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5 a 21 de junho de 2003


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“SAIR DE CASA JÁ É SE AVENTURAR”
Se Bloco foi uma prisão domiciliar lúdica, Ventura é o quintal dos Los Hermanos

por Júlio Ibelli (jcim13@ig.com.br)

 tempo fez com que alguns raios de sol passassem pelas fendas na janela e iluminassem o quarto escuro, fechado e com cheiro de mofo, onde os Los Hermanos se trancafiaram desde O Bloco do Eu Sozinho, de 2001. Melhor dizendo: com o lançamento de Ventura este ano, um trator derrubou a parede deste quarto, trazendo para a vida da banda todo o frescor, o verde, a luminosidade e a inspiração de um dia ensolarado, enfim, todo um clima Lulu Santos aliado à costumeira psicodelia do grupo.

Toda influência, também, que a escolha de um sítio para dar fluidez ao processo criativo possa ter trazido ao novo trabalho. Mas, no meio do caminho, veio a notícia do encerramento das atividades da Abril Music, gravadora dos Hermanos, que partiram em busca de um outro selo para lançar o disco novo. Tarefa aparentemente desgastante de início mas que se mostrou talvez a mais fácil na história de contratempos em que a banda esteve envolvida desde que surgiu: logo a BMG comprava a idéia de Ventura. Mesmo assim, ainda pipocaram reclamações sobre a má distribuição do CD, que chegou à algumas cidades brasileiras com duas semanas de atraso. Os mais fanáticos preferiam morrer a ter que esperar mais.

Nada que vá afetar a integridade de uma banda que já viveu o carnaval de Anna Júlia, e que na turnê do seu primeiro disco, Los Hermanos, de 99, descobria que sim, todo carnaval tem seu fim, dando a luz ao maravilhoso, sombrio e enigmático (sobram adjetivos à ele) Bloco, que teve a sua primeira versão vetada pela Abril. Uma banda que já apanhou de João Gordo com peixes de plástico ao vivo na TV, quando declarou não gostar de Ramones, e que teve uma de suas declarações mais bombásticas, “não gostamos de música de trabalho”, estampada na capa da Capricho. Foi bom ter deixado as barbas crescerem, mas nem precisava. Ventura agora substitui o nome com que o novo trabalho foi anunciado, mas que foi deixado de lado na última hora – “bonança” – e a mídia coloca os quatro rapazes em seu devido lugar de maiores representantes do movimento salvador da MPB. Com direito até a ser a primeira banda nacional de que se tem notícia a ter músicas de um disco ainda não-lançado disponíveis “clandestinamente” na internet.

Como todo bom carioca que se preze, os Hermanos não esquecem de suas raízes e abrem Ventura com “Samba A Dois”. Percebe-se logo de começo que os metais funcionam mais ainda do que no disco anterior, deixando de ser circenses para formar um belo casamento com o quarteto guitarra-bateria-baixo-teclado. A música é o verdadeiro samba-rock, ou melhor, nem me atrevo a dizer o que ela é. “O Vencedor” é o primeiro dos dois únicos “power-pops” do CD. Bem animada e pra cima, apesar de ensinar que na vida, ser menor é ter a glória de chorar. É a regra do dúbio que impera no novo trabalho dos Hermanos.

“Último Romance” fala de como as coisas cotidianas (E até quem me vê / lendo o jornal / na fila do pão) são afetadas pelo... amor! Com um riff de guitarra contagiante, é a primeira música composta e interpretada por Amarante no álbum, e também de onde saiu o trecho que dá nome à esta matéria. “Cara Estranho” é o power-pop que faltava, o primeiro single do disco, com um videoclipe prestes a estrear na MTV. De fazer qualquer fã abrir um sorriso de orelha à orelha com a pegada de guitarra espertíssima e a fantástica letra com que todos se identificam.

“Além Do Que Se Vê” vai animando o ouvinte a cada verso, a cada grito de Marcelo Camelo ou a cada parte da música cantada em coro. “O Velho E O Moço” prepara o coração daqueles que sofrem desse órgão para “Conversa de Botas Batidas”, uma das músicas mais belas já feitas ultimamente. Começa com um pianinho desencorajador e se transforma numa epopéia sobre o fim da vida de dois velhinhos. De cortar o coração de dó e de causar grande emoção e felicidade ao mesmo tempo. Se a palavra que dá nome ao disco quer dizer uma tomada de decisão com resultados adversos, essa é a música-chave de Ventura.

“Deixa o Verão” é rápida, frenética e alegre. Chegue atrasado, desperdice a estação ensolarada do ano e não enfrente fila, tudo pra não perder o sofá que tá bom demais. “Um Par” vai mais ou menos no mesmo caminho em termos melódicos e “Do Lado De Dentro” escancara uma relação entre quatro paredes cheia de sonhos desabando e infidelidades, tudo regado a uma boa discussão de casal. “Do Sétimo Andar” é quase folk, quase latina.

Serviço muito bem feito, Ventura parece ser uma clara continuação de seu antecessor. Os quatro garotos do Rio continuam tendo o incrível aval de usar e abusar dentro da gravadora que for. Apesar de não ser tão comercial, a procura por ele já é expressiva, figurando como um dos 20 discos mais vendidos no país. Vai tocar pouco em rádio de novo, mas quem se preocuparia com um meio de divulgação tão pouco confiável ultimamente, quando se tem uma obra-prima da música brasileira em mãos? De novo.