| PARIS, MAIO DE 1968
A irreverência e a rebeldia
dos estudantes franceses arrancaram paralelepípedos e deixaram
sementes de mudança
por Marcelo
Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

871. Toda a França está ocupada pelo exército
prussiano. Ao tentar interferir na sucessão da Espanha, Napoleão
III desagradou a Prússia, que mantinha os ibéricos
sob sua influência. Os desentendimentos entre o imperador
prussiano culminaram na Guerra Franco-Prussiana (1870-71). Durante
a progressão do conflito, as tropas francesas sofriam derrotas
sucessivas, sendo que o próprio imperador já havia
se rendido e se encontrava prisioneiro. Toda a França está
ocupada. Toda? Não! Cercado pelo inimigo, os parisienses
revoltaram-se num feroz movimento que passou para a história
com o nome de Comuna. O fator culminante para a criação
daquele estado “citadino” foi a humilhante capitulação
dos monarquistas em favor da Prússia.
Os adeptos de Napoleão, apoiados pelos camponeses
e por grandes proprietários, davam um cavalo para não
voltar à revolução social de 1848. Por cinco
meses, o inimigo cercou a futura Cidade-Luz. A derrota do exército
francês havia selado a guerra. O povo de Paris, ao perceber
que o governo provisório (instalado em Versalhes) nada faria
por eles, decidiu levantar barricadas, fechando a cidade. Apesar
da patriótica resistência, Versalhes já havia
assinado a rendição, em janeiro daquele ano. Em conseqüência
disso, Paris se fechou para si mesmo, criando um regime político
particular contra tudo e contra todos, como os gauleses das histórias
de René Goscinny.
Em maio de 1871, uma violenta repressão promovida
pelas forças reacionárias derrubou as barricadas e
tomou a cidade, executando milhares de trabalhadores amotinados:
pelo menos 20 mil parisienses foram mortos durante o ataque. Depois
que a poeira assentou, ficou um porém: o temor de que, mais
cedo ou mais tarde, novas barricadas fossem erguidas. Para evitá-las,
a prefeitura destruiu todos os prédios nos bulevares e ruas
avenidas centrais foram todas alargadas. Com tamanha largura, seria
impossível fechá-las com barricadas. Mas Paris seria
sempre Paris — como diria Bogart em Casablanca
— e maio seria sempre maio. Quase um século após
a Comuna, o atavismo “revolucionário” foi mais
forte. Tanto que, nas trágicas noites de 10 e 24 de maio
de 1968 — há exatos trinta e cinco anos, nada menos
de 40 barricadas foram erguidas nos quartiers
da margem esquerda do Sena. Entre recordações nostálgicas
dos anos 60 e declarações de desilusão a respeito
dos fins e meios daquele momento histórico, a rebelião
dos jovens é sempre lembrada.
O COMEÇO —
De 1960 até maio daquele ano (que, segundo Zuenir Ventura,
não acabou), surgiu na França um movimento contestatório
da juventude contra a sociedade dos seus pais e avós. De
acordo com o historiador Alexandre Roche, tal contestação
nascia do abandono dos ideais de liberalismo e comunismo, da revolução
sexual, da democratização dos costumes, das modificações
da Igreja e de uma abordagem existencial da vida. “A França
de 1958 era uma sociedade do século 19, sobretudo no interior”,
diz Roche. Ele sustenta que, de 1946 a 68, o movimento jovem foi
sustentado e impelido por uma explosão demográfica
pela qual a França não passava desde os tempos do
Iluminismo: em 1964, a proporção de jovens que entravam
na universidade deveria ser multiplicada por dez em relação
a 1946. “Foi esse peso que deu aos jovens a sua força”,
revela.
A Rue d’Ulm, onde fica a Escola Normal Superior,
exercia uma grande influência sobre a Universidade. Pensadores
daquela instituição liam de Proudhon e Malthus, de
Lênin a Taylor e achavam que esses autores seriam tão
revolucionários quanto negligenciados. Junto a estes, os
métodos de Foucault, Lacan, Barthes, Levi-Strauss e Sartre
serviam para que eles criticassem o comodismo e a mistificação.
