| PREPARE O SEU CORAÇÃO
A Era dos Festivais - Uma Parábola,
de Zuza Homem de Mello, revive a história e as histórias
do tempo dos festivais da canção, nas décadas
de 1960 e 1970
por Marcelo
Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

m dos períodos mais férteis e célebres da Música
Popular Brasileira reaparece nas páginas de A Era dos
Festivais - Uma Parábola, de Zuza Homem de Mello (Editora
34, 528 págs), 24º volume da coleção Todos
os Cantos. No livro, o musicólogo e pesquisador faz o
itinerário do nascedouro da MPB, que nasceu nos memoráveis
festivais realizados pelas emissoras Excelsior e Record, no começo
da década de 60. Na obra, Zuza se debruça sobre o
período de 1960 e 1972, desde o primeiro festival da TV Record,
a Festa da Música Popular Brasileira, ao VII Festival
Internacional da Canção, da TV Globo, já em
plena ditadura. Como qualquer livro do tipo que se preze, Uma
Parábola não deixa de correr o olhar curioso dos
bastidores de cada certame, misturando vigorosa pesquisa, depoimento
e vasta iconografia, passando ao tempo e ao lugar onde surgiriam
cantores e compositores como Geraldo Vandré, Tuca, Maysa,
Sérgio Ricardo, Raul Seixas, Hermeto Paschoal, Antônio
Adolfo, Tibério Gaspar, Chico e Caetano, entre outros.
Os vários episódios relembram Elis imitando Lennie
Dale e girando como hélice em “Arrastão”;
a guerra entre “A Banda” e “Disparada”;
a sonora e injusta vaia que Nana Caymmi levou ao defender “Saveiros”,
de Dori e Nelson Motta (que não sabia o que é um saveiro);
o ingresso da guitarra na MPB com Gil e os Mutantes em “Domingo
no Parque”; Jorge Ben fazendo tudo mundo cantar “Fio
Maravilha” na voz de Maria Alcina; Sérgio Ricardo dando
uma de Pete Townshend com “Beto Bom de Bola” (“vocês
são uns animais!”); Caetano Veloso bancando a Molly
Bloom em seu discurso delirante em “É Proibido Proibir”
e o fim do romantismo, com a “linha dura” bafejando
os derradeiros certames, já na época da TV Globo,
na década de 70. De reboque junto com Uma Parábola
a Universal vai lançar trilha sonora do livro em CD duplo.
O INÍCIO
A chamada Era dos Festivais nasceu em São
Paulo — injustamente chamada de “Túmulo do Samba”
— em meados de 1963, quando também houve uma discreta
migração de artistas cariocas para a capital paulista,
como Johnny Alf, por exemplo. Nesse mesmo tempo, já havia
gente nova fazendo música por lá: Walter Wanderley,
Ana Lúcia (que gravaria a primeira versão de “Samba
em Prelúdio” em dueto com Vandré), Claudette
Soares e César Camargo Mariano. Logo, eles e muitos outros
seriam capitaneados por Solano Ribeiro, Moacir do Val e Franco Paulino,
num projeto chamado Tardes da Bossa Paulista.
A resposta do público foi grande e imediata. Em pouco tempo,
foi preciso encontrar um lugar maior para os encontros, como um
teatro.
Optaram pelo antigo teatro de Arena. Ali, o programa virou Noites
de Bossa e obteve sucesso enorme. Certo dia, José
Bonifácio Sobrinho (o Boni), que trabalhava na extinta TV
Excelsior, convidou Solano para trabalhar como coordenador de programação
da emissora. Com a chance de produzir um programa, ele convidou
todos para o cast do Noites da Bossa
Paulista. Com o tempo, o pessoal do Rio foi convidado
a integrar o programa que, então, virou Primavera
Eduardo É Festival de Bossa Nova (por causa do
patrocínio das Lojas Eduardo). Foi quando
uma certa gauchinha — direto da Vila IAPI para o estrelato
— chamada Elis Regina cantou pela primeira vez num teatro
paulistano.
