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5 a 21 de junho de 2003


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A FORMAÇÃO DE UMA DINASTIA
A construção e a busca pelo poder dentro do New York Times

por Rodrigo Herrero (rodrigo100@hotmail.com)

  Reino e Poder conta a história do jornal de maior retorno financeiro e credibilidade do mundo ocidental, o New York Times. Mas não apenas do impresso, como também da família que levantou o veículo e o conduziu para este status, já por um longo tempo. Lançado no Brasil em 2000, vinte e nove anos após sua publicação nos EUA, o livro percorre várias épocas da dinastia da família Ochs e Sulzberger no Times, que perdura em nossos dias. O autor Gay Talese relata os acontecimentos com um detalhamento assustador dos personagens, momentos íntimos da família, além das desavenças na redação, revelando todos os bastidores da disputa por espaço e poder que fomentaram o jornal desde seu início até o fim da década de 60.

Com muitos desdobramentos sobre o cotidiano da redação e seus atores, Talese segue uma ordem cronológica implícita. Destaca o começo da família Ochs na América, quando da chegada do patriarca Julius Ochs em1845, passando pelo nascimento de seu filho, o futuro imperador do Times Adolph Ochs, que em 1896 comprou o jornal por 75 mil dólares, com perdas diárias de 1 mil. Após esta data, Ochs mudou a concepção do diário: eliminou folhetins de ficção românica e acabou com a cobertura a fatos vexatórios, na visão do novo dono. Feito isto, Adolph, descendente de alemão e judeu, implantou sua visão do que deveria ser o jornalismo. Transformou-o em um testemunho do cotidiano, com a cobertura de todos os acontecimentos do governo e iniciou a cobertura no setor financeiro. Na época outros impressos consideravam estes temas chatos e desnecessários, mas hoje são primordiais na maioria das empresas jornalísticas, inclusive nas brasileiras.

Adolph Ochs teve somente um herdeiro: Iphigene Ochs Sulzberger. Sua filha casou-se com Arthur Hays Sulzberger, que assumiu a direção do Times em 1935, quando Adolph Ochs faleceu aos 77 anos. Mas quem teve grande parte da influência e controle na manutenção do jornal dentro dos ideais de Ochs foi sua filha, considerada pela redação e seus maiores executivos como a Grande Dama.

NOVA YORK VERSUS WASHINGTON

O grande obstáculo durante a gestão de Sulzberger se daria no eterno combate entre a redação de Nova York e a sucursal de Washington. Primeiro com Arthur Krock e mais tarde com James Reston, sempre houve reclamações quanto ao favorecimento dos editores de Nova York para as matérias dos repórteres de suas editorias, enquanto Washington era deixada em segundo plano. Por outro lado, a sede reclamava da grande autonomia que a sucursal tinha na publicação dos relatos jornalísticos, questionando a objetividade das informações enviadas. Isto, pelo fato do contato estreito com os políticos que governavam, se posicionando sempre para um governante, seja ele republicano ou democrata, dependendo pontualmente da opção partidária do repórter.

 Adolph Ochs

O problema é que, como os chefes da sucursal de Washington tinham poder e confiança junto a Iphigene Sulzberger – principalmente Reston, que influenciava decisivamente nas decisões da redação na capital americana –, estes ganhavam autonomia na cobertura política do Times. Sulzberger conseguiu acabar com o que Talese chama de feudos, as sucursais espalhadas pelo mundo inteiro, independentes em relação à sede. Mas Washington ainda seria uma pedra no sapato de Nova York por um bom tempo, principalmente após Sulzberger sair de cena em 1960, em conseqüência de grave doença, dando lugar a um de seus genros, Orvil Dryfoos.

O novo publisher tinha muita amizade com Reston, que o influenciava muito, abrindo caminho para Washington. Porém, com a prematura morte de Dryfoos, três anos depois de assumir a direção, essa influência começaria a ruir. Arthur Ochs Sulzberger – conhecido como “Punch”, um apelido dos tempos de criança –, único filho de Iphigene Sulzberger, seria o mais novo publisher, com 38 anos, sofrendo muita desconfiança por parte de editores e executivos. Mas foi ele quem controlou com unhas e dentes as picuinhas da redação, aumentou os lucros do New York Times, àquela altura despencando, e iniciou o que seria o fim do último feudo: a sucursal de Washington.

Com a alteração em cargos importantes como diretor de redação e editor executivo, “Punch” Sulzberger minou o poderio de Washington, mesmo que, em um primeiro momento, cedeu espaço a seu braço na capital. Esta foi definitivamente “incorporada” à sede durante a década de 70 – como conta o autor em posfácio –, já na gestão de Arthur Ochs Sulzberger Jr., filho de Arthur Sulzberger, quando Abe Rosenthal ganhara oportunidade ao assumir a direção da redação de Nova York, colocando Reston respeitosamente fora das decisões do jornal.

O CASO DA BAÍA DOS PORCOS

Essa verdadeira batalha entre sede e sucursal revela as diferenças existentes entre os executivos de um veículo tão grandioso como o Times. Mas a disputa editorial não fica somente neste campo, muitas vezes cruel para alguns jornalistas com menor jogo de cintura. A decisão sobre o quê publicar ou não, influenciada definitivamente pelo pensamento dos principais executivos e da família Ochs-Sulzberger, era outro aspecto importante e muitas vezes discordante dentro dos gabinetes dos editores.

 Gay Talese

A não publicação em destaque da invasão de Cuba pelo exército dos EUA foi um desses episódios sombrios. A dupla formada por Dryfoos-Reston impediu a publicação do artigo em primeira página sobre a invasão mal-sucedida da baía dos Porcos. Isso estabeleceu um choque entre muitos editores que discordaram da atitude do novo publisher. A maioria defendia o compromisso do Times com a notícia de interesse vital à sociedade estadunidense, sendo obrigação portanto, do jornal noticiar. Mas Reston e Dryfoos acreditavam ser melhor esconder alguns fatos, como a participação da CIA no episódio, pensando na segurança nacional que aquilo significava e nos problemas que causariam ao divulgar aquela informação.

O mais estranho ocorreu quando a invasão se consumou e fracassou diante da revolução cubana. Até o presidente Kennedy afirmou que o Times havia exagerado, dizendo que se o jornal publicasse todas as informações, poderia ter contribuído para o cancelamento da invasão cubana, evitando o fiasco e as mortes causadas por aquele devaneio militar. A objetividade e a autonomia política estavam em cheque dentro da redação, fato que preocupava muitos editores, temerosos de um descontínuo compromisso com a informação. Mas o conservadorismo idealizado por Adolph Ochs acompanhava a instituição aonde quer que ela seguisse, representada fortemente pela figura de Iphigene Sulzberger e isso pesou neste caso, assim como sempre irá sobrepor nas decisões editoriais do New York Times.

“TODAS AS NOTÍCIAS DIGNAS DE PUBLICAR”

E para finalizar, esta frase, fixada no cabeçalho do jornal, possui a síntese do conteúdo do livro em suas 560 páginas. Ela acena para a postura editorial de maior circulação nos Estados Unidos. Com isso, O Reino e o Poder retrata como as brigas por espaço nas páginas e por cargos na redação refletem de forma preponderante na disposição dos assuntos e do que os principais executivos acham digno de publicar. Outro fator importante diz respeito a grande influência do Times na política estadunidense e o conseqüente comprometimento com o governo que marcaram, como ainda o fazem, fortemente suas decisões.