Embate Sagrado

O livro Imagens do Sagrado desvenda os bastidores de um conflito envolvendo as primeiras imagens de rituais de iniciação do candomblé baiano

por Luiz Andreghetto (andreghetto@rabisco.com.br)

Nos anos 50, o cineasta francês Henri-Georges Clouzot veio ao Brasil para realizar um filme. Esse filme seria uma homenagem a sua esposa brasileira Vera Amado. Sem ter um roteiro definido, Clouzot viaja por algumas partes do Brasil á procura de uma história. Em Salvador consegue autorização para fotografar um terreiro de candomblé e, mesmo não sendo fotógrafo, tem as suas fotos publicadas na Paris Match, em 1951. Com o título “Les possédées de Bahia”, a revista publicou uma reportagem de cunho preconceituoso e exagerado sobre o candomblé baiano.

Com fotos de forte apelo dramático, as quais enfatizavam a violência e o grotesco da religião afro-brasileira, a revista francesa causou escândalo entre a intelectualidade brasileira do período, que tão bem havia recebido Clouzot. Ferida em seu orgulho de maior publicação brasileira e revoltada com o tom moralista e moralizante da matéria francesa, a revista O Cruzeiro encomenda ao fotografo José de Medeiros uma reportagem que mostre os verdadeiros rituais do candomblé brasileiro e que seja também uma resposta, à altura, para a Paris Match.

Os bastidores de todo esse quiprocó pode ser encontrado no livro Imagens do sagrado: entre Paris Match e O Cruzeiro (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Editora da Unicamp), do escritor e fotógrafo Fernando de Tacca, doutor em antropologia pela Usp e professor livre-docente no Instituto de Artes da Unicamp. Através de muita pesquisa de campo, documentação iconográfica e diversas entrevistas, Tacca traz ao público uma discussão do embate ético-religioso entre antropologia e imagem, utilizando para isso os rituais do candomblé que até então nunca havia sido fotografado. Nesta conversa com a Revista Rabisco, ele fala sobre os bastidores da pesquisa e seus desdobramentos.

Rabisco – O que te atraiu nesse projeto?

Fernando de Tacca – O fato de ter encontrado um fato midiático muito presente ainda no imaginário popular e pouco abordado pelos estudos antropológicos e jornalísticos ou fotojornalísticos.

Rabisco – Como ocorreu seu primeiro contato com essa história que, a princípio, tenha sido tão local (cidade de Salvador)?

Fernando de Tacca - Foi ao ver em 1983 o livro Candomblé, publicado em 1957, com fotos de José Medeiros, pela Editora O Cruzeiro, e perceber que o fotógrafo teve acesso autorizado ao sagrado, fotografando as etapas finais do rito de iniciação, no qual são presentes imagens muito fortes de sacrifícios de animais. Tais imagens foram publicadas inicialmente pela revista O Cruzeiro em setembro de 1951. No ano de 1988, entrevistei José Medeiros em sua casa, e o fotógrafo afirmou elementos interessantes da história, como os boatos sobre o assassinato da mãe de santo (quando pela primeira vez me foi dito o nome dela: Mãe Riso da Plataforma), que depois foi demonstrado que ela faleceu de morte natural na cidade de Nilópolis, no Estado do Rio de Janeiro, em 1995. Contou também que as três iaôs fotografadas (as iniciantes) não foram reconhecidas pelo meio religioso, fato que, posteriormente, também fora demonstrado falso; e que a casa de Riso também não foi derrubada por pessoas revoltadas pela publicação das fotos. Na verdade, a casa foi derrubada por desapropriação para construção de uma avenida. Outro fato interessante é José Medeiros ter dito que o cabo de sincronismo de seu flash se rompeu durante as fotos e ele fotografou utilizando o recurso de colocar a velocidade da câmara em B, significando que poderia deixar aberto o diagrama o tempo necessário para a luz do flash refletir e voltar para a emulsão fotográfica e, como a camarinha era escura, somente a luz do flash foi impressa na película. Medeiros tinha controle total de seus equipamentos e de sua potencialidade ao trabalhar em condições muito diversas.

Rabisco – Como foi a receptividade das pessoas que, direta ou indiretamente, estavam ligadas aos acontecimentos que o livro retrata? E como foi essa receptividade com as pessoas do candomblé?

