| A BANDA OU A DISPARADA?
Um dos episódios mais interessantes
da Era dos Festivais é a polêmica disputa entre Geraldo
Vandré e Chico Buarque, no II Festival de Música
Popular Brasileira
por Marcelo
Xavier (marcelo@rabisco.com.br)
o certame, “Disparada” teria empatado com “A Banda”
em seis a seis. Mesmo que as condições de escolha
fossem nebulosas para a maioria do público, essa acabou sendo
colocada como a versão oficial, que todos conhecem. No livro
Uma Parábola, Zuza Homem de Mello apresenta toda a
história. O episódio, como se sabe, é até
hoje polêmico. Ainda hoje, seria difícil colocar qual
seria a melhor, dado a qualidade e a originalidade das duas composições.
A partir de então, ficou a pergunta de inefável resposta:
qual é a melhor? “A Banda” ou “Disparada”?
Sem dúvida, a questão nunca saiu de pauta. O certo
é que é muito difícil saber qual delas é
a melhor. São emblemáticas, porém, por lembrarem
sempre ao tempo em que compositores defendiam suas canções
com unhas e dentes, e seus respectivos intérpretes as defendiam
como se tal empresa lhes valesse a vida inteira.
Chico Buarque de Hollanda, um jovem estreante de
música e ex-calouro de arquitetura de 24 anos, conhecido
por um sambinha digno de atenção — “Pedro
Pedreiro” — , estimulado por seu pai, Sérgio
e pelo quinto lugar em 1965, resolveu se inscrever novamente naquele
ano, com uma marchinha lírica e candente — A Banda
— no festival da canção da TV Record de 1966.
Para defende-la, escolheu Nara Leão, que já era conhecida
como musa da bossa-nova e que fazia sucesso com o show Opinião,
com João do Vale e Zé Kéti. A produção
do festival realmente investiu em Chico, que, parecia, ia pela contramão
das canções de protesto que estavam na moda.
O diretor artístico do Festival, Solano Ribeiro,
não gostou do arranjo que Geny Marcondes bolou para a música,
na primeira fase. O público não conseguia ouvir a
voz de Nara, que se perdia no meio dos instrumentos. A arranjadora
chamou Altamiro Carrilho e montou uma bandinha de coreto. Solano
foi enfático: “Se você for com essa bandinha,
vai ser vaiado!”. Chico e Geny defenderam o arranjo com afinco.
A solução salomônica foi colocar Chico na primeira
parte, sozinho, com violão; depois, entrava Nara com o coreto.
Dessa forma, o público poderia “entender” o que
Nara cantava. E assim foi. No fim da primeira fase, era certo que
“A Banda” estava na disputa. O concorrente, porém
era fortíssimo: a toada-galope “Disparada”, de
Geraldo Vandré.
Seguido de uma esperança sem fim, Vandré
excursionou naquele mesmo ano pelo Nordeste levando a reboque Airto
Moreira (do Sambalanço Trio), o violonista e baixista Théo
de Barros e o guitarrista Heraldo, que formaram o Trio Novo. Foi
durante aquela viagem que ele teve a idéia de escrever um
longo poema sobre um vaqueiro que foi boi e que, um dia, “se
montou”. Certo do poder de “Disparada”, Vandré
mostrou a letra a Théo, que fez a música. Tiveram
tempo de inscrevê-la no II Festival. Ambos sabiam do poder
daquela melodia — que tinha como título original "Moda
para Viola e Laço" — e foi com esse espírito
que o grupo empreendeu verdadeira epopéia para concretizar
o sonho de cantá-la no certame.
Conseguir a sonoridade ideal para “Disparada”
se transformou em tarefa de gincana: a primeira delas era elaborar
uma percussão original. Geraldo queria ruído de chicote
na música. Tentaram com barras de madeira, mas não
soou como ele queria. Então tiveram a idéia de usar
uma queixada de burro. Onde encontrar? Acharam uma nas mãos
de um músico de Santo André. Tentaram alugar o “instrumento”,
mas o homem só aceitava o negócio se ele tocasse a
queixada. Para levar, tiveram que comprar o exótico objeto,
que seria tocado por Airto na apresentação. Zuza Homem
conta que a queixada faz sucesso: era incrível como um instrumento
sem ressonância (a “ressonância” ficava
por conta dos dentes frouxos da queixada) pudesse fazer um som tão
alto. A segunda tarefa: encontrar um intérprete convincente.
Todos conheciam Jair Rodrigues como o parceiro de
Elis em O Fino da Bossa e acreditavam que ele fosse apenas
um sambista nato. Nos bastidores, o pessoal da produção
do programa sabia, porém, que Jair era um rapaz do interior,
e que até ensaiava algumas modas de viola. Foi então
que sugeriram seu nome para cantar “Disparada”. No começo,
foi uma briga fazer com que Rodrigues fosse o escolhido. Era Vandré
quem queria cantar. Solano Ribeiro insistiu: queria um cantor. “Quem?”,
perguntou o compositor. Falou em Jair. Geraldo não quis saber.
Disse que ele era sambista, e não tinha nada a ver. Solano
explicou que via Jair pelos estúdios, sempre cantarolando
modinhas sertanejas. Então Vandré e Théo foram
pessoalmente falar com ele. Foram enfáticos: “Você
tem que cantar a música sério, hein? Ela é
muito importante para nós”. Para quem conhecia Jair
cantando “Menino das Laranjas”, foi difícil acreditar
que era ele, seríssimo nos ensaios, a declamar a primeira
parte, concentrado: “Prepare o seu coração/Para
as coisas que eu vou cantar/Eu venho lá do sertão/Eu
venho lá do sertão/E posso não lhe agradar”.
