| ELEFANTE SUPERSÔNICO
Americanos do White stripes surpreendem
e soltam um dos melhores discos do ano
por Guilherme
Sorgine (sorgine@bol.com.br)

ntes de começar essa matéria, tenho que confessar
uma coisa. Nunca fui fã de White Stripes. Acho o som deles
esquálido. A voz anasalada de Jack White me dá nos
nervos, e a baterista, coitada, além de ser gorda, só
aprendeu a tocar um compasso. Não consegui passar da décima
faixa de White Blood Cells. E é por essas e por outras
que eu digo: Elephant é do cacete.
“Mas como?”, pergunta o leitor. “O Jack White
não continua com o nariz entupido? A baterista não
continua gorda? O que mudou?”. Após me fazer essas
perguntas por dezenas e dezenas de vezes, eu respondo: não
sei. Mas ficou bom.
Pois sim, os stripes estão de casa nova (saíram da
indie Sympathy for the Record para a poderosa
V2 Records) e podemos dizer que este é um dos raros momentos
na história da música em que esta troca se faz proveitosa.
A diferença é que agora eles parecem uma banda de
verdade, e não o esboço anterior. Um grupo como o
White Stripes, por suas próprias limitações
técnicas e físicas (são apenas dois integrantes),
não pode se dar ao luxo de dispensar uma boa produção.
Era o que acontecia nos álbuns passados, que tinham uma cara
enfadonha de demo tape. E definitivamente não é o
que vemos aqui. Guitarras sobrepostas, vocais dobrados, corinhos
deliciosos. E muita, muita distorção. Méritos
para Jack White, que, além de tocar piano, guitarra e cantar,
ainda produziu e mixou o trabalho. Ufa!
“I’m gonna fight’ em off / A seven nation
army couldn’t hold me back”. Jack chama pra
briga e abre os trabalhos com “Seven Nation Army”, fazendo
na guitarra as vezes do baixo. E que baixo! A faixa tem um balanço
irresistível, sem abrir mão do peso no refrão,
sendo por si só uma grata surpresa.
“Black
Math” é como toda velha faixa dos Stripes. Blues atômico,
emulando Led Zeppelin, com a mesma batida de sempre. Mas alguma
coisa mudou... As guitarras estão mais cheias e pesadas (com
direito a um solinho delicioso no final), e... Tudo bem, tudo bem,
Jack White está cantando melhor! Pronto, admiti! “There´s
no Home for You Here” tem um quê de psicodelia Beatles,
e remete muito a “Dead Leaves on the Dirty Ground”,
sucesso do álbum anterior, sendo, apesar disso, uma boa faixa.
Por outro lado, “I Just Don´t Know What to Do With Myself”
recai nos velhos cacoetes, soando monótona e repetitiva.
Na climática “In the Cold Cold Night”, uma surpresa:
Meg White, a irmã gorda, larga a bateria e assume os vocais.
E, ao contrario de sua atuação com o instrumento de
origem, o faz com absurda competência, roubando para si os
méritos da faixa, deliciosa como há muito o Belle
and Sebastian não o faz.
Em seguida, duas baladas. “I Want to Be the Boy” conta
a historia de um garoto que vive às turras com a sogra e
é uma das melhores músicas do CD. Balada como poucas
atualmente, é daquelas pra cantar junto palavra por palavra.
Mais uma vez, a mudança de instrumento se mostra proveitosa
para os Stripes, com Jack fazendo no piano uma melodia que, nos
seus melhores dias, não conseguiu fazer na guitarra. “You
Got Her in Your Pocket” é folk no melhor estilo americano,
singela como deve ser e, mesmo não sendo tão boa quanto
a anterior, segura bem a onda.
Para
uma banda cujas músicas raramente ultrapassam os três
minutos, é surpreendente ouvir “Ball and Bicscuit”.
Surpreendente e chato. Nada contra inovações, mas
a faixa, com seus mais de 7 minutos de duração, extrapola
nas influencias de Led Zepellin, soando cansativa já na sua
metade. Em seguida, vem a excelente “The Hardest Button to
Button”, com Jack mais uma vez sobrepondo guitarras base/solo,
e que poderia facilmente figurar em algum disco do Foo Fighters,
de tão pegajosa que é.
Um riff sabbathiano irrompe, após uma hilária narração,
iniciando assim “Little Acorns”, talvez uma das mais
pesadas musicas da carreira da banda. E não é que
os rapazes se saem bem mais uma vez? Com batidas cadenciadas e quebras
de ritmo, se aproximam do stoner rock do Queens
of the Stone Age, mas sem dever nada a eles. “Hyptonize”,
mal comparando, é a “Fell in Love with a Girl”
de Elephant, porém com uma levada mais
suingada que a difere da anterior, reta. Candidata natural a hit.
“The Air Near My Fingers” abre com uma levada à
la Nirvana, e tem tudo para agradar a ouvidos menos treinados, enquanto
“Girl You Have No Faith in Medicine´ é garage
rock da melhor qualidade, tosco na medida certa. Fechando o álbum,
“It´s True that We Love One Another”, uma declaração
mútua de amor, nos faz pensar nos rumores de um suposto romance
entre Jack e Meg. Calma, rapazes. Na verdade, Jack divide os vocais
com a cantora americana Holly Golightly, e a faixa não passa
de uma grande brincadeira acerca de tais boatos.
Elephant é o melhor disco do White Stripes,
e desde já um dos melhores do ano, nos deixando sedentos
por uma vinda da banda ao país. Há boatos sobre uma
possível visita no final do ano, mas nada está confirmado
até o momento. Que mais dizer? Cruze os dedos e garanta já
o seu CD. 
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