| GIRANDO EM FALSO
Matrix Reloaded dissolve o
fenômeno em diálogos tautológicos, enredo desencadeado
e pura ciranda consumista
por Marcel
Nadale (marcel@rabisco.com.br)

hega a ser irônico que Merovingian, o único personagem
carismático de Matrix
Reloaded, baseie todo seu discurso à la vilão
de James Bond nas chamadas “relações de causa
e efeito”. Se, no primeiro filme da franquia, os irmãos
Wachowski surpreenderam por revogar as leis da gravidade, neste
aqui eles atacam exatamente esta outra norma newtoniana, a da ação
e reação. Depois de anos de espera, a continuação
Reloaded resume-se ao encantamento pelo próprio umbigo
e prova: o fenômeno Matrix basta-se em si mesmo.
Nesta nova ficção científica, em cartaz desde
o dia 23, nada parece evidentemente encadeado. Ao invés de
uma seqüência linear, os Wachowski notaram que a vocação
de múltiplo consumo da franquia se encaixava melhor em uma
estrutura circular. A trama até começa e termina com
a mesma cena e é recheada de discursos meramente tautológicos
(“eu sei isto porque é o que eu deveria saber”
e derivativos). O resultado é um filme que gasta 120 minutos
girando em falso, deixando o espectador tonto com efeitos nem tão
grandiosos assim.
É preciso, porém, salvaguardar os irmãos Wachowski.
Se há um centro nesta roda gigante, seu nome é Joel
Silver – produtor de metade de todos os filmes de ação
que você viu desde os anos 80. Silver tem uma fórmula
bastante básica: enxugar o enredo ao mínimo esquemático,
de modo que sobre mais frames para muitas lutas,
bombas, perseguições e peripécias. O problema
é que, por mais pretensioso que seja, Matrix
não é acéfalo como Rambo.
As repercussões da “técnica Silver” em
Reloaded são desastrosas, gerando cenas
de luta excessivamente longas e desnecessárias em um extremo
e, em outro, comprimindo todas as reviravoltas planejadas para este
segundo episódio em uma cena de dez minutos – cujo
valor semântico é inescrutável até para
bacharéis de filosofia ou gênios do processamento de
dados.
Neste
quadro, passa quase como aceitável a auto-indulgência
na edição das cenas de ação. Se todo
o resto é decepcionante, então vale colocar as fichas
na luta de Neo contra cem agentes Smith ou na perseguição
da auto-estrada. Ao menos algum engodo há de sobrar para
o público. As duas são, sim, deleites visuais, mas
parece que ninguém aprendeu que isso não serve como
justificativa – a evolução tecnológica,
os papas do cyberpunk deveriam crer, é inexorável.
Se Matrix Reloaded não criasse cenário, atores
e até câmeras fictícias em um ambiente digital,
como foi necessário para rodar o quebra-pau de Neo e os Smiths,
cedo ou tarde Jurassic Park 4 ou O Exterminador do Futuro
5 o faria. Mas para o público, nada importa: o filme
roda freneticamente, a cabeça gira junto e, tonto, dá
até para deglutir jogo de palavras como placebo para diálogos,
ou mera orgia de peitos como símbolo de transgressão
social.
Voltando, ainda, às duas cenas de ação que
são “sustança” da sopa rala de Reloaded,
é preciso notar ainda o quanto são anticlimáticas.
Tudo dava a entender, por exemplo, que Smith teria um papel muito
mais fundamental em Reloaded, haja vista que,
como ele mesmo explica, sua morte nas mãos de Neo, no final
do primeiro Matrix, lhe deixou parte dos poderes
do Predestinado. Tudo isso, porém, apenas serve como desculpa
para que o agente possa se replicar aos montes, provocando o tal
ataque grupal ao herói – em uma cena que, tão
gratuitamente começa, também se acaba. Sem razão
de ser, para dizer o mínimo. A recém-herdada “humanidade”
de Smith em nada aprofunda o personagem (talvez apenas permite um
leve alívio cômico que a franquia muito precisava).
É um desperdício do ator Hugo Weaving.
A perseguição na auto-estrada é, em si, muito
mais filme que todo o resto de Reloaded. É
de uma precisão calibrada em micrômetros e a única
cena com um timing apurado, até porque
se desenrola em vários níveis. O fato de ser protagonizada
por Morpheus e Trinity também ajuda – o super-homem
Neo acaba soando distante demais do público com suas novas
habilidades para gerar qualquer tipo de identificação.
O casal coadjuvante, por outro lado, conquista espaço merecido.
Mas, como uma grande explosão que ensurdece tudo ao seu redor,
a cena da perseguição se encerra e, no contraste,
tira todo o impacto do que vem a seguir. Tudo funciona como um epílogo
à toque de caixa; no clímax de Matrix,
temos clara noção do quanto é arriscado e suicida
o resgate de Morpheus por Neo e Trinity. Em Reloaded,
há um novo prédio espelhado que precisa ser invadido,
e Morpheus entoa um longo discurso especificando a importância
e a dificuldade da missão – mas, mal se pisca os olhos,
e pronto: Neo já invadiu o mainframe da
Matrix. Fácil assim. Bobo assim.
Há
quem argumente que tudo é visto por cima para que o “prazer”
da trama se estenda ao videogame e aos curtas animados que também
recebem dos irmãos Wachowski o carimbo milionário
Matrix. Novamente, o filme gira em si mesmo e mantém
os mais ingênuos na ciranda consumista que parece, até
agora, ser o único objetivo das continuações.
Tal qual as máquinas no longa-metragem, os Wachowski criaram
aqui, fora da tela, um bela cortina para enganar quem quer que tente
recusar a proverbial pílula vermelha. Lá dentro, próximo
de seus minutos finais, Reloaded escapa do ciclo vicioso
com um ginasial “Continua no próximo capítulo”.
Revolutions chega em novembro com peso e potencial
dobrado. Tudo que parece inexplorado ou desnecessário no
segundo filme (Persephone, Seraph, os coadjuvantes em Zion, apenas
para citar poucos exemplos) pode ser validado por uma trama bem
urdida no terceiro. Por outro lado, se as pontas permanecerem soltas
e os Wachowski, sob o jugo de Silver, mantiverem Neo e companhia
messianicamente tentando morder o próprio rabo, Revolutions
vai queimar Reloaded e ainda jogar umas centelhas em
cima do pobre Matrix
original. 
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