Há alguns anos uma amiga mandou um e-mail perguntando se eu conhecia algum filme que tratasse de amor. Ela frisou, não queria uma "comédia romântica", mas um filme de "amor". Fiquei um tanto atordoado, pois foi quando percebi que a maior parte dos ditos “filmes românticos" tratavam, na verdade, da falta de amor, de todos os entraves que no desfecho são desatados e desembocam em um happy end . Mas se fosse hoje, para recomendar um filme que trata do amor, recomendaria Cão Sem Dono , de Beto Brant e Renato Ciasca.
Beto Brant talvez seja o cineasta mais interessante da retomada, dividindo espaço, talvez com Karim Aïnouz (de Madame Satã e O céu de Suely ). Brant faz um cinema urbano, ágil, inteligente, com personagens jovens e tramas bem construídas. O que me incomodou sempre foi aquela “perspectiva” de classe média alta, que os meninos do cinema paulista tentam escamotear a duras penas, sem conseguir de todo. Já no primeiro longa, o diretor começou por investigar relações de criminalidade no Brasil, questão posta, ainda que de modo rudimentar, em Os Matadores . No segundo filme Ação Entre Amigos , Brant enveredou pela história recente do Brasil, a narrativa se passava em dois tempos. No passado, mostrava os personagens ainda jovens envolvidos na luta armada. No presente, eles eram pequenos burgueses obrigados a participar de uma trama de vingança contra o antigo torturador. Aqui , a questão política era acessória, a fotografia cool-cosmética e a psicologia kung-fu faziam tudo parecer ascético, vazio e fake . A performance “constrangedora” dos atores e as cenas gratuitas de sexo colaboraram para o fiasco de crítica e público.
Depois deste triller-policial precário, Brant dirigiu um filme muito bom, O Invasor , em que passou a mirar com mais astúcia a relação centro versus periferia, embora mantivesse aquela mesma levada à la filme policial, sempre preocupado em agradar a seu público jovem, classe média e descolado. Com Crime Delicado , Beto Brant parece ter mergulhado numa crise artística (necessária), descoberto que o cinema também quer ser arte e, finalmente, despirocado. O produto foi este insuficiente e estranho filme, no qual o artista e a arte são temas, e que parece ter servido de preparação para Cão Sem Dono , que eu creio ser o seu melhor filme, um filme sem delitos banais ou indelicadeza forçada.
Cão Sem Dono comove o espectador por sua incomensurável tristeza. Beto Brant pôs finalmente de lado a vertigem da periferia, as peripécias da “ação”, o embate verbal que imperava em seus filmes e finalmente mergulhou mais profundamente no sujeito. É um filme sobre uma geração que entristeceu porque não vê muita saída no Brasil pós-tudo. O protagonista Ciro é seu espelho, um tradutor que não traduz, que quase não fala; às vezes balbucia umas palavras em russo (Ah, os angustiados russos!!!). O filme se abre ao espectador com o casal protagonista na cama, onde Ciro vai, sem volteios ou preâmbulos, ser ternamente devorado pela bela e jovem Marcela. Mais do que as idiossincrasias de um adolescente tardio perdido e uma menina linda que modela, — porque seu grande sonho é viajar (um viajar por viajar, um viajar para conhecer o mundo, um viajar que é para conhecer-se), — Cão Sem Dono é um filme de amor.
Preste atenção, não é apenas "uma história de amor", mas um filme SOBRE o amor. Amor que na história começa pelo sexo casual. Amor que se espraia pela caridade (recolher o cão vadio). Amor que se expressa em jantares entre pais e filhos. Um amor-amizade, que nasce com o gentil porteiro do prédio. Amor pelo perdão (com o motoqueiro que atropela a sua esposa), amor pela arte (e que não se explica, nas telas pintadas sobre jornais), o solidário amor do cuidar (dos pais e de Marcela adoentada), amor, por fim, que se revela desesperada paixão por Marcela, até seu apaziguamento em ternura no final do filme. Ciro representa o jovem adulto do século XXI, sem planos, sem sonhos, um tanto folgado e ainda assim orgulhoso, para quem o consumo não suplanta o vazio. É assim, um opaco ser humano que, no afã de se proteger, trata o amor como um mal. Ciro precisa, por isso, ser conquistado. Como a personagem Lóri do romance Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, de Clarice Lispetor, Ciro terá que aprender a “sentir”, a amar para além do corpo. Marcela é a menina-mulher que irá sub-repticiamente meter-se em sua vida, derrubando com delicadeza a barreira de cinismo e apatia construída para “não sentir”. Marcela não é, na verdade, uma mulher. Marcela é “a mulher”, o “eterno feminino”, um arquétipo. Ciro a define em determinado momento como um poema; e é como mulher-poema que ela, ao dirigir-se ao homem amado, diz: “adoro o jeito como você me despreza”. E isso é dito (ainda que em outras palavras) sem que, por um segundo, o espectador a condene ou se apiede dela.
