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22 de maio a 4 de junho de 2003


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AUTO DA BARCA DO INFERNO GANHA LEITURA ATUALIZADA
O grupo teatral Fora do Sério realiza uma adaptação da peça de Gil Vicente

por Daniel Vicente (sierdan@ig.com.br)

oral, política, anseios, verdade e julgamento substantivos estão presentes na adaptação do grupo teatral Fora do Sério, sob a direção de Jair Correia, da peça Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente. O espetáculo fica em em cartaz do dia 3 de abril a 28 de junho, no Centro Cultural de São Paulo.

Gil Vicente, nascido próximo ao ano de 1470, é considerado o pai do teatro português. Sua obra, fundamentada no legado da cultura medieval, usa o medidor popular em jogos de moralidade e farsa. Além disso, Gil é dono do espírito renascentista da prática da crítica e da denúncia às irregularidades institucionais e aos vícios sociais. Sua genialidade é comparada a grandes mestres da literatura ocidental, como Camões e Shakespeare.

No Auto da Barca do Inferno, é clara a intenção de Gil Vicente em expor de forma satírica e despojada os grandes vícios humanos. A forma encontrada para isso reside nos personagens, ou melhor, nas almas que se apresentam no porto em busca do transporte para o outro lado, dentro da visão católica e platônica de céu e inferno.

A montagem do grupo Fora do Sério pode ser considerada uma tradução, na qual a essência e as características do original são milimetricamente respeitadas. O que impressiona é o fato da complexidade de uma obra escrita em português arcaico ser transposta e exposta de forma quase coloquial, sem ter sua integridade ferida.

Com o intuito de se preservar o humor do texto, a atualização de alguns personagens foi necessária. “Não poderia destruir a obra. Ao transpô-la, eu trago nomes do nosso cotidiano, alguns nomes iconoclastas”, diz o diretor Jair Correia. Um exemplo disso é a substituição das cruzadas pelo conflito entre o estadunidense e o árabe. Estes e o bobo foram os únicos não levados para o inferno. Porém, é graças a um golpe de punhal do soldado estadunidense que o céu afunda com seu bote.

Desta forma fica no ar uma crítica pertencente a uma leitura contemporânea de fatos, que além dos olhos da religião e da análise social, traz a influência e a indignação perante as atitudes de uma oligarquia estatal. Esta que conta com uma visão unilateral centrada na dominação política, cultural e econômica de outros povos.

Enfim, mais que uma perceptível preocupação com as características originais do texto, esta adaptação traz um espetáculo visualmente muito bem concebido. Vale a pena conferir.