Rhapsody in blue

George Gershwin quis escrever a trilha sonora do sonho americano

por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

O solo de clarineta se insurge ciciando a melodia, bruxuleando o seu brilho feito uma estrela cadente, e soando como se tentasse se concentrar num tema específico – até que ele aparece, brejeiro e solene. Logo é seguido por cordas e metais, até que é repetido por toda a orquestra. Bastam as primeiras notas para que o mais distraído dos ouvintes entre no mundo de Rhapsody In Blue , de George Gerswin (1898-1937). Mesmo que alguém desconheça o seu nome, é possível que já tenha ouvido a protofonia do conhecido concerto para piano e orquestra de um dos maiores compositores norte-americanos de todos os tempos – também autor de clássicos populares, como “Summertime”, “S’ Wonderful” e “Someone To Watch Over Me”, para ficar apenas nessas três.

Mas quem foi Gershwin? Um compositor “sério” que namorou a música popular? Um classudo pianista que vivia escrevendo música para teatros de revista? Ou um compositor erudito que, assistindo a ascensão do jazz como um fenômeno musical sem pretendentes, resolveu impregnar a sua obra do som das ruas, sem no entanto perder a nobreza do bom mocismo musical? Na verdade, ele foi um pouco de cada coisa, e muito mais. Nascido no Brooklyn, em Nova Iorque, no começo, George queria ser apenas um bom pianista, e só. Mais tarde, junto com seu irmão, Ira, ele quis escrever a trilha sonora do sonho americano.
Seu primeiro sucesso foi “ Swanee”, do musical White’ s Scandal , estrelado pelo exótico Al Jolson. Compostas inicialmente para revistas, os seus temas logo ganhavam as ruas. Em 1924, influenciado pelo maestro Paul Whiteman, que tinha em mente fazer sucesso “jazzificando” a música clássica, praticamente tirando-a dos prostíbulos para o proscênio, quis levar ao Aeolian Hall de Nova Iorque a nova experiência. Para tanto, encarregou o jovem Gershwin de criar um pequeno concerto para piano e orquestra, utilizando elementos típicos do jazz, porém emoldurando tudo de uma forma “sinfônica”. Em menos de um mês, Whiteman tinha em mãos a partitura de Raphsody In Blue .

Raphsody marcou o começo da carreira de George como compositor “ sério”. Dali em diante, ele foi aquele que amalgamou as duas tendências, a erudita e a popular, pois sabia da visibilidade que este gênero lhe franqueava e o quanto ele o apreciava – ao mesmo tempo que tinha o pé no Carnegie, por questiúnculas comerciais (escrevia sob encomenda) e, por que não dizer, de prestígio, também… Como erudito, contudo, ele sabia das suas limitações como “clássico”: não levou a fundo seus estudos de harmonia e contraponto, por exemplo. Mesmo assim, sua genialidade intuitiva e perseverança superavam essas limitações. Seguiu escrevendo novos números orquestrais. Em 1925, vinha à lume o seu Concerto em Fá (que mais parece um concerto para orquestra e um trio de jazz), encomendado por Walter Damrosch. Ao contrário de Whiteman, que queria amansar o ouvinte com um jazz sinfônico “fácil” de ouvir, pela sua ciência, Gershwin tinha o ideal de fundir o jazz tradicional com a música clássica – algo que talvez ele não tenha conseguido; no entanto, sua veia prolífica lhe permitiu desfilar uma invejável (e impecável) produção de bom gosto, e que ainda em vida, o compositor pôde ver seus temas se transformar em standards de jazz.

Quando se enumera o Gershwin “clássico”, todos se recordam de Porgy & Bess , An American In Paris e Raphsody In Blue . Mas o que seria do jazz e da música americana sem “I Got Rhythm”, por exemplo? Ou “Oh, Lady Be Good”, que virou o cartão de visitas de Count Basie? Ou Billie Holiday cantando “The Man I Love” naquela famosa gravação da Columbia? Ou Frank Sinatra derretendo corações com a sua versão de “Someone to Watch Over Me”, com arranjo de Nelson Riddle?

“I Got Rhythm” virou uma espécie de “estudo de jazz”: todo mundo a gravou, de Lester Young até Coleman Hawkins, Charlie Parker (“Antrophology”, de Bird, é uma variação sobre o tema de Gershiwn) e Benny Goodman, e tantos outros, conhecidos ou não. George, que compunha basicamente para burletas e revistas, não imaginava que sua música chegasse tão longe. Aliás, ele mesmo não acreditava que o próprio jazz chegasse tão longe também…

Dos eruditos, a música de Gershin paga tributo a alguns compositores franceses do seu tempo, como Maurice Ravel. O autor do Bolero teria dito, certa feita: “me interessa em seu jazz o seu ritmo, a forma como as melodias são enfeixadas, tenho ouvido o seu trabalho e os acho muito interessantes”.
No entanto, George também acabou por influenciar a música de Ravel: seus dois concertos para piano têm muito da música gershwiniana, a leveza, expressividade, a graça, a suntuosidade de seus esquetes sonoros, ou, como disse Bernstein, “uma série de parágrafos reunidos sob uma camada fina de água e farinha”. Mais do que engenho e arte, George tinha o seu “toque mágico”, e por mais que ele tentasse aprender mais, era demovido por seus parceiros. Ao pedir auxílio a Schonenberg, ele lhe disse: “O máximo que posso fazer é transformar você num péssimo Schonenberg, e você já é um bom Gershwin. Já Ravel, inspirado pelo jazz americano e o estro de seu amigo nova-iorquino, lhe confidenciou: “eu simplesmente não tenho nada que possa lhe ensinar”.

Passados exatos setenta anos de sua morte, a obra e a música de Gershwin estão cada vez mais vivos. Tanto a música dita “séria” ( Porgy & Bess já foi encenada em centenas de países desde o seu lançamento, em 1935) quanto a popular. “Summertime”, “They Can’ t Take That Away From Me”, “I Loves You, Porgy” são clássicos tanto em salas de concerto quanto em emissoras de rádio em todo o mundo. Seus temas ganharam até roupagens nada ortodoxas, como a famosa versão de João Gilberto para “S’ Wonderful”, que transformou um fox-trote em samba. Mesmo sem querer, você pode estar ouvindo Gershwin.

Abra seu coração: