Não há tecnologia tão nova e que tenha revolucionado a modo de vida de tantas pessoas como a Internet. Desenvolvida nos anos oitenta, mas comercialmente disponível em meados da década de noventa, o acesso em massa à Internet simplesmente se tornou ferramenta indispensável para atividades das mais diversas. Seja para o trabalho ou para a diversão, estar desconectado da rede já equivale a estar excluído de certos nichos sociais ou de discussões e movimentos só realizados por este meio.
O mundo virtual demonstrou ter possibilidades quase que infinitas. Relacionamentos pessoais ou comunicação instantânea em tempo real com qualquer pessoa em qualquer lugar do globo são atividades corriqueiras para quem utiliza a Web. Hoje, fala-se em uma tal de Internet 2.0 e as sucessivas ondas de renovação por vir. Contudo, algo muito mais interessante do que orkut, msn ou congêneres é o movimento de distribuição e compartilhamento de conteúdo cultural de acesso limitado à maioria das pessoas por meio de blogs e páginas na web. Com “acesso limitado” entenda-se a indisponibilidade de bens culturais só acessíveis e consumidos por elites minoritárias, detentora de poder aquisitivo que lhe permite assistir a óperas e adquirir bons livros.
Umberto Eco, em entrevista há alguns anos atrás, mostrava-se admirado com facilidade de acesso a informações antes só disponíveis a poucos. Segundo o professor e escritor italiano, pesquisas que demandavam horas em bibliotecas ou muito dinheiro em livrarias, agora poderiam ser feitas por qualquer um que tenha por perto uma linha telefônica e um computador. Textos filosóficos em latim, dizia ele, podem ser encontrados com facilidade espantosa. Conscientemente ou não Eco tocou em um assunto que talvez fosse o grande foco de todas as suas idéias expostas. Quando citou os textos em latim, intrinsecamente ele colocou a seguinte hipótese: conhecimentos antes inacessíveis ao cidadão médio, estão e estarão ao alcance de um clique.
Cultura não é e nunca foi produto de consumo para todos. Entre as muitas razões para isso é o seu custo. Hoje não se compra um livro de bom conteúdo editorial e bom número de páginas por menos de R$ 40,00, um assalto! Isso implica restrições de público leitor. Por isso, sites, blogs de distribuição, mesmo na beira da ilegalidade (e na verdade o estão), destes conteúdos fazem um trabalho à la Robin Hood, ou seja, são ambiguamente heróicos.
Chegamos a um ponto em que, qualquer um pode ter acesso a certos bens de cultura, mesmo que virtualmente, sem gastar 20% do necessário por meios normais. Em termos práticos isso significa o seguinte: o disco com a gravação da 9ª sinfonia de Beethoven regida pelo Herbert Von Karajan, com custo de aproximadamente 50 ou 60 reais (na sua maioria, edições importadas), pode ser ouvida e arquivada gratuitamente através da web; o último filme do David Lynch – que só será exibido em cinemas de grandes cidades – seja assistido por alguém em um canto qualquer do país. O que é isso? Um crime? Esta é sem dúvida uma questão que continua em discussão. Mas, em nome de todos aquelas pessoas que conseguiram ter acesso a um livro, ou puderam ouvir um disco de jazz sem ter meios para adquiri-los, isto pode ser considerado uma revolução.