| A FORMAÇÃO DE UMA
DINASTIA
A construção e a busca
pelo poder dentro do New York Times
por Rodrigo
Herrero (rodrigo100@hotmail.com)

Reino e Poder conta a história do jornal de
maior retorno financeiro e credibilidade do mundo ocidental, o New
York Times. Mas não apenas do impresso, como também
da família que levantou o veículo e o conduziu para
este status, já por um longo tempo. Lançado no Brasil
em 2000, vinte e nove anos após sua publicação
nos EUA, o livro percorre várias épocas da dinastia
da família Ochs e Sulzberger no Times, que perdura
em nossos dias. O autor Gay Talese relata os acontecimentos com
um detalhamento assustador dos personagens, momentos íntimos
da família, além das desavenças na redação,
revelando todos os bastidores da disputa por espaço e poder
que fomentaram o jornal desde seu início até o fim
da década de 60.
Com muitos desdobramentos sobre o cotidiano da redação
e seus atores, Talese segue uma ordem cronológica implícita.
Destaca o começo da família Ochs na América,
quando da chegada do patriarca Julius Ochs em1845, passando pelo
nascimento de seu filho, o futuro imperador do Times
Adolph Ochs, que em 1896 comprou o jornal por 75 mil dólares,
com perdas diárias de 1 mil. Após esta data, Ochs
mudou a concepção do diário: eliminou folhetins
de ficção românica e acabou com a cobertura
a fatos vexatórios, na visão do novo dono. Feito isto,
Adolph, descendente de alemão e judeu, implantou sua visão
do que deveria ser o jornalismo. Transformou-o em um testemunho
do cotidiano, com a cobertura de todos os acontecimentos do governo
e iniciou a cobertura no setor financeiro. Na época outros
impressos consideravam estes temas chatos e desnecessários,
mas hoje são primordiais na maioria das empresas jornalísticas,
inclusive nas brasileiras.
Adolph Ochs teve somente um herdeiro: Iphigene Ochs Sulzberger.
Sua filha casou-se com Arthur Hays Sulzberger, que assumiu a direção
do Times em 1935, quando Adolph Ochs faleceu aos 77 anos. Mas quem
teve grande parte da influência e controle na manutenção
do jornal dentro dos ideais de Ochs foi sua filha, considerada pela
redação e seus maiores executivos como a Grande Dama.
NOVA YORK VERSUS WASHINGTON
O grande obstáculo durante a gestão de Sulzberger
se daria no eterno combate entre a redação de Nova
York e a sucursal de Washington. Primeiro com Arthur Krock e mais
tarde com James Reston, sempre houve reclamações quanto
ao favorecimento dos editores de Nova York para as matérias
dos repórteres de suas editorias, enquanto Washington era
deixada em segundo plano. Por outro lado, a sede reclamava da grande
autonomia que a sucursal tinha na publicação dos relatos
jornalísticos, questionando a objetividade das informações
enviadas. Isto, pelo fato do contato estreito com os políticos
que governavam, se posicionando sempre para um governante, seja
ele republicano ou democrata, dependendo pontualmente da opção
partidária do repórter.
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| Adolph Ochs |
O problema é que, como os chefes da sucursal
de Washington tinham poder e confiança junto a Iphigene Sulzberger
– principalmente Reston, que influenciava decisivamente nas
decisões da redação na capital americana –,
estes ganhavam autonomia na cobertura política do Times.
Sulzberger conseguiu acabar com o que Talese chama de feudos, as
sucursais espalhadas pelo mundo inteiro, independentes em relação
à sede. Mas Washington ainda seria uma pedra no sapato de
Nova York por um bom tempo, principalmente após Sulzberger
sair de cena em 1960, em conseqüência de grave doença,
dando lugar a um de seus genros, Orvil Dryfoos.
