| AUTO DA BARCA DO INFERNO
GANHA LEITURA ATUALIZADA
O grupo teatral Fora do Sério
realiza uma adaptação da peça de Gil Vicente
por Daniel
Vicente (sierdan@ig.com.br)
oral, política, anseios, verdade e julgamento substantivos
estão presentes na adaptação do grupo teatral
Fora do Sério, sob a direção de Jair Correia,
da peça Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente.
O espetáculo fica em em cartaz do dia 3 de abril a 28 de
junho, no Centro Cultural de São Paulo.
Gil Vicente, nascido próximo ao ano de 1470, é considerado
o pai do teatro português. Sua obra, fundamentada no legado
da cultura medieval, usa o medidor popular em jogos de moralidade
e farsa. Além disso, Gil é dono do espírito
renascentista da prática da crítica e da denúncia
às irregularidades institucionais e aos vícios sociais.
Sua genialidade é comparada a grandes mestres da literatura
ocidental, como Camões e Shakespeare.
No Auto da Barca do Inferno, é clara
a intenção de Gil Vicente em expor de forma satírica
e despojada os grandes vícios humanos. A forma encontrada
para isso reside nos personagens, ou melhor, nas almas que se apresentam
no porto em busca do transporte para o outro lado, dentro da visão
católica e platônica de céu e inferno.
A montagem do grupo Fora do Sério pode ser considerada uma
tradução, na qual a essência e as características
do original são milimetricamente respeitadas. O que impressiona
é o fato da complexidade de uma obra escrita em português
arcaico ser transposta e exposta de forma quase coloquial, sem ter
sua integridade ferida.
Com
o intuito de se preservar o humor do texto, a atualização
de alguns personagens foi necessária. “Não poderia
destruir a obra. Ao transpô-la, eu trago nomes do nosso cotidiano,
alguns nomes iconoclastas”, diz o diretor Jair Correia. Um
exemplo disso é a substituição das cruzadas
pelo conflito entre o estadunidense e o árabe. Estes e o
bobo foram os únicos não levados para o inferno. Porém,
é graças a um golpe de punhal do soldado estadunidense
que o céu afunda com seu bote.
Desta forma fica no ar uma crítica pertencente a uma leitura
contemporânea de fatos, que além dos olhos da religião
e da análise social, traz a influência e a indignação
perante as atitudes de uma oligarquia estatal. Esta que conta com
uma visão unilateral centrada na dominação
política, cultural e econômica de outros povos.
Enfim, mais que uma perceptível preocupação
com as características originais do texto, esta adaptação
traz um espetáculo visualmente muito bem concebido. Vale
a pena conferir. 
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