Havia agitação no ar. Roche entende que o movimento
se dividiu em três partes: a primeira, com o “Não”
otimista, em maio; a utopia e o político, em junho; a contestação
sistemática ou o “Não” radical. Os movimentos
de abril e maio dividiam facções de esquerda, liberais
e conservadores. Também por isso, a tentativa de trazer camponeses
e operários ao movimento fracassou e perdeu o combate. Por
fim, veio a última fase do conflito, a esquerda, solitária
e radical, libertária, anarquista, maoísta, guevarista,
socialista, comunista e sem poção mágica, foi
atacada pela polícia, perseguida, detida, condenada e desterrada.
Como em 1871, a esquerda do “Nós Iremos até
o Fim” e do “Início de uma Luta Prolongada”
acabou pagando caro por suas utopias.
A
HISTÓRIA — A guerrilha urbana de maio de 68,
em Paris, começou dois meses antes na Universidade de Nanterre,
por um motivo reles: em março, a reitoria da instituição
(12 mil alunos) baixou norma proibindo que rapazes visitassem moças
em seus dormitórios. De carona, um jovem estudante judeu-alemão,
Daniel Cohn-Bendit, reuniu um grupo de cem colegas, e invadiu a
secretaria da escola. Assustado com a represália, o reitor
Pierre Grappin suspendeu as aulas chamou a polícia. O incidente
foi, de início, apenas um fato isolado. Porém, foi
ali que nasceu a estrela de Bendit no meio estudantil, que se transformou
em Dany le Rouge (Daniel o Vermelho, por causa da cor dos seus cabelos),
um Robespierre de centro acadêmico. Ele era bolsista do governo
alemão, filho de pais judeus que emigraram para a França
fugindo do Nazismo.
Contra a estudantada de esquerda, um grupelho fascista,
formado por ex-pára-quedistas, o Occident,
apelava para a ignorância seus adversários. Estes,
não se intimidavam: enchiam as paredes brancas da universidade
com grafites. Muitos ficaram famosos: Aqui termina a liberdade!
Nem Mestre nem Deus! O Vietcongue vencerá! Amemo-nos uns
sobre os outros. Somos todos enragés (raivosos).
E o mais célebre: Corre, camarada, o velho mundo
está atrás de ti!... No dia três,
os estudantes de Nanterre organizam uma manifestação
na Sorbonne. No local, corria o boato de que os baderneiros do Occident
pretendiam invadir a escola. Logo, esquerdistas ululantes começam
a demolir classes e mesas. Rilham os dentes e se armam. A polícia
é chamada. Conflitos entre estudantes e a tropa de choque
ocorrem no Quartier Latin. No rabo de arraia, a polícia faz
596 prisões.
Para organizar a arruaça, os estudantes precisavam
de um líder. No meio da bagunça, La Rouge aparece,
entre apupos e assovios. É Daniel Cohn-Bendit, que conclama
a todos, e discursa: “A Sorbonne deve transformar-se numa
nova Nanterre!”. Os aplausos chegam aos ouvidos até
então ensurdecidos do reitor Jean Roche, que toma uma decisão
inédita na história da Universidade de Paris: escreve
ao Comissariado de Polícia do Quartier Latin exigindo medidas
para acabar a patacoada naquela histórica instituição.
À tarde, é a vez dos gendarmes
invadirem o pátio da faculdade, como iconoclastas furibundos.
Se Deus não existe, tudo é permitido. No rescaldo
do dia seguinte, as aulas são suspensas, a União dos
Estudantes da França (Unef) e o Sindicato Nacional de Ensino
Superior (Snesup) convocam greve por tempo indeterminado.
Seis de maio de 1968. Cresce a escalada da violência
em Paris. Uma multidão sobe a Rue St. Jacques, disposta a
retomar a Sorbonne ocupada por policiais. Rodolfo e Mimi não
viveram para ver a cena: La Rouge, Alain Geismar (secretário
do Snesup) e Jaques Sauvageot (vice-presidente da Unef) lideram
mais uma baderna no Quartier Latin. As primeiras barricadas aparecem.