Ao mesmo tempo em que a Excelsior apresentava as suas noites de
Bossa, o conhecido disk-jóquei Walter Silva (o do Pick-Up
do Pica-Pau) lotava o Teatro Paramount com gente até
no lustre. O motivo? Elis girando seus braços a
la Lennie Dale e os ziriguiduns de
Jair Rodrigues em Dois na Bossa. Mas, antes dos
shows, havia ainda a idéia de realizar um festival, como
nos moldes do San Remo. O problema era saber como: no modelo italiano,
gravadoras e editoras orientavam o Festival. Como os selos daqui
não aceitariam apostar em gente iniciante, o que fazer, abrir
o certame para todos? Foi a única solução.
Veio uma enxurrada de gente. Com tal demanda, nascia o I Festival
de Música Popular Brasileira, realizado na TV Excelsior,
em 1965. Foi um sucesso absoluto.
COQUELUCHE
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| Elis Regina |
Quem ganhou foi “Arrastão”, de
Edu Lobo, que havia apresentado sua canção para o
poeta Vinícius de Moraes, autor da letra. O que havia assombrado
o júri foi a temática, além da expectativa
do paradigma típico banquinho-e-violão e sob forte
influência da nova linguagem oriunda do teatro dos Centros
Populares de Cultura (CPC) da UNE, colocando um toque nordestino
na amena urbanidade bossa-novista . A inspiração —
segundo Zuza — foi a canção “Subdesenvolvido”,
de Carlinhos Lyra e Chico de Assis. Lançada em 1963, mesmo
no circuito alternativo dos centros acadêmicos, a canção
vendeu 10 mil exemplares em compacto. Foi essa temática que
venceria o festival e indicaria um caminho a seguir aos próximos
participantes. Mas a cereja do bolo do festival seria a novata Elis
Regina. Sua interpretação, perfeita de tão
histriônica, cheia de breques, também seria o exemplo
para os futuros concorrentes. Por conta de sua inusitada atuação
no palco, Elis ganharia o prêmio de melhor intérprete
daquele ano.
A Excelsior insistiu em produzir uma segunda edição
do festival no ano seguinte. O vencedor foi a marcha-rancho “Porta-Estandarte”,
de Geraldo Vandré e Fernando Lona, defendida por Tuca e Airto
Moreira. Promissor, Vandré havia se iniciado como compositor
nos tempos do Centro Acadêmico da Mackenzie e em apresentações
no João Sabastião Bar, em São Paulo. Já
era famoso por interpretar “Sonho de um Carnaval”, do
desconhecido Chico Buarque, para o festival de 1965. A partir de
1966, certames desse tipo se transubstanciariam em coqueluche e
cavalo de batalha dos puristas e dos compositores ditos “engajados”
contra a onda do rock, deflagrada com a chegada dos primeiros sucessos
dos Beatles em 1964 e o nascimento da Jovem Guarda em terras brasileiras.
À medida que os festivais cresciam, o pessoal engajado dos
festivais (principalmente os compositores) ia tomando a bandeira
da música autêntica e de temática social. Passaram
a comprar briga com a turma de Roberto Carlos, que só queria
saber mesmo era de mandar tudo pro inferno. Eram chamados de “alienados”
— expressão pejorativíssima, então. Já
a Record, depois de realizar o II Festival e carreada pela polêmica
entre “A Banda” e a “Disparada”, obteve
tanto sucesso de audiência que virou uma grande emissora,
fato que lhe permitiu a criação de outros programas,
entre eles, o Jovem Guarda com Roberto Carlos
(para e emissora, a briga entre enragés
e roqueiros era altamente lucrativa) e o Bossaudade
com a “Divina” Elizeth Cardoso e Cyro Monteiro (e sua
caixinha de fósforo). A Record passaria a ser líder
de audiência e a “Emissora dos Musicais”. Os programas
estavam em evidência, a audiência nas alturas.
Em outubro de 1967, a TV Rio apresentou o primeiro Festival Internacional
da Canção (FIC) que, logo na estréia, revelou
o jovem Milton Nascimento, segundo colocado com “Travessia”
(Milton Nascimento e Fernando Brant). Perdeu para “Margarida”,
de Gutemberg Guarabira (cujas histórias durante a repressão
são esmiuçadas no livro), defendida pelo grupo Manifesto,
e que, comparada com a música de Milton, caiu no esquecimento
do público. Em terceiro chegou “Carolina”, de
Chico Buarque, interpretada por Cynara e Cybele, do Quarteto em
Cy. Mais modesta, a Tupi fazia o Festival Universitário
e, posteriormente, a Feira Permanente da MPB,
com outro formato. A partir de 1968, o FIC seria transmitido pela
TV Globo.
