Espetáculo da Cegueira

Em um mundo que gira em torno da imagem, o que realmente os olhos enxergam?

por Thiago Vieira (thiago@rabisco.com.br)

No bolso de qualquer calça, mochila ou em esquinas há pelo menos uma câmera, seja fotográfica ou filmadora. É fato. Um simples celular tem tantas opções que, às vezes se pergunta se ele ainda cumpre sua função de realizar chamadas telefônicas. Dentre estas opções está a câmera fotográfica, um mecanismo digital que captura, mesmo que precariamente, as imagens que nos chamam a atenção, os momentos felizes que temos com amigos ou familiares.

Preste atenção, quando estiver em um bar, ou qualquer tipo de reunião em que estejam pelo menos duas pessoas presentes: sempre terá alguém com uma câmera à mão para registrar o encontro (seja com um celular, ou uma simples câmera digital, cada vez menor). Talvez, você pense: – “isso não é novidade alguma!”. E não é mesmo, vivemos em um mundo baseado na imagem fotográfica, fílmica, audiovisual. O que proporcionou esse “fenômeno” é óbvio: a evolução tecnológica. Hoje é mais fácil produzir e divulgar uma imagem que há 50 anos, ou melhor, que há meros dez anos. Uma fotografia, por exemplo, pode ser tirada a partir de uma câmera digital qualquer e, em segundos, ser postada nos diversos recursos que a internet nos proporciona (blogs, twitters, etc).

Mas a grande questão é: com tantas imagens à disposição, com tantas imagens que nos são bombardeadas de todos os lados (publicidade outdoor, televisiva, impressa, banners…), o que realmente conseguimos enxergar? Será que conseguimos mesmo nos prender a uma delas? Quanto, deste turbilhão de imagens, nós podemos afirmar que são vistas, compreendidas, assimiladas?

Faça um exercício: tente se lembrar qual a última imagem que lhe causou alguma sensação, que tenha lhe provocado raiva, ternura, medo ou qualquer outro sentimento. Provavelmente vai se perder em meio uma tempestade de imagens soltas e sem qualquer referência e, na maioria das vezes, que não lhe causam nada. Calma, você não perdeu a memória e nem tem qualquer outro problema neurológico, essa falta de relação entre o que lhe vêm à mente e o sentimentos que elas poderiam causar é algo natural nos dias atuais; é sem dúvida alguma reflexo de uma hiper-exposição de imagens e por imagens.

Este processo é inconsciente e tem sido a causa de grandes discussões entre profissionais da área e quem estuda suas implicações e conseqüências. Essa invasão das imagens em nossas vidas, tomando proporções apocalípticas, já tinha sido apresentada pelo francês Guy Debord, principalmente em sua obra mais famosa A Sociedade do Espetáculo, de 1969, onde anuncia que tudo o que é considerado o melhor para as nações, pessoas e o mundo, não passava de uma mera falácia.

Fundador da Internacional Situacionista – movimento politizado que contestava o sistema capitalista e os pensamentos revolucionários de sua época, dizendo que estes já tinham como base justamente o próprio sistema -, Debord afirmava que a sociedade espetacular faria da imagem uma massa uniforme, causando uma pasteurização que culmina com o esvaziamento de sentido e particularidade, seja qual for o contexto em que se observa o conceito de imagem.

Os políticos, no governo ou na oposição, utilizariam imagens como forma de propaganda de suas teorias até que se parecessem entre si. Assim proclamava Debord, e assim assistimos, 40 anos depois, a todo tipo de propagandas políticas e eleitorais que pouco se diferenciam em suas estratégias de divulgação. Para ele, o “espetáculo” transforma tudo, sem exceção, em produto a ser vendido e assim a uma imagem deve ser apresentada para ser consumida em grande escala e em crescimento vertiginoso. Toda a sociedade estava e está inserida no “espetáculo”.

Atualmente, no cinema pode-se perceber a verdade do espetáculo a cada filme com grandes produções publicitárias e fracas construções de roteiros e imagens, cada vez mais parecidas umas com as outras. A sensação de dejavú é constante e se renova a cada minuto dentro da maioria das salas de projeção cinematográfica. A fotografia, as artes, a mídia sofrem os mesmos efeitos do “espetáculo”; todas as áreas transformaram-se em publicitárias, focadas nas vendas, visando os possíveis lucros.

Tais transformações foram ocorrendo sem que alguém se desse conta, como se fosse uma evolução natural da sociedade, mas enraizada no sistema capitalista “selvagem”, ou o próprio espetáculo, como define Debord. Essas mudanças nos trouxeram a um mundo muito mais que pós-moderno, um mundo hiper-moderno, em que se vive as maiores ambigüidades pessoais que a sociedade já viu.

