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22 de maio a 4 de junho de 2003


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MATRIX X CUBO
A ficção científica mostra como é possível questionar a realidade – e de maneiras bem distintas

por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

e dê um Cubo (Cube, Canadá, 1997) ao invés de um Matrix (Matrix, EUA, 1999) a qualquer momento. Em época de continuações chegando ao público (Hipercubo nas locadoras; Reloaded nos cinemas), vale a pena comparar as duas ficções científicas, que guardam aspirações bastantes similares mas métodos radicalmente distintos. Ambas discutem as dúvidas existenciais humana – e, dado o sucesso popular de cada um (claro, em seus próprios parâmetros), me alegra saber que o público está disposto a enfrentar essa temática à primeira vista tão presunçosa.

Presunção é, sem dúvida, parte integrante de Matrix – ou, sendo menos cruel, de qualquer fenômeno pop da magnitude do filme dos irmãos Wachowski. Há quem, diante das façanhas de kung fu de Keanu Reeves, queira justificar seu gosto por um mero blockbuster de ação e efeitos especiais com a desculpa que o filme tem aspirações filosóficas. Nada errado aí. O filme pode levar a questionamentos dos mais essenciais na filosofia: o que é o real? Quem o define? O que há por trás dele? O que me irrita no longa (dentre muitas outras coisas) são os indícios inseridos com cuidadoso desleixo, quase como pistas, que servem apenas como referências para que espectadores mais cultos possam sentir sua superioridade intelectual validada. Oooh!!! Que subliminar! Neo guarda drogas dentro de um livro de Baudrillard!

Os irmãos Wachowski, que dirigem e assinam o roteiro, não são bobos. Sabiam que, diante dos efeitos especiais absurdos de Matrix, qualquer pretensão mais profunda seria eclipsada. O que ficaria, em si, para aquele garoto de 16 anos com espinha na cara que representa 40% do mercado de cinema no mundo, seria não mais que o suflê de auto-ajuda da cena em que Neo encontra o Oráculo (“Não existe colher!”). O “fight the system” da rebeldia rock’n’roll também ganha ecos (Morpheus: “A Matrix é um sistema. Esse sistema é seu inimigo”), mas repercussões que beiram a infantilidade. Em última instância, acreditando que “sistema” e “matrix” são sinônimos de “capitalismo” no nosso mundo fora das telas, a primeira lição dada é: saia do seu emprego (precisamente o que Neo faz no início do filme), hackeie uns computadores (mais adiante) e caia na porrada (interessante como as visitas à realidade virtual patrocinadas pela resistência humana servem para uma luta de kung fu e uma escolha, acéfala à la Rambo, em um enorme arsenal de armas). Nesses critérios, prefiro o genial Clube da Luta, que ao menos apresenta uma linha de combate mais válida. E é melhor atuado.

Tal qual em Matrix, Cubo apresenta um grupo de pessoas imersas em um ambiente desesperador e cheio de dúvidas, do qual apenas um irá escapar. Mas nada desta besteirada pós-moderna de realidade virtual – que apropriadamente dá crédito às cenas de luta revolucionárias de Matrix. O cenário aqui é apenas uma sala cúbica, com uma portinhola no centro de cada uma das seis faces. As portas dão para outras salas idênticas. Cubo foi feito com elenco e cenário reduzidos a proporções espartanas; A Bruxa de Blair e Cubo ensinaram: a criatividade compensa onde milhões de dólares faltam.

Neste labirinto, acordam sete pessoas. A primeira, pouco antes de ser fatiada por uma das armadilhas do local, não fica conversando com seus botões apenas para atualizar o espectador, como ocorreria em um roteiro ruim. Isto cabe aos outros seis sobreviventes, que se encontram aos poucos conforme exploram o cubo, e cruzam com naturalidade todos os degraus da dúvida. Passam do espanto ao ódio, do ódio à frustração, da frustração ao conformismo, e depois trilham o caminho inverso. Evoluem do “onde estou?” ou “para onde vou?” ao “por que justamente eu fui escolhido para vir aqui?” ou “isto é um castigo?” ou “quem está por trás disso?”.

As perguntas lhe parecem familiar? Sim. O cubo é uma metáfora para a existência, e as questões marcam o despertar filosófico. E, como na vida, graças a Deus, o filme não oferece resposta. Aliás, Deus poderia ser a solução para a última dúvida acima, mas, no mundo cúbico, sua simbologia é escrita certa por linhas tortas. A enfermeira Halloway, viciada em teorias da conspiração, acha que o Cubo foi feito por alguém – o governo, aliens, a indústria de armamentos, etc. Ela é a crente, ela acredita numa força original. Seu companheiro Worth, um engenheiro, não vê explicação para a existência do labirinto: o cubo simplesmente é. Ele é o niilista, o ateu, o cético. Há até mesmo um politeísta, o policial Quentin, que vê o cubo como fruto do trabalho de diversas forças.

Há outra qualidade nos diálogos bem compostos de Cubo: isolados, com fome, cansaço e sob intensa pressão, os seis protagonistas tornam-se um perfeito estudo antropológico da formação e desintegração das relações (como as muitas relações que são feitas e desfeitas ao longo da existência). Os laços se desenvolvem de forma verossímil, até o ponto em que, finalmente, quanto mais próximo da “verdade” o sexteto chega, mais inviável se torna sua missão. Nem todos suportam. O diretor canadense Vincenzo Natali, que também assina o roteiro com André Bijelic (o mais incrível: este é o primeiro filme de ambos), passa uma mensagem bastante clara e terrivelmente amarga sobre a natureza humana – não apenas pela progressão matemática dos personagens pelas salas numeradas do cubo, mas principalmente pela única figura que consegue escapar.

O sobrevivente é banhado pela luz, e o espectador também. Aqui sim, e não em Matrix, o after-taste filosófico não se perde no ribombar de explosões. A jornada kafakiana (ou ainda beckettiana) oferece centenas de perguntas que vão estender o prazer de Cubo muito além de sua concisa 1h30 de duração. Natali e Bijelic provam que nenhum bullet time é necessário para gerar a mesma tensão que um mero botão engolido consegue.

Em tempo: Natali e Bijélic nunca fizeram mais nada depois deste Cubo. O filme está disponível na maioria das locadoras e vive passando no canal a cabo Cinemax. Merece ser descoberto. A continuação Hipercubo, por outro lado, é digna de desprezo. Comete o pecado de confundir “enredo” com “ofereça respostas sobre o original” – o que, claro, suprime todo o debate existencial. Acredito, aliás, que Matrix Reloaded siga no mesmo nível. Vejamos.