| LINDO E INSOSSO
Matrix Reloaded é um
banquete para os olhos, mas seu “valor nutritivo” beira
ao zero
por Marcio
Caparica (marcio@rabisco.com.br)

enas fortes de ação e um pouco de filosofia, só
o suficiente para qualquer mané dos Estados Unidos compreender.
Estes eram os dois pontos de apoio de Matrix, o original.
Com um mix não tão desigual desses dois ingredientes,
Neo e seus terroristas virtuais fizeram sucesso no mundo todo e
amealharam centenas de milhares de fãs, que esperavam ansiosamente
pelas já anunciadas duas continuações. Pois
bem: se o primeiro filme já era meio manco, o segundo é
praticamente perneta.
Matrix Reloaded vem, em teoria, desenvolver
o cenário do mundo em que todos os humanos não passam
de pilhas para supercomputadores. E ele realmente mostra aos espectadores
a cidade subterrânea de Zion, dezenas de outros humanos coadjuvantes,
programas rebeldes e, veja só, até uma orgia disfarçada,
entrecortada com cenas quentes entre Neo e Trinity. Mas não
se engane: isso tudo é apenas uma desculpa para exibir lutas,
lutas e mais lutas.
A regra fundamental do filme é: não podem se passar
quinze minutos de faladeira sem pelo menos cinco de pancadaria.
A cena em que Neo encontra o japonês guardião do Oráculo
é o maior exemplo disso; a luta entre os dois é uma
das cenas mais desnecessárias que eu já vi. Mas, visto
que dez minutos de diálogo tinham acabado de acontecer, e
mais dez viriam pela frente, ela se fazia “necessária”.
Continuamente
a história pára e, por minutos a fio, assiste-se aos
heróis e vilões se estapearem, raramente conseguindo
acertar um soco no outro. Com armas, sem armas, em geral com cinco
ou seis oponentes para o mocinho. E, mais importante: sem jamais,
jamais mesmo, perderem o ar cool e plácido. É tanta
pancadaria que chega a ser tedioso; me peguei várias vezes
torcendo para a Matrix quebrar suas regras, fazendo o prédio
desabar de uma vez e acabar com aquilo logo, para a história
poder andar.
Depois de uma hora e tanto de filme em que o cérebro não
saiu do ponto morto, aquele cotoco de perna que sobrou da história
consegue finalmente dar um passo, e toda a informação
é despejada de uma vez. Tudo, metralhado em poucos minutos,
deixando quem piscou sem entender nada e, portanto, com a sensação
de que aquele deve ser um filme muito inteligente. OK.
Sim,
os novos efeitos especiais são fenomenais mesmo; a cena com
as centenas de agentes Smith é muito divertida (se bem que
acaba de forma totalmente anticlimática), e várias
vezes as cenas de perseguição deixam o espectador
na ponta da cadeira (quantas vezes, no entanto, Morpheus pode quase
cair de um caminhão?). Quem apenas procura cenas de ação
vai se esbaldar e sair do filme com pique para ainda jogar o videogame
para descobrir o que aconteceu com Niobe em sua investida à
usina de energia. Quem procura uma história um pouquinho
menos rala, no entanto, vai se decepcionar bastante.
O terceiro filme, é claro, pode fechar a série com
chave de ouro. Pelo que se capta do segundo, no entanto, não
deve haver muito mais explicações a serem dadas ou
reviravoltas na história; o que vem, certamente, é
ainda mais porrada, com efeitos ainda mais mirabolantes. Bem, por
mais que o nível da história decaia, não chegará
jamais aos níveis abissais de Star Wars.
Espero. 
|