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8 a 21 de maio de 2003


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PLÍNIO MARCOS SIM, MAS NEM TANTO
Diretor se perde na adaptação de Plínio Marcos e é salvo
pela grandeza do elenco

por Marcia Medeiros (pedraobarros@hotmail.com)

o submundo paulistano ao underground nova-iorquino, Dois Perdidos numa Noite Suja perdeu identidade e substância. Escrita e encenada pela primeira vez em fins da década de 60, quando marginalidade e delinqüência eram tendências no cinema e no teatro, a peça de Plínio Marcos mostra dois vagabundos em conflito por sobrevivência em um moquifo de São Paulo. Quase quatro décadas depois, José Joffily (de Quem Matou Pixote?) injeta moder-nidade no enredo e transforma Tonho e Paco em imigrantes brasileiros na Nova York de hoje.

Tonho (Roberto Bomtempo) é a dignidade que vai se perdendo no caos de uma metrópole superlotada e na convivência com Paco (Débora Falabella). O clichê do mineiro de Governador Valadares que vira vítima dos coiotes na fronteira México-EUA em busca do sonho americano é absolvido diante da angústia real que o personagem suscita. Quanto a Paco, ele na verdade é Rita, garota bem nascida que, enquanto sobrevive como garoto de programa na Big Apple, sonha em virar estrela do hip hop. O enigma subversivo – de gênero e comportamento – representado por Rita/Paco, se não mostra a que veio e fica em suspenso, premia o público com a atuação impressionante de Débora Falabella. A atriz se afirma definitivamente como talhada para papéis incisivos, brutalizados depois da princesa drogada Mel da novela O Clone (2002). É a própria loba em pele de ovelha.

O roteiro atrapalhado bem que procura conservar elementos da encenação: o episódio da bota, por exemplo, promove a revelação dos personagens e quase que uma troca de papéis. Mesmo quem não a conhece a peça – como eu aqui, que só fui pesquisá-la depois de ver a trama no cinema –, percebe intencionalidade na supervalorização do par de sapatos. Ponto para o diretor, que conduz o espectador à aflição e à raiva pela condição dos dois perdidos.

Mas a tentativa de transformar Dois Perdidos em uma história de amor bandido foi a maior inovação – e, por que não, erro – na adaptação. A relação destrutiva entre Tonho e Paco se basta através da agressividade dos diálogos e ações. Não justifica, portanto a sensualidade forjada de Rita (ou Paco?), pouco convincente e quase constrangedora.
Joffily se afasta do original de Plínio Marcos, sobretudo, ao trocar o moral determinista do “homem corrompido pelo meio” por um final errante entre um otimismo ingênuo e a resignação. A energia violenta do texto e a crítica social valorizadas por Plínio se perdem e esvaziam a obra de reflexão.

A ambientação interna na maior parte do tempo e a luz fria, ao mesmo tempo que sombria sobre os atores, reproduzem o mergulho no caráter dos personagens. Desespero, solidão e subversão ganham intensidade embalados pela trilha sonora tensa e caprichada. São os pontos fortes do filme.

Se a intenção era chocar, Dois Perdidos cumpre a tarefa. Não pela mensagem e texto – empobrecidos –, mas pela estética crua, contundente e a grandeza das interpretações.