| PLÍNIO MARCOS SIM, MAS
NEM TANTO
Diretor se perde na adaptação
de Plínio Marcos e é salvo
pela grandeza do elenco
por Marcia
Medeiros (pedraobarros@hotmail.com)

o submundo paulistano ao underground nova-iorquino, Dois
Perdidos numa Noite Suja perdeu identidade e substância.
Escrita e encenada pela primeira vez em fins da década de
60, quando marginalidade e delinqüência eram tendências
no cinema e no teatro, a peça de Plínio Marcos mostra
dois vagabundos em conflito por sobrevivência em um moquifo
de São Paulo. Quase quatro décadas depois, José
Joffily (de Quem Matou Pixote?) injeta moder-nidade no enredo
e transforma Tonho e Paco em imigrantes brasileiros na Nova York
de hoje.
Tonho (Roberto Bomtempo) é a dignidade que vai se perdendo
no caos de uma metrópole superlotada e na convivência
com Paco (Débora Falabella). O clichê do mineiro de
Governador Valadares que vira vítima dos coiotes na fronteira
México-EUA em busca do sonho americano é absolvido
diante da angústia real que o personagem suscita. Quanto
a Paco, ele na verdade é Rita, garota bem nascida que, enquanto
sobrevive como garoto de programa na Big Apple, sonha em virar estrela
do hip hop. O enigma subversivo – de gênero e comportamento
– representado por Rita/Paco, se não mostra a que veio
e fica em suspenso, premia o público com a atuação
impressionante de Débora Falabella. A atriz se afirma definitivamente
como talhada para papéis incisivos, brutalizados depois da
princesa drogada Mel da novela O Clone (2002).
É a própria loba em pele de ovelha.
O
roteiro atrapalhado bem que procura conservar elementos da encenação:
o episódio da bota, por exemplo, promove a revelação
dos personagens e quase que uma troca de papéis. Mesmo quem
não a conhece a peça – como eu aqui, que só
fui pesquisá-la depois de ver a trama no cinema –,
percebe intencionalidade na supervalorização do par
de sapatos. Ponto para o diretor, que conduz o espectador à
aflição e à raiva pela condição
dos dois perdidos.
Mas a tentativa de transformar Dois Perdidos
em uma história de amor bandido foi a maior inovação
– e, por que não, erro – na adaptação.
A relação destrutiva entre Tonho e Paco se basta através
da agressividade dos diálogos e ações. Não
justifica, portanto a sensualidade forjada de Rita (ou Paco?), pouco
convincente e quase constrangedora.
Joffily se afasta do original de Plínio Marcos, sobretudo,
ao trocar o moral determinista do “homem corrompido pelo meio”
por um final errante entre um otimismo ingênuo e a resignação.
A energia violenta do texto e a crítica social valorizadas
por Plínio se perdem e esvaziam a obra de reflexão.
A
ambientação interna na maior parte do tempo e a luz
fria, ao mesmo tempo que sombria sobre os atores, reproduzem o mergulho
no caráter dos personagens. Desespero, solidão e subversão
ganham intensidade embalados pela trilha sonora tensa e caprichada.
São os pontos fortes do filme.
Se a intenção era chocar, Dois Perdidos
cumpre a tarefa. Não pela mensagem e texto – empobrecidos
–, mas pela estética crua, contundente e a grandeza
das interpretações. 
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