Ciro e Marcela servirão como representação do amor pleno, complexo, total, apaixonado, dolorido. É um amor que dói e dá sentido a uma vida até então estagnada, vadia, tola. Não há grandes peripécias, saltos na narrativa, nem aquela “traminha policial” para revelar um Brasil torpe, corrupto, violento, que não é mais novidade para ninguém. Beto Brant abandona a vertigem da violência, o “Brasil cínico” que tem servido de “pano de fundo” (não mais que isso) para tantos outros cineastas contemporâneos, cheios de técnica e conteúdo ralos.
Brant procura em Cão Sem Dono uma sinceridade que se manifesta na economia dos planos, nos enquadramentos precisos, na iluminação às vezes descuidada e na performance naturalista dos atores. Estas inteligentes escolhas escamoteiam o exame que faz de uma geração que esconde seus sentimentos através do discurso niilista, do cinismo, do sexo casual. Brant parece ter percebido que era isso o que o livro de Daniel Galera ( Até o dia que o cão morreu ) pedia. Acertou em cheio no elenco (todos os atores estão extraordinários e nenhuma carinha fácil se apresenta, para distração do público). A escolha de Porto Alegre, jamais nomeada, para situar a história, universaliza em sua urbanidade indistinta o desencanto do homem adulto.
Brant nunca pareceu tão consciente da elaboração cinematográfica, foge aos clichês e habilidosamente procura “desdramatizar” cenas/seqüências que poderiam desembocar no melodrama mais raso. Em Cão Sem Dono , o diretor abriu mão das cenas histéricas de impacto dramático e visual. Ele não busca o épico, mas o “poético” que faz brotar de situações “aparentemente prosaicas”, conversas sutis, manifestação de afeto. O forte do filme, são justamente suas cenas de contenção e delicadeza: a saída noturna de Ciro com o cão, o encontro do casal com os amigos recém-conquistados e a conversa solta (e significativa) diante do painel de fotografia, as conversas etílicas no bar, os encontros de Ciro e o porteiro-pintor ao som de Lupicínio Rodrigues, a confissão do pai sobre o uso da cocaína, a alegria difícil da mãe, o cantar desafinado de Marcela e o violão ruim de Ciro. Destacam-se, claro, as cenas de sexo, bastante realistas. Mas elas estão ali para reafirmar a veracidade do envolvimento, contrastando, por isso, tanto com a pudica tendência nacional de puerizar as relações homem/mulher, fazendo soar violinos nas cenas pudicas de sexo; ou descambar para o mal-gosto, naquele uso manjado do sexo para “escandalizar” o espectador letárgico.(1)
Ao abandonar a neurose pelas "tramas policiais", Beto Brant melhor pôde mergulhar na tristeza e na alegria do amor; o resultado é seu filme mais sensível e profundo. Numa cena aparentemente prosaica do filme, os pais de Ciro e amigos falam que o homem de hoje se libertou, que agora pode chorar, e não por que é fraco, mas por que está mais livre sentir. Durante a sessão, os espectadores choram e riem. Muitos são homens. Mas é bonito vê-los chorar e assumir as lágrimas na tela. Um filme que alcança essa empatia com o público não devia estar relegado a duas ou três salas de cinema em São Paulo , já que não é apenas aos homens que fala o filme de Beto Brant, mas a todos: chorar é um verbo que se conjuga em todas as pessoas.
(1) Apresentando este texto para meu mestre Djalma Limongi Batista, este destacou justamente o carnal e o vigoroso que há nas cenas de sexo neste filme, e lembrou que há em Cão Sem Dono muito dos filmes “l’amour fou” franceses ( Nouvelle Vague ), e muitos pontos de contato (como as andanças com o cão) com o surpreendente filme português, “O fantasma”, de João Pedro Rodrigues.
O Rabisco está voltando! Renascendo das cinzas! Wuhu!
Que lindooooooo!
Vamos nessa!