| MEU IMORTAL AMADO
Ou como uma rica e misteriosa dama
da corte russa se transformou na musa inspiradora dos sonhos musicais
de Tchaikowsky
por Marcelo
Xavier (marcelo@rabisco.com.br)
he escrevo em demasia, de qualquer maneira, não posso
explicar a você a minha natureza estranha. Mesmo assim, compreenderás
em minha arte tudo o que eu não serei capaz de lhe revelar”
(Carta à Madame von Meck, março de 1879)
O inverno de 1876 encontrou Pyotr Tchaikowsky (1840-1893)
em súbito estado de prostração: embora desfrutasse
de prestígio junto às platéias de Moscou, o
compositor russo viu-se repentinamente diante de dois fiascos sucessivos:
o bailado Ondine e a abertura-fantasia Romeu e Julieta.
O fracasso acabou afastando-o de seu público e o lançou
na miséria. Também fora incompreendido por seu mestre,
Nicholas Rubinstein, que execrou o seu primeiro concerto para piano
e orquestra. A vaia parisiense à sua versão musical
para a tragédia sheakespereana o fazia esquecer até
o significado de todos os seus êxitos anteriores, como a ópera
Vakula. Pior: depois de bancar quase todas as récitas,
não dispunha mais de um tostão sequer. Afundado em
dívidas e incertezas, tal situação o transformara
num pária para si e para ninguém. Pois naquele inverno
frio e nevoento, que o atormentava e que parecia diminuir a importância
de todos os triunfos anteriores em episódios insignificantes,
uma carta misteriosa mudaria o destino de sua vida.
A remetente era uma baronesa milionária —
Nadejda Filaretovna von Meck, mãe de onze filhos. A senhora,
viúva de Karl-Georg-Otto von Meck, rico proprietário
das duas primeiras ferrovias russas. Ela tinha quarenta e cinco
anos (nove anos a mais do que Pyotr), lhe escrevia dizendo ser profunda
admiradora da arte de Tchaikowsky, e mais: oferecia ao maestro todo
o dinheiro suficiente para que pudesse criar sua música sem
quaisquer preocupações materiais e custear a publicação
das partituras. Porém, estabelecia uma condição:
eles jamais deveriam se conhecer, mesmo embora ambos residissem
em Moscou. Como não poderia haver desfeita e ele mesmo não
quisesse ter conhecimento dessa estranha cláusula devido
à tamanha oferta, o compositor aceitou. A partir de então,
o músico passou a receber remessas que chegaram a 6 mil rublos
por ano — um valor incomensurável.
A partir daí, estabeleceu-se uma relação
peculiar entre o autor da “Abertura 1812” e a baronesa.
Como na marchinha, mesmo distantes, eram constantes: o contato entre
ambos acontecia através de vasta correspondência. Avesso
às relações pessoais, a amizade de Nadjeda
servia como uma válvula de escape para o espírito
de arredio anacoreta que Tchaicowsky sempre fora. Mais: com o tempo,
ela se tornou grande amiga e confidente do autor. Mais: o fato de
que fossem fisicamente ausentes um do outro não os impediu
de se tornarem amigos íntimos. Trocavam uma compulsiva produção
epistolar, às vezes seis cartas por dia, dividiam idéias,
concepções, esperanças, sonhos e muita coisa
sobre música.
À medida que trabalhava, o compositor revelava
a Nadejda seus pormenores a respeito de seu trabalho e de seu método
de composição, esmiuçando a maior parte da
produção daquele período. A pensão vinha
junto com as cartas, mas, mais do que o dinheiro, o fato de ter
alguém do seu lado, disposto a incentivar um trabalho de
um compositor atormentado (ele era um atormentado por natureza)
e que carecia de auxílio dos seus amigos mais próximos
melhorou seu estado de ânimo. Ainda que a platéia desse
de ombros à sua música, pelo menos uma pessoa o compreendia
e admirava, incondicionalmente.