Solano fez Jair passar a música para o Vandré. Após
a audição, não havia qualquer rastro de dúvida.
A APRESENTAÇÃO
A performance do Jair Rodrigues também pegou
a platéia de surpresa, acompanhado pelo Trio Maraya e o Quarteto
Novo, com Hermeto Pascoal de pianista, Théo de Barros na
viola e Airto na percussão com a famosa queixada de burro.
Nas finais, a preferência do público se dividiu de
maneira ruidosa com a canção de Geraldo Vandré.
Os dez dias entre as eliminatórias e a grande final se transformaram
numa avalanche de opiniões. Nunca duas canções
haviam dividido tanta opinião entre tanta gente diversa.
A discussão aparecia em todos os jornais e em todas as conversas.
Nos ônubus, nas ruas, restaurantes, bondes, na frente da tevê,
nas casas, choviam bookmakers sobre quem seria o vencedor.
No Paramount, as torcidas ensaiavam um conflito aberto. Nara e Jair
interpretaram suas respectivas músicas. Em seguida, o júri
se reuniu numa pequena sala para votar. Eram onze homens nervosos.
Sete ficaram com “A Banda”, quatro com “Disparada”.
Quando todos iam comunicar o resultado, receberam um recado de Chico:
se ele fosse o escolhido, iria se recusar a receber o primeiro lugar
sozinho.
O bode estava na saleta. Ele não sabia da
decisão, mas não queria ser o único vencedor
do certame. Inclusive, Chico gostava da sofisticação
de “Disparada” e entendia perfeitamente o entusiasmo
do público com a música. Todos estremeceram. Até
porque a platéia viria abaixo ao saber do resultado da verdadeira
decisão do júri. Pior: Chico ameaçou tomar
ele próprio a decisão diante de todos, mesmo que fosse
parecer um ato demagógico. Na parede, os onze decidiram reconsiderar
o resultado. Afinal, o que são três votos? E o público
não entendeu quando Chico Buarque sorriu ao ser anunciado
o empate. Independente de qual fosse o resultado, a decisão
do compositor o colocou no primeiro lugar junto com Vandré.
Zuza Homem de Mello revela que guardou no cofre de
sua casa as cédulas de votação do festival
da Record de 1966. No livro, ele diz que “A Banda” seria
a real vitoriosa, por sete votos a cinco. O fato, por sinal, não
é novo, e foi mostrado em reportagem da revista Realidade,
em 1968. O fato curioso fica por conta do dado de que Chico teria
exigido o empate, por acreditar na superioridade da canção
de Vandré. Ou, por outras palavras, acreditando ser o virtual
segundo lugar, Buarque teria, com o impasse gerado por ele, permitido
que ele vencesse de qualquer maneira o certame sem, no entanto,
saber que ele era o vencedor de fato. Chico foi interpelado a respeito
da decisão do júri. Ele apenas disse: “O júri
que decida o que quiser”. Se ele fosse escolhido o vencedor,
desistiria do prêmio no palco. Sua demonstração
de altruísmo e reconhecimento da qualidade musical de “Disparada”
justificou a vitória de ambos.
Zuza conta a reação adversa de Jair
Rodrigues na hora da premiação. Jair, ao ver que o
júri havia escolhido “Canção para Maria”
(Paulinho da Viola e Capinam), defendido também por ele,
no terceiro lugar, ficou desolado. Se o escolheram, certamente que
ele não seria o primeiro lugar. Logo ele, que havia dado
toda a sua vida em favor de “Disparada” e que havia
tanto se identificado com a letra e com o tema sertanejo, logo ele,
um filho do sertão, preterido pelo júri, mesmo a despeito
de sua interpretação convincente? Deu de ombros e,
sem que ninguém o visse, resolveu sair de fininho e tomar
uma num boteco da rua da Consolação, em frente ao
teatro, e depois sumir. Eis que, de repente, alguém da produção
lhe puxa pelo ombro. Diz para Jair esperar. O cantor explica que
ele já havia citado no terceiro lugar. O homem insistiu:
“fique, que tem uma coisa acontecendo”. Foi quando ele
descobriu tudo: para o gáudio de gregos e troianos, “Disparada”
havia empatado o primeiro lugar!
Então correu para o palco, feliz da vida.
A RELAÇÃO DOS PRIMEIROS COLOCADOS
NO FESTIVAL DA RECORD EM 1966
- 1º A BANDA (Chico Buarque) - CHICO BUARQUE E NARA LEÃO
- 1º DISPARADA (Geraldo Vandré e Théo de Barros)
- JAIR RODRIGUES, TRIO MARAIÁ E TRIO NOVO
- 2º DE AMOR OU PAZ (Luís Carlos Paraná e
Adauto Santos) - ELZA SOARES
- 3º CANÇÃO PARA MARIA (Paulinho da Viola
e Capinam) - JAIR RODRIGUES
- 4º CANÇÃO DE NÃO CANTAR (Sérgio
Bittencourt) - MPB-4
- 5º ENSAIO GERAL (Gilberto Gil) - ELIS REGINA

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