Fernando de Tacca – O livro mostra, pelos depoimentos das memórias vivas ainda presentes no meio religioso do candomblé e principalmente no bairro da Plataforma, aliada à documentação encontrada na investigação, que a publicação da reportagem da revista Paris Match em maio de 1951 (com fotos do cineasta francês Clouzot) causou uma polêmica muito grande entre intelectuais, jornalistas e pessoas do candomblé, ao ponto da reportagem ter sido traduzida e publicada pelo jornal baiano A Tarde, em julho de 1951. A reportagem da revista O Cruzeiro surgiu como um embate midiático no qual a publicação brasileira queria “bater” a reportagem da revista francesa. Uma carta encontrada em Teresina, enviada por Leão Gudim para José Medeiros no começo de agosto, é elucidativa das intenções da redação, e coloca o planejamento autônomo do fotógrafo José Medeiros em segundo plano, pois ele foi instigado pelos interesses da empresa em se colocar como a “melhor revista brasileira de reportagem”. O que não deixa de ser uma tentativa de emancipação de O Cruzeiro das revistas nas quais se espelhou, a própria Paris Match (também a francesa Vu) e a revista Life. Tal tentativa de emancipação volta no ano de 1961 quando O Cruzeiro envia o fotógrafo Henri Ballot para realizar uma reportagem sobre miséria em Nova Iorque para fazer frente a uma reportagem publicada pela revista Life, também em 1961, com fotos de Gordon Parks, e esse é meu novo projeto de pesquisa, a segunda emancipação de O Cruzeiro.

Rabisco – Durantes as pesquisas e entrevistas teve algum impasse que te desestimulou a continuar? Se afirmativo, o que te fez seguir em frente?

Fernando de Tacca – No encontro com Medeiros em 1988 ele me deu de presente uma das fotos mais emblemáticas do conjunto, publicada na reportagem e no livro, e eu a perdi no caminho da rodoviária do Rio, o que poderia ser um sinal de seguir em frente, mas outros fatores acabaram tornando o envolvimento muito motivador, principalmente pelo fato de muitas informações surgirem no decorrer da pesquisa e as muitas versões dos fatos terem aos poucos mostrado que eram meras especulações, e foram muitas, de jornalistas, de intelectuais e pessoas do meio religioso, que agregavam informações falsas na história. Meu companheiro de viagem, que acompanhou todo meu envolvimento com a pesquisa, Micênio Carlos dos Santos (dedico o livro a ele, in memorian), quando eu perguntava sobre essas questões, ele me dizia: “Você foi escolhido para contar essa história!”. Muitos acontecimentos mágicos como estar em determinado local ou encontrar a casa de Riso em Nilópolis pelo azulejo de São Jorge (momento de grande iluminação emocional e presentificação de Riso durante o percurso) me motivaram a contar essa história.

Rabisco – A história de vida da Riso da Plataforma é muito forte. Ela, de alguma maneira, te inspirou na feitura do livro?

Fernando de Tacca – Quando vi pela primeira vez o livro Candomblé e depois a reportagem da revista O Cruzeiro, me perguntava pelas razões de tal mãe de santo ter sido tão ousada de ter autorizado as fotos e a publicação. Nos depoimentos de sua irmã ficou claro que ela era realmente muito autônoma e com vínculos muito fortes com seu orixá Oxóssi, e o consultou se podia deixar que Medeiros fotografasse. Outros depoimentos mostram que era uma pessoa muito afirmativa e não temia suas decisões e também suas opções. Ao encontrar uma trajetória marcada pela perseguição e pelo descrédito ao qual foi submetida, e ter levado sua vida com dignidade, penso que o livro recupera uma personagem importante de toda essa história, esquecida por todos, menos pelo seu povo, o povo de Riso.

Rabisco – Lançar o livro primeiramente em Salvador foi como você esperava?

Fernando de Tacca – Foi muito importante o pré-lançamento em Salvador, a comunidade mais diretamente atingida pelas reportagens, onde teve muito boa repercussão. Penso que a história ganha agora novos contornos, novos atores, e as falsas versões finalmente caíram em sua condição de muitos desvios intencionais ou não dos fatos. Penso que o mérito do livro está na sua metodologia de pesquisa na qual a documentação ampla, bibliografia específica e depoimentos colocam novas luzes no embate midiático, no qual pessoas como Rizolina Eleotina dos Santos, Mãe Riso da Plataforma, foi esquecida por todos, mas não era ingênua na sua decisão, era plena de suas opções, mas pequena perante a força da mídia.
* As imagens publicadas na entrevista são detalhes das reproduções feitas da matéria da revista O Cruzeiro.


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