Firmado
o acordo, a primeira carta veio dela. Na resposta, ele prometeu
que, em pouco tempo, satisfaria os desejos da baronesa e disse que,
na suas próximas composições, tentaria expressar,
da melhor forma, tudo o que ela desejaria e gostaria de ouvir. Nas
cartas, Nadejda pediu a ele para evitar qualquer cerimônia,
evitando qualquer “cara senhora”. Ele recusou, por educação.
Mas a relação entre ambos se caracterizava muito pela
efusão e afetividade. Em maio de 1877 ele endereçava
“Cara Madame von Meck”. Poucos meses depois, escrevia
“Amada Nadejda”. Um ano depois, já era “seu
imortal amado”. Antes, ele assinava: “seu sinceramente
devoto, P Tchaikowsky”. O afeto da ilustra senhora transformou-se
em amor apaixonado e incondicional, mas silencioso e solene.
Tchaikowsky começou a compor como um renegado.
Enquanto enchia a pauta do piano, anotava todos os acidentes sonoros
em sua cabeça e documentava tudo em resmas de papel que transformava
em cartas, e remetia tudo para Madame von Meck. O primeiro fruto
dessa relação não demorou a aparecer: numa
dessas cartas, intitulada “ao meu amigo” (Mojemu
lucšemu drugu), Pyotr explicava as minúcias técnicas
daquilo que seria a sua 4a sinfonia (em Fá Maior, Opus 36).
Trágica e fulgurante, ela foi concluída em fevereiro
de 1877. Entre os movimentos da peça, ele estabelecia um
tema recorrente, que surgia sempre nas trompas e trombetas.
“Isto é o destino, é aquela força
poderosa que impede a nossa procura pela felicidade”, explicava
o tema cardinal da sinfonia em carta à baronesa. “Por
causa desta força misteriosa, precisamos nos submeter e procurar
refúgio em sonhos saudosos”, revelava o compositor
à sua protetora. Também mostrava a ela as conexões
entre seu estado de alma e a forma como ele passava sentimentos
para o código musical: “o segundo movimento exprime
outra fase do desejo”, revela, ao explicar trecho da obra.
“Ele [o andatino da sinfonia] compreende o jogo constante
das recordações. É triste mas, de certo modo,
é doce perder-se no passado”.
É dessa época o casamento mal-sucedido
de Tchaikowsky. Incapaz de amar Antonina Ivanovna, o compositor
refugiou-se na Suíça. Considerava-se fracassado como
homem e incapaz de voltar a ouvir as maledicências que as
pessoas diziam sobre ele à boca pequena, na Rússia,
a respeito de sua sexualidade. No começo de 1878, enfim,
decidiu retornar. Em Kiev, decidiu ficar exilado na residência
campestre de Madame von Meck. Isolado de tudo e de todos, finalmente
o compositor havia encontrado paz interior. Pyotr compunha no piano
da baronesa, detinha-se em seu quarto de dormir e seguia escrevendo
cartas. Meses depois, ele retornaria a Moscou, retomando sua cátedra
no Conservatório daquela cidade, onde ficaria apenas por
alguns meses. Com a morte de seu mestre, Nicholas, decidiu abandonar
as aulas e excursionar pela Europa.
Em Roma, compôs o Trio para Piano, Violoncelo
e Violino em Lá Menor, que dedicou postumamente a Rubinstein.
Longe da sua terra natal, tinha delírios patrióticos.
De um deles, nasceu Mazeppa. “Nunca me defrontei com
um trabalho que me cansasse tanto”, confidenciou à
baronesa, a respeito da nova ópera. No fim, a fama de Pyotr
e a propaganda enorme em cima desta peça foi tão apregoada
que o público russo acabou aplaudindo Mazeppa mais
pelo nome de Tchaikowsky de que pela preciosidade da obra. O temor
dos antigos insucessos fez com que ele aguardasse pela apresentação
— que foram executadas simultaneamente em São Petesburgo
e Moscou — em Paris. A boa expectativa ficou por conta do
convite do casal imperial, que decidiu condecorar o compositor.
Ao mesmo tempo, sua ópera anterior — Eugene Oengin
— havia retornado a cartaz. Desta vez, com sucesso.