O ANO DOS FESTIVAIS
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| Caetano Veloso |
O ano de 1967 foi, certamente, o auge da Era dos
Festivais, em termos de qualidade musical. O III Festival de Música
Popular Brasileira, realizado no Teatro Paramount, foi ganho por
“Ponteio”, de Edu Lobo e Capinam, defendida pelo próprio
Edu, junto com Maria Medalha e o acompanhamento do Quarteto Novo.
Apesar da genialidade de Edu Lobo e Capinam, “Ponteio”
havia sofrido restrições por parte do júri,
que entendeu ser a canção uma hibridização
de um verdadeiro ponteio. Este seria também um festival divisor
de águas: esta seria uma das últimas canções
estilo protesto-bossa a ganhar o gosto do público. Logo atrás,
vinha a rascante “Domingo no Parque”, que obteve mais
ou menos o impacto de Bob Dylan cantando e eletrificada “Maggie’
Farm” em Newport. Gil havia colocado guitarras em sua música,
depois de um tímido quinto lugar no festival de 1966, com
“Ensaio Geral”, interpretada naquele certame por Elis
Regina. Logo atrás, vinham “Roda Viva”, de Chico
Buarque, cantado por Chico e a MPB-4.
Em 1967, Caetano Veloso viraria campeão moral com “Alegria,
Alegria”, se apresentando com uma marcha-rancho com guitarras
e bateria — os Beat Boys — da mesma maneira que Gil
com os Mutantes. Na verdade, ambos haviam mudado seu estilo musical
radicalmente, após terem descoberto uma fusão natural
entre o rock e o som folclórico à moda brasileira,
após terem “descoberto” o psicodelismo dos Beatles,
amálgama que seria a raiz do Tropicalismo. Ao mesmo tempo
em que o rock parecia fazer entropia na MPB, a Jovem Guarda aparecia
no FIC na figura de Roberto Carlos. Com elegância e no melhor
estilo “chicobuarquiano”, o Rei interpretou “Maria,
Carnaval e Cinzas”, de Luís Carlos Paraná, uma
mistura de “Zelão” com “Sonho de um Carnaval”.
Não levou (levaria o troféu com “Canzone Per
Te”, em San Remo) mas também entrou para a história
dos festivais. Havia tanta qualidade que muita coisa boa não
se classificou: a belíssima “Eu e a Brisa”, de
Johnny Alf, não passou da primeira fase...
“FESTIVAIAS”
Também foi a partir de 1967 que os festivais
seriam também conhecidos como “festivaias”. Como
se não bastasse a platéia ululante de sempre, a divisão
entre a preferência das canções defendidas tinha
clima de Fla-Flu. O exemplo de Sérgio Ricardo foi simbólico.
Farto de ser vaiado, a ponto de não poder tocar, ele interrompeu
o público, quebrou o violão e jogou seus pedaços
na terceira fila do Paramount. Roberto Carlos também foi
vaiado, mas tinha o aval das suas fãs histéricas,
que mostravam a língua para o público “engajado”.
Se a coisa não era natural, já que havia a preferência
do cantor às vezes, algumas gravadoras passariam a fomentar
torcida condottiere, de aluguel. A gravadora de Jair Rodrigues,
por exemplo, “contratou” uma torcida para aplaudir “O
Combatente”. Como a música também não
foi classificada, o pessoal começou a vaiar quem aparecesse.
A vaia de “Beto Bom de Bola”, por sua vez, era mais
por antipatia mesmo. Ninguém entendeu bem a música
e a platéia não via nada de mais nela. Para vaiar,
seria fácil
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| Geraldo Vandré |
A partir de 1968, o clima no Brasil não era
favorável para quem queria fazer música de protesto.
O festival catalisava tudo isso, transformando o certame daquele
ano num happening político. A patrulha agora era de
direita, e a censura espreitava cada gesto brusco. A fórmula
foi alterada: criou-se o júri popular e o especial. No IV
Festival, em novembro-dezembro, na Record, as vencedoras foram “Benvinda”
de Chico Buarque, com o autor interpretando-a, e “São
Paulo Meu Amor”, cantada e defendida por Tom Zé. Mas
jeripoca piou mesmo foi no certame da Globo. O produtor, Renato
Corrêa e Castro, colocou Gilberto Gil cantando a surreal “Questão
de Ordem”, Caetano Veloso com “É Proibido Proibir”
e a piéce de resistence do festival, “Para Não
Dizer Que Não Falei das Flores”, na eliminatória
paulista. A apresentação no Teatro Universitário
da PUC foi caótica. Gil fundiu a cuca do júri, Caetano
tomou as dores dele, e foi massacrado como um Orfeu, em meio a vaias
a apupos. Revidou à altura: “Se vocês forem em
política como são em estética, estamos feitos.
