| TIROS EM COLUMBINE REVELA
A EPIDEMIA DO MEDO
Michael Moore aponta o caminho do
paraíso, mas sem antes chocar e abrir os olhos do público
para a pregação do medo feita pela mídia e
pelo governo
por Tércio
Silveira (terciosilveira@hotmail.com)

primeira seqüência de Tiros em Columbine (Bowling
for Columbine, 2002) é antológica. O documentarista
Michael Moore entra em uma agência bancária –
North Country Bank - para abrir uma conta corrente e, como brinde,
ganha um rifle. Afinal, é preciso ter uma arma em casa –
pelo menos é o que eles acham.
O filme trata bastante dessa idéia de que os americanos
enxergam inimigos aos montes e é preciso ter algo com que
se proteger. O cidadão vai na agência bancária,
abre uma conta e recebe um arma. Então, pergunto: o que o
cara vai fazer com o rifle? Vai se defender. De quem? Dos inimigos.
Que inimigos? Ninguém sabe.
Ok, as coisas não são simples assim. Para ganhar
o rifle é preciso um atestado de bons antecedentes e, antes
de entregar a arma para o correntista, o banco faz uma consulta
junto à polícia. Algumas revistas americanas disseram
que Michael Moore convenceu a gerente do banco a entregar a arma
praticamente no mesmo instante, sem aguardar o prazo para estas
verificações. Ao que consta, Michael Moore nunca cometeu
crime algum, mas os críticos usam essa “manipulação”
do cineasta para tentar desqualificar o filme e fechar os olhos
para o que é revelado durante as duas horas de Tiros
em Columbine: a pregação do medo.
Abelhas africanas assassinas estão rumando para o território
americano. Acredite, essa é uma reportagem feita por um telejornal.
Detalhe: isso nunca aconteceu. O bug do milênio
vai parar o mundo, corram para os supermercados e adquiram suprimentos.
Essa, também, foi uma matéria veiculada pelos jornais
americanos e, na época, no resto do mundo. Detalhe: empresas
gastaram milhões para se protegerem e nada aconteceu. O seriado
Cops sempre mostra os negros como bandidos. Políticos
e defensores da moral americana fazem discursos acusando Marilyn
Mason, South Park e jogos de videogame como os culpados, como os
inimigos que poluem a mente dos americanos e os incentivam a cometerem
atos de violência.
Tiros
em Columbine mostra como a mídia e o governo convocam
os cidadãos americanos a se protegerem de todos esses “inimigos”.
Partindo dessa lavagem cerebral, os americanos começam a
enxergar inimigos e forças ocultas em qualquer canto. Todos
são suspeitos e capazes de acabar com os Estados Unidos e
cada cidadão deve se defender para resguardar a moral familiar
e a dignidade da América, mesmo que os “inimigos”
sejam “abelhas africanas assassinas” que nunca sequer
assassinaram alguém.
O que inspirou Michael Moore a rodar Tiros em Columbine,
além de mostrar o culto às armas e a obsessão
dos americanos em achar um inimigo, foi o fato de que em 1999 dois
garotos de uma minúscula cidade do sul dos EUA cometeram
um massacre na escola Columbine. O que Moore mostra é que
infinitas razões podem ter levado os garotos a este ato,
desde o jogo de boliche até mesmo o presidente americano
– na época, Bill Clinton.
Tiros em Columbine não retrata apenas
um inferno de violência e insanidades; o filme também
aponta o caminho para o paraíso, onde a quantidade de pessoas
que morrem por armas de fogo é baixíssima e as pessoas
dormem com a porta de casa aberta. Se para Michael Moore o paraíso
tem um endereço, esse lugar deve ser o Canadá.
Em
tempo: o triste é ver que o Brasil também caminha
para esta pregação da paranóia. Nas últimas
semanas, o telespectador mais atento viu uma propaganda do PFL (Partido
da Frente Liberal) criticando as invasões de propriedades
praticadas pelo Movimento Sem-Terra. Até aí, tudo
bem ser contra o MST - é uma atitude normal vinda do PFL.
Mas o que surpreende é o texto final da peça publicitária:
“Os sem-terra já invadiram prédios públicos.
Qual será o próximo alvo?”. Estariam os políticos
da Frente Liberal sugerindo que os sem-terra começarão
a invadir as casas dos brasileiros? Devemos nos armar e cavar trincheiras
na Avenida Paulista? 
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