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25 de abril a 7 de maio de 2003


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“JUBA E LULA, HOOOOOO!”
Quem aqui não era fã da Armação Ilimitada? O seriado mudou os jovens e mudou a TV

por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

os dias 12 a 27 de abril, o grupo Educine organizou no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, um novo ciclo de debates e exposições do projeto Diretores Brasileiros. Desta vez, o personagem-tema foi Antonio Calmon, um diretor com interessantes obras na filmografia, como Terror e Êxtase e Menino do Rio, mas que é mais conhecido por seu trabalho em novelas (Vamp e Top Model são dele). Há, no entanto, um período específico da carreira de Calmon que fez todo visitante do CCBB deter o passo e apurar a visão. O período de 1985 a 1988 – os tempos de Armação Ilimitada.

De cara, qualquer oitentista digno de sua geração abre um sorriso de orelha a orelha à simples menção do seriado. Que menina não queria ser como a independente jornalista Zelda Scott, com dois namorados ao mesmo tempo? E que menino não queria ser Juba ou Lula, sempre metidos em grandes aventuras? À primeira vista, Armação Ilimitada foi isso aí: um programa repleto de bom-humor, alegria e diversão. Mas, talvez por termos sido pequenos e ingênuos à época, nunca notamos o quanto a série havia sido transgressora, tanto em termos de linguagem televisiva quanto de conteúdo. Parece inusitado e arrogante dizê-lo, mas o fato é que aquele seriado bobinho e leve mudou para sempre a cara da TV e, principalmente, do jovem na TV no Brasil.

Armação Ilimitada surgiu da readequação da postura da Rede Globo após a queda do regime militar. Em meio à reabertura política, era preciso arrebanhar espectadores do segmento infanto-juvenil. O diretor e ator Daniel Filho ficou encarregado da missão, e chamou Calmon para ajudá-lo. Calmon havia feito relativo sucesso misturando agito, esporte, praia e namoricos em Menino do Rio e a continuação Garota Dourada. A participação de Calmon garantiu ao ator André de Biasi, com quem havia trabalhado em ambos os filmes, o papel do surfista Lula. Ao lado de Juba (Kadu Moliterno), ele comanda uma “agência de serviços”, a Armação Ilimitada, que presta-se tanto a resgates em meio à floresta amazônica quanto a investigações Bondianas de grandes tramóias políticas.

Inicialmente, porém, o programa concentrou-se apenas na disputa de Zelda (Andréa Beltrão) pelos dois rapazes. Foi quando Calmon assumiu a direção artística e textual do show, na segunda temporada, que iniciou-se, de fato, um dos mais criativos e irreverentes programas da TV. Calmon conseguiu, sem afetação, misturar estéticas de cinema, música, HQ e até video-clipe, isso anos antes da MTV brasileira. Com um pelotão de roteiristas geniais, criou tramas absolutamente nonsense, pontuadas de referências pop, mas também – e este é um mérito inigualável – oferecendo ao espectador uma discussão de questões sociais brasileiras. Episódios como “Jeca Tatu, Cotia Não”, acerca da figura do caipira, e “Jararaca, o Cabra”, que chegava a emprestar elementos do Cinema Novo para falar do sertanejo, recebiam tratamento tão privilegiado quanto “Uma Armação nas Estrelas” e “0000007 contra o Doutor Fantástico”, óbvias sátiras hollywoodianas.

É interessante notar o quanto esta propensão à rebeldia, a quebrar com os tabus televisivos, imiscuído em um ambiente ficcional sem qualquer atitude panfletária, reflete certinho o espírito jovem. Queremos mudar o mundo, claro, mas não queremos discursos políticos entediantes e doutrinários. Queremos mudar o mundo nos divertindo, fazendo coisas diferentes – um relacionamento à três, aberto, sem neuras, em meio ao conservadorismo dos anos 80; uma família pouco convencional, com um menino de rua adotado (Bacana, vivido por Jonas Torres); um trabalho aventureiro, com um rabugento Chefe (Francisco Milani) que se transforma conforme a imaginação... E por aí vai.

“Quer saber de uma coisa? Entre a realidade e a ilusão, eu prefiro a ilusão”, diz Zelda Scott em “O Surfista e o Milionário” (no qual Lula troca de lugar com um playboy, à la O Príncipe e o Mendigo). Pois o mesmo dizia a família de classe média brasileira, que, entre um riso e outro, não condenava um programa absolutamente transgressor. A dupla Juba e Lula foi vanguarda não apenas ao pregar valores familiares alternativos, mas também por identificar, por exemplo, com anos de antecedência, a chamada “geração saúde” e a posterior febre dos “esportes radicais” (hoje vendidos em 9 de 10 propagandas para jovens como um conceito novíssimo). Isso sem mencionar que foi a única vez que qualquer emissora brasileira conseguiu, evidentemente, conversar à altura com o público infanto-juvenil, sem reduzi-lo a mero consumidor de sexo e violência (que nunca houve em Armação) ou sem tratá-lo como um imbecil acéfalo, como faz hoje Malhação (onde, aliás, Moliterno e Biasi ganharam sobrevida indigna).

Vítima do próprio peso, a Armação Ilimitada acabou em 1988, sendo depois reaproveitada num horrendo game-show praiano vespertino. Parte do seu espólio foi herdado por outro programa revolucionário, porém mais adulto – a TV Pirata. A trinca criativa do seriado deu certo em outras áreas: Patrícia Travassos ganhou o Brasil como a Mary Mattoso, de Vamp, outro presente de Calmon; Mauro Rasi, anos depois, renovou o teatro cômico com Pérola; e Guel Arraes permaneceu na Globo, e ainda é, até hoje, um dos poucos diretores que ousam algo diversificado. Para os fãs, sobrou apenas um certo rescaldo nostálgico. No CCBB rolou rumores, porém, de que a Globo planeja relançar a Armação Ilimitada em DVD, como fez com outros produtos antigos, como a minissérie Anos Dourados. Vai ser uma nova aventura radical para Juba, Lula, Zelda, Bacana e Ronalda Cristina: um teste para saber se sua habilidade de se comunicar com os jovens permanece nesta nova geração. Independente do resultado, um box com certeza já é meu. » » »