Um argumento tão simples quanto estranho gerou um dos melhores filmes do cinema nacional nos últimos tempos. O cheiro do ralo , adaptação do livro homônimo de Lourenço Mutarelli, parte da paranóia que o personagem principal adquire após ter o ralo do banheiro entupido.
A figura em questão é Lourenço, um homem atormentado pelo cheiro insuportável que sai do banheiro ao lado de sua sala. Dono de uma loja de antiguidades – quase todas com pouco ou nenhum valor –, ele vive cercado por gente estranha e desesperada por dinheiro, o que aumenta ainda mais o seu caos interior. Tão estranho quanto os clientes de sua loja, Lourenço tem como único objetivo na vida eliminar o cheiro que sai do ralo. Quer dizer, além da obsessão pelo ralo, o personagem se apaixona pela Bunda de uma atendente de lanchonete. Isso mesmo, pela Bunda, não pela atendente.
A partir daí pode-se entender a estranheza do personagem, interpretado de forma muito original por Selton Mello. Dentre todos os personagens vividos pelo ator no cinema nacional, certamente este já figura na galeria de tipos de Mello como um dos mais célebres. O ator é um dos responsáveis pelo êxito deste segundo longa-metragem de Heitor Dhalia. Selton Mello se sai muito bem nas cenas em que o humor negro do personagem predomina. Alias, é o toque satírico que deixa o drama da história mais ameno.
Mas é com certeza a personalidade solitária e repulsiva do personagem construído por Mutarelli que faz de O cheiro do ralo um grande filme. O longa é construído com a ajuda de fluxos de consciência de Lourenço, que rumina cada idéia até chegar a uma decisão. As negociações que desprende com os clientes de sua loja são parte de um jogo sádico e esquizofrênico que tem como objetivo livrar-lhe da culpa por ser um homem frio e sem compaixão. Tudo isso alimentado pelo onipresente cheiro do ralo que o atormenta e interfere diretamente em sua vida amorosa e profissional.
Roteiro
O verniz hype, e ao mesmo tempo agressivo, que reveste o longa se deve em muito ao roteiro. Ainda que o personagem Lourenço já existisse desde 2001, quando o livro de Mutarelli foi lançado, O cheiro do ralo é emblemático do cinema que Marçal Aquino, que assina o roteiro do filme com Heitor Dhalia, tem feito como roteirista. Aquino, ele mesmo um escritor identificado com uma literatura ultra-realista, herdeira direta de autores como Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, especializou-se em escrever filmes em que as neuroses do cotidiano, a violência urbana e os pecados da vida moderna dão o tom da narrativa.
Foi assim com O invasor, Ação entre amigos e Crime delicado , de Beto Brant, e com Nina , a estréia de Dhalia na direção. Todos os filmes são centrados em algum tipo de paranóia, seja ela uma lembrança do passado ( Ação entre amigos ) ou algum tipo de medo ocasionado pelo presente ou futuro ( Nina ). Com O cheiro do ralo não é diferente. Produto de uma sociedade que não quer ter princípios, Lourenço se encaixa exatamente como baluarte de um tempo em que a solidão é o melhor antídoto para a falta de perspectiva. Niilista ao seu jeito, o personagem de Selton Mello não quer casar, não quer ter filhos, nem netos; não quer prosperar – ainda que a sua sovinice seja um indício que o contradiz – nem ser feliz. É levado pelo caos da vida e pela falta de sentido da existência. Apenas isso.
Lourenço é um estranho. Só não se sabe se ele é reflexo ou produto do meio em que vive. O personagem encarna com precisão as angústias e desilusões que a vida opressiva das metrópoles (o filme se passa em São Paulo ) impõe às pessoas, que usam o isolamento como tática de proteção. A partir daí é possível ver Lourenço não como algoz de seus clientes falidos, mas vítima de uma sociedade careta e opressora.
Segundo o próprio Mutarelli, o personagem que criou não tem consigo apenas o nome em comum. “Eu era muito sensível e tinha realmente alguns distúrbios que hoje poderiam ser facilmente tratáveis. O horrível é que não conseguia me sociabilizar nem fazer amigos. Tinha momentos de confusão mental e, quando fazia comentários, as pessoas riam de mim. E isso era muito desagradável, muito desagradável mesmo. E eu ia me fechando”, disse o autor à revista Rolling Stone de março em uma longa reportagem sobre a sua obra.
O depoimento de Mutarelli é revelador no sentido de que Lourenço, o personagem, em muito se confunde com o Lourenço autor de HQ. Daí talvez resida a força do personagem, que parece tão maluco quanto real e humano. Suas neuroses são muito parecidas com as da maioria dos brasileiros, o único diferencial é que o Lourenço do filme leva isso muito mais a sério.
Se em sua primeira incursão no longa-metragem Heitor Dhalia recriou o universo claustrofóbico de Dostoiévski, fazendo uma releitura do clássico Crime e castigo , em O cheiro do ralo o diretor aposta na esquisitice e egocentrismo humano. Em comum as duas narrativas têm o fato de que os personagens sentem-se acuados com os ritos e normas da vida moderna. Além disso, ambos apostam em uma linguagem essencialmente urbana.
Grande sucesso no festival de Sundance, O cheiro do ralo foi eleito pelo júri o melhor filme da 30ª Mostra de Cinema Internacional de São Paulo . Emblemático do cinema urbano e violento que aflorou com força no país após a retomada das produções nos idos dos anos 90, o longa de Dhalia tem tudo para entrar para a galeria dos melhores filmes do nosso cinema recente.