Frankenstein discorre sobre temas que, ainda hoje, mais de 190 anos de sua publicação inicial, continuam sendo pertinentes. A história, fortemente arraigada no nosso imaginário, devido às diversas adaptações feitas pelo cinema, abarca a busca e efetiva concretização de Victor Frankenstein em criar uma nova vida. A analogia proposta, portanto, é que o cientista coloca-se no lugar de Deus, único ser que seria capaz de criar a vida, dar fôlego a formas inanimadas, ou então, trazer alguém do estado de morte. Surgindo um paralelo, no contexto atual, com o avanço da genética e as discussões sobre a clonagem, por exemplo.
Mas deixando de lado seu enredo mais objetivo e palpável, pode-se encontrar no livro, obra da autora inglesa Mary Shelley, que o escreveu com apenas 19 anos, diversos subtextos e subtramas que seriam impossíveis de se esgotar apenas em uma análise ou texto. O próprio título da obra já serve para algumas formulações: Frankenstein é o criador, a sua criação nunca é nomeada, sendo chamada apenas de “criatura” ou “monstro”, mas associamos (devido ao cinema e a vastidão das imagens que acompanham as adaptações do livro¹) o nome Frankenstein mais à criatura do que ao seu criador.
Porém, se Victor é o “pai” da criatura, o “filho” poderia levar seu sobrenome? Em inglês o livro possui um complemento O Prometeu Moderno, mas essa parte nunca é usada no português, preferindo apenas o início do título. Prometeu, na mitologia grega, é o Deus que imbui o homem do poder de criar o fogo, fazendo-os superiores a todas as outras criaturas. É a busca da humanidade pelo conhecimento e sua vontade de compartilhá-lo. Prometeu roubou o fogo dos Deuses e os entregou aos humanos, sendo por isso acorrentado e castigado ao sofrimento eterno no alto de uma montanha.
O apogeu da busca do conhecimento e a realização concretizada dos atos imaginados acarretam o eventual “castigo” desse personagem mitológico, o que pode ser diretamente comparado ao “castigo” sofrido por Victor Frankenstein, que passa de um estudante brilhante a um quase louco à procura da destruição de sua criação. Extremamente afoito pela busca do conhecimento em ciências naturais, com o qual pretende criar outras vidas ou fazer com que vidas perdidas possam ser ressuscitadas, Victor, assim como Prometeu, entrega o “fogo”, isto é, a vida ou a alma, a representantes mais que plenos em uma sociedade que adentrava a era industrial, caso da época em que o livro fora publicado, ou seja, toda a capacidade e o conhecimento das energias aplicadas ao desenvolvimento das indústrias.
A industrialização crescia febrilmente em um momento no qual o humano era descartado em detrimento do maquinário. O ferro e o aço, são as matérias primas que relegam o homem a uma posição de acessório em relação às criações que podem ser feitas através desses materiais. A deformidade da criatura é a deformidade de uma sociedade que cada vez mais sucumbe diante do poder da invenção. Por sua “audácia” – permitir o desenvolvimento e o poder dos humanos –, Victor Frankenstein, acaba sendo punido.
Duas passagens, uma de Frankenstein, de Mary Shelley e outra de Prometeu Acorrentado, de Ésquilo, ilustram bem a percepção pelo erro cometido e os eventuais danos causados a si próprio. Para Victor Frankenstein, o remorso corroia suas veias, “eu errava como um espírito do mal, pois fora o causador de atos de horror indescritível, convencido ainda, de que mais, muito mais, estava por vir. (…) Em vez da paz de consciência que me permitisse olhar com serenidade para o passado, dele colhendo novas esperanças, debatia-me nas garras do remorso, renegando o que fizera, mergulhando num sentimento de culpa, que me arrastava um inferno difícil de ser descrito pela língua humana”.