Os Tempos Hiper-modernos, do filósofo francês Gilles Lipovetsky, é uma obra que atualmente define a vida que levamos. Para ele, a sociedade é uma mistura, ou uma guerra pessoal entre o pensamento coletivo (cada vez mais exigido no ambiente profissional e social, nos impulsionando a pensar num planeta mais limpo para as futuras gerações, em trabalhar em grupo para o bem geral de uma empresa etc.) e o pensamento unitário ou pessoal, uma preocupação exacerbada com o “eu”; o que eu quero, como eu quero, para onde eu vou.

Essa dicotomia dos tempos hiper-modernos, de acordo com o autor, pode ser responsável pelo “aparente” caos social, pois ao mesmo tempo em que somos impulsionados a pensar no coletivo, cada vez mais é propagandeada a concepção de que temos de nos preocupar com nós mesmos; basta analisar a quantidade de produtos fabricados para se cuidar da beleza e como a publicidade coloca a questão como uma obrigação a ser seguida por todos. Parece insano, mas para Lipovetsky o crescente número de problemas psicossomáticos é originário desse conflito em que se tornou a sociedade atual, e uma prova disso para o filósofo é o crescente número de pessoas que procuram ou são levadas a uma assistência psicológica.

Mas afinal, o que a análise de Lipovetsky tem a ver com a questão das imagens? Tudo! Basta nos debruçarmos sobre fenômenos como o Orkut, o Twitter, os blogs, seja por meio de uma fotografia ou por texto, e observarmos que cresce, mais e mais, nesta sociedade o desejo de passarmos uma imagem de nós mesmos ao mundo. Crescem a vontade de nos fazermos conhecidos pelo maior número de pessoas possível, de marcar e comprovar a nossa existência neste espaço e neste tempo, queremos nos perpetuar, pois as imagens que criamos de nós mesmos durarão mais que o nosso próprio corpo. Como diz Charles Sanders Pierce, os signos que criamos duram mais que seus significantes.

Queremos vender a nossa imagem de acordo com a forma que nos enxergamos – ainda que não percebamos o quanto, cada vez mais, nos parecemos uns com os outros -, tornamos a nós mesmos um produto a ser consumido por outras pessoas, sejam elas conhecidas ou não. É o “espetáculo” de Debord em ação.

Para que possamos nos vender, nos mostrar, nos tornar signos nós nos transformamos em imagens e buscamos aquilo que gostaríamos de ser. Assim, somos tomados por essas imagens e acreditamos que as imagens que criamos para nos representar somos nós mesmos, no mundo “real”. Esse processo em que as imagens tornam-se mais importantes que nossa “essência” e porque não dizer nos “devoram”, é chamado de “iconofagia” pelo brasileiro Norval Baitello Junior, em seu livro A Era da Iconofagia.

De acordo com Baitello, o processo de devoração quando damos mais valor à imagem ficcional que construímos de nós mesmos do que à realidade. Esta bola de neve de adoração nos leva a um anestesiamento do olhar, tornando o que vemos uma simples figura sem qualquer importância. As imagens, que sempre foram uma das formas mais eficazes de conhecermos o mundo não atingem mais os nossos olhos como antes. Não temos mais o mesmo impacto diante das fotografias de miséria, guerras, chacinas, destruição por causas naturais etc. O nosso olhar, agora, se volta para outras imagens: as de nós mesmos.

O anestesiamento referido por Baitello pode ser visto em qualquer site de relacionamentos, como o Orkut por exemplo. Veja os “álbuns” de seus amigos e observe como tudo lhe parece familiar; e provavelmente você já viu mesmo, talvez não no mesmo local, nem com a mesma pessoa, mas viu em álbuns de outros amigos e provavelmente até no seu próprio. Essa repetição está clara na pose que garotos e garotas de diversas idades tendem a fazer para um auto-retrato ou abraçados aos amigos e namoradas. Talvez, sem que percebam, estas pessoas estão reproduzindo uma “regra” da fotografia de revistas e celebridades que tanto povoam nossos olhos.

“Quero ficar tão bonita quanto a Juliana Paes”, talvez seja isso que pensa maioria das meninas e até mulheres, consideradas hoje em dia como “público médio”. O querer parecer uma pessoa famosa é mais complexo do que demonstra uma análise rápida e mostra a face de uma sociedade espetacular em que o desejo não está meramente na aparência, mas em tudo que circunda uma pessoa famosa, em especial a notoriedade que esta pessoa ganha na sociedade. Para o filósofo Lipovetsky, o desejo maior é o de tornar-se conhecido, ou melhor, reconhecido nas ruas, bares, restaurantes, no trabalho.

Mas nem sempre se alcança tal desejo e a frustração é descarregada nas fotografias, nas imagens que fazemos de nós mesmos. Que melhor forma de parecermos com a Juliana Paes se não temos a possibilidade sermos fotografados paras as principais revistas de celebridades do país, nem conhecimentos técnicos em fotografia de estúdio? Simples: repetindo poses, caras e bocas. “Quem sabe algum dia algum “olheiro” me acha”, costumam dizer algumas jovens. E isso tem se tornado mais comum do que parece quando vemos em diversas revistas direcionadas para públicos jovens, ou “médios”, dicas sobre como posar para fotos e ficarmos bonitos naquele retângulo, hoje, recheado de pixels, ou como disse uma delas: “é possível aprender a ser fotogênico”.

