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5 a 21 de junho de 2003


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A Era dos Festivais - Uma Parábola, de Zuza Homem de Mello, revive a história e as histórias do tempo dos festivais da canção, nas décadas de 1960 e 1970

por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

m dos períodos mais férteis e célebres da Música Popular Brasileira reaparece nas páginas de A Era dos Festivais - Uma Parábola, de Zuza Homem de Mello (Editora 34, 528 págs), 24º volume da coleção Todos os Cantos. No livro, o musicólogo e pesquisador faz o itinerário do nascedouro da MPB, que nasceu nos memoráveis festivais realizados pelas emissoras Excelsior e Record, no começo da década de 60. Na obra, Zuza se debruça sobre o período de 1960 e 1972, desde o primeiro festival da TV Record, a Festa da Música Popular Brasileira, ao VII Festival Internacional da Canção, da TV Globo, já em plena ditadura. Como qualquer livro do tipo que se preze, Uma Parábola não deixa de correr o olhar curioso dos bastidores de cada certame, misturando vigorosa pesquisa, depoimento e vasta iconografia, passando ao tempo e ao lugar onde surgiriam cantores e compositores como Geraldo Vandré, Tuca, Maysa, Sérgio Ricardo, Raul Seixas, Hermeto Paschoal, Antônio Adolfo, Tibério Gaspar, Chico e Caetano, entre outros.

Os vários episódios relembram Elis imitando Lennie Dale e girando como hélice em “Arrastão”; a guerra entre “A Banda” e “Disparada”; a sonora e injusta vaia que Nana Caymmi levou ao defender “Saveiros”, de Dori e Nelson Motta (que não sabia o que é um saveiro); o ingresso da guitarra na MPB com Gil e os Mutantes em “Domingo no Parque”; Jorge Ben fazendo tudo mundo cantar “Fio Maravilha” na voz de Maria Alcina; Sérgio Ricardo dando uma de Pete Townshend com “Beto Bom de Bola” (“vocês são uns animais!”); Caetano Veloso bancando a Molly Bloom em seu discurso delirante em “É Proibido Proibir” e o fim do romantismo, com a “linha dura” bafejando os derradeiros certames, já na época da TV Globo, na década de 70. De reboque junto com Uma Parábola a Universal vai lançar trilha sonora do livro em CD duplo.

O INÍCIO

A chamada Era dos Festivais nasceu em São Paulo — injustamente chamada de “Túmulo do Samba” — em meados de 1963, quando também houve uma discreta migração de artistas cariocas para a capital paulista, como Johnny Alf, por exemplo. Nesse mesmo tempo, já havia gente nova fazendo música por lá: Walter Wanderley, Ana Lúcia (que gravaria a primeira versão de “Samba em Prelúdio” em dueto com Vandré), Claudette Soares e César Camargo Mariano. Logo, eles e muitos outros seriam capitaneados por Solano Ribeiro, Moacir do Val e Franco Paulino, num projeto chamado Tardes da Bossa Paulista. A resposta do público foi grande e imediata. Em pouco tempo, foi preciso encontrar um lugar maior para os encontros, como um teatro.

Optaram pelo antigo teatro de Arena. Ali, o programa virou Noites de Bossa e obteve sucesso enorme. Certo dia, José Bonifácio Sobrinho (o Boni), que trabalhava na extinta TV Excelsior, convidou Solano para trabalhar como coordenador de programação da emissora. Com a chance de produzir um programa, ele convidou todos para o cast do Noites da Bossa Paulista. Com o tempo, o pessoal do Rio foi convidado a integrar o programa que, então, virou Primavera Eduardo É Festival de Bossa Nova (por causa do patrocínio das Lojas Eduardo). Foi quando uma certa gauchinha — direto da Vila IAPI para o estrelato — chamada Elis Regina cantou pela primeira vez num teatro paulistano.

