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5 a 21 de junho de 2003


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TIROS EM COLUMBINE REVELA A EPIDEMIA DO MEDO
Michael Moore aponta o caminho do paraíso, mas sem antes chocar e abrir os olhos do público para a pregação do medo feita pela mídia e pelo governo

por Tércio Silveira (terciosilveira@hotmail.com)

 primeira seqüência de Tiros em Columbine (Bowling for Columbine, 2002) é antológica. O documentarista Michael Moore entra em uma agência bancária – North Country Bank - para abrir uma conta corrente e, como brinde, ganha um rifle. Afinal, é preciso ter uma arma em casa – pelo menos é o que eles acham.

O filme trata bastante dessa idéia de que os americanos enxergam inimigos aos montes e é preciso ter algo com que se proteger. O cidadão vai na agência bancária, abre uma conta e recebe um arma. Então, pergunto: o que o cara vai fazer com o rifle? Vai se defender. De quem? Dos inimigos. Que inimigos? Ninguém sabe.

Ok, as coisas não são simples assim. Para ganhar o rifle é preciso um atestado de bons antecedentes e, antes de entregar a arma para o correntista, o banco faz uma consulta junto à polícia. Algumas revistas americanas disseram que Michael Moore convenceu a gerente do banco a entregar a arma praticamente no mesmo instante, sem aguardar o prazo para estas verificações. Ao que consta, Michael Moore nunca cometeu crime algum, mas os críticos usam essa “manipulação” do cineasta para tentar desqualificar o filme e fechar os olhos para o que é revelado durante as duas horas de Tiros em Columbine: a pregação do medo.

Abelhas africanas assassinas estão rumando para o território americano. Acredite, essa é uma reportagem feita por um telejornal. Detalhe: isso nunca aconteceu. O bug do milênio vai parar o mundo, corram para os supermercados e adquiram suprimentos. Essa, também, foi uma matéria veiculada pelos jornais americanos e, na época, no resto do mundo. Detalhe: empresas gastaram milhões para se protegerem e nada aconteceu. O seriado Cops sempre mostra os negros como bandidos. Políticos e defensores da moral americana fazem discursos acusando Marilyn Mason, South Park e jogos de videogame como os culpados, como os inimigos que poluem a mente dos americanos e os incentivam a cometerem atos de violência.

Tiros em Columbine mostra como a mídia e o governo convocam os cidadãos americanos a se protegerem de todos esses “inimigos”. Partindo dessa lavagem cerebral, os americanos começam a enxergar inimigos e forças ocultas em qualquer canto. Todos são suspeitos e capazes de acabar com os Estados Unidos e cada cidadão deve se defender para resguardar a moral familiar e a dignidade da América, mesmo que os “inimigos” sejam “abelhas africanas assassinas” que nunca sequer assassinaram alguém.

O que inspirou Michael Moore a rodar Tiros em Columbine, além de mostrar o culto às armas e a obsessão dos americanos em achar um inimigo, foi o fato de que em 1999 dois garotos de uma minúscula cidade do sul dos EUA cometeram um massacre na escola Columbine. O que Moore mostra é que infinitas razões podem ter levado os garotos a este ato, desde o jogo de boliche até mesmo o presidente americano – na época, Bill Clinton.

Tiros em Columbine não retrata apenas um inferno de violência e insanidades; o filme também aponta o caminho para o paraíso, onde a quantidade de pessoas que morrem por armas de fogo é baixíssima e as pessoas dormem com a porta de casa aberta. Se para Michael Moore o paraíso tem um endereço, esse lugar deve ser o Canadá.

Em tempo: o triste é ver que o Brasil também caminha para esta pregação da paranóia. Nas últimas semanas, o telespectador mais atento viu uma propaganda do PFL (Partido da Frente Liberal) criticando as invasões de propriedades praticadas pelo Movimento Sem-Terra. Até aí, tudo bem ser contra o MST - é uma atitude normal vinda do PFL. Mas o que surpreende é o texto final da peça publicitária: “Os sem-terra já invadiram prédios públicos. Qual será o próximo alvo?”. Estariam os políticos da Frente Liberal sugerindo que os sem-terra começarão a invadir as casas dos brasileiros? Devemos nos armar e cavar trincheiras na Avenida Paulista?