| OS COMPANHEIROS DO SOL
Um poeta desconhecido e um mistério
de amor são os temas desta entrevista
por Ana Lira
(analira@rabisco.com.br)
e Flora Noberto (flora.fncl@uol.com.br)

oa tarde, senhorita. Eu sou um poeta existencialista e estou aqui
divulgando um pouco do meu trabalho”. Esta frase e uma moeda
de cinqüenta centavos inauguraram o meu contato com o senhor
Haroldo, ou “poeta Haroldo”, como ele gosta de ser chamado.
Todas as tardes ele caminha de mesa em mesa pela conhecida Rua do
Lazer, na Universidade Católica de Pernambuco, vendendo os
folhetos que contém seus versos. A atenção
pelo poeta deu-se pela sua persistência em enfrentar aquele
mesmo público, cotidianamente, com o mesmo objetivo.
Numa desses momentos, ao ser interrompida por ele, decidi marcar
um dia para saber que mistérios guardava a sua lendária
figura. Foi um fim de tarde ensolarado e a o ambiente possuía
o mesmo burburinho de sempre, que não foi necessariamente
acompanhado por mim. Algumas das respostas do poeta Haroldo me deixaram
emudecidas e eu me perguntava em silêncio “E agora?”.
Agora, resta o resultado de nossa conversa e os sorrisos de seus
Haroldo quando me vê e diz “Como vai a senhorita?”.
Como a poesia começou a ser parte da sua vida?
Quando eu comecei a ser poeta publicamente, começo devido
ao amor por uma mulher. Eu vi em uma obra a imagem de uma mulher
e eu me apaixonei por essa mulher. Mas a data da imagem dela é
de 1889. Como eu não podia tê-la, tomei a decisão
de ir para a solidão.
Qual era o nome desta mulher?
Josefina Álvares de Azevedo. A irmã do poeta e
escritor romântico Álvares de Azevedo.
O que chamou a sua atenção nesta mulher?
A capacidade dela em defender as mulheres.
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| Josefina Álvares de Azevedo |
O primeiro contato com ela foi através de uma imagem ou do
trabalho desenvolvido por ela?
Foi através de uma imagem contida em uma obra da Editora
Brasiliense. A autora é June Hahner e o título é
A Mulher Brasileira e Suas Lutas Sociais e Políticas,
de 1981. Esta obra se encontrava na livraria Livro 7.
O senhor contemplou essa imagem, encantou-se e desde então
não possuiu nenhum outro relacionamento?
Não, não. Eu vivi apenas para Josefina. Mas até
certo tempo (risos). The dream is over. O sonho acabou. Bom, depois
eu questionei o meu ser. Eu sou existencialista. Com o questionamento
do meu ser eu concluo que tudo é nada, que não faz
sentido ou é sem razão de ser. O nada é o meu
ser. Desde este instante, com a queda dos valores, eu vivo em o
nada.
Mas por quanto tempo o senhor viveu exclusivamente para Josefina?
De 1983 até 1990. Eu passava o dia inteiro pensando em Josefina
e fumando cachimbo.
Mas desde então, outra musa tomou o lugar dela?
Não, eu apenas passei um tempo questionando o meu ser, de
1990 a 2000. Foi uma década de reflexões existenciais.
E o senhor não se relacionou com nenhuma outra pessoa?
Não. As maneiras de se relacionar para mim se resumem em
três uniões: a união simples, a união
por companheirismo e a união conjugal. No meu caso eu me
mantive sem intencionalidade.
De que forma essa experiência refletiu na sua obra poética?
Reflete-se de forma aguda através da existência. Com
Josefina Álvares de Azevedo eu me tornei feminista. Eu defendi
os direitos das mulheres, participei do movimento feminista. Logo
no início de 1983 eu participei ativamente, mas eu não
me vinculei a nenhuma instituição. Eu participava
de qualquer grupo em atividade. Posteriormente eu me afastei para
me tornar poeta. Antigamente, as mulheres eram proibidas de ingressar
nos estudos. Um disse que a mulher era um animal descerebrado. Outro
disse que o peso do cérebro da mulher não era igual
ao do homem. Outros que as mulheres não poderiam diplomar-se
doutoras porque podiam seduzir os pacientes (risos). Era cada disparate.