Ao mesmo tempo em que a Excelsior apresentava as suas noites de Bossa, o conhecido disk-jóquei Walter Silva (o do Pick-Up do Pica-Pau) lotava o Teatro Paramount com gente até no lustre. O motivo? Elis girando seus braços a la Lennie Dale e os ziriguiduns de Jair Rodrigues em Dois na Bossa. Mas, antes dos shows, havia ainda a idéia de realizar um festival, como nos moldes do San Remo. O problema era saber como: no modelo italiano,
gravadoras e editoras orientavam o Festival. Como os selos daqui não aceitariam apostar em gente iniciante, o que fazer, abrir o certame para todos? Foi a única solução. Veio uma enxurrada de gente. Com tal demanda, nascia o I Festival de Música Popular Brasileira, realizado na TV Excelsior, em 1965. Foi um sucesso absoluto.

COQUELUCHE

 

 Elis Regina

Quem ganhou foi “Arrastão”, de Edu Lobo, que havia apresentado sua canção para o poeta Vinícius de Moraes, autor da letra. O que havia assombrado o júri foi a temática, além da expectativa do paradigma típico banquinho-e-violão e sob forte influência da nova linguagem oriunda do teatro dos Centros Populares de Cultura (CPC) da UNE, colocando um toque nordestino na amena urbanidade bossa-novista . A inspiração — segundo Zuza — foi a canção “Subdesenvolvido”, de Carlinhos Lyra e Chico de Assis. Lançada em 1963, mesmo no circuito alternativo dos centros acadêmicos, a canção vendeu 10 mil exemplares em compacto. Foi essa temática que venceria o festival e indicaria um caminho a seguir aos próximos participantes. Mas a cereja do bolo do festival seria a novata Elis Regina. Sua interpretação, perfeita de tão histriônica, cheia de breques, também seria o exemplo para os futuros concorrentes. Por conta de sua inusitada atuação no palco, Elis ganharia o prêmio de melhor intérprete daquele ano.

A Excelsior insistiu em produzir uma segunda edição do festival no ano seguinte. O vencedor foi a marcha-rancho “Porta-Estandarte”, de Geraldo Vandré e Fernando Lona, defendida por Tuca e Airto Moreira. Promissor, Vandré havia se iniciado como compositor nos tempos do Centro Acadêmico da Mackenzie e em apresentações no João Sabastião Bar, em São Paulo. Já era famoso por interpretar “Sonho de um Carnaval”, do desconhecido Chico Buarque, para o festival de 1965. A partir de 1966, certames desse tipo se transubstanciariam em coqueluche e cavalo de batalha dos puristas e dos compositores ditos “engajados” contra a onda do rock, deflagrada com a chegada dos primeiros sucessos dos Beatles em 1964 e o nascimento da Jovem Guarda em terras brasileiras.

À medida que os festivais cresciam, o pessoal engajado dos festivais (principalmente os compositores) ia tomando a bandeira da música autêntica e de temática social. Passaram a comprar briga com a turma de Roberto Carlos, que só queria saber mesmo era de mandar tudo pro inferno. Eram chamados de “alienados” — expressão pejorativíssima, então. Já a Record, depois de realizar o II Festival e carreada pela polêmica entre “A Banda” e a “Disparada”, obteve tanto sucesso de audiência que virou uma grande emissora, fato que lhe permitiu a criação de outros programas, entre eles, o Jovem Guarda com Roberto Carlos (para e emissora, a briga entre enragés e roqueiros era altamente lucrativa) e o Bossaudade com a “Divina” Elizeth Cardoso e Cyro Monteiro (e sua caixinha de fósforo). A Record passaria a ser líder de audiência e a “Emissora dos Musicais”. Os programas estavam em evidência, a audiência nas alturas.

Em outubro de 1967, a TV Rio apresentou o primeiro Festival Internacional da Canção (FIC) que, logo na estréia, revelou o jovem Milton Nascimento, segundo colocado com “Travessia” (Milton Nascimento e Fernando Brant). Perdeu para “Margarida”, de Gutemberg Guarabira (cujas histórias durante a repressão são esmiuçadas no livro), defendida pelo grupo Manifesto, e que, comparada com a música de Milton, caiu no esquecimento do público. Em terceiro chegou “Carolina”, de Chico Buarque, interpretada por Cynara e Cybele, do Quarteto em Cy. Mais modesta, a Tupi fazia o Festival Universitário e, posteriormente, a Feira Permanente da MPB, com outro formato. A partir de 1968, o FIC seria transmitido pela TV Globo.

