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27 de fevereiro a 12 de março de 2003


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O AMOR ESTÁ NO DIAL
Programação romântica das rádios sobrevive ao tempo, ajuda a perpetuar a música pop intimista e guarda ainda o fascínio pela figura dos locutores

por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)

 

 Chudmilson de Souza, locutor do Amor Sem Fim, de Natal - RN

riginalmente, eles eram apenas musicais e deliciavam os ouvintes com canções intimistas que podiam ser utilizadas como mensagens. Se alguém queria demonstrar que estava apaixonado, pedia uma canção e recomendava o oferecimento ao ser amado. Com o tempo foram inseridas sessões para poemas e cartas de amor, e atualmente os programas românticos das emissoras de rádio agregaram definitivamente a função de servirem como portais para quem deseja iniciar um romance.

A vantagem do rádio, nos dias de hoje, em relação aos demais veículos de comunicação que promovem iniciativas similares, é ter um padrão de exposição mediano. Não é tão distante quanto a internet e nem expõe tanto quanto a televisão. Este panorama contribuiu para que, embora havendo outras opções, os programas continuem alavancando audiências nos horários em que vão ao ar.

DO OIAPOQUE AO CHUÍ...

Grande parte das rádios do país possui projetos deste gênero em sua grade de programação. Com duração média de duas a quatro horas, a maioria diariamente, eles possuem formatos similares: há espaço para recadinhos, divulgação de telefones, traduções e alguns períodos em que o público pode dizer o que sente ao vivo. O diferencial é criado basicamente pela forma como os locutores conduzem o programa e pela inserção de quadros especiais em cada projeto.

Alex Lucena, que está à frente do The Old Songs (Radio Caetés FM – Recife) diz que “um programa para ser romântico não precisa ser muito meloso, parado. Ele tem que ser conversado. O pessoal em casa está com dor de cotovelo, mas quer ouvir alguém conversando do outro lado. Então, às vezes eu brinco e quando é preciso ser mais calmo eu dou uma diminuída no tom da voz”. Como forma de inovar, ele criou para as quintas-feiras um quadro especial chamado “Bailinho”, cujo clima é criado logo na abertura: “agora a gente vai tocar umas músicas mais pra cima, então vai até a geladeira, pega um refrigerante e traz para a sala que a gente vai dançar” alerta o locutor antes de tocar sucessos de bandas como Bee Gees.

A interação é um dos pontos fortes do The Old Songs. O público costuma colaborar mandando poemas, letras de música e textos que são lidos no ar. Lucena, por sua vez, utiliza as traduções como um link para dar conselhos aos corações apaixonados. Tudo isso acabou levando o programa para além das fronteiras da capital pernambucana. Não são raras as mensagens eletrônicas e cartas que o locutor recebe de outros lugares do Brasil e de países como Estados Unidos e Austrália, onde se pode acessar a rádio on line.

Fã do programa, a estudante Cybelle Medeiros tornou-se ouvinte em dezembro de 2000, quando recebeu a indicação do namorado e de uma amiga, que já ouviam. Morando atualmente nos Estados Unidos, ela escuta o programa pela internet e conta que já conquistou grandes amizades desde então. “O clima romântico, as músicas muito bem selecionadas, o carisma, o modo como o Alex apresenta e a atenção especial com aquelas pessoas que estão ouvindo” foram, segundo a estudante, os elementos que chamaram mais atenção. A admiração é tanta que ela criou uma homepage www.theoldsongs.hpg.com.br e pela web ajuda a amiga Cybele Godoi a manter o Clube do Coração, um dos fã-clubes do programa.

Percebendo que a internet poderia ser um obstáculo para a audiência do Amor Sem Fim (Radio Cidade FM – Natal), o locutor Chudmilson de Souza resolveu integrar a rádio com o espaço virtual e criou o portal www.amorsemfim.com. Nele, além de ouvir o programa, o internauta pode deixar mensagens – que são lidas no ar ao longo da noite –, buscar seu par ideal em um espaço criado para promover encontros, ler traduções de músicas e cartas de amor, ver o ensaio fotográfico da “Garota Amor Sem Fim”, conhecer mais sobre a vida do apresentador e a trajetória do programa, acompanhar histórias de ouvintes que estabeleceram uma relação após trocar telefones e até mandar bouquet de flores.