O Júri é simpático mas é incompetente!”.
CAMINHANDO E CANTANDO
Na segunda fase, no Maracanãzinho, o circo estava armado.
Seria o ano de Vandré. Em meio à repressão
política imposta pelo regime militar, ele falava de flores
vencendo canhões, e em morrer pela Pátria a viver
sem razão. No final, ordens de cima: obrigaram a Globo a
não dar a vitória ao Vandré. Ele não
poderia ganhar esse festival de jeito nenhum. Quem disse que os
militares aprovariam a vitória de uma música que manda.
A despeito da qualidade, o público não aceitava “Sabiá”,
de Chico Buarque e Tom Jobim. Chico, aliás, havia vindo da
Itália a convite de Jobim, para que recebessem o Galo de
Ouro juntos. Vandré, por sua vez, era o gênio incompreendido,
o vate solitário, o menestrel das flores, um Guevara com
um violão dois acordes e uma mensagem “subversiva”.
A reação do público estremeceu os militares.
Não ganhou. A platéia estava encantada com o ar de
fauno triste do revolucionário Vandré enquanto o júri
preferiria a sofisticação da melodia de Tom. Porém,
uma outra “força maior” os ajudava nesse sentido.
Dessa vez, o próprio compositor defenderia “Caminhando”,
enquanto as meninas do Quarteto em Cy cantavam a música de
Tom e Chico. O ginásio inteiro entoou grossa vaia quando
o júri preteriu as flores e os canhões de Vandré
e escolheu “Sabiá” — uma dissimulada canção
de protesto — como a vencedora. Oficialmente derrotado desta
vez, o autor de “Pra Não Dizer que Não Falei
das Flores” engoliu a sua decepção e a do público,
que se solidarizou com ele, e bradou: “A vida não se
resume a festivais. Antônio Carlos Jobim e Chico Buarque de
Hollanda merecem toda a nossa consideração”.
O FIM
Zuza exemplifica que o que acabou com a Era dos Festivais foi,
além do esgotamento do modelo, o gradativo esvaziamento,
causado tanto pela intervenção dos militares no conteúdo
das canções quanto no desencanto de muitos compositores
com o jogo de cartas marcadas — sem falar na transformação
do espírito do festival, cujo gosto musical passava a ser
ditado por gravadoras e editoras, senão pelas próprias
emissoras. Além do mais, a maioria dos autores havia saído
do Brasil. A Globo conseguiu manter o evento por mais três
anos, mais por conta da audiência e pelo tom do espetáculo
do que da velha disputa ou a revelação de novos talentos.
O
último foi o Festival Internacional da Canção,
em setembro de 1972, Na fase nacional, o vencedor foi Jorge Ben
com “Fio Maravilha”, defendida por Maria Alcina e “Cabeça”,
de Walter Franco. “Cabeça” foi declarada a campeã
pelo primeiro júri, que foi dissolvido. Nara Leão,
que era presidente do júri, não poderia aparecer na
tevê, sob ordens “de cima”. Nara havia criticado
a situação brasileira, semanas antes, tornando-se
persona non grata. Todo o corpo de jurados tomou suas dores,
e o júri se amotinou e se auto-dissolveu. Escandalizados,
os militares entenderam que tal manobra era “antipatriótica”
e “subversiva”. Em cima da hora, foram escolhidos jornalistas
estrangeiros para compor um novo corpo — dessa vez, “isento”
— a fim de pôr algodão entre cristais. No fim,
só quem reclamou foram os defensores de Walter Franco que,
sem entender nada, acharam que a troca dos jurados foi apenas para
prejudicá-lo...
No total, entre 1960 e 1966, foram realizados oficialmente
catorze festivais, realizados entre as emissoras Excelsior, Record
e Globo. Com o fim da chamada Era dos Festivais, toda uma época
desapareceu com eles. »»
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