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5 a 21 de junho de 2003


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GIRANDO EM FALSO
Matrix Reloaded dissolve o fenômeno em diálogos tautológicos, enredo desencadeado e pura ciranda consumista

por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

hega a ser irônico que Merovingian, o único personagem carismático de Matrix Reloaded, baseie todo seu discurso à la vilão de James Bond nas chamadas “relações de causa e efeito”. Se, no primeiro filme da franquia, os irmãos Wachowski surpreenderam por revogar as leis da gravidade, neste aqui eles atacam exatamente esta outra norma newtoniana, a da ação e reação. Depois de anos de espera, a continuação Reloaded resume-se ao encantamento pelo próprio umbigo e prova: o fenômeno Matrix basta-se em si mesmo.

Nesta nova ficção científica, em cartaz desde o dia 23, nada parece evidentemente encadeado. Ao invés de uma seqüência linear, os Wachowski notaram que a vocação de múltiplo consumo da franquia se encaixava melhor em uma estrutura circular. A trama até começa e termina com a mesma cena e é recheada de discursos meramente tautológicos (“eu sei isto porque é o que eu deveria saber” e derivativos). O resultado é um filme que gasta 120 minutos girando em falso, deixando o espectador tonto com efeitos nem tão grandiosos assim.

É preciso, porém, salvaguardar os irmãos Wachowski. Se há um centro nesta roda gigante, seu nome é Joel Silver – produtor de metade de todos os filmes de ação que você viu desde os anos 80. Silver tem uma fórmula bastante básica: enxugar o enredo ao mínimo esquemático, de modo que sobre mais frames para muitas lutas, bombas, perseguições e peripécias. O problema é que, por mais pretensioso que seja, Matrix não é acéfalo como Rambo. As repercussões da “técnica Silver” em Reloaded são desastrosas, gerando cenas de luta excessivamente longas e desnecessárias em um extremo e, em outro, comprimindo todas as reviravoltas planejadas para este segundo episódio em uma cena de dez minutos – cujo valor semântico é inescrutável até para bacharéis de filosofia ou gênios do processamento de dados.

Neste quadro, passa quase como aceitável a auto-indulgência na edição das cenas de ação. Se todo o resto é decepcionante, então vale colocar as fichas na luta de Neo contra cem agentes Smith ou na perseguição da auto-estrada. Ao menos algum engodo há de sobrar para o público. As duas são, sim, deleites visuais, mas parece que ninguém aprendeu que isso não serve como justificativa – a evolução tecnológica, os papas do cyberpunk deveriam crer, é inexorável. Se Matrix Reloaded não criasse cenário, atores e até câmeras fictícias em um ambiente digital, como foi necessário para rodar o quebra-pau de Neo e os Smiths, cedo ou tarde Jurassic Park 4 ou O Exterminador do Futuro 5 o faria. Mas para o público, nada importa: o filme roda freneticamente, a cabeça gira junto e, tonto, dá até para deglutir jogo de palavras como placebo para diálogos, ou mera orgia de peitos como símbolo de transgressão social.

Voltando, ainda, às duas cenas de ação que são “sustança” da sopa rala de Reloaded, é preciso notar ainda o quanto são anticlimáticas. Tudo dava a entender, por exemplo, que Smith teria um papel muito mais fundamental em Reloaded, haja vista que, como ele mesmo explica, sua morte nas mãos de Neo, no final do primeiro Matrix, lhe deixou parte dos poderes do Predestinado. Tudo isso, porém, apenas serve como desculpa para que o agente possa se replicar aos montes, provocando o tal ataque grupal ao herói – em uma cena que, tão gratuitamente começa, também se acaba. Sem razão de ser, para dizer o mínimo. A recém-herdada “humanidade” de Smith em nada aprofunda o personagem (talvez apenas permite um leve alívio cômico que a franquia muito precisava). É um desperdício do ator Hugo Weaving.

A perseguição na auto-estrada é, em si, muito mais filme que todo o resto de Reloaded. É de uma precisão calibrada em micrômetros e a única cena com um timing apurado, até porque se desenrola em vários níveis. O fato de ser protagonizada por Morpheus e Trinity também ajuda – o super-homem Neo acaba soando distante demais do público com suas novas habilidades para gerar qualquer tipo de identificação. O casal coadjuvante, por outro lado, conquista espaço merecido. Mas, como uma grande explosão que ensurdece tudo ao seu redor, a cena da perseguição se encerra e, no contraste, tira todo o impacto do que vem a seguir. Tudo funciona como um epílogo à toque de caixa; no clímax de Matrix, temos clara noção do quanto é arriscado e suicida o resgate de Morpheus por Neo e Trinity. Em Reloaded, há um novo prédio espelhado que precisa ser invadido, e Morpheus entoa um longo discurso especificando a importância e a dificuldade da missão – mas, mal se pisca os olhos, e pronto: Neo já invadiu o mainframe da Matrix. Fácil assim. Bobo assim.

Há quem argumente que tudo é visto por cima para que o “prazer” da trama se estenda ao videogame e aos curtas animados que também recebem dos irmãos Wachowski o carimbo milionário Matrix. Novamente, o filme gira em si mesmo e mantém os mais ingênuos na ciranda consumista que parece, até agora, ser o único objetivo das continuações. Tal qual as máquinas no longa-metragem, os Wachowski criaram aqui, fora da tela, um bela cortina para enganar quem quer que tente recusar a proverbial pílula vermelha. Lá dentro, próximo de seus minutos finais, Reloaded escapa do ciclo vicioso com um ginasial “Continua no próximo capítulo”.

Revolutions chega em novembro com peso e potencial dobrado. Tudo que parece inexplorado ou desnecessário no segundo filme (Persephone, Seraph, os coadjuvantes em Zion, apenas para citar poucos exemplos) pode ser validado por uma trama bem urdida no terceiro. Por outro lado, se as pontas permanecerem soltas e os Wachowski, sob o jugo de Silver, mantiverem Neo e companhia messianicamente tentando morder o próprio rabo, Revolutions vai queimar Reloaded e ainda jogar umas centelhas em cima do pobre Matrix original.