Um poderoso efetivo da tropa de choque impede-lhes a passagem. A
batalha começa. De um lado, rapazes e moças jogam
nos policiais paralelepípedos arrancados das ruas. Estes
respondem com granadas de gás lacrimogêneo. A vanguarda
dos estudantes é formada por rapagões, a cabeça
protegida por capacetes de moto. As moças repõem a
munição, com paralelepípedos e pedras. Durante
a batalha, que durou quase duas horas, 350 policiais foram feridos,
a maioria com fraturas. Os estudantes se aperfeiçoam: protegem
os olhos com óculos de mergulhadores e bicarbonato de sódio,
como antídoto contra o gás. Rádios portáteis
transmitem-lhes ordens da liderança. É o prenúncio
das barricadas que deixariam Paris em chamas nas noites de 10 e
24 de maio.
Naquela altura, a cobertura do incidente pela Imprensa
(eram mais de mil repórteres, a maioria pega de surpresa)
foi realizada apenas por emissoras periféricas, com transmissores
localizados em Luxemburgo ou em Monte Carlo, e com unidades móveis
em Paris. Com o silêncio da Office de la Radio Télévison
Française, (ORTF, estatal), os franceses só ficaram
sabendo da situação “por fora”. Censura?
O constrangimento foi tanto que, envergonhados e revoltados, seus
funcionários se declararam em greve geral em prol da liberdade
de informação.
Um dos 1.434 correspondentes da rebelião é
o jornalista Flávio Alcaraz Gomes, que escreveu A
Rebelião dos Jovens (editora Globo, esgotado) sobre
os incidentes de maio em Paris. Enviado à Cidade-Luz para
cobrir uma conferência diplomática, se viu no meio
de uma guerra civil. Como testemunha ocular, ele pôde descrever,
com riqueza de detalhes, o que aconteceu durante a balbúrdia
estudantil de 1968:
“Acabei de despachar pelo teletipo meu serviço
para o Correio do Povo e volto ao Boulevard St. Michel, foco da
rebelião. Uma multidão de jovens está entrincheirada
em pelo menos 20 barricadas, de onde grita insultos contra o governo.
'De Gaulle assassino’ é a frase repetida em uníssono.
A Polícia se decide: é preciso 'limpar' o quartier
antes de o dia nascer. 2h50min. A polícia ataca. Parece
uma carga de infantes medievais. A primeira barricada, na metade
da avenida, cai com pouca resistência. As próximas
ao Jardim de Luxembourg, porém, parecem inexpugnáveis.
Quando as tropas se aproximam, são recebidos com uma saraivada
de pedras e por dezenas de automóveis incendiados, jogados
lomba abaixo. Gente chora, devido ao gás e às pancadas.
Sirenes rasgam a noite. Fogueiras por toda parte. Moços
e moças bradam desesperados por socorro - e a guerra prossegue
até às 6h da primeira manhã em que Paris
esteve em chamas”.
A Paris dos amantes agora arranca paralelepípedos
das ruas e enche os muros de dizeres: Soyez solidaires
et non solitaires! (Sejam solidários, e não
solitários!); Même si Dieu existait il faudrait
le supprimer (Mesmo se Deus existisse, seria preciso suprimi-lo);
À bas les journalistes e ceux qui veulent les ménager
(Abaixo os jornalistas e aqueles que querem manejá-los);
Les syndicats sont des bordels (Os sindicatos
são bordéis); La liberté est le crime
qui contient tous les crimes (A liberdade é o crime
que encerra todos os crimes); Ceux qui font les révolutions
à moitié ne font que se creuser un tombeau
(Aqueles que fazem as revoluções pela metade nada
mais fazem do que cavar seu túmulo); E, destacando-se das
demais, a que ficou como marca registrada: Défense
d`interdire! (É proibido proibir).
“CHIENLIT”
— A segunda noite das barricadas aconteceu a 24 de
maio de 1968, logo depois de o presidente Charles de Gaulle ter
proposto um referendo para decidir se permaneceria ou não
no governo. Ao mesmo tempo, o movimento estudantil tentava contaminar
os operários. Uma semana antes, centenas de fábricas
foram ocupadas pelos trabalhadores. No dia 20, o número total
de grevistas chagou a 10 milhões. La Rouge foi proibido de
permanecer na França. Dois dias antes, a oposição
não conseguiu obter votos necessários para a moção
de censura a Georges Pompidou, primeiro-ministro, na Assembléia
Nacional. Estudantes se manifestam contra a expulsão de Cohn-Bendit.