O novo publisher tinha muita amizade com Reston,
que o influenciava muito, abrindo caminho para Washington. Porém,
com a prematura morte de Dryfoos, três anos depois de assumir
a direção, essa influência começaria
a ruir. Arthur Ochs Sulzberger – conhecido como “Punch”,
um apelido dos tempos de criança –, único filho
de Iphigene Sulzberger, seria o mais novo publisher,
com 38 anos, sofrendo muita desconfiança por parte de editores
e executivos. Mas foi ele quem controlou com unhas e dentes as picuinhas
da redação, aumentou os lucros do New York
Times, àquela altura despencando, e iniciou o que
seria o fim do último feudo: a sucursal de Washington.
Com a alteração em cargos importantes como diretor
de redação e editor executivo, “Punch”
Sulzberger minou o poderio de Washington, mesmo que, em um primeiro
momento, cedeu espaço a seu braço na capital. Esta
foi definitivamente “incorporada” à sede durante
a década de 70 – como conta o autor em posfácio
–, já na gestão de Arthur Ochs Sulzberger Jr.,
filho de Arthur Sulzberger, quando Abe Rosenthal ganhara oportunidade
ao assumir a direção da redação de Nova
York, colocando Reston respeitosamente fora das decisões
do jornal.
O CASO DA BAÍA DOS PORCOS
Essa verdadeira batalha entre sede e sucursal revela as diferenças
existentes entre os executivos de um veículo tão grandioso
como o Times. Mas a disputa editorial não
fica somente neste campo, muitas vezes cruel para alguns jornalistas
com menor jogo de cintura. A decisão sobre o quê publicar
ou não, influenciada definitivamente pelo pensamento dos
principais executivos e da família Ochs-Sulzberger, era outro
aspecto importante e muitas vezes discordante dentro dos gabinetes
dos editores.
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| Gay Talese |
A não publicação em destaque
da invasão de Cuba pelo exército dos EUA foi um desses
episódios sombrios. A dupla formada por Dryfoos-Reston impediu
a publicação do artigo em primeira página sobre
a invasão mal-sucedida da baía dos Porcos. Isso estabeleceu
um choque entre muitos editores que discordaram da atitude do novo
publisher. A maioria defendia o compromisso do Times
com a notícia de interesse vital à sociedade estadunidense,
sendo obrigação portanto, do jornal noticiar. Mas
Reston e Dryfoos acreditavam ser melhor esconder alguns fatos, como
a participação da CIA no episódio, pensando
na segurança nacional que aquilo significava e nos problemas
que causariam ao divulgar aquela informação.
O mais estranho ocorreu quando a invasão se consumou e fracassou
diante da revolução cubana. Até o presidente
Kennedy afirmou que o Times havia exagerado,
dizendo que se o jornal publicasse todas as informações,
poderia ter contribuído para o cancelamento da invasão
cubana, evitando o fiasco e as mortes causadas por aquele devaneio
militar. A objetividade e a autonomia política estavam em
cheque dentro da redação, fato que preocupava muitos
editores, temerosos de um descontínuo compromisso com a informação.
Mas o conservadorismo idealizado por Adolph Ochs acompanhava a instituição
aonde quer que ela seguisse, representada fortemente pela figura
de Iphigene Sulzberger e isso pesou neste caso, assim como sempre
irá sobrepor nas decisões editoriais do New
York Times.
“TODAS AS NOTÍCIAS DIGNAS DE PUBLICAR”
E para finalizar, esta frase, fixada no cabeçalho
do jornal, possui a síntese do conteúdo do livro em
suas 560 páginas. Ela acena para a postura editorial de maior
circulação nos Estados Unidos. Com isso, O Reino
e o Poder retrata como as brigas por espaço nas páginas
e por cargos na redação refletem de forma preponderante
na disposição dos assuntos e do que os principais
executivos acham digno de publicar. Outro fator importante diz respeito
a grande influência do Times na política estadunidense
e o conseqüente comprometimento com o governo que marcaram,
como ainda o fazem, fortemente suas decisões. 
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