| “JUBA E LULA, HOOOOOO!”
Quem aqui não era fã
da Armação Ilimitada? O seriado mudou os jovens
e mudou a TV
por Marcel
Nadale (marcel@rabisco.com.br)

os dias 12 a 27 de abril, o grupo Educine organizou no Centro Cultural
Banco do Brasil, em São Paulo, um novo ciclo de debates e
exposições do projeto Diretores Brasileiros.
Desta vez, o personagem-tema foi Antonio Calmon, um diretor com
interessantes obras na filmografia, como Terror e Êxtase
e Menino do Rio, mas que é mais conhecido por
seu trabalho em novelas (Vamp e Top Model são
dele). Há, no entanto, um período específico
da carreira de Calmon que fez todo visitante do CCBB deter o passo
e apurar a visão. O período de 1985 a 1988 –
os tempos de Armação Ilimitada.
De cara, qualquer oitentista digno de sua geração
abre um sorriso de orelha a orelha à simples menção
do seriado. Que menina não queria ser como a independente
jornalista Zelda Scott, com dois namorados ao mesmo tempo? E que
menino não queria ser Juba ou Lula, sempre metidos em grandes
aventuras? À primeira vista, Armação Ilimitada
foi isso aí: um programa repleto de bom-humor, alegria e
diversão. Mas, talvez por termos sido pequenos e ingênuos
à época, nunca notamos o quanto a série havia
sido transgressora, tanto em termos de linguagem televisiva quanto
de conteúdo. Parece inusitado e arrogante dizê-lo,
mas o fato é que aquele seriado bobinho e leve mudou para
sempre a cara da TV e, principalmente, do jovem na TV no Brasil.
Armação Ilimitada surgiu da
readequação da postura da Rede Globo após a
queda do regime militar. Em meio à reabertura política,
era preciso arrebanhar espectadores do segmento infanto-juvenil.
O diretor e ator Daniel Filho ficou encarregado da missão,
e chamou Calmon para ajudá-lo. Calmon havia feito relativo
sucesso misturando agito, esporte, praia e namoricos em Menino
do Rio e a continuação Garota Dourada.
A participação de Calmon garantiu ao ator André
de Biasi, com quem havia trabalhado em ambos os filmes, o papel
do surfista Lula. Ao lado de Juba (Kadu Moliterno), ele comanda
uma “agência de serviços”, a Armação
Ilimitada, que presta-se tanto a resgates em meio à floresta
amazônica quanto a investigações Bondianas de
grandes tramóias políticas.
Inicialmente,
porém, o programa concentrou-se apenas na disputa de Zelda
(Andréa Beltrão) pelos dois rapazes. Foi quando Calmon
assumiu a direção artística e textual do show,
na segunda temporada, que iniciou-se, de fato, um dos mais criativos
e irreverentes programas da TV. Calmon conseguiu, sem afetação,
misturar estéticas de cinema, música, HQ e até
video-clipe, isso anos antes da MTV brasileira. Com um pelotão
de roteiristas geniais, criou tramas absolutamente nonsense, pontuadas
de referências pop, mas também – e este é
um mérito inigualável – oferecendo ao espectador
uma discussão de questões sociais brasileiras. Episódios
como “Jeca Tatu, Cotia Não”, acerca da figura
do caipira, e “Jararaca, o Cabra”, que chegava a emprestar
elementos do Cinema Novo para falar do sertanejo, recebiam tratamento
tão privilegiado quanto “Uma Armação
nas Estrelas” e “0000007 contra o Doutor Fantástico”,
óbvias sátiras hollywoodianas.
É interessante notar o quanto esta propensão
à rebeldia, a quebrar com os tabus televisivos, imiscuído
em um ambiente ficcional sem qualquer atitude panfletária,
reflete certinho o espírito jovem. Queremos mudar o mundo,
claro, mas não queremos discursos políticos entediantes
e doutrinários. Queremos mudar o mundo nos divertindo, fazendo
coisas diferentes – um relacionamento à três,
aberto, sem neuras, em meio ao conservadorismo dos anos 80; uma
família pouco convencional, com um menino de rua adotado
(Bacana, vivido por Jonas Torres); um trabalho aventureiro, com
um rabugento Chefe (Francisco Milani) que se transforma conforme
a imaginação... E por aí vai.
“Quer saber de uma coisa? Entre a realidade
e a ilusão, eu prefiro a ilusão”, diz Zelda
Scott em “O Surfista e o Milionário” (no qual
Lula troca de lugar com um playboy, à la O Príncipe
e o Mendigo). Pois o mesmo dizia a família de classe
média brasileira, que, entre um riso e outro, não
condenava um programa absolutamente transgressor. A dupla Juba e
Lula foi vanguarda não apenas ao pregar valores familiares
alternativos, mas também por identificar, por exemplo, com
anos de antecedência, a chamada “geração
saúde” e a posterior febre dos “esportes radicais”
(hoje vendidos em 9 de 10 propagandas para jovens como um conceito
novíssimo). Isso sem mencionar que foi a única vez
que qualquer emissora brasileira conseguiu, evidentemente, conversar
à altura com o público infanto-juvenil, sem reduzi-lo
a mero consumidor de sexo e violência (que nunca houve em
Armação) ou sem tratá-lo como um imbecil
acéfalo, como faz hoje Malhação (onde,
aliás, Moliterno e Biasi ganharam sobrevida indigna).
Vítima
do próprio peso, a Armação Ilimitada
acabou em 1988, sendo depois reaproveitada num horrendo game-show
praiano vespertino. Parte do seu espólio foi herdado por
outro programa revolucionário, porém mais adulto –
a TV Pirata. A trinca criativa do seriado deu certo em outras
áreas: Patrícia Travassos ganhou o Brasil como a Mary
Mattoso, de Vamp, outro presente de Calmon; Mauro Rasi, anos
depois, renovou o teatro cômico com Pérola;
e Guel Arraes permaneceu na Globo, e ainda é, até
hoje, um dos poucos diretores que ousam algo diversificado. Para
os fãs, sobrou apenas um certo rescaldo nostálgico.
No CCBB rolou rumores, porém, de que a Globo planeja relançar
a Armação Ilimitada em DVD, como fez com outros
produtos antigos, como a minissérie Anos Dourados.
Vai ser uma nova aventura radical para Juba, Lula, Zelda, Bacana
e Ronalda Cristina: um teste para saber se sua habilidade de se
comunicar com os jovens permanece nesta nova geração.
Independente do resultado, um box com certeza já é
meu. » »
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