A glória não mudou o estado de espírito
de Pyotr, mas agora ele se permitia dar uma chance de ser o personagem
principal, aceitando todos os convites para reger pessoalmente suas
composições. Cosmopolita, percorria toda a Europa,
travando contato com outros compositores, como Edvard Grieg e Richard
Wagner. O dinheiro dos concertos mais a pensão que recebia
de Madame von Meck permitiu que ele tivesse como preocupação
apenas a sua arte. Homem de seu tempo, o autor de “O Quebra-Nozes”
tinha em sua arte a marca pessoal do lirismo romântico típico
do século 19. Antes de tudo, Pyotr foi um compositor que
baseou seu processo criativo em sua experiência sensível
em detrimento do rigorismo do clássico. Por conta disso,
muito de sua obra — para não dizer toda ela —
oscila perpetuamente do trágico ao sublime.
No tocante à sua “relação”
com “sua amada” baronesa, ele dizia não haver
música ou dedicação mais séria ou sincera
do que aquela. Muito de sua produção camerística
era secretamente destinada para ela. Na ocasião da estréia
da Serenata em Dó Maior (1880), Opus 48, ele escreveu
à Nadejda e revelou para quem a peça fora dedicada:
Imagine, minha cara amiga, que a minha musa tem
sido tão generosa comigo ultimamente que compus duas obras
muito rapidamente. Primeiro, de acordo com o pedido de [Nicholas]
Rubinstein, uma abertura (...) e uma serenata para orquestra de
cordas com quatro movimentos. A abertura será bem barulhenta,
como foi composta sem amor, não terá nenhum valor
artístico. A serenata, por outro lado, foi elaborada em
resposta a um sentimento interno e é — espero eu
— de verdadeiro valor. Como sempre, estava a pensar em ti
nos momentos mais inspirados...
Sobre a conhecida Sinfonia em Fá Maior,
em 1878, Tchaikovsky escreveu: “Não é a minha
sinfonia — ela é nossa. Apenas você pode compreender
e sentir tudo o que eu senti quando a compus. Será para sempre
o meu trabalho preferido, porque ele vai evocar a época em
que estava metido em tristezas e, de repente, vi a felicidade na
visão daquela que me restituiu a alegria. Serei tributário
de sua dedicação para sempre por tudo”. Madame
von Meck também foi a única pessoa no mundo que perguntou
diretamente, se ele já havia experimentado um grande amor.
Na carta, ele respondeu:
Você me pergunta se eu conheci outro amor
que não o amor platônico. Sim e não. Se a
questão me tivesse sido colocada de outra forma: ’Você
experimentou a felicidade de um amor completo?’, minha resposta
seria: não, não e não! Mas pergunte-me se
sou capaz de compreender a força imensa do amor, e eu lhe
direi: sim, sim e sim!
Segundo os biógrafos, Nadejda também
foi a única pessoa com quem Tchaikowsky falava sobre fé.
Numa carta de 30 de outubro 1877, ele escreveu:
Acho que a questão sobre crença é
completamente diversa em minha cabeça. É verdade
que eu nego a vida eterna mas, ao mesmo tempo, não acredito
que nunca mais voltarei a rever um dia todas as pessoas que estimo.
Apesar
do acordo tácito de que jamais travariam conhecimento, um
dia a baronesa e Pyotr se encontraram. O compositor descansava na
fazenda de Von Meck em Brajlovo. Ele costumava passear pela floresta
pela tarde. De repente, uma enorme carruagem cruzou o seu caminho.
Nadejda estava acompanhada de Milotchka, sua filha mais jovem. A
reconheceu prontamente e, a princípio, não teve coragem
de fitar os olhos dela. Entre educado e confuso, tirou o chapéu
para elas. Surpresa, Madame Filaretovna também não
o reconheceu de chofre, e quase não o cumprimentou. Foi a
primeira de três vezes em que se encontraram, porém,
sempre de muito longe. E nunca mais.
