Imagine tornar-se íntimo de alguém em uma hora e dez de “convivência”? Assim é o encontro do público com Edward Carr, interpretado por Antonio Fagundes, no espetáculo solo “Restos”, escrito pelo norte-americano Neil LaBute.
São 70 minutos em que o Edward conta a vida ao lado de sua mulher – a quem chama de Mary Jo e define como “o céu na Terra em forma de mulher” – que acaba de falecer devido a um câncer. “É uma linda história de amor”, define o ator. O monólogo acontece em um cenário todo preto, marcado apenas por luzes que acendem imagens ao fundo, de acordo com as histórias contadas.
Com um isqueiro nas mãos, terno preto e descalço, Antonio Fagundes entra em cena iluminando a plateia, que fica na escuridão completa, nos minutos que antecedem o início do espetáculo. Ele acende um cigarro – o primeiro de alguns que são tragados na peça – e começa falando sobre o vício. Aos poucos o cenário vai clareando e a história também se desenvolve.
O texto, muito bem amarrado e interpretado pelo ator, traz à tona discussões sobre temas como família, relação entre uma mulher mais velha e um homem mais novo (Mary Jo era 15 anos mais velha que Edward), dinheiro, questões da vida atual e, naturalmente, sobre a morte.
Mesmo estando sozinho no palco, Fagundes consegue prender a atenção do público e constrói uma relação próxima e intensa com as pessoas, que fixam os olhos nos movimentos e expressões da personagem. Ao passo que ele vai contando sua história, é possível imaginar as cenas de acordo com a narração de Edward, mostrando que o texto é realmente muito bem construído.
“Ter a percepção de que todo o jogo cênico está a sua mão, a direção, o público, o tempo… Tudo isso traz uma responsabilidade única e prazerosa”, admitiu o ator, durante a apresentação da peça aos jornalistas, em agosto.
A história, em nenhum momento, se torna cansativa e termina com uma revelação surpreendente. Com um pouco de atenção, é possível imaginar o fim já no meio da peça. Mas a maioria das pessoas que estiveram no Teatro FAAP, no domingo, dia 6 de setembro, ficou surpresa com o término. “Você tem de dar chaves ao público e não entregar um texto mastigado”, afirmou o ator.
Fagundes foi aplaudido de pé pelo público que lotou o local, em pleno feriado prolongado. A peça segue em cartaz até o dia 29/11, com produção do ator, que trabalha pela primeira vez com o filho, Bruno Fagundes, que é assistente de produção. A direção é de Márcio Aurélio.
Narrativa – Edward Carr é um homem simples, pai devotado e comerciante de sucesso, que vê seu cotidiano destruído com a perda da única mulher da sua vida, com quem se casou após conquistá-la e tirá-la de uma relação convencional.
Juntos, construíram uma rentável empresa de carros restaurados. Afetividade, paixão e sexo permeiam seu depoimento diante da ausência da amada. Um espetáculo passional sobre a natureza da vida e da morte e o que a sociedade aceita em nome do amor.
Neil LaBute – Cineasta e escritor, o norte-americano Neil LaBute obteve reconhecimento por seus personagens muitas vezes cínicos e temas cotidianos e sociais, tratando com autoridade o lado mais obscuro da natureza humana. Originalmente dramaturgo, LaBute se formou pela Universidade de Kansas e Nova Iorque e tomou o teatro como sua grande paixão. Em seus primeiros filmes, trouxe o que era habitual em suas peças teatrais: personagens falando sobre quão maldosos, assustadores, ignorantes, desiludidos e cínicos eram.
Em 2000, LaBute recebeu a Palma de Ouro pela direção do filme “Enfermeira Betty”. Três anos depois, trouxe para os cinemas a adaptação de seu próprio texto “A Forma das Coisas” (2003). Com peças como “Na Companhia de Homens” e “Seus Amigos & Vizinhos” LaBute reflete abertamente o cotidiano das pessoas – não heróis e vilões, apenas pessoas que se comportam muitas vezes de forma pouco tradicional – assim como o protagonista de “Restos”.
Antonio Fagundes – Com mais de quarenta anos de trajetória artística no teatro, TV e cinema, Antonio Fagundes estreou em “Farsa de Cangaceiro com Truco e Padre” (1966). Desde então, foram mais de 40 espetáculos teatrais, 21 novelas, 15 tele-teatros, quatro seriados de televisão e 38 longas metragens – sendo premiado por 39 vezes como melhor ator. Como autor, assinou duas peças de teatro e dez episódios para seriados. No ano passado, dirigiu o espetáculo solo “Aquela Mulher” com Marília Gabriela.
No palco, seus mais recentes trabalhos são: “As Mulheres da Minha Vida” (2005/2006), “Sete Minutos”, com direção de Bibi Ferreira (2002/03) e “Últimas Luas”, direção de Jorge Takla (1999/00/01). Com a Companhia Estável de Repertório, que fundou em 1981, também atuou em “Macbeth”, de William Shakespeare (1992), “Fragmentos de um Discurso Amoroso”, de Roland Barthes (1988) – ambos com direção de Ulysses Cruz; “Nostradamus” (1986) e “Morte Acidental de um Anarquista” (1982), dirigidos por Antonio Abujamra; e ainda “Cyrano de Bergerac”, com direção de Flávio Rangel (1985); e “Xandu Quaresma” (1984), direção de Adriano Stuart.
Com o Projeto Cacilda Becker, esteve no elenco de “Arte Final” e “O Senhor dos Cachorros”, ambas em 1980. Sua trajetória no teatro inclui ainda “Godspell” (1973), “Um Grito de Liberdade” (1972), “Hair” (1969) e trabalhos com o Teatro de Arena, como “A Resistível Ascensão de Arturo Ui” (1970), “Primeira Feira Paulista de Opinião” (1968) e “Arena Contra Tiradentes” (1967), estes sob direção de Augusto Boal.
O ator estava afastado dos palcos há três anos, desde que interpretou o cinqüentão boa pinta George na peça “As Mulheres da Minha Vida”.
Serviço:
RESTOS – Com Antonio Fagundes
Teatro FAAP – Rua Alagoas, nº 903 – Higienópolis, São Paulo, SP
Temporada até 29 de novembro
Horários: Quintas e Sextas, às 21h, Sábados, às 20h, e Domingos, às 18h.
Site: http://www.faap.br/teatro
Bilheteria: Quarta à Sexta, das 14h às 20h, sábado, das 14h às 19h, domingo, das 14h às 17h.
Telefones: 11 – 3662-7233 ou 11 – 3662-7234
Preços: R$ 100,00 / R$ 50 (meia-entrada)