| “SAIR DE CASA JÁ
É SE AVENTURAR”
Se Bloco foi uma prisão
domiciliar lúdica, Ventura é o quintal dos
Los Hermanos
por Júlio
Ibelli (jcim13@ig.com.br)

tempo fez com que alguns raios de sol passassem pelas fendas
na janela e iluminassem o quarto escuro, fechado e com cheiro de
mofo, onde os Los Hermanos se trancafiaram desde O Bloco do Eu
Sozinho, de 2001. Melhor dizendo: com o lançamento de
Ventura este ano, um trator derrubou a parede deste quarto,
trazendo para a vida da banda todo o frescor, o verde, a luminosidade
e a inspiração de um dia ensolarado, enfim, todo um
clima Lulu Santos aliado à costumeira psicodelia do grupo.
Toda influência, também, que a escolha de um sítio
para dar fluidez ao processo criativo possa ter trazido ao novo
trabalho. Mas, no meio do caminho, veio a notícia do encerramento
das atividades da Abril Music, gravadora dos Hermanos, que partiram
em busca de um outro selo para lançar o disco novo. Tarefa
aparentemente desgastante de início mas que se mostrou talvez
a mais fácil na história de contratempos em que a
banda esteve envolvida desde que surgiu: logo a BMG comprava a idéia
de Ventura. Mesmo assim, ainda pipocaram reclamações
sobre a má distribuição do CD, que chegou à
algumas cidades brasileiras com duas semanas de atraso. Os mais
fanáticos preferiam morrer a ter que esperar mais.
Nada que vá afetar a integridade de uma banda que já
viveu o carnaval de Anna Júlia, e que
na turnê do seu primeiro disco, Los Hermanos,
de 99, descobria que sim, todo carnaval tem seu fim, dando a luz
ao maravilhoso, sombrio e enigmático (sobram adjetivos à
ele) Bloco, que teve a sua primeira versão
vetada pela Abril. Uma banda que já apanhou de João
Gordo com peixes de plástico ao vivo na TV, quando declarou
não gostar de Ramones, e que teve uma de suas declarações
mais bombásticas, “não gostamos de música
de trabalho”, estampada na capa da Capricho.
Foi bom ter deixado as barbas crescerem, mas nem precisava. Ventura
agora substitui o nome com que o novo trabalho foi anunciado, mas
que foi deixado de lado na última hora – “bonança”
– e a mídia coloca os quatro rapazes em seu devido
lugar de maiores representantes do movimento salvador da MPB. Com
direito até a ser a primeira banda nacional de que se tem
notícia a ter músicas de um disco ainda não-lançado
disponíveis “clandestinamente” na internet.
Como
todo bom carioca que se preze, os Hermanos não esquecem de
suas raízes e abrem Ventura com “Samba A Dois”.
Percebe-se logo de começo que os metais funcionam mais ainda
do que no disco anterior, deixando de ser circenses para formar
um belo casamento com o quarteto guitarra-bateria-baixo-teclado.
A música é o verdadeiro samba-rock, ou melhor, nem
me atrevo a dizer o que ela é. “O Vencedor” é
o primeiro dos dois únicos “power-pops” do CD.
Bem animada e pra cima, apesar de ensinar que na vida, ser menor
é ter a glória de chorar. É a regra do dúbio
que impera no novo trabalho dos Hermanos.
“Último Romance” fala de como as coisas cotidianas
(E até quem me vê / lendo o jornal / na fila
do pão) são afetadas pelo... amor! Com um
riff de guitarra contagiante, é a primeira música
composta e interpretada por Amarante no álbum, e também
de onde saiu o trecho que dá nome à esta matéria.
“Cara Estranho” é o power-pop que faltava, o
primeiro single do disco, com um videoclipe prestes a estrear na
MTV. De fazer qualquer fã abrir um sorriso de orelha à
orelha com a pegada de guitarra espertíssima e a fantástica
letra com que todos se identificam.
“Além Do Que Se Vê” vai animando o ouvinte
a cada verso, a cada grito de Marcelo Camelo ou a cada parte da
música cantada em coro. “O Velho E O Moço”
prepara o coração daqueles que sofrem desse órgão
para “Conversa de Botas Batidas”, uma das músicas
mais belas já feitas ultimamente. Começa com um pianinho
desencorajador e se transforma numa epopéia sobre o fim da
vida de dois velhinhos. De cortar o coração de dó
e de causar grande emoção e felicidade ao mesmo tempo.
Se a palavra que dá nome ao disco quer dizer uma tomada de
decisão com resultados adversos, essa é a música-chave
de Ventura.
“Deixa
o Verão” é rápida, frenética e
alegre. Chegue atrasado, desperdice a estação ensolarada
do ano e não enfrente fila, tudo pra não perder o
sofá que tá bom demais. “Um Par” vai mais
ou menos no mesmo caminho em termos melódicos e “Do
Lado De Dentro” escancara uma relação entre
quatro paredes cheia de sonhos desabando e infidelidades, tudo regado
a uma boa discussão de casal. “Do Sétimo Andar”
é quase folk, quase latina.
Serviço muito bem feito, Ventura parece
ser uma clara continuação de seu antecessor. Os quatro
garotos do Rio continuam tendo o incrível aval de usar e
abusar dentro da gravadora que for. Apesar de não ser tão
comercial, a procura por ele já é expressiva, figurando
como um dos 20 discos mais vendidos no país. Vai tocar pouco
em rádio de novo, mas quem se preocuparia com um meio de
divulgação tão pouco confiável ultimamente,
quando se tem uma obra-prima da música brasileira em mãos?
De novo. 
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