O estupro do mundo

Baixio das Bestas e O Cheiro do Ralo têm em comum a mulher como elemento de prazer egoísta e violento

por Joezer Mendonça (joezer_7@hotmail.com)

Cena 1: o vendedor de quinquilharias Lourenço (Selton Mello), após recusar niilisticamente todas as convenções do amor ao próximo (a), é hipnotizado pelas formas calipígias de uma garçonete (Paula Braun). Ele quer pagar pra ver a saliência glútea da moça in natura.

Cena 2: dois jovens (Matheus Nachtergaele e Caio Blat), após recusar niilisticamente todas as convenções da vida em sociedade, são hipnotizados pela lei do desejo em um bordel do sertão pernambucano. Rodeados de prostitutas, à la Último Tango em Paris eles pedem manteiga.
A primeira cena é do filme de Heithor Dhalia, O Cheiro do Ralo , e o personagem de Selton Mello àquela altura já desfez um noivado um mês antes do casamento, humilhou quem procurou sua loja para lhe vender algum objeto de valor e, principalmente, adquire consciência de que sua vida e seus negócios têm a recendência dos dejetos que estagnaram no ralo. Ao longo do filme, o personagem Lourenço, homônimo do autor do livro original, Lourenço Mutarelli, segue seu trajeto pessoal de dominação e humilhação de gente. Sua noiva, um peruano com um gramofone, os torneiros que chegam para descongestionar o ralo do banheiro, um homem que lhe quer vender uma caixinha de música. Esses todos são violentados em sua condição humana pelo humor cruel de Lourenço.

A segunda cena é de Baixio das Bestas , de Cláudio Assis, e aqueles jovens que escolheram manter-se à margem do contrato social, vivem pela farra, pelo sexo, pelas drogas. Ao longo do filme, eles vão, como bestas possuídas, ao baixio da condição humana em seu franco desprezo pela moral e total identificação com a agressão fortuita.
Ambos os filmes apresentam personagens que entendem a mulher como objeto de um prazer egoísta e violento. Ainda em Baixio das Bestas , há um velho que prostitui a filha adolescente (Mariah Teixeira) diante de caminhoneiros sedentos por aquela lolita sertaneja; e, há dois estupros cujas vítimas (Hermila Guedes e Dira Paes) são destituídas de qualquer noção de dignidade antes mesmo de serem violentadas. Em O Cheiro do Ralo , Lourenço é seduzido metonimicamente pela única parte que lhe apetece na garçonete,  a bunda da moça. Porém, seu desejo de dominação violenta a moça, o dinheiro que oferece é um estupro.

Os dois filmes, a seu modo cada um, se valem de uma espécie de sodomização do mundo. Não a sodomia moderna, passível de tácito acordo conjugal, mas a sodomização primitiva, aquela do tipo Sodoma e Gomorra, quando os homens da história bíblica tentam violentar os anjos que foram avisar Ló e a sua família da iminente destruição das cidades pelo fogo.
Da mesma forma, a adolescente violada em sua inocência é o anjo brutalizado, bem como a garçonete que sonha com um romance de novela é prostituída pelo macho dominador. Em O Cheiro do Ralo , todo sonhador ingênuo, seja o que sonha com um casamento feliz ou o que  atribui valor sentimental ao objeto que precisa vender, é dominado, humilhado, estuprado em seus sentimentos e princípios.

Em Baixio das Bestas o sertão não poupa ninguém, e a secura da paisagem invade o trabalho e o lazer daqueles cortadores de cana, personagens do lado de fora do baile chique do etanol. O ciclo da monocultura (plantar – colher – queimar para replantar) é parte da cultura do sertanejo, que sabe que a história, boa ou ruim, se repete como a água e o fogo de efeito purificador  desde sempre; como o seu canto de maracatu, com suas estrofes repetidas, simples, mas plenas de vitalidade, cantadas ano a ano.
Há evidentes problemas quando em O Baixio das Bestas a câmera do mestre Walter Carvalho se faz voyeur da bestialidade, como no filme anterior de Cláudio Assis, Amarelo Manga , conferindo beleza visual ao que visualmente é degradante e feio. Já em O Cheiro …, uma viciada quase raquítica se torna o demônio e o vingador da crueldade de Lourenço, num ajuste de contas imperfeito e moralizante. O que pode ser propósito dos diretores, mas que também denuncia uma "estética do choque" modernosa no primeiro e contradição epistemológica no outro.

Contudo, fica o deboche de Selton Mello, na melhor tradição de Paulo César Peréio e Xico Sá (ambos comparecem no filme), e a entrega de Dira Paes. Atores mais-que-perfeitos para estes filmes que têm a cara brasileira.

5 comentários no artigo “O estupro do mundo”

  1. filipe disse:

    quanta ignorância, meu amigo. não estudou geografia brasileira não? não sabe a diferença entre sertão e zona da mata? queria ver se alguém falasse que tom jobim era paulistano.
    cria vergonha antes de te meter a escrever bonito…

  2. joêzer disse:

    filipe,
    foi um erro imperdoável, principalmente para alguém que nasceu e morou tanto tempo nas regiões Norte e Nordeste como eu. Pior que esse site expirou e não tem como atualizar essa informação no texto.
    Vou lembrar de pesquisar melhor, ou como você disse, “criar vergonha”. Mas não se irrite quando você souber algo que outra pessoa não sabe. Você pode corrigir de forma respeitosa, meu caro.
    valeu!

  3. Ana Lira disse:

    Joezer!
    O Rabisco não expirou não, garoto! Temos edição nova semana que vem entrando no ar. Acho que a tua resposta ao comentário já é uma “correção” e gostei da maneira com que você se colocou aqui! Deixo um abraço!

  4. À Dosto disse:

    Hey Joêzer,
    fiquei besta com a analogia que fez. Se me cabe aqui alguma critica, digo que são bem interessantes suas observações. Ponto.
    São de fato dois filmes bem pesados, propositalmente tensos, justamente pela temática. Um filme brasileiro, de um Brasil abjeto e quase nunca comentado… Um Brasil que vai alem da bunda, do futebol e do carnaval.
    Tida a circunstancia e o propósito, cabe salientar que em “O baixio das bestas”, a “Lolita” – além de ser filha do avo, também é estuprada pelo jovem transviado, o que promove uma impacto comovente muito mais radicado, tido o incesto e a violência na qual podemos denominar pedofilia.
    A ótica de Claudio Assis- para mim , e ao contrario do que você disse, enfatiza através da sabia câmera uma beleza impar, existente num mundo de possibilidades e futuros tão esperados pela juventude sendo destruídos pela fome cruel do contexto “degradante e feio”. A câmera foca a beleza perdida, a beleza sendo transviada, a beleza sendo corrompida pelo baixio humano.
    Em “O cheiro do ralo” o foco também é duro, e tende a desconstruir esperanças. Ótima fotografia, ótimas sacadas, focando a beleza sendo deturpada pela podridão do pensamento mesquinho, sexista e degradante do Homem.
    Cabe pensar o cinema numa ótica proposital, que vai alem. É som, é luz, são take´s propositais, que dançam a sacada dura, porem verdadeira, destes diretores que não fazem nada mais do que nos atentar acerca dos bastidores do nosso Brasil, um bastidor que vai alem de Copacabana, futebol e carnaval.

  5. Silvio Luiz Troiano disse:

    Vejo o estupro como a atitude mais bastial de um ser “humano”. Creio que é o limite da loucura. O estupro assassina a alma da vitima e o agressor quase sempre sai impune. Pimenta da Neves que o diga!

Abra seu coração: