Réquiem grunge

O eterno clichê do rock'n'roll encontra sua face mais recente em Os Últimos Dias, de Gus Van Sant

por Luiz Andreghetto (andreghetto@rabisco.com.br)

Ao se matar com um tiro na cabeça no dia 05 de abril de 1994, Kurt Cobain, vocalista da banda Nirvana e um dos líderes do movimento grunge que assolou o entusiasmo do “espírito adolescente” da década de 1990, deixou de ser um músico para se tornar uma lenda. O eterno clichê do rock’n'roll , de viver muito, experimentar de tudo e morrer jovem, que fez (e faz) diversos artistas testarem os limites físicos e psicológicos de suas personas , encontrou diversos “seguidores” no decorrer da história.

Com mortes trágicas por overdose, suicídio ou alguma outra doença fatal, o “hall da fama” onde Cobain se inscreveu, possui diversas companhias ilustres: Janis Joplin, Jimi Hendrix, Sid Vicious (baixista do Sex Pistols), Ian Curtis (vocalista do Joy Division), Renato Russo – isso para citar apenas os mais conhecidos. O vocalista do Nirvana deixou uma viúva (Courtney Love, vocalista da banda Hole), uma filha recém-nascida e uma legião de fãs ávidos por esmiuçar a conturbada vida de mais um ídolo vencido pelos excessos sexuais e pelas substâncias ilegais – mais outro dos clichês imposto pela tríade sexo, drogas e rock’n'roll.
Ao retratar os dias que antecedem o suicídio de Cobain, o diretor Gus Van Sant, em Os Últimos Dias ( Last Days , 2005), prefere se concentrar na figura humana do músico, criando uma análise desses dias, minutos e segundos que são anteriores a uma decisão tão trágica e punitiva. Van Sant traz o personagem Blake (Michael Pitt, em uma assombrosa semelhança com Kurt Cobain), músico que quer esquecer os problemas da fama e do dinheiro e se isola em uma casa perto de um bosque com alguns amigos, passando seus dias em total letargia, alheio ao mundo exterior.

O silêncio torna-se palpável com Blake perambulando pelo bosque e pelas dependências da casa. Van Sant não quer explicações e nem justificativas, o ritmo lento, quase contemplativo da jornada de seu protagonista serve para que acompanhemos os passos e as crises que levam o músico a tomar a decisão que está por vir. Nada no cotidiano lento e normal pelo qual a casa é assolada leva a entender o que se passa na mente de Blake. Resquícios de sua vida fora desse isolamento são pincelados durante a projeção do filme, mas não serve para compreender a razão dessa personagem estar vivendo em quase um transe, em meio à floresta e no limiar de sua existência.

Mas Van Sant não adere e nem se deixa vencer pelas fáceis artimanhas de mostrar Blake como uma pessoa á beira da loucura. O que Blake procura é apenas um sentido para que sua vida continue, talvez, ao se matar no final do filme, tenha encontrado esse sentido que tanto procurava. Seria esse o motivo que também levou Cobain ao suicídio? Como não podemos saber a real razão desses fatos, apenas fica a certeza de que escolher entre viver e morrer é mais um acontecimento em um dia-a-dia enfadonho e entediante.
Experimentações – Egresso do cinema alternativo americano com Mala Noche (1985) e Drugstore Cowboy (1989), Van Sant lançou uma nova luz sob o cinema independente ao conseguir que dois dos astros mais comentados e promissores dos anos 90, Keanu Reeves e River Phoenix, protagonizassem Garotos de Programa ( My own private Idaho , 1991), alegoria shakespeariana sobre busca e identidade nas ruas de Portland. Com um começo tão singular e metafórico, O cineasta se lança em mais dois projetos independentes, o fracasso lisérgico de Até as Vaqueiras Ficam Tristes (Even cowgirls get the blues, 1993) e o sucesso cínico e sarcástico de Um sonho sem limites (To die for, 1995).

Catapultuado ao “mainstream”, Van Sant filma o roteiro de dois jovens atores (Matt Damon e Ban Affleck) e faz um filme comercial com direito até de Robin Williams como um professor-guru em Gênio Indomável ( Good Will Hunting , 1997), pelo qual consegue nove indicações ao Oscar e o aval de crítica e público. Quando parecia que o cineasta havia consolidado a carreira, podendo alternar projetos mais significativos e pessoais dentro do “esquemão hollywoodiano”, sua primeira investida é na desastrosa refilmagem, quadro-a-quadro, de Psicose (Psycho), um clássico do suspense do mestre Alfred Hithcock. Tal empreitada, desnecessária e enfadonha, deveria ter mostrado a Van Sant que alguma coisa não estava muito certa em suas escolhas.

Mas o seguinte filme veio para consolidar a maré de má sorte que pairava sobre ele. Van Sant faz uma escolha equivocada, novamente, ao “refilmar” ou fazer uma espécie de Gênio Indomável parte 2, com o filme Encontrado Forrester ( Finding Forrester , 2000), obra menor de apelo comercial e sentimentalóide tão atípico em se tratando de Gus Van Sant. Talvez esses tropeços tenham mostrado que ele precisava experimentar novos caminhos e trafegar por escolhas mais ousadas que fizesse aquele cineasta tão promissor do início dos anos 90 vir á tona.

Com produção da HBO, Gerry (2002) inicia uma nova fase na cinematografia de Van Sant. Ao flertar com o experimentalismo das imagens, do tempo e da narrativa, Gerry se torna um pequeno pedaço no quebra-cabeça que Van Sant vem construindo filme após filme. Elefante ( Elephant , 2003) consolidou essas ousadias com a Palma de Ouro no Festival de Cannes , em um exemplar mais acabado das novas obsessões do diretor: tempos mortos, silêncios intermináveis, câmera colada aos atores e o fluxo narrativo acompanhando a situação como se aquilo estivesse acontecendo naquele exato momento.

Com Os Últimos Dias , Van Sant parece terminar essa suposta “trilogia da solidão”, iniciada com Gerry e passando por Elefante , no qual os personagens trafegam sempre a margem de si mesmos, em busca de um sentido para os acontecimentos banais que os cercam: em Gerry a solidão do deserto e da busca por um caminho; em Elefante a solidão de se perceberam invisíveis no mundo que os cerca, precisando usar extremos para chamar a atenção; em Os Últimos Dias o retorno a si mesmo em busca das respostas perdidas por tanta exposição e fama, sentir-se solitário mesmo entre tantas pessoas.

Com esses novos caminhos abertos e propostas resta aguardamos as novas produções de Gus Van Sant que, apesar de alguns tropeços já perdoados e esquecidos, tem se mostrado um dos mais inventivos e corajosos cineastas americanos da nova geração. Se os personagens de Van Sant nunca sabem para onde ir, o diretor parece muito á vontade em lhes mostrar as rotas, mesmo que esses caminhos sejam apenas para alguns poucos interessados nessas experimentações de linguagem e renovações artísticas.

Abra seu coração: