| MATRIX X CUBO
A ficção científica
mostra como é possível questionar a realidade –
e de maneiras bem distintas
por Marcel
Nadale (marcel@rabisco.com.br)

e dê um Cubo (Cube, Canadá, 1997) ao
invés de um Matrix (Matrix, EUA, 1999) a qualquer
momento. Em época de continuações chegando
ao público (Hipercubo nas locadoras; Reloaded
nos cinemas), vale a pena comparar as duas ficções
científicas, que guardam aspirações bastantes
similares mas métodos radicalmente distintos. Ambas discutem
as dúvidas existenciais humana – e, dado o sucesso
popular de cada um (claro, em seus próprios parâmetros),
me alegra saber que o público está disposto a enfrentar
essa temática à primeira vista tão presunçosa.
Presunção é, sem dúvida, parte integrante
de Matrix – ou, sendo menos cruel, de qualquer
fenômeno pop da magnitude do filme dos irmãos Wachowski.
Há quem, diante das façanhas de kung fu de Keanu Reeves,
queira justificar seu gosto por um mero blockbuster de ação
e efeitos especiais com a desculpa que o filme tem aspirações
filosóficas. Nada errado aí. O filme pode levar a
questionamentos dos mais essenciais na filosofia: o que é
o real? Quem o define? O que há por trás dele? O que
me irrita no longa (dentre muitas outras coisas) são os indícios
inseridos com cuidadoso desleixo, quase como pistas, que servem
apenas como referências para que espectadores mais cultos
possam sentir sua superioridade intelectual validada. Oooh!!! Que
subliminar! Neo guarda drogas dentro de um livro de Baudrillard!
Os
irmãos Wachowski, que dirigem e assinam o roteiro, não
são bobos. Sabiam que, diante dos efeitos especiais absurdos
de Matrix, qualquer pretensão mais profunda seria
eclipsada. O que ficaria, em si, para aquele garoto de 16 anos com
espinha na cara que representa 40% do mercado de cinema no mundo,
seria não mais que o suflê de auto-ajuda da cena em
que Neo encontra o Oráculo (“Não existe colher!”).
O “fight the system” da rebeldia rock’n’roll
também ganha ecos (Morpheus: “A Matrix é um
sistema. Esse sistema é seu inimigo”), mas repercussões
que beiram a infantilidade. Em última instância, acreditando
que “sistema” e “matrix” são sinônimos
de “capitalismo” no nosso mundo fora das telas, a primeira
lição dada é: saia do seu emprego (precisamente
o que Neo faz no início do filme), hackeie uns computadores
(mais adiante) e caia na porrada (interessante como as visitas à
realidade virtual patrocinadas pela resistência humana servem
para uma luta de kung fu e uma escolha, acéfala à
la Rambo, em um enorme arsenal de armas). Nesses critérios,
prefiro o genial Clube da Luta, que ao menos apresenta uma
linha de combate mais válida. E é melhor atuado.
Tal qual em Matrix, Cubo
apresenta um grupo de pessoas imersas em um ambiente desesperador
e cheio de dúvidas, do qual apenas um irá escapar.
Mas nada desta besteirada pós-moderna de realidade virtual
– que apropriadamente dá crédito às cenas
de luta revolucionárias de Matrix. O cenário
aqui é apenas uma sala cúbica, com uma portinhola
no centro de cada uma das seis faces. As portas dão para
outras salas idênticas. Cubo foi feito
com elenco e cenário reduzidos a proporções
espartanas; A Bruxa de Blair e Cubo
ensinaram: a criatividade compensa onde milhões
de dólares faltam.
Neste
labirinto, acordam sete pessoas. A primeira, pouco antes de ser
fatiada por uma das armadilhas do local, não fica conversando
com seus botões apenas para atualizar o espectador, como
ocorreria em um roteiro ruim. Isto cabe aos outros seis sobreviventes,
que se encontram aos poucos conforme exploram o cubo, e cruzam com
naturalidade todos os degraus da dúvida. Passam do espanto
ao ódio, do ódio à frustração,
da frustração ao conformismo, e depois trilham o caminho
inverso. Evoluem do “onde estou?” ou “para onde
vou?” ao “por que justamente eu fui escolhido para vir
aqui?” ou “isto é um castigo?” ou “quem
está por trás disso?”.
As perguntas lhe parecem familiar? Sim. O cubo é uma metáfora
para a existência, e as questões marcam o despertar
filosófico. E, como na vida, graças a Deus, o filme
não oferece resposta. Aliás, Deus poderia ser a solução
para a última dúvida acima, mas, no mundo cúbico,
sua simbologia é escrita certa por linhas tortas. A enfermeira
Halloway, viciada em teorias da conspiração, acha
que o Cubo foi feito por alguém – o governo, aliens,
a indústria de armamentos, etc. Ela é a crente, ela
acredita numa força original. Seu companheiro Worth, um engenheiro,
não vê explicação para a existência
do labirinto: o cubo simplesmente é. Ele é o niilista,
o ateu, o cético. Há até mesmo um politeísta,
o policial Quentin, que vê o cubo como fruto do trabalho de
diversas forças.
Há
outra qualidade nos diálogos bem compostos de Cubo:
isolados, com fome, cansaço e sob intensa pressão,
os seis protagonistas tornam-se um perfeito estudo antropológico
da formação e desintegração das relações
(como as muitas relações que são feitas e desfeitas
ao longo da existência). Os laços se desenvolvem de
forma verossímil, até o ponto em que, finalmente,
quanto mais próximo da “verdade” o sexteto chega,
mais inviável se torna sua missão. Nem todos suportam.
O diretor canadense Vincenzo Natali, que também assina o
roteiro com André Bijelic (o mais incrível: este é
o primeiro filme de ambos), passa uma mensagem bastante clara e
terrivelmente amarga sobre a natureza humana – não
apenas pela progressão matemática dos personagens
pelas salas numeradas do cubo, mas principalmente pela única
figura que consegue escapar.
O sobrevivente é banhado pela luz, e o espectador também.
Aqui sim, e não em Matrix, o after-taste
filosófico não se perde no ribombar de explosões.
A jornada kafakiana (ou ainda beckettiana) oferece centenas de perguntas
que vão estender o prazer de Cubo muito
além de sua concisa 1h30 de duração. Natali
e Bijelic provam que nenhum bullet time é
necessário para gerar a mesma tensão que um mero botão
engolido consegue.
Em
tempo: Natali e Bijélic nunca fizeram mais nada depois deste
Cubo. O filme está disponível na maioria das
locadoras e vive passando no canal a cabo Cinemax. Merece
ser descoberto. A continuação Hipercubo, por
outro lado, é digna de desprezo. Comete o pecado de confundir
“enredo” com “ofereça respostas sobre o
original” – o que, claro, suprime todo o debate existencial.
Acredito, aliás, que Matrix Reloaded siga no mesmo
nível. Vejamos. 
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