Josefina Álvares de Azevedo defendia os direitos destas mulheres.

Suas poesias em algum momento trataram deste assunto?
Desde 1983, defendia os direitos jurídicos, os direitos físicos,
trabalhistas das mulheres e falava, também, de Josefina Álvares
de Azevedo.
Que escritos dela chamaram a sua atenção? O senhor
tem trabalhos dela?
Gosto da forma como ela defende os direitos das mulheres. Ela esteve
no Recife em 1889. Eu tenho em casa discursos dela, trechos de um
jornal chamado A Família, publicado por ela. Ela era
redatora deste jornal. Tudo é importante em Josefina.
Quais os outros temas abordados em sua obra?
Temas sociais e existenciais.
O senhor tem contato com outras linhas filosóficas existencialistas?
Posteriormente apareceram as obras existencialistas, mas inicialmente
é a minha história. Há Jean
Paul Sartre e Martin Heidegger.
Há alguma convergência entre o seu pensamento e o de
Sartre?
A reflexão que ele faz a respeito da existência é
convergente.
E as idéias que ele discorre sobre liberdade?
A meu ver a liberdade depende do questionamento do ser. A pessoa
é livre quando reflete a respeito de si mesma.
Sartre é considerado um existencialista ateu. O senhor acredita
na transcendência?
Todo o meu pensar é ligado à arte e não à
religião. A religião não faz parte da minha
existência, não diz o meu ser, então, eu não
reflito sobre a transcendência. A existência para mim
é um elemento particular.
O senhor desenvolve esse trabalho de poesia há vinte anos
e como é o processo de divulgação?
Cotidianamente, como faço aqui. A divulgação
da minha poesia é apenas aqui, com exclusividade na Universidade
Católica de Pernambuco, desde 1983.
O que o motivou a escolher este local?
Aqui é mais acessível, mais aberto.
Existe algum tipo de interação entre o senhor e as
pessoas que circulam dentro da universidade? Como é sua relação
com elas?
Não, o meu pensar é o seguinte: a existência
humana é singular. Cada pessoa pensa o seu próprio
ser e tudo o que eu produzo serve justamente para o indivíduo.
Não é massificação. A massificação
exige uma reunião social, uma interação. Não
é isso que eu faço. As relações são
boas, porque são o compartilhar de um ser. Elas não
me influenciam. Eu compartilho com a senhorita de hoje até
o final. Mas será sempre o mesmo.
Existe alguma ligação pessoal com a cidade do Recife
em sua obra?
Sendo eu um existente, eu me preocupo mais comigo mesmo do que com
a cidade, que como diz a minha obra é muito distanciada.
Apresenta problemas de projeto, de massificação, de
urbanismo, de poluição.
Então, o que incomoda na cidade é o que vira poesia?
Não, não chega a ser isso não. Eu sou indiferente
com qualquer que seja a cidade.
O senhor desenvolve outro tipo de atividade remunerada ou vive da
venda de suas poesias?
Não, eu sou exclusivamente poeta.
Então, a sua sustentação é conseqüência
da sua atividade como poeta, mas não a causa desta.
Exatamente.
Como é aceitação do seu trabalho pelas pessoas?
As pessoas conversam com o senhor a respeito disso?
Sim, sim.
O senhor já recebeu algum tipo de proposta para lançar
suas poesias através de uma editora?
Não, eu nunca recebi este tipo de proposta.
Se recebesse, aceitaria?
Não, de maneira nenhuma. Eu tenho verdadeiro pavor do marketing,
porque quem diz a existência não são os interesses
mercadológicos, não é a massificação.
Todas as poesias são compartilhadas com as pessoas por mim
mesmo.
O senhor tem intenção de expandir sua poesia para
outros públicos?
Não, acho que isso vai expandindo-se à medida que
a pessoa necessita. Uma pessoa daqui pode encontrar outra muito
angustiada, então esta se identifica com a poesia. Esta pessoa
pode, por si mesma, expandir a minha poesia. A expansão ocorre
com a necessidade da própria angústia do indivíduo.
