| SANGUE NOVO
Diretor iniciante arranca grandes
performances no policial independente Narc, novidade nas
locadoras
por Marcel
Nadale (marcel@rabisco.com.br)

oucos gêneros foram tão maltratados pela popularização
do mercado de vídeo quanto o policial. Dezenas de títulos
lançados mensalmente nas locadoras reciclam a velha ladainha
do detetive morto, seu parceiro em busca de vingança e a
investigação sangrenta que só se encerra depois
que o protagonista é “desligado do caso”. Portanto,
é agridoce ver o independente Narc ser lançado
direto em DVD e VHS pela Flashstar. Perdida nas prateleiras abarrotadas,
nem todo mundo irá notar esta fita no mínimo interessante,
que, se não chega a expandir as fronteiras do gênero,
locomove-se com naturalidade dentro delas.
A distinção entre Narc e seus
concorrentes é simples: trata-se de uma empreitada particular.
A segunda, para ser mais exato, do novato diretor, roteirista e
produtor Joe Carnahan, que já havia chamado a atenção
da cena californiana com Blood, Guts, Bullets and Octane,
de 1998. Dono de seu próprio nariz, Carnahan passou-o pelas
carreiras de cocaína da Baixa Califórnia para fazer
um drama sobre o submundo das drogas que não se presta doutrinário
ou hiperabrangente, como Traffic, de Soderbergh,
ou niilista e particular demais, como Requiem para um Sonho,
de Aronofsky. Narc é, sem dúvida,
inferior a ambos os filmes, e até parece emular Traffic
na fotografia amarelada, mas chega a soar fresco por não
deixar que seu tema, tão polêmico e impactante, corroa
o fluxo narrativo ou os personagens.
Enfatizar
os personagens foi um risco grande, se levarmos em consideração
que Carnahan usou boa parte do seu pequeno orçamento para
contratar os sumidos Ray Liotta (Hannibal) e Jason Patric
(Velocidade Máxima 2). Filmes policiais, porém,
gostam de pregar que seus heróis “não têm
nada a perder”, então a escolha do elenco mostrou-se
apropriada: quem melhor do que dois atores em declínio para
retratar tal senso de urgência? Tanto Liotta quanto Patric
surpreendem em interpretações excelentes, admiráveis
mesmo, sem absoluto resguardo. No papel de um irascível detetive
da divisão de narcóticos, Liotta chega a picos nunca
vistos desde Os Bons Companheiros. Patric tenta acompanhá-lo,
mas, a pedido do personagem e da trama, mantém uma atitude
mais reclusa. Ele interpreta outro policial do combate às
drogas, mas que, atuando à paisana em meio aos traficantes,
acabou viciado em heroína. Recém-saído da clínica
de reabilitação e ainda em crise de abstinência,
Patric é designado para auxiliar Liotta, que investiga o
assassinato de seu ex-parceiro.
Como
é de costume, a investigação não é
nada sutil, com momentos de virar o estômago. Cego de vingança,
Liotta vai passando por cima de qualquer direito civil, espremendo
todo negro invocado do gueto para obter alguma pista. Uma metralhadora
de vitupérios, Liotta desfere com naturalidade os diálogos
tarantinescos (mas sem o tom pejorativo que o termo acabou adquirindo)
de Carnahan. Patric apenas esforça-se para se manter em pé,
flertando perigosamente com uma cultura que, a grandes custos, acabara
de deixar. Aos poucos, vai retomando controle da sua vida e, nestes
momentos de lucidez, consegue recosturar alguma verdade acerca desta
investigação que, conclui, permite “muitas verdades”.
O desfecho não chega lá a ser muito original (novamente,
o peso do gênero enverga o filme), mas a jornada dos dois
até então já é o suficiente para deixar
o espectador aflito, oprimido e boquiaberto.
Sangue novo logo atrai a atenção dos tubarões
de Hollywood e Joe Carnahan já foi contratado para conduzir
Missão Impossível 3, agendado para
2005. Ali, é claro, o garoto prodígio vai ser massacrado
pela pressão do orçamento, do control-freak Tom Cruise
e das expectativas do estúdio. Mas isso já são
outros quinhentos... Quem sabe pelo menos quando M-I: 3
estiver nos cinemas, Narc ganhará mais
destaque nas prateleiras das locadoras. 
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