Com o passar do tempo, ela começou a reduzir
o volume de correspondência. Numa delas, pediu a Tchaikowsky
para que escrevesse apenas uma carta por semana. Ele pensou que
havia algo de estranho. Ficou com medo de que a baronesa “descobrisse”
alguma coisa sobre o que as pessoas diziam dele, o abandonasse e
deixasse de gostar dele e de sua música. A questão
de sua homossexualidade era algo que embaraçava as relações
sociais de Pyotr. As pessoas não entendiam a solteirice do
maestro. Como muitas pessoas, Nadejda certamente pensava que ele
não era casado porque ele ainda não havia encontrado
uma pessoa a quem amasse. Na verdade, ele vinha de uma traumática
experiência matrimonial. Ele havia casado com Antonina apenas
por aparência, em julho de 1877. Uma semana depois, escreveu
a Modeste, seu irmão, que ela era uma pessoa desagradável.
Em pouco tempo, com o já precário equilíbrio
mental rompido, tentou se matar nas águas geladas do rio
Moscou. Por sua vez, Antonina terminaria seus dias num sanatório.
No período entre 1885 e 1888, o sucesso para
Tchaicowsky era rotina. A ópera A Feiticeira, encenada
no fim de 1887, foi ovacionada. Os concertos regidos em Leipzig,
Paris, Berlim, Praga, Hamburgo e Londres, na excursão de
1888, constituíram uma seqüência de vitórias.
Ao mesmo tempo, ele aceitou o pedido de dirigentes dos teatros imperiais
russos para que o compositor escrevesse o bailado A Bela Adormecida,
que iria abrir a temporada de 1890. O ano porém, começou
mal: o conhecido balé, que ele acreditava ser uma de suas
melhores composições, foi recebido com frieza. Causara
estranheza o sinfonismo da música de Tchaicowsky —
com sacrifício da estrutura linear — e poucos entenderam
a linguagem melódica, sofisticada demais com relação
à pobreza da música de bailado então vigente.
Ao mesmo tempo, Johannes Brahms criticou duramente a valsa (o terceiro
movimento) e o finale da sua 5a sinfonia, em Mi Menor, estreada
em Hamburgo. Nosso herói, por sua vez, resolveu fazer coro
àqueles que achavam Brahms uma mera cópia de Beethoven.
Na verdade, o tempo mostrou que ambos estavam equivocados...
Mas
o pior ainda estava por vir: no final de dezembro, Madame von Meck,
após quatorze anos de amizade, enviou-lhe uma carta breve
e seca, na qual informava que não mais lhe escreveria, cessando
também a pensão. Pyotr não sabia o que fazer.
A carta apenas dizia que, devido a motivo de doença, ela
não teria mais como lhe conceder qualquer ajuda financeira.
Ele tentou se comunicar com elas mais algumas vezes (por carta,
é claro), mas não obteve resposta. “O conto
de fadas terminou”, escreveu Tchaikowsky numa carta a Modeste.
Apesar de ser abandonado, ele reconhecia a importância do
mecenato e a devoção que ele recebeu de sua protetora,
por todos aqueles anos. Não poderia reclamar: afinal, foi
uma dádiva e, como tudo na vida, teve um fim. Ainda assim,
magoado e triste, cancelou todos os concertos que pretendia executar
em Mainz, Budapeste e Frankfurt. Mesmo assim, decidiu ir à
Paris, a fim de se apresentar no Torneio anual de Colonne. Pouco
tempo depois, ele descobriria que ela havia mentido. Um jovem francês,
Claude Debussy, agora dava aulas de piano para as filhas da baronesa
e tocava para elas as peças que compunha. O baque foi enorme.
Consta que, um dia, um certo violinista com arroubos
de Iago, conhecido como Pakhulski — um dos membros do círculo
de Nadejda — resolveu acabar com a amizade. Auxiliado por
outros, o músico acabou convencendo-a de que Tchaikovsky
era apenas um aproveitador. Assim, ele revelou a “verdade”.