Para Prometeu o lamento vem com um misto de resignação e complacência diante da inutilidade de lutar contra as forças da fatalidade, as quais Victor Frankenstein luta arduamente. Em cima da montanha, acorrentado e esperando que seu fígado seja devorado por alguma ave – mesmo a sua imortalidade faça com que o órgão devorado seja regenerado logo depois -, Prometeu também se esvai em arrependimentos: “Ó divino éter! Ò sopro alado dos ventos! (…) Eu vos invoco!…Vede que sofrimento recebe um deus dos outros deuses! (…) Eis-me de gemer pelos males presentes e pelos males futuros! Quando virá o termo do meu suplício? Mas…que digo eu? O futuro não tem segredo para mim; nenhuma desgraça imprevista me pode acontecer. (…) Não sei eu, por acaso, que é inútil lutar contra a força da fatalidade? Não posso me calar, nem protestar contra a sorte que me esmaga! Ai de mim! Os benefícios que fiz aos mortais atraíram-me a este rigor. Apoderei-me do fogo, em sua fonte primitiva; ocultei-o no cabo de uma férula, e ele tornou-se para os homens a fonte de todas as artes e um recurso fecundo…Eis o crime para cuja expiação fui acorrentado a este penedo, onde estou exposto a todas as injúrias!”.
O fogo, que simbolicamente significa calor e vida, que é roubado dos Deuses, pois só a eles pertencem, é o que causa a “morte eterna” de Prometeu, da mesma maneira que a criação de uma vida, ato pertencente à esfera divina é o que traz a morte à quase todos que estão em torno de Victor Frankenstein e a si mesmo. A imortalidade, que é uma característica atribuída aos deuses mitológicos, é a grande busca de Victor Frankenstein. Não só a criação de uma vida, mas, mais especificamente, a manutenção dessa vida para sempre é o que impulsiona as pesquisas científicas de Frankenstein.
“Eu seria o primeiro a romper os laços entre a vida e a morte, fazendo jorrar uma nova luz nas trevas do mundo. Seria o criador de uma nova espécie – seres felizes, puros, que iriam dever-me sua existência. Indo mais longe, desde que eu tivesse a faculdade de dar vida à matéria, talvez, com o passar do tempo, me viesse a ser possível (embora esteja agora certo do contrário) restabelecer a vida nos casos em que a morte, no consenso geral, relegasse o corpo à decomposição. Ressurreição! Sim, isso seria nada menos que o poder de ressurreição.”
Victor Frankenstein não pensa em ser imortal, sua imortalidade vem ao entrar para a história como o criador da vida eterna, quer “ressuscitar” pessoas que amava, tudo isso decorrente do fato de tão cedo ter perdido a mãe e é o que faz em uma situação de desespero ao ver Elizabeth, seu grande amor, morta.
A punição para ambos os personagens, Frankenstein e Prometeu, vem da tentativa de se igualar a um poder supremo, hierarquicamente maior do que eles. Existe apenas um criador, e ao homem não é dado o direito e nem o conhecimento para se opor aos seres divinos. Mesmo sendo um semi-deus, Prometeu precisa respeitar os deuses que estão acima da sua força e Frankenstein não pode competir com um deus criador. Toda busca exasperada pelo conhecimento acaba se tornando uma tragédia, pois, como diz o professor Waldman a Frankenstein “(…)Aprenda, se não pelos meus preceitos, pelo menos por meu exemplo, o perigo que representa a assimilação indiscriminada da ciência, e quanto é mais feliz o homem para quem o mundo não vai além do ambiente cotidiano, do que aquele que aspira tornar-se maior do que sua natureza lhe permite.(…)”.
O que, a principio, possa parecer um conselho duvidoso em pleno século XXI, fazendo com o que o homem fique seguro dentro de sua ignorância e apatia (“é mais feliz o homem para quem o mundo não vai além do ambiente cotidiano”), é na voz de Waldman um questionamento quase espiritual: devemos tentar ser maiores que o nosso criador, seja ele Deus, a natureza, o universo, ou aquilo que cada um de nós acreditamos?