Usemos outro exemplo: alguém duvida que as fotos sensuais ou mesmo de mulheres nuas em revistas masculinas tenham algum retoque no programa mais conhecido atualmente, o Photoshop, da Adobe? É claro que todas as fotos são retocadas. Rugas, celulites, estrias e outras imperfeições comuns a toda e qualquer mulher são simplesmente retiradas pelo programa, e mesmo sabendo disso, é comum um “espanto” geral quando vem à tona a confirmação. Se todos sabem que nenhuma mulher é perfeita como são representadas nas fotografias de sites e revistas, por que então são feitas interferências mil nestas imagens? Porque não há um questionamento, principalmente do público?

Mais uma vez, podemos partir dos escritos por Debord e Lipovetsky, distantes e ao mesmo tempo tangentes. As revistas são produtos com vistas à venda, de preferência exorbitante, e para atingir este objetivo precisa oferecer algo espetacular. Elas partem do seguinte princípio: porque você compraria uma revista para ver pessoas comuns? O extraordinário sempre foi muito mais interessante aos nossos olhos e, desde bem antes da invenção da fotografia, as sociedades já se maravilhávam com pinturas belíssimas e bem diferentes de uma “realidade”.

Não queremos ser e nem ver pessoas comuns, queremos ser e ver aquilo que acreditamos ser maior ou melhor que nós mesmos. E passamos a cobrar de quem trabalha com imagem dicas de como tornar uma imagem bonita, mesmo que o fotografado não seja assim tão vistoso aos olhos. Isso é quase intrínseco ao ato fotográfico, e visto num mundo espetacular, qualquer imagem é mais bonita que a “realidade”.

Essa característica é muito forte na sociedade contemporânea, o que não significa que gerações anteriores não aceitavam regras semelhantes de representação, pelo contrário, como mostra Gisèle Freund em um livro chamado Fotografia e Sociedade, quando a fotografia tornou-se acessível para boa parte da população, os estúdios eram equipados com roupas e acessórios parecidos com a da nobreza e da burguesia européia. As pessoas pediam para serem fotografadas usando essas roupas. Era o desejo de ser alguém que, para eles, tinha muito mais representatividade social.

O nosso mundo saturado de publicidade vende tudo isso e aceitamos, pois estamos acostumados. Somos hoje, porém, muito mais conscientes de que as imagens podem e são manipuláveis, mas como diz Lipovetsky, não queremos mais ser e ver o comum, queremos o extraordinário, o espetacular. E assim nos anestesiamos incapazes de sair do mesmo círculo vicioso de imagens pasteurizadas e repetidas à exaustão.

Mas o que realmente conseguimos ver? Muito pouco, mesmo que estejamos sempre ligados em todos os meios possíveis de informação visual. O processo de anestesiamento não pode simplesmente ser interrompido, se é que o pode ser. Tal fenômeno talvez possa ser revertido, a partir de reflexões, debates e mudanças de comportamento em várias esferas sociais. Na área de comunicação, os profissionais teriam que repensar suas formas de atuação, redes de televisão teriam que mudar toda a base de seu trabalho, jornais e revistas teriam que transformar drasticamente toda sua editoração.

Se você acha possível transformação tão profunda na sociedade, Debord lhe diria para não se iludir, pois, como ele escreve em seu manifesto: mesmo que você faça diferente, o diferente pode ser transformado em espetáculo. Basta ver imagens de Che Guevara estampando biquinis em coleções de moda. A questão é saber se a sociedade da qual fazemos parte vai contribuir refletindo sobre isso ou apenas bombardeando o mundo com mais imagens que dizem o mesmo, levando o anestesiamento a níveis insuportáveis. Nesse sentido, vale a pena prestar atenção nas teorias de Guy Debord, que na época em que lançou suas idéias foi tratado como um arruaceiro falador, e hoje é aclamado como um gênio incompreendido pelas mesmas pessoas que o rechaçaram.

2 comentários no artigo “Espetáculo da Cegueira”

  1. Claudia disse:

    Thiago
    Maravilhoso texto. Faço Administração e uma das cadeiras que tenho é de Estética. Sabes que o que mais escuto, não só dos alunos atuais como dos que já fizeram a disciplina são termos como ” aula viajante”, “nada a ver”…e o teu texto diz tudo. Estamos todos cegos, ou pior não queremos enxergar. Somos moldados e andamos em fila única. E eu que me acreditava tão diferente, agora sei que meu professor tem razão: somos todos iguais rs…queria tua permissão para levar teu artigo e discutir em sala de aula? É possível?
    Abraços
    Claudia

  2. Ju disse:

    Belíssimo trabalho.
    Muito bem fundamentado, muito bem amarrado.
    Adorei, simplesmente fantástico!

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