Qual era a sua perspectiva ao iniciar este trabalho?
Nenhuma intenção de projeção. É
apenas um fato. Amo Josefina. Sou em solidão. Sou poeta.
Sou feminista e pronto. Neste ponto, eu posso fazer minha poesia.
Mas depois, com o questionamento, a minha poesia se torna uma poesia
questionadora e depois se torna conclusiva. São três
tempos.
Existe um ciclo?
Não. São tempos. O primeiro tempo é o do amor
por Josefina. O segundo é o do questionamento do meu ser
e o terceiro tempo é o da conclusão, que ocorre agora.
O senhor modificou seu estilo ao longo destes “tempos”?
Não, não há nenhuma ligação com
estilos. Nenhuma subordinação nem de gramática,
nem de rima, nem de prosa, de nada. Apenas o pensar, que é
essencial. No início, o amor por Josefina, eu fazia uma poesia:
“Oh! Linda Josefina
platônica
da minha eterna
solidão noturna
Abre o coração
Deixa o poeta cantar
A poesia do amor
Solidão”
A outra poesia, a do questionamento do ser é
completamente diferente. Seria em forma de poesia em prosa. Depende
do instante presente.
O senhor tem idéia de quantas poesias escreveu ao longo desses
vinte anos?
Inicialmente, eu não faço coleção das
minhas poesias. Eu não sou fã de mim mesmo (risos).
Eu não tenho nem espelho em casa para não olhar o
meu rosto (risos). É verdade. Todas as poesias são
de uma significação muito profunda. Eu nem mesmo guardo
os rascunhos. As pessoas, às vezes, guardam os rascunhos,
eu não. Eu faço e depois deixo para lá e pronto.
É efêmero.
As suas poesias, então, são um retrato fiel do momento
vivido. Não há uma revisão posterior?
Não, não volto não.
Existe alguma influência de outros poetas em sua obra?
Não, apenas de mim mesmo.
O senhor evita ler outros autores?
Não, eu não evito porque não é necessário.
Eles não dizem o meu ser.
Então, o senhor acredita que a obra dos demais poetas diz
apenas a eles mesmos e que a sua obra, por esta linha de pensamento,
é apenas fruto da sua essência.
Perfeito, ela é uma originalidade.
O senhor disciplina seu horário para escrever poesias?
Não, depende da minha angústia.
O senhor falou que nem a interação com as pessoas,
nem outros poetas e nem vivências externas o influenciavam.
Então, o que provoca esta angústia?
A angústia acontece, não é provocada. Não
é uma angústia com origens. Ela vem de dentro para
fora.
A felicidade não seria merecedora da poesia?
Não, apenas a angústia. O nome felicidade quer dizer
um estado em que a pessoa experimenta a completude de uma alegria.
É agradável aos sentidos. A angústia não
tem esse caráter de agradabilidade. Ela é uma luz
que ilumina. A felicidade não é parte da existência
porque o ser não é a efemeridade. O ser é uma
iluminação. A angústia, naturalmente, nem sempre
é fruto de um sofrimento muito intenso.
O senhor quer dizer que a felicidade não traz questionamento?
Perfeitamente. A felicidade é um sistema fechado. Não
se abre. Uma pessoa que é feliz, a primeira coisa que faz
é afastar tudo o que está em volta. A felicidade é
um estado sem inquietação, puro. Todo ser humano atinge,
seja momentos de felicidade, seja a felicidade perene. Mas é
um estado que não se inquieta. É como um oceano, aquela
vastidão de água, mas não há nenhuma
inquietação. A inquietação é
o maremoto, o redemoinho. Em um momento de felicidade a pessoa não
duvida.
Nota: Posteriormente descobriu-se que ela era
prima e não irmã de Álvares de Azevedo. Os
companheiros do Sol é o nome de uma tradução
feita por Josefina Álvares de Azevedo para uma obra de Paul
Jay, em 1890, no Rio de Janeiro.  |