A baronesa, que em sua platônica devoção, imaginava
seu protetor como um mágico que vivia no mundo da música,
“descobriu” que Pyotr não deixava de pensar que
sua arte era antes uma forma de conquistar fama mundial. Ela acreditava
que ele era apenas uma alma boa sem saber que, “na verdade”,
ele cuidava de seu próprio corpo muito bem. Ela tinha certeza
de que um copo de conhaque era suficiente para curar a insônia
do compositor, enquanto, “na realidade”, ele se embriagava
até o último estágio de consciência.
Achava que ele não havia encontrado o seu verdadeiro amor,
mas “descobriu” que, para ele, todas as mulheres eram
“execráveis” como Antonina. Um dia, ela aprendeu
a última e mais escandalosa das histórias sobre
ele, através de seu próprio irmão.
A perda da pensão não seria um problema,
agora. Terrível fora o escândalo e a injustiça
que recaiu sobre ele — e que Pyotr guardou para si até
a morte. Mas o que realmente o abateu foi o significado afetivo
da perda. Em carta ao editor Jurgenson, o compositor expressa sua
decepção: “O meu amor-próprio foi violentamente
ferido. Descubro que, na realidade, tudo não passou de um
negócio de dinheiro que termina da maneira mais banal e estúpida
(...)”. A devoção, de fato, não era gratuita:
ao longo daqueles longos anos, as duas excêntricas almas-gêmeas
trocaram cerca de mil e duzentas cartas.
Apesar de tudo, mantinha uma inabalável fé
em seu talento e defendia sua música com unhas e dentes.
Não mais se preocuparia com o espírito de corpo do
público. Em meados de 1891 ele retornaria a Moscou, a fim
de ensaiar mais uma ópera, Iolanthe no Teatro Imperial
de São Petesburgo. Os anos em que “conviveu”
com Madame von Meck lhe investiram uma certa “auto-estima”
autoral: agora ele sabia de sua importância e teve a projeção
necessária para ser conhecido em vários países,
entre eles os Estados Unidos. O compositor fora convidado pela Sociedade
Musical Americana para reger o concerto de inauguração
do Carnegie Hall, em Nova Iorque.
Na cidade norte-americana, ele apresentou o velho
Concerto em Si Bemol Menor para Piano e Orquestra, aquele
mesmo que fora taxado de “inexecutável” e “sem
valor algum” pelo seu mestre, Nicholas Rubinstein, dezessete
anos atrás. No fim, a platéia pediu que o velho maestro
bisasse o brioso finale. Como prometeu a si mesmo, em 1874,
não mudou uma nota sequer do concerto, seguro de sua qualidade
(certamente é hoje a peça mais conhecida e executada
de Tchaikovsky). Jamais se esquecia da cena no Conservatório,
quando seu concerto foi duramente criticado, e recordava-se daquele
momento, em trecho de carta a Madame von Meck: “qualquer observador
imparcial teria achado que eu era um idiota sem talento, um patife
desprovido de qualquer noção de princípios
de composição (...)”.
Mas do que nunca, agora Pyotr se recordava das sábias
palavras que ele mesmo um dia escreveu à baronesa:
Acredito que o criador que despreza e renega a
sua criação individual, recorrendo sempre a efeitos
engenhosos e traindo o seu talento, a fim de conquistar aceitação
e aplauso, não é e jamais será um artista
genuíno. Conseguirá sucesso efêmero, mas sem
construir uma obra duradoura
De fato ele, Pyotr Ilitch Tchaikowsky, estava certo.
Sem trair as suas convicções, resistiu aos fracassos,
às decepções, às críticas e consolidou
seu ideal artístico numa obra consistente, original e duradoura.
Sua vida, porém, foi breve. Morreu dois anos depois, em novembro
de 1893, com pouco mais de cinqüenta anos, vitimado pela cólera
— semanas depois de reger sua derradeira obra e seu testamento
musical, a célebre 6a sinfonia (em Si Menor, Opus 76, conhecida
como Patética). Contam alguns biógrafos que,
em seu leito de morte, variando entre momentos de delírio
e lucidez, era possível ouvi-lo, por várias vezes,
chamar o nome de uma mulher: Nadejda.  |