O ANO DOS FESTIVAIS

 Caetano Veloso

O ano de 1967 foi, certamente, o auge da Era dos Festivais, em termos de qualidade musical. O III Festival de Música Popular Brasileira, realizado no Teatro Paramount, foi ganho por “Ponteio”, de Edu Lobo e Capinam, defendida pelo próprio Edu, junto com Maria Medalha e o acompanhamento do Quarteto Novo. Apesar da genialidade de Edu Lobo e Capinam, “Ponteio” havia sofrido restrições por parte do júri, que entendeu ser a canção uma hibridização de um verdadeiro ponteio. Este seria também um festival divisor de águas: esta seria uma das últimas canções estilo protesto-bossa a ganhar o gosto do público. Logo atrás, vinha a rascante “Domingo no Parque”, que obteve mais ou menos o impacto de Bob Dylan cantando e eletrificada “Maggie’ Farm” em Newport. Gil havia colocado guitarras em sua música, depois de um tímido quinto lugar no festival de 1966, com “Ensaio Geral”, interpretada naquele certame por Elis Regina. Logo atrás, vinham “Roda Viva”, de Chico Buarque, cantado por Chico e a MPB-4.

Em 1967, Caetano Veloso viraria campeão moral com “Alegria, Alegria”, se apresentando com uma marcha-rancho com guitarras e bateria — os Beat Boys — da mesma maneira que Gil com os Mutantes. Na verdade, ambos haviam mudado seu estilo musical radicalmente, após terem descoberto uma fusão natural entre o rock e o som folclórico à moda brasileira, após terem “descoberto” o psicodelismo dos Beatles, amálgama que seria a raiz do Tropicalismo. Ao mesmo tempo em que o rock parecia fazer entropia na MPB, a Jovem Guarda aparecia no FIC na figura de Roberto Carlos. Com elegância e no melhor estilo “chicobuarquiano”, o Rei interpretou “Maria, Carnaval e Cinzas”, de Luís Carlos Paraná, uma mistura de “Zelão” com “Sonho de um Carnaval”. Não levou (levaria o troféu com “Canzone Per Te”, em San Remo) mas também entrou para a história dos festivais. Havia tanta qualidade que muita coisa boa não se classificou: a belíssima “Eu e a Brisa”, de Johnny Alf, não passou da primeira fase...

“FESTIVAIAS”

Também foi a partir de 1967 que os festivais seriam também conhecidos como “festivaias”. Como se não bastasse a platéia ululante de sempre, a divisão entre a preferência das canções defendidas tinha clima de Fla-Flu. O exemplo de Sérgio Ricardo foi simbólico. Farto de ser vaiado, a ponto de não poder tocar, ele interrompeu o público, quebrou o violão e jogou seus pedaços na terceira fila do Paramount. Roberto Carlos também foi vaiado, mas tinha o aval das suas fãs histéricas, que mostravam a língua para o público “engajado”. Se a coisa não era natural, já que havia a preferência do cantor às vezes, algumas gravadoras passariam a fomentar torcida condottiere, de aluguel. A gravadora de Jair Rodrigues, por exemplo, “contratou” uma torcida para aplaudir “O Combatente”. Como a música também não foi classificada, o pessoal começou a vaiar quem aparecesse. A vaia de “Beto Bom de Bola”, por sua vez, era mais por antipatia mesmo. Ninguém entendeu bem a música e a platéia não via nada de mais nela. Para vaiar, seria fácil

 Geraldo Vandré

A partir de 1968, o clima no Brasil não era favorável para quem queria fazer música de protesto. O festival catalisava tudo isso, transformando o certame daquele ano num happening político. A patrulha agora era de direita, e a censura espreitava cada gesto brusco. A fórmula foi alterada: criou-se o júri popular e o especial. No IV Festival, em novembro-dezembro, na Record, as vencedoras foram “Benvinda” de Chico Buarque, com o autor interpretando-a, e “São Paulo Meu Amor”, cantada e defendida por Tom Zé. Mas jeripoca piou mesmo foi no certame da Globo. O produtor, Renato Corrêa e Castro, colocou Gilberto Gil cantando a surreal “Questão de Ordem”, Caetano Veloso com “É Proibido Proibir” e a piéce de resistence do festival, “Para Não Dizer Que Não Falei das Flores”, na eliminatória paulista. A apresentação no Teatro Universitário da PUC foi caótica. Gil fundiu a cuca do júri, Caetano tomou as dores dele, e foi massacrado como um Orfeu, em meio a vaias a apupos. Revidou à altura: “Se vocês forem em política como são em estética, estamos feitos. O Júri é simpático mas é incompetente!”.

