Grandes realizadores dos primeiros sessenta anos de cinema ainda têm seus trabalhos quase que inacessíveis. Talvez porque o público atrás dessas obras seja pequeno, talvez porque elas tenham perdido, digamos, a contemporaneidade . Não é o caso dos filmes feitos por Norman McLaren (1914-1987) . Ícone da animação cinematográfica, McLaren sempre teve público cativo e trabalhos imunes ao tempo, sempre foi uma referência para os estudantes de cinema que se dedicam às técnicas de animação. Mesmo assim, e não fugindo à regra, suas obras passaram um bom período restritos a acervos especializados, distantes do público em geral.
Agora, felizmente, basta acessar a internet para conferir alguns trabalhos de Norman. No You Tube, por exemplo, estão disponíveis clássicos como Neighbours – pelo qual McLaren ganhou o Oscar – e A Chairy Tale . Realizado em 1952, Neighbours conta a história de dois vizinhos que vivem em harmonia e nunca precisaram definir os limites de suas propriedades, isso até uma flor nascer bem no meio do jardim dos dois e, consequentemente, surgir uma acirrada disputa para ver quem deve ficar com ela. A Chairy Tale narra as desventuras de um homem que deseja sentar-se para poder continuar lendo o seu livro, mas não consegue, pois a cadeira que escolheu para sentar vive fugindo. Basta uma olhada nesses dois curtas-metragens para perceber a destreza com que McLaren dominava as técnicas de animação. E melhor: como utilizava a música e a sonoplastia de forma precisa. Essa última característica, aliás, lhe garantia mais do que o perfeito ritmo das cenas. Música e personagens são inseparáveis nas obras do diretor. Quase sempre fica a impressão que seus personagens, em um dia qualquer, perderam a capacidade de falar e passaram a se comunicar através de notas musicais extraídas de instrumentos diversos. O mesmo vale para os objetos de cena que, supostamente sem vida, decidem emitir seus próprios sons e ruídos, como faz a flor de Neighbours e a cadeira de A Chairy Tale. Nascido escocês, McLaren trabalhou de 1941 a 1987 no Canadá, razão pela qual muitos acreditam que ele seja canadense. Todo esse tempo passado no país, Norman fez filmes na National Film Board of Canada ( uma das mais famosas instituições do cinema mundial, escola de cinema e também de animação que neste ano, pela primeira vez, recebeu estudantes de fora do país, inclusive dois brasileiros, para cursar a oficina Hot House, um laboratório de animação ). E foi na National Film que McLaren desenvolveu seus principais trabalhos. Alguns com temáticas que iam além do campo da animação, entrando em questões existenciais, filosóficas e políticas, outros que eram exemplares perfeitos da relação entre cor, imagem, movimento e som. Foi também nos mais de quarenta anos dedicados a instituição que McLaren desenvolveu a técnica de desenhar diretamente na película, preservando a fluidez dos traços, manejou como ninguém a técnica do stop-motion e foi o primeiro a brincar com o espectador através de uma certa dissonância minimalista, a exemplo de Mosaic , de 1967.
Os vídeos encontrados na internet não cobrem toda a carreira de Norman, mas são algumas amostras de sua competência. No ano passado, a própria National Film Board lançou uma caixa de dvds intitulada “ The Complete Works of Norman McLaren – Master Edition ”, que inclui até suas primeiras experiências cinematográficas . Mas além de ser somente encontrada em lojas fora do país, o custo do box não é totalmente acessível. Sendo assim, a internet continua como melhor vitrine, a mais prática e barata. É esperar para que, a exemplo dos trabalhos de Norman, a arte de outros grandes diretores do cinema possa também ser admirada fora de meios especializados e sem grandes esforços para tal.
Mais Informações:
http://www.youtube.com/watch?v=uA1t7BG6U_s
http://www.youtube.com/watch?v=vgoVugoRZXE
http://www.youtube.com/watch?v=EQ0PnETWE0g