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25 de abril a 7 de maio de 2003


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SANGUE NOVO
Diretor iniciante arranca grandes performances no policial independente Narc, novidade nas locadoras

por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

oucos gêneros foram tão maltratados pela popularização do mercado de vídeo quanto o policial. Dezenas de títulos lançados mensalmente nas locadoras reciclam a velha ladainha do detetive morto, seu parceiro em busca de vingança e a investigação sangrenta que só se encerra depois que o protagonista é “desligado do caso”. Portanto, é agridoce ver o independente Narc ser lançado direto em DVD e VHS pela Flashstar. Perdida nas prateleiras abarrotadas, nem todo mundo irá notar esta fita no mínimo interessante, que, se não chega a expandir as fronteiras do gênero, locomove-se com naturalidade dentro delas.

A distinção entre Narc e seus concorrentes é simples: trata-se de uma empreitada particular. A segunda, para ser mais exato, do novato diretor, roteirista e produtor Joe Carnahan, que já havia chamado a atenção da cena californiana com Blood, Guts, Bullets and Octane, de 1998. Dono de seu próprio nariz, Carnahan passou-o pelas carreiras de cocaína da Baixa Califórnia para fazer um drama sobre o submundo das drogas que não se presta doutrinário ou hiperabrangente, como Traffic, de Soderbergh, ou niilista e particular demais, como Requiem para um Sonho, de Aronofsky. Narc é, sem dúvida, inferior a ambos os filmes, e até parece emular Traffic na fotografia amarelada, mas chega a soar fresco por não deixar que seu tema, tão polêmico e impactante, corroa o fluxo narrativo ou os personagens.

Enfatizar os personagens foi um risco grande, se levarmos em consideração que Carnahan usou boa parte do seu pequeno orçamento para contratar os sumidos Ray Liotta (Hannibal) e Jason Patric (Velocidade Máxima 2). Filmes policiais, porém, gostam de pregar que seus heróis “não têm nada a perder”, então a escolha do elenco mostrou-se apropriada: quem melhor do que dois atores em declínio para retratar tal senso de urgência? Tanto Liotta quanto Patric surpreendem em interpretações excelentes, admiráveis mesmo, sem absoluto resguardo. No papel de um irascível detetive da divisão de narcóticos, Liotta chega a picos nunca vistos desde Os Bons Companheiros. Patric tenta acompanhá-lo, mas, a pedido do personagem e da trama, mantém uma atitude mais reclusa. Ele interpreta outro policial do combate às drogas, mas que, atuando à paisana em meio aos traficantes, acabou viciado em heroína. Recém-saído da clínica de reabilitação e ainda em crise de abstinência, Patric é designado para auxiliar Liotta, que investiga o assassinato de seu ex-parceiro.

Como é de costume, a investigação não é nada sutil, com momentos de virar o estômago. Cego de vingança, Liotta vai passando por cima de qualquer direito civil, espremendo todo negro invocado do gueto para obter alguma pista. Uma metralhadora de vitupérios, Liotta desfere com naturalidade os diálogos tarantinescos (mas sem o tom pejorativo que o termo acabou adquirindo) de Carnahan. Patric apenas esforça-se para se manter em pé, flertando perigosamente com uma cultura que, a grandes custos, acabara de deixar. Aos poucos, vai retomando controle da sua vida e, nestes momentos de lucidez, consegue recosturar alguma verdade acerca desta investigação que, conclui, permite “muitas verdades”. O desfecho não chega lá a ser muito original (novamente, o peso do gênero enverga o filme), mas a jornada dos dois até então já é o suficiente para deixar o espectador aflito, oprimido e boquiaberto.

Sangue novo logo atrai a atenção dos tubarões de Hollywood e Joe Carnahan já foi contratado para conduzir Missão Impossível 3, agendado para 2005. Ali, é claro, o garoto prodígio vai ser massacrado pela pressão do orçamento, do control-freak Tom Cruise e das expectativas do estúdio. Mas isso já são outros quinhentos... Quem sabe pelo menos quando M-I: 3 estiver nos cinemas, Narc ganhará mais destaque nas prateleiras das locadoras.