Um a um, os serviços públicos essenciais interrompiam
o trabalho. O aeroporto de Orly fechou. Os vôos eram obrigados
a descer em Le Bourget. Mas as coisas se complicaram mesmo quando
as garotas do famoso cabaré Lido declararam-se também
em greve.
Flávio Alcaraz Gomes conta que ele também
viu elementos estranhos ao movimento estudantil infiltrarem-se em
seu meio, usando motosserras. “Em questão de minutos,
os plátanos centenários do boulevard Saint Michel
eram abatidos para engrossar as barricadas, nas quais se empilhavam
móveis, pedras e automóveis”, revela. “Ao
mesmo tempo, outros grupos profissionais, empregando compressores
de ar, literalmente descascavam a rua, retirando-lhes os paralelepípedos,
para munição dos rebelados”. Após a convulsão,
a Prefeitura de Paris passou a asfaltar todas as ruas e avenidas.
Foi nesse momento que, voltando de uma viagem à Romênia,
De Gaulle, furioso, exclamou: “La réforme oui, la chienlit
non”. Pouca gente entendeu o chienlit.
Depois, descobriram: defecar no leito. “É o que o general-presidente
iria evitar que acontecesse”.
Nas catacumbas, o Partido do Medo
se insurgia. Não possuía programa nem estatutos, mas
se transformou na mais poderosa agremiação política
do país. Seus integrantes eram a maioria silenciosa, que
temia o pior. “Nos dias imediatos à segunda noite das
barricadas, porém, de Gaulle parecia um moribundo ao ver
as dificuldades internas derrubarem seus sonhos de liderança
européia”, conta Alcaraz.. “Por mais que seus
porta-vozes literários e filosóficos alardeiem o contrário,
o francês é um dos povos mais aburguesados do mundo,
e a perspectiva de ver instalada em sua terra uma república
anárquico-vermelha começou a deixá-lo em pânico.
A reação não tardaria a se fazer sentir”.
REI POSTO —
Terça-feira, 28 de maio. De Gaulle não dá mais
sinal de vida. François Mitterand, então presidente
da Federação da Esquerda e adversário do general
desde a Resistência, propõe a formação
de um governo provisório dirigido pelos esquerdistas coligados.
Também se apresenta candidato à Presidência
da República. Já Pierre Mendès-France, ex-primeiro-ministro
da 4a República, declara-se também candidato. “Tudo
é procedido e divulgado como se a França estivesse
acéfala e o seu velho rei, morto, a majestade perdida”,
analisa o jornalista. A situação torna-se mais explosiva
quando, naquela noite, cruzando a fronteira e com o cabelo pintado
de preto, Dani (agora ex-vermelho) instala-se na Sorbonne e convoca
a imprensa para proclamar o óbvio: a anarquia tinha se instalado
na França.
Paris, 28 de maio de 1968. A França está
paralisada. Nas ruas, multidões de estudantes e de operários
(em manifestações distintas, já que os trabalhadores
consideram a estudantada um bando de filhinhos de papai) substituem
o slogan “De Gaulle assassin” por “De Gaulle démission”.
As pessoas abandonam as cidades. De repente, o suspense e, logo,
o pânico: De Gaulle havia desaparecido. No dia anterior, sindicatos,
empresários e governo negociavam um acordo que previa aumento
de salários, redução de horas de trabalho e
a participação dos trabalhadores na gestão
das empresas. No dia 29, todos souberam: De Gaulle havia partido
secretamente para Baden-Baden. O objetivo era encontrar-se com o
general Massu e os principais comandos, num quartel-general das
forças armadas francesas na Alemanha. Fez um apelo dramático:
ou o Exército o apoiava ou a subversão totalitária
tomaria conta do país. Os oficiais se comoveram, e o general
Metz, comandante da praça de Paris, jurou lealdade ao presidente.
“RETOUR
A LA NORMALLE” — De Gaulle sentiu-se vencedor.
Voltando do encontro secreto, o primeiro mandatário francês
dirige-se à nação pelo rádio e televisão.
Com firmeza, anuncia a dissolução da Assembléia
nacional e diz que não renuncia e convoca eleições
gerais, que são realizadas em dois turnos, a 23 e 30 de junho
de 1968. No mesmo dia, cerca de 800 mil pessoas manifestam-se em
apoio a De Gaulle em Paris. A rebelião dos jovens passou
a ter seus dias contados. No dia 31 de maio, governo é reorganizado.
A nova equipe tem 19 ministros e secretários de Estado remanescentes
da anterior, mas doze deles apenas trocam de função
— é o chamado ‘seis por meia-dúzia’.
Como dizia um cartaz, com um desenho de um rebanho de ovelhas, afixado
na Sorbonne: de volta à normalidade.
A pá-de-cal na Rebelião de Maio ficou
a cargo da maioria silenciosa, quando o Partido do Medo
demonstra a sua pujança. Concluídas as apurações,
os resultados foram surpreendentes: os gaullistas conquistam 297
das 387 cadeiras no parlamento. Seus aliados Republicanos, 53, e
as esquerdas reunidas, 137. O Partido Comunista tem seus 73 assentos
reduzidos a 34 e a Federação da Esquerda, do ex-candidato-a-candidato
François Mitterrand, que antes da crise tinha 121 deputados,
consegue eleger apenas 57. Falando ao France Soir,
seus inconsoláveis líderes praguejam: “Pagamos
pelas barricadas que não erguemos”.
CONCLUSÕES —
Flávio Alcaraz Gomes conta em suas memórias
que, terminada a guerrilha de maio de 1968, partiu em peregrinação
profissional pela Europa, retornando a Paris um mês mais tarde.
“Quando desci no aeroporto de Orly, completamente normalizado,
e dali me dirigi ao meu bairro - o Quartier Latin - fui percebendo,
ao longo dos 14 quilômetros do caminho, que as coisas haviam
mudado. As bandeiras vermelhas e negras tinham sumido”, descreve.
Em seu lugar, guirlandas tricolores drapejavam ao vento ameno de
uma primavera a substituir o inverno de sombras e de medos de maio.
“Desço o boulevard Saint Michel
e o noto fisicamente diferente: seus plátanos centenários,
serrados criminosamente pelos anarquistas, estavam substituídos
por mudinhas novas, e o antigo calçamento de paralelepípedo
coberto por espessa camada de asfalto para evitar que fosse novamente
descascado. Sorbonne e Odeon estavam fechados
para reparos. Enfim, as mudanças aparentes eram essas. E
as mudanças essenciais: teriam elas acontecido na cabeça
das gentes?”.
O filósofo Allain Finkielkraut, que participou
das manifestações, entende que era preciso “desestabilizar
certas convenções e denunciar uma certa ordem repressiva”
mas, segundo ele, não se pode exagerar a importância
de maio. “A substituição do ideal hedonista
pelo ideal ascético estava inscrita na propaganda da nossa
sociedade”, explica. “O episódio acelerou um
processo já em curso, ligado ao individualismo”. Para
Finkielkraut, 1968 não foi uma revolução: “o
movimento surpreendeu os próprios atores, não foi
fomentado”, entende o filósofo. “Isso explica
em parte a nostalgia existente. Acontecimento é o termo mais
adequado como definição”. A respeito dos “atores”,
Flávio Alcaraz tece sua crítica no sentido de que
os protagonistas da revolta, como Cohn-Bendit, se transformaram
num ícone mais do lirismo da aura de 68 do que num homem
que manteve sua convicção ao espírito de Maio.
O próprio Dani le Rouge se defende. Hoje ex-prefeito-adjunto
de Frankfurt e deputado europeu eleito pelo Partido Verde alemão,
Cohn-Bendit corrobora a tese de que, como todos, foi pego de surpresa
pelos acontecimentos e entende que a revolução é
um fantasma das sociedades: para ele, elas só precisam mudar.
Quanto à batalha campal pelas ruas de Paris, ele acredita
que elas são “falsas”: “elas não
são nada comparadas com as revoltas de camponeses, ainda
atuais”. Ao invés de revolução, a revolta
juvenil canalizou perspectivas. “[1968] abriu uma brecha para
um movimento social heterogêneo que procurava expressar-se”,
revela. Sobre o “fracasso” eleitoral, ele defende que
não havia força capaz de fazer a revolução,
muito menos capaz de obter maioria parlamentar. “Até
os que participaram da greve geral acabaram votando em De Gaulle:
não queriam comunistas no poder, e Mitterand entendeu que
uma esquerda radical jamais seria maioria”, diz le Rouge.
“Perdemos no [terreno] político, mas ganhamos no sócio-cultural”,
conclui.  |