“Outro ponto muito forte são as mensagens de abertura do programa, elas fazem o pessoal parar para ouvir detalhadamente. Ela só surte efeito se for bem interpretada, vivenciada, e isso eu me preocupo muito”, diz o locutor potiguar. Segundo ele, o ibope do programa é facilmente explicável: “Atualmente o mundo está vivendo momento de guerra, revolta, e tudo que não presta. Hoje você vê no semblante das pessoas raiva, insatisfação, inveja e a violência que elas carregam na forma de falar. O corre-corre do cotidiano, o stress. Quando chega a noite, ao deitar para dormir, ouve um locutor com uma voz calma levando mensagens de paz, amor e tocando musicas para se ficar em paz com você mesmo e com seu amor sem fim, isso causa um efeito muito positivo”.

O mesmo sucesso é percebido nos programas Love Songs e 105 Memories (105 FM – Brasília). Eles possuem basicamente o mesmo contexto. Porém, no primeiro há espaço para músicas atuais enquanto o segundo aborda apenas sucessos antigos. Quatro locutores dividem o comando das iniciativas. Carlos Alberto, o Cacá, é quem comanda a primeira edição do Love Songs, que vai ao ar na hora do almoço, das 12:00 às 13:00. Às 15:00, Paulo Campello assume a segunda parte do programa que tem mais uma hora de duração. O 105 Memories tem Luiz Fara, o Lula, durante a semana e aos domingos quem fica à frente da apresentação é Oswaldo Martins.

Segundo Lula, o tom carinhoso e respeitoso emitido pelos locutores e o apelo emocional ou saudoso que os programas imprimem nos ouvintes são os principais motivos da grande audiência que possuem. No programa que apresenta há um quadro chamado “Que Saudade De Você”, onde o público diz ao vivo de quem tem saudade, expressam este sentimento através de mensagens e escolhem uma música para o homenageado. Quando os romances firmam-se, ele comenta que “alguns ouvintes contam e ficam gratos. Quando o namoro termina, ligam tentando reconquistar com novas mensagens”. A confiança de deixar mensagens com dados pessoais para serem divulgados são, de acordo com o locutor, fruto da credibilidade alcançada pela emissora ao longo dos anos.

 Luiz Fara, locutor da 105 FM

EM BUSCA DE AMOR, AMIZADE E COMPREENSÃO...

“Se quiseres saber o quanto te amo, multiplique as estrelas do céu pelas gotas do oceano”. Há anos rimas como esta tomam as rádios de todo o Brasil. Os ouvintes declaram-se através de recados ou, quando a coragem é mais forte, deixam fluir todo um sentimento guardado, ao vivo, sem medo de parecerem melosos ou cafonas. Mas nem sempre a procura pelo programa se dá com o intuito de falar de amor. Muitas pessoas sintonizam por estarem com o coração partido.

Este é o caso da pernambucana Maria Cavalcanti. “Aconteceu comigo o que acontece com todas as que começam a escutar estes programas, uma decepção amorosa. O coração apertado, aquela sensação de vazio. Eu estava em casa, triste, liguei o rádio procurando nas estações alguma coisa que me consolasse, e encontrei uma música muito bonita e parei naquela rádio. Depois fiquei ouvindo o programa até o final e peguei o costume. Todo dia chegava em casa e ligava o rádio”.

Um segundo caso é contado pelo apresentador do Amor Sem Fim: “uma menina me pediu para falar com o ex-namorado dela para voltar, e eu a coloquei ao vivo. Falei para ele que uma menina tão meiga, doce e apaixonada por ele não deveria ser abandonada. Na semana seguinte ela me ligou dizendo que funcionou. Ficou feliz da vida”.

Mais um atrativo é a possibilidade de deixar os recados e telefones para contato utilizando pseudônimos. Chudmilson de Souza comenta que isso quase sempre acontece. “Muitas vezes é um amor proibido”. Alex Lucena acrescenta que a divulgação dos pseudônimos é permitida desde que o próprio ouvinte confirme seu nome e seu número em off. A medida é tomada para evitar trotes.

