luta judicial que já dura onze anos.

Caso as duas ganhem o processo, a Disney terá que pagar mais de US$ 1 bilhão sobre o valor bruto de mercadorias vendidas desde 1983. Obviamente Mickey não quer pagar isso, e usa todas as artimanhas possíveis para tentar evitá-lo. Logo no começo do processo, Pati Slesinger afirmou que Vince Jefferds, o executivo que assinou o novo contrato em 1983, tinha afirmado numa carta que concordava que deveria pagar uma porcentagem sobre todos os produtos com a cara do Puff. Mas ninguém sabia onde o tal contrato estava, e Jefferds já havia morrido, portanto não podia confirmar nem desmentir o fato. Muito suspeito da parte de Pati, com certeza. Em 1999, no entanto, a Disney revelou que havia queimado quarenta caixas de papéis pessoais de Jefferds três anos depois que o processo começou, mas não havia nada relevante lá. O tiro saiu pela culatra: depois de saber disso, o juiz proibiu que se coloque em dúvida as afirmações de Pati sobre as cartas de Jefferds.

Preocupado, agora o Reino Encantado está tentando vencer por outro lado. Em novembro do ano a Disney entrou com um processo no qual o último descendente de A. A. Milne quer desfazer o contrato que o autor fez com Slesinger e recuperar os direitos sobre Pooh. O último descendente no caso sendo Clare, a filha de Christopher Robin, que, como está escrito alguns parágrafos acima, tem paralisia cerebral. Depois de recuperar os direitos, ela os venderia à companhia por uma quantia não revelada. Tudo indica que ela não entende muito bem o que está acontecendo e não consegue diferenciar US$ 1 mil de US$ 1 milhão. O caso continua rolando, e não deve acabar tão cedo. Até lá, as crianças continuarão comendo tranqüilamente seus McLanches Felizes com a cara de Winnie the Pooh na caixinha, a maioria sem sequer imaginar que existe um livro que originou tudo isso. E mais e mais dinheiro vai rolar para os cofres da Disney. Leitão, o Filme, deve sair daqui a alguns meses.