CAMINHANDO E CANTANDO

Na segunda fase, no Maracanãzinho, o circo estava armado. Seria o ano de Vandré. Em meio à repressão política imposta pelo regime militar, ele falava de flores vencendo canhões, e em morrer pela Pátria a viver sem razão. No final, ordens de cima: obrigaram a Globo a não dar a vitória ao Vandré. Ele não poderia ganhar esse festival de jeito nenhum. Quem disse que os militares aprovariam a vitória de uma música que manda. A despeito da qualidade, o público não aceitava “Sabiá”, de Chico Buarque e Tom Jobim. Chico, aliás, havia vindo da Itália a convite de Jobim, para que recebessem o Galo de Ouro juntos. Vandré, por sua vez, era o gênio incompreendido, o vate solitário, o menestrel das flores, um Guevara com um violão dois acordes e uma mensagem “subversiva”.

A reação do público estremeceu os militares. Não ganhou. A platéia estava encantada com o ar de fauno triste do revolucionário Vandré enquanto o júri preferiria a sofisticação da melodia de Tom. Porém, uma outra “força maior” os ajudava nesse sentido. Dessa vez, o próprio compositor defenderia “Caminhando”, enquanto as meninas do Quarteto em Cy cantavam a música de Tom e Chico. O ginásio inteiro entoou grossa vaia quando o júri preteriu as flores e os canhões de Vandré e escolheu “Sabiá” — uma dissimulada canção de protesto — como a vencedora. Oficialmente derrotado desta vez, o autor de “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores” engoliu a sua decepção e a do público, que se solidarizou com ele, e bradou: “A vida não se resume a festivais. Antônio Carlos Jobim e Chico Buarque de Hollanda merecem toda a nossa consideração”.

O FIM

Zuza exemplifica que o que acabou com a Era dos Festivais foi, além do esgotamento do modelo, o gradativo esvaziamento, causado tanto pela intervenção dos militares no conteúdo das canções quanto no desencanto de muitos compositores com o jogo de cartas marcadas — sem falar na transformação do espírito do festival, cujo gosto musical passava a ser ditado por gravadoras e editoras, senão pelas próprias emissoras. Além do mais, a maioria dos autores havia saído do Brasil. A Globo conseguiu manter o evento por mais três anos, mais por conta da audiência e pelo tom do espetáculo do que da velha disputa ou a revelação de novos talentos.

O último foi o Festival Internacional da Canção, em setembro de 1972, Na fase nacional, o vencedor foi Jorge Ben com “Fio Maravilha”, defendida por Maria Alcina e “Cabeça”, de Walter Franco. “Cabeça” foi declarada a campeã pelo primeiro júri, que foi dissolvido. Nara Leão, que era presidente do júri, não poderia aparecer na tevê, sob ordens “de cima”. Nara havia criticado a situação brasileira, semanas antes, tornando-se persona non grata. Todo o corpo de jurados tomou suas dores, e o júri se amotinou e se auto-dissolveu. Escandalizados, os militares entenderam que tal manobra era “antipatriótica” e “subversiva”. Em cima da hora, foram escolhidos jornalistas estrangeiros para compor um novo corpo — dessa vez, “isento” — a fim de pôr algodão entre cristais. No fim, só quem reclamou foram os defensores de Walter Franco que, sem entender nada, acharam que a troca dos jurados foi apenas para prejudicá-lo...

No total, entre 1960 e 1966, foram realizados oficialmente catorze festivais, realizados entre as emissoras Excelsior, Record e Globo. Com o fim da chamada Era dos Festivais, toda uma época desapareceu com eles. »»