Outro ponto apontado como fator de audiência dos programas é o respeito que existe pela opção sexual dos ouvintes. “A gente aqui não tem preconceito nenhum. Homens que ligam para falar com homens e mulheres que ligam para falar com mulheres são atendidos do mesmo jeito. Todo mundo aqui é igual, todo mundo ama” argumenta Lucena.

POR TRÁS DAQUELA VOZ...

Quem será o dono daquela voz que se torna companheira das noites de tantas pessoas? Este enigma permeia a imaginação dos ouvintes fazendo com que os locutores acabem sendo alvo de diversas fantasias e recebam dezenas de cartas, e-mails, telefonemas, convites apaixonados e propostas indecentes durante o tempo em que apresentam os programas.

“Recebo declarações, convites para almoçar com amiga, visitas de mulheres que, às vezes, vão de vestido e ficam dando lances para mostrar que estão sem... Isto é incrível, mas já aconteceu. Quando trabalhava até as duas da manhã, às vezes recebia visitas inesperadas de tietes que chegavam de camisola! Loucura total. Esta história até o dono da rádio sabe e ainda hoje ele comenta com amigos. Fora os convites diários e os sussurros de ‘te amo’ que ouço no telefone” conta Souza.

No entanto, não são raros os casos em que a figura do locutor difere completamente da imagem sonhada, podendo levar à decepção. Esta transposição de imagens exige bastante cautela por parte dos locutores. “Acho que as pessoas que assediam querem algo com o locutor e não com a pessoa”, opina Lula, que por trabalhar também em televisão tem esse fator imaginativo aliviado. “Eles vêem perfeitamente como sou, com todos os defeitos e algumas qualidades”. Alex Lucena comenta que procura manter uma relação saudável com os fãs do programa e diz que se comporta como uma espécie de irmão mais velho das meninas que compõem os fã-clubes do The Old Songs.

 Alex Lucena, comandante do The Old Songs

PERPETUANDO A MÚSICA POP ROMÂNTICA...

Outro aspecto destes projetos é que eles mantêm, implicitamente, a função de perpetuar a música pop romântica. A programação é basicamente feita através de pedidos dos ouvintes que escolhem canções consideradas clássicos como “Hotel California” (The Eagles), “Take my Breath Away” (Berlim) e “Endless Love” (Diana Ross & Lionel Ritchie). Quem também possui espaço garantido em alguns programas é o ator Patrick Swayze, que fez sucesso na década de 1980 cantando “She´s Like The Wind”. A canção fez parte da trilha sonora do filme Dirty Dancing, lançado em 1987.

O bancário Gerailson Lopes de Souza está entre aqueles que ouvem por causa do repertório e comenta que é legal “quando músicas antigas são executadas e te lembram coisas de tempos atrás”. Recordar é um dos motivos que faz com que o público prefira as canções antigas em detrimento as que estão fazendo sucesso atualmente. O gaúcho Robson Teles lembra que costumava ouvir “Vivo Por Ella”, com Sandy e Andrea Bocceli em meados dos anos 90. Hoje quando ouve a canção lembra do que o momento representou: “eu escutava essa música com a minha primeira namorada, que foi a guria que eu mais gostei... daí marcou muito!”.

Os artistas nacionais que fizeram história também têm boa aceitação nos programas. Roberto e Erasmo com “Como é grande meu amor por você”, Nando Cordel com “Gostoso Demais” - música que compôs com Dominguinhos - e Geraldo Azevedo com “Dia Branco” são muito bem requisitados. Djavan, no entanto, parece possuir cadeira cativa com “Oceano”, que foi tema da novela Top Model junto com “Stairway To Heaven”, do Led Zeppellin.

PARA OUVIR...

Amor Sem Fim
Radio Cidade FM (94,3 MHz)
Natal (RN)
Diariamente, 20:00 às 24:00
On line: www.amorsemfim.com

Love Songs
Radio 105 FM (105 MHz)
Brasília (DF)
1ª edição: segunda a sábado,12:00 às 13:00
2ª edição: segunda a sexta, 15:00 às 16:00
On line: www.105fm.com.br

105 Memories
Radio 105 FM (105 MHz)
Brasília (DF)
domingo a sexta, 22:00 às 24:00
On line: www.105fm.com.br

The Old Songs
Radio Caetés FM (99,1 MHz)
Recife (PE)
domingo a quinta, 20:00 às 24:00
On line: www.pernambuco.com/caetes