| A POLÊMICA DA ARTE NA SOCIEDADE
Exposição realizada
no Itaú Cultural aborda a relação entre arte
e sociedade nas manifestações culturais do século
XX
por Rodrigo
Herrero (rodrigo100@hotmail.com)

arte quase sempre esteve ligada à vida das pessoas
e aos acontecimentos da época, suas evoluções
e transgressões sociais, principalmente durante o século
XX. As guerras, revoluções, ditaduras e seus desdobramentos
influenciaram decisivamente o modo de fazer arte no último
século, em especial no Brasil. E é com a intenção
de retratar este embate que a exposição “Arte
e Sociedade: Uma Relação Polêmica” do
Itaú Cultural reúne telas, gravuras, livros, cartas
e uma infinidade de outras obras brasileiras com uma conotação
crítica dos fatos do cotidiano. E é uma relação
polêmica, pois muitos artistas não consideram a arte
engajada como arte propriamente dita, mas é impossível
desvincular o lugar que vivemos de tais obras.
O evento é dividido em três períodos: o primeiro
vai de 1930 a 1945, o segundo percorre os anos de 1946 até
1970 e o último vai de 1971 a 2003. Na primeira parte, a
exposição retrata o início da participação
dos artistas nos acontecimentos sociais e políticos. Com
o crescimento do comunismo no Brasil, muitos artistas aderiram a
este ideal, seja afiliando-se ao Partido Comunista Brasileiro ou
mesmo simpatizando com certos dogmas, colocando sua posição
nas obras contra as injustiças ocorridas na época.
Exemplo disso foi Di Cavalcanti com a série “A Realidade
Brasileira” e Tarsila do Amaral, realizando incursões
pelas terras russas, tendo inclusive exposto seus trabalhos em Moscou.
Mas
quem se colocou mais firmemente nessa posição crítica
comunista foi Cândido Portinari. Participante ativo do “partido
vermelho”, tendo sido inclusive candidato ao Senado por São
Paulo em 1947, este incorporou o conceito muralista mexicano em
suas obras. Sempre crítico, recebeu menção
honrosa para um de seus quadros mais conhecidos e belos, Café,
durante a exposição do Instituto Carnegie, de Pittsburgh.
Nesse mesmo período, artistas de origem operária como
os da Família Artística Paulista se juntaram com outros
pintores de origem modesta e de outras regiões para expor
seus trabalhos, retratando em geral sobre seu próprio cotidiano,
seu ambiente de trabalho, sua família, etc.
A segunda parte reflete a explosão da gravura
pelo país na segunda metade da década de 40 e o início
da ditadura no Brasil, com uma maior discussão e engajamento
dos artistas contra este governo de exceção. Após
o desfecho da 2º Guerra Mundial, sob a égide de Carlos
Scliar muitos clubes de gravura foram inaugurados pelo Brasil, surgindo
artistas como Vasco Prado a realizar esses trabalhos. A base dessa
forma artística era voltada aos cidadãos desconhecidos,
que faziam estas gravuras totalmente enraizadas na cultura popular,
mas também com um viés de crítica política
muito forte.
Este momento coincidiu com a abertura dos principais museus atuais,
como o MASP (Museu de Arte de São Paulo) e o MAM (Museu de
Arte Moderna) no Rio de Janeiro. Ocorreu em 1951 a 1º Bienal
Internacional realizada em São Paulo, trazendo obras de outras
nações, causando um intercâmbio valioso para
a cultura nacional e seus atores. Mais tarde, a partir de 1964,
já com a imposição da ditadura, as críticas
foram intensificados contra este regime e suas aberrações:
a tortura, a censura e a conseqüente perda de diretos civis
que vigorou neste período.
A
terceira e última etapa da mostra aborda de 1971 a 2003.
A década de setenta foi o período em que as manifestações
culturais mais carregavam valores implícitos por trás
de suas obras. Este fato se deu em razão da fase mais aguda
do regime militar nesta década. Isso refletiu tanto nas obras
de Antônio Dias, João Câmara, entre outros pintores,
como nas músicas de Chico Buarque e Caetano Veloso, retratando
os duros “anos de chumbo” que assolaram o povo brasileiro.
Já pelo anos 80 e 90, a temática recorrente será
a violência dos grandes centros urbanos (Carmela Gross, Nuno
Ramos), a exclusão social e a questão ecológica,
tendo em Frans Krajcberg seu precursor. Na década passada
ocorre o Arte Cidade, evento criado por Nelson Brissac Peixoto,
que coloca artistas plásticos em prédios abandonados
ou deteriorados do centro de São Paulo para conceber obras
em espaços estranhos à arte tradicional. O resultado
foi bastante chocante, pondo a sociedade em atenção
a essas linguagens, com o intuito de refletir sobre nossa condição
caótica de vida nas grandes metrópoles.
SERVIÇO
Exposição Arte e Sociedade:
Uma Relação Polêmica
De 15 de abril a 29 de junho no Instituto Itaú Cultural
Terça a Sexta das 10h00 às 21h00
Sábados, domingos e Feriados das 10h00 as 19h00
Endereço: Avenida Paulista, 149 – São Paulo
– SP
Tel: 11 3268 1700
Entrada franca. 
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