Arte à venda

Sob o Céu Tropical traz obras de artistas brasileiros de renome em mostra comercial

por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)

A exposição Sob o Céu Tropical reúne diversos nomes importantes do Brasil nas artes plásticas. Desde um dos ícones do Modernismo, Tarsila do Amaral, acompanhada de seu contemporâneo Di Cavalcanti, até o famosíssimo Cândido Portinari, passando por Antonio Gomide, Ismael Nery, Cícero Dias. A arte experimental também está representada na coletiva por Flávio de Carvalho e as expressões contemporâneas através de Mira Schendel, Leon Ferrari e Vik Muniz, este último o único artista vivo da exposição, atualmente morando nos Estados Unidos. A exposição vai até o dia 26 de setembro na galeria e escritório de arte James Lisboa e a entrada é gratuita.

O primeiro problema perceptível é o acesso, porque, na verdade, o objetivo da exposição é outro. A galeria é um escritório que vende obras de arte (inclusive as da mostra), e não um espaço para fruição da arte pura e simples. Apesar da entrada ser franca, que pode denotar acesso livre ao público, a galeria fica numa região bastante chique de São Paulo, no entorno da famosa rua Oscar Freire, onde estão as lojas mais caras da cidade, ou seja, um lugar de pouca visitação para quem não tem muito, mas muito dinheiro. O lugar é repleto de toda a pompa e circunstância – e só quem vive em São Paulo para entender o que é a Oscar Freire e quantos dólares circulam pela região. Logo, o público esperado para o local é bem seleto.

Do ponto de vista da organização, a mostra procura ser didática e agrupa os artistas em três segmentos: modernistas (Di Cavalcanti e Tarsila do Amaral) e outro muito próximo deles (Antonio Gomide); pós-modernistas (Ismael Nery, Flávio de Carvalho, Cândido Portinari e Cícero Dias), chamados desta forma pelo site do escritório de arte; e, por último, os contemporâneos Mira Schendel, Leon Ferrari e Vik Muniz. No entanto, essa divisão, indicada e bem feita no site, não existe na prática. Isto é, não há salas ou áreas bem divididas de cada período, muito menos instalações, apenas quadros (bem) dispostos nas paredes.

Apesar de reunir bons nomes e algumas obras até interessantes, a exposição é apenas uma coletânea de diversos artistas brasileiros. Não se propõe a um debate e nem organiza uma montagem que inquiete o espectador. Mesmo entre os artistas consagrados, a quantidade de obras não os coloca em destaque, a não ser quando se fala em Flávio de Carvalho, ícone da exposição, esse sim, bem servido no que tange aos seus trabalhos. Logo no princípio da galeria avisto um corredor, preenchido com suas litogravura sobre artistas como Cacilda Becker (1938) e Mônica Filgueiras (1969), as mais interessantes pelas personagens que trazem representadas. Outros trabalhos mostram alguns estereótipos da identidade brasileira, como peças em guache sobre papel com mulatas dançando ou mesmo o rosto de um índio aquarela sobre papel.

Ainda de Carvalho, o visitante encontra, em uma sala maior, o “New Look” (1956), famoso traje do “Novo homem dos Trópicos”, que evidencia a experimentação do artista. Ao usar tais roupas, ele causou frisson e protestos num período de uma sociedade desacostumada a novidades tão chocantes, mesmo no mundo artístico. Mas, se repararmos bem, até hoje, se alguém saísse na rua com aquela vestimenta, causaria estranhamento em todo mundo. Poderia até ser chamado de louco. Daí a ousadia extremada de Flávio de Carvalho ao produzir tais vestidos.

Em menor número que as peças de Carvalho, estão obras de Cândido Portinari, entre as quais destaco “Cangaceiro” (1956) e “Profeta” (1943), tradicionais peças feita em óleo sobre tela, que têm a alma do pintor dos grandes trabalhos. Vale citar também um curioso desenho feito em grafite sobre papel de nome “Batendo feijão” (1957), com detalhes riquíssimos de homens fazendo esta tarefa braçal. Ali, mais à esquerda, está também o quadro sem título de Antonio Gomide, três versões de uma pintura com muitas mulheres no campo.

Em outra sala há obras importantes, como a singela pintura “Casario com igreja ao fundo”, de Tarsila do Amaral (1947) e “Casal em verde”, de Ismael Nery (sem ano mencionado), peças de Di Cavalcanti que chamam a atenção do visitante, como “Baile Suburbano” (1956), e “Mulata com Ramalhete de Flores” (1936) e quadros de Cícero Dias, como “Rio” (1928), uma pintura simples feita em aquarela e guache sobre papel. Tais obras mais antigas convivem de forma misturada com as contemporâneas “Olga – after Picasso (Pictures of Pigment)” de Vik Muniz (2007), esculturas de metal de Leon Ferrari e “Bar Sabará” (1964) e outras de Mira Schendel.

Exposição “Sob o Céu Tropical”

Até 26 de setembro de 2009

Entrada gratuita de terça a sexta, das 101h às 19h, sábado das 10h às 14h

Local: James Lisboa Escritório de Arte

Endereço: Rua Doutor Melo Alves, 397 – Cerqueira César – São Paulo – SP

Telefone: 0 XX 11 3061-3155

Site